CAPÍTULO 2: Nossos anos escolares
Quando eu me mudei para a Inglaterra para estudar arte, eu não pensei que iria me apaixonar, nem que teria o meu coração partido. A desilusão amorosa pode ser muitas coisas, para a maioria das pessoas isso será algo ruim, mas para um artista, isso vai virar parte da sua arte. Mas não vou me adiantar, vou começar por onde tem que ser, o dia em que eu fui visitar o novo anfiteatro.
Meu departamento era de música, mesmo assim, tinha acesso às demais áreas, porque nosso conhecimento não se limitava apenas a aquilo que queríamos seguir, eu acabava tendo uma aula ou outra de outros tipos de arte. Nessa ocasião, no entanto, eu não estava ali para meus estudos, estava apenas curioso. Em quatro meses e meio teríamos algumas apresentações, aconteciam todos os anos e dessa vez elas aconteceriam no novo anfiteatro.
Ao entrar, entretanto, fui recebido com a melodia de um piano, calmo, melancólico, quase doloroso. Fui me aproximando mais até conseguir avistar o rapaz que com total atenção dedicava-se a tocar. Ele o fazia com tanta devoção que sequer notou que eu havia entrado e me sentado na plateia. Para a minha surpresa, se já não bastasse até aqui, ele começou a cantar em um idioma que eu não conhecia. Estava distante o suficiente para não conseguir ver seu rosto direito e eu não sabia identificar o que ele cantava, nada era meramente distinguível.
Era muito comum ter alunos estrangeiros, eu mesmo era um deles, tinha nascido em Los Angeles, na Califórnia e no entanto a minha descendência taiwanesa era evidente; tinha um amigo tailandês, uma colega brasileira e pelos corredores você encontraria alguém com características faciais marcantes suficiente para identificar que não era europeu; por isso não era nada surpreendente que ele cantasse em um idioma diferente, mas estranhamente isso só me deixou mais curioso.
Seja lá o que ele cantava, me trazia certa melancolia, mas não de coisas ruins e sim de quando sentimos faltas de coisas boas que se passaram. Fiquei ali, admirando até o final, quando ele parou e olhou para as teclas como se esperasse por algo. Não sabia o que era, mas não pude deixar de começar a aplaudir.
Acho que nunca vi um asiático abrir tanto os olhos como ele o fez com o quanto sentiu-se surpreso, até levantou e bateu os dedos nas teclas, formando um som desafinado e esquisito, como se não bastasse, a proteção das teclas caiu, batendo em seus dedos.
— Ai, droga! — praguejou, puxando a mão rapidamente.
— Minha nossa, você tá bem? — Atravessei todo o caminho entre as poltronas e o palco do anfiteatro, subindo as escadas até ele. Ele me olhou de forma esquisita enquanto massageava os dedos.
— Meus dedos foram esmagados e considerando que são minha principal ferramenta de trabalho e estudos, não tenho certeza — respondeu, em um inglês muito ruim, mas suficientemente compreensível.
— Eu sinto muito, não queria ter te assustado dessa forma, só queria mostrar o quanto apreciei a música.
— Você ouviu? Hm, tudo? — As bochechas dele começaram a ganhar uma coloração, o que me deixou ainda mais instigado a querer saber sobre o que ele estava cantando.
— Não se preocupe, infelizmente eu nem mesmo reconheço que idioma você estava cantando.
— Coreano. Eu sou coreano.
— Ah, bem, nunca tinha conhecido um coreano, então também nunca tinha ouvido a língua. Aliás, sou Mark Tuan, americano. — O rapaz me olhou de forma um pouco duvidosa. — Americano-taiwanês, se preferir. Mas nunca estive em Taiwan e nasci em Los Angeles.
— Ah, entendi, mas os seus traços não negam suas origens. Eu sou Lim JaeBeom. — Eu estiquei minha mão, mas ele se curvou e ficamos em posições de cumprimento diferentes. Ambos rimos. — Ainda não me acostumei com esses modos diferentes... — Apertou minha mão. — Para você tem sido fácil se adaptar? A Inglaterra é muito diferente da América?
— Provavelmente não tanto quanto a Coreia, mas também não são culturas tão parecidas. Até nosso inglês é diferente e estou vendo que o seu está se moldando ao britânico.
— Sim, a maior parte da minha turma é inglês, então estou aprendendo com eles. Aliás, o que estuda aqui? Eu nunca te vi. — Ele não deixou de olhar para o case em minhas costas.
— Música, pra ser mais exato, estou me aprofundando na guitarra e em composições, e também, provavelmente sou um veterano seu, a quanto tempo está aqui?
— Cheguei há três meses, estou pensando em me especializar em canto e composição também. Você é um hyung então?
— O que é um hyung? — Franzi o cenho tentando pronunciar igual ele. Ele riu, mas explicou:
— Um amigo mais velho, ou um irmão mais velho, é como tratamos na Coreia.
— Oh, então talvez sim? — Não tinha certeza, considerando que JaeBeom era mais alto que eu, além de ter ombros mais largos, ele poderia facilmente ser mais velho. — Tenho vinte anos.
— Vinte anos?! — perguntou, extremamente chocado. — Então sim, você é um hyung, eu tenho dezessete. — Sorriu satisfeito, mas ainda demonstrando surpresa. — Você não parece ser tão velho assim, hyung.
— Eu não sou assim tão velho, são só três anos de diferença! — Cruzei os braços, indignado com a forma como ele me fez parecer velho. — Parece que isso significa algo maior do que eu posso imaginar, essa coisa de hyung... — Olhei desconfiado, ele parecia muito feliz com essa revelação.
— Significa que você tem que cuidar de mim, hyung — explicou, o que me deixou intrigado e surpreso.
— Eu tenho? — Ergui as sobrancelhas, ele assentiu, irredutível. — Está bem... hm, eu tenho que ir, só passei pra olhar o anfiteatro, é novo, sabe.
— Sim, eu soube, por isso também vim, não resisti ao piano.
Eu sorri, que sorte a minha que ele não tenha resistido. Me virei para começar a descer as escadas.
— Ah, você estava errado.
— Hm? Sobre o quê?
— Sobre sua principal ferramenta de trabalho e estudo.
— O que quer dizer? — Me virei antes de descer o último degrau, JaeBeom parecia verdadeiramente confuso, eu apenas sorri antes de concluir:
— Não são suas mãos, são suas cordas vocais. — Acenei uma última vez e terminei de descer, começando a caminhar para a saída.
— Hyung, espero te ver por aí! — disse, animado, quando eu já estava quase fora da sala.
Eu com certeza gostaria de vê-lo mais uma vez.
[...]
A segunda vez que eu encontrei JaeBeom foi em uma aula de composição, nessa ocasião, eu havia me inscrito para ser um monitor e ajudar o professor, por isso, quando entrei na sala, fui apresentado formalmente.
— Pessoal, esse é Mark Tuan, durante esse período ele será o monitor dessa matéria, então se precisarem de algum auxílio, vocês podem procurá-lo — disse o senhor Dixon. — Mark, diga algumas palavras para que lhe conheçam, por favor. — Assenti, antes de começar.
— Bem, como o senhor Dixon já disse, sou Mark Tuan, vim de Los Angeles e esse é meu último ano na academia de artes. — Passei meu olhar por toda a turma e foi quando eu o vi, sorrindo para mim. — Composição sempre foi uma das minhas matérias preferidas e eu costumava brincar que se tudo desse errado ia vender minhas composições na praia. — A turma riu, um pouco mais descontraída, JaeBeom também riu, isso me deixou mais relaxado para continuar: — Essa é a primeira matéria de composição de vocês, algumas outras vão vir durante os anos de curso e essa é provavelmente a que mais tem conteúdo para leitura, mas não se sintam frustrados, posso garantir que depois vão realmente amar esse lado do curso. Vocês vão aprender composição do zero e aperfeiçoar o que já sabem. Eu sou só o monitor e vou estar sempre disponível para ajudar vocês, terei reservado duas horas todos os dias, de 3 horas da tarde até às 5 horas. Mas fiquem cientes que o meu trabalho é auxiliar vocês e não fazer o trabalho de vocês. Dito isto, a aula é toda sua, professor.
— Obrigado, Mark, se quiser ficar e assistir a aula, fique a vontade, se não tiver nenhuma aula agora.
Agradeci e resolvi me sentar junto da turma, eu tinha esse tempo livre hoje, poderia gastar de diversas formas diferentes, mas além de gostar das aulas do professor Dixon, também seria mais fácil alguns dos alunos me procurar assim que a aula fosse finalizada e talvez já marcar alguma consulta, então fiquei. Pensei em me sentar perto de JaeBeom, mas já não tinha cadeira por ali, então fui ao fundo da sala e me sentei. Mal o fiz, meus olhos foram em direção a ele e como se adivinhasse que eu o estaria olhando, ele virou, sorrindo, me pegando no flagra. Ele acenou, parecia feliz que eu tivesse lhe notado em meio toda a turma, então acenei de volta.
Foi uma aula inspiradora, de verdade, não só porque é uma das minhas preferidas, realmente foi muito boa, o professor tinha uma eloquência incrível e sua didática era de fácil compreensão, apesar dessa ser uma matéria bastante introdutória, ele conseguia deixá-la mais leve. Quando, por fim, ele despediu a turma, alguns alunos foram diretamente conversar com ele, enquanto outros vieram até mim, me pedindo o número de celular para contato com a turma, o que eu passei, mas não prometi responder todos de imediato, já que tinha minhas próprias coisas.
Até praticamente todos se dispersarem levou um tempo, mas quando me vi livre, percebi que JaeBeom ainda estava ali, com a mochila nas costas, escorado em uma mesa, mas me olhava e parecia estar esperando sua vez de falar comigo.
— Veja só, hyung, nem demorou tanto para voltarmos a nos ver. — Ele se aproximou. — Você vai estar muito ocupado agora?
Me levantei, enquanto olhava o horário no visor do celular e constatava que tinha apenas quinze minutos antes de me encontrar com alguns amigos para um ensaio.
— Um pouco, tenho ensaio com a banda.
— Ah, você tem uma banda?! — Ele pareceu verdadeiramente entusiasmado com isso.
— Não uma banda oficialmente falando, apenas amigos tocando juntos, durante o internato, temos planos diferentes, então provavelmente cada um vai para o seu lado futuramente, mas por enquanto, sim, somos uma banda.
— Ainda é legal, hyung, eu posso ouvi-los tocar?
— Ah, você provavelmente vai nos ouvir daqui alguns meses, vamos tocar na semana de artes.
— Mas isso ainda vai demorar, hyung! — Ele fez um bico, uma expressão birrenta, eu não via isso com muita frequência, exceto com Ant, um dos meus melhores amigos, o francês era extremamente birrento.
— Bom, você pode pedir por aí pra que algum veterano te mostre uma música nossa, modéstia à parte, somos um pouco famosos pelo campus. — Ri e dei uma piscadela para ele, vendo suas bochechas ficarem um pouco coradas. — Ah, e você sempre pode pedir pra que toquem uma música nossa na rádio do campus, temos um mini álbum amador de cinco músicas, eles tocam às vezes.
— Uau, você é um verdadeiro sunbae.
— Su-sun... o quê?
— Sunbae, um veterano — explicou.
— É claro que sou um veterano, eu já estou quase me formando, esqueceu? — Ri e baguncei seus cabelos, começando a andar para fora da sala ou acabaria me atrasando e eu nunca chegava atrasado, na certa Alec e Ant encheriam minha paciência se o fizesse. JaeBeom veio atrás de mim.
— É que você não parece, quero dizer, você é menor do que eu, e é muito fofo, não parece ter a idade que tem. — Eu tinha parado de andar quando ele disse "fofo", o olhei totalmente descrente, foi a primeira vez que alguém me chamou de fofo.
— Fofo? Ninguém nunca usou essa definição para me descrever.
— Oh, não? Isso não me parece certo, então como geralmente as pessoas te descrevem?
Eu sinceramente pensei sobre isso, dependia muito, quando estava tocando, estando no palco, a maioria delas diriam que sou quente, mas no meu dia a dia, era diferente, alguém totalmente despreocupado, quieto. O que provavelmente JaeBeom não poderia achar porque primeiro ele não me viu tocando e desde que nos conhecemos eu conversei bastante com ele, mais do que com a maioria que eu já conheço há anos.
— Não sei, pergunte por aí. — Dei de ombros e voltei a andar.
— Eu vou perguntar! — Percebi que sua voz ficou para trás, o que significava que ele não estava mais me seguindo. Novamente eu apenas assenti e continuei meu caminho.
Naquele dia, quando cheguei na sala de ensaio, Alec estava arrumando seu baixo, Antoine estava fazendo alguns exercícios vocais, nosso baterista era um rapaz do terceiro ano, nosso antigo baterista se formou primeiro e já tinha ido embora, então entrou esse garoto novato, David, o nome dele. Na ocasião eu era o membro mais velho da banda, também estaria saindo em breve, Alec tinha dezenove anos e se formaria no ano seguinte, já o Ant, ele se formaria junto de Alec, mas ele tinha apenas dezessete anos, isso era porque ele tinha começado na escola de artes desde que era criança, a família dele era toda de artistas e investiram muito pra que ele também fosse um e, felizmente, ele não era nada avesso a essa ideia.
De qualquer forma, David ainda não havia aparecido quando eu cheguei, mesmo que eu tenha chegado quase em cima da hora. Os dois me olharam, e eu rapidamente fui tratar de arrumar minha guitarra para não atrasarmos muito quando o baterista chegasse.
— Hm, você está quase atrasado, aconteceu algo? — Alec questionou.
— Nada, eu só acompanhei a aula do senhor Dixon — respondi.
— Mas essa aula acabou já tem um tempinho, não? — Ant parou de treinar as cordas vocais pra entrar na conversa.
— É, fiquei conversando um pouco com os alunos, muitas dúvidas.
— Ah, claro... — Alec sorriu maliciosamente. Ele sempre insistia que eu chamava bastante atenção entre os calouros, entre os veteranos também, porque um dia eles foram calouros e tiveram uma queda por mim, era o que ele dizia e eu sempre revirava os olhos e mandava ele ir catar coquinho. — Muitas dúvidas nas primeiras semanas de aula...
— Você nem comece, Alec.
— Eu não fiz nada.
— Por isso eu disse pra não começar.
— Mas me diga, nenhuma pessoa bonita ou interessante entre os calouros? — Olhei de soslaio para Antoine, ambos sabíamos que quando Alec começava a perguntar sobre os novatos, é porque ele provavelmente veria se tinha alguém interessante entre eles e provavelmente ele ficaria uma ou duas vezes com quem ele gostasse. Ant odiava isso por um motivo bastante óbvio.
— Acho que ninguém pro seu bico — respondi.
Alec é meu melhor amigo, enquanto Antoine também é meu amigo, mas às vezes acho que ele apenas me suporta, porque ele é apaixonado por Alec e normalmente Alec e eu estamos colados um no outro. Você pode encontrar uma vez ou outra Antoine sendo sarcástico comigo, ou dando respostas grosseiras, mas eu sabia que era só porque ele sentia ciúmes da minha amizade com seu paquera, de certa forma, ele estava certo, Alec e eu já tínhamos ficado algumas vezes. Eu entendi que ele era mais novo e provavelmente não sabia lidar com isso, e pessoalmente, como alguém bastante calmo, conseguia relevar suas ações. No geral, até tentava amenizar as coisas, quando Alec demonstrava ter interesse em outras pessoas, eu sempre tentava desviar o assunto, fazer uma redução de danos, tanto pela banda, quanto pela nossa amizade, quando Alec e eu ficávamos, eu não expunha isso.
— E pro seu? — Franzi o cenho, mas naquele momento, não pude deixar de pensar em JaeBeom e estaria mentindo se dissesse que não me senti atraído.
— Oh, ele está mesmo pensando em alguém?! — Antoine falou, animado.
— Não é nada.
— Não, nem vem, agora nos conte tudo sobre essa pessoa, um em um milhão que te chamou atenção, Mark Tuan. — Alec parecia realmente animado também.
Um em um milhão...
Pensei comigo mesmo, essa frase era muito forte para dizer a alguém que acabei de conhecer.
— Hey, não faça essa cara e nem comece com seu silêncio chato — disse Antoine, cruzando os braços. — Anda logo, desembucha!
— Hm, tem um calouro, não vou dizer o nome dele, vou chamá-lo de... o moreno.
— Não é muita coisa, mas já podemos excluir os loiros, os ruivos, todas as garotas e os garotos de cabelos coloridos. Quantos morenos devem ter na aula do primeiro ano de composição? — Antoine estava contando nos dedos as pessoas que podia excluir, Alec riu enquanto eu fazia uma careta com isso.
— Deve sobrar pelo menos uns vinte — Alec respondeu.
— Vocês dois são grandes idiotas. — David entrou na sala, se desculpando pelo atraso, mas eu francamente agradeci por ele ter chegado de uma vez e encerrado o assunto. — Vamos logo começar o ensaio — falei, dando um basta na conversa.
Antoine e Alec se entreolharam e sorriram, mas deixaram o assunto pra lá nesse momento e focamos no ensaio.
[...]
Nosso terceiro encontro também não demorou a acontecer, apenas uma semana depois, eu estava em horário de monitoria, durante a semana passada inteira recebi mensagens dos alunos, isso sempre acontecia, especialmente no começo das aulas, mas principalmente quando começavam as provas. A monitoria, geralmente não era individual, era coletiva, porque a dúvida de um podia ser de todos, e era obviamente mais fácil pra mim, atender todos de uma vez do que um por vez. Só que durante a primeira semana JaeBeom não apareceu nenhum dia, era muito provável que estivesse com o foco em outra matéria e quem poderia julgá-lo?
Mas, no início da semana em que nos encontramos pela terceira vez, o professor finalmente tinha passado um trabalho e todos eles correram até o monitor para sanar todas as suas dúvidas. Eles usaram cada segundo da monitoria, inclusive o próprio JaeBeom que parecia bastante empenhado em se sair bem no trabalho. Quando o tempo acabou, ainda houveram pedidos e mais pedidos, mas eu tinha compromisso.
— Hyung, você vai ter uma aula agora? — JaeBeom me perguntou.
— Não, eu preciso ir ao centro de Londres.
— Mas hoje é quarta–feira, os alunos não têm permissão para sair em dias de semana, só finais de semana e feriados.
Olhei pra ele com um sorrisinho de lado que perguntava um claro "você acha que isso vai me impedir?". Ele franziu o cenho.
— O que vai fazer em Londres?
— Acho que você não precisa realmente saber disso.
— O quê, você vai fazer algo ilegal? Você não parece esse tipo de pessoa, hyung. — Ri novamente.
— Eu posso estar te enganando, não posso?
— Nah, você é fofo e legal, pessoas como você não fazem coisas ilegais.
— Mas estou saindo sem permissão, não estou? — Coloquei o case nas costas e comecei a sair da sala, ele veio atrás de mim.
— Então é ilegal?
— Você é muito curioso. Eu só vou em uma loja, preciso de cordas novas para minha guitarra, rompi duas cordas ontem.
— Ah... como conseguiu essa proeza?
— Já estavam velhas e digamos que eu estava tocando com... entusiasmo demais. — Não era bem verdade, eu estava justamente tentando compor uma música, tinham notas na minha cabeça, mas elas não pareciam se conectar tão bem, então comecei a ficar irritado e não sou a pessoa mais delicada quando estou irritado.
— Hyung... Eu posso ir com você?
— Na loja?
— Sim... Eu ainda não conheci Londres, praticamente cheguei da Coreia e vim direto para a escola e desde então, tenho passado os finais de semana apenas no campus ou pelo bairro da cidade.. Bem, eu gostaria de conhecer um pouco de Londres.
— Você não tem mais nenhuma aula? — O olhei desconfiado e ele sorriu, negando veementemente. — Está bem, mas não dá pra sair com você vestido assim.
Todos os alunos recebiam um fardamento, a cor condizia com a turma que estavam, assim também dava para identificar quem era menor de idade, o que era o caso dele.
— Por quê? Você também está com o uniforme.
— Eu vou me livrar do meu, é claro, mas você chama muita atenção com o seu, vão saber que você é menor de idade e está fora do campus, os guardas daqui realmente param os alunos e ligam para a direção. Aliás, provavelmente não acontecerá, mas se precisar mostrar a sua identidade, não mostre a carteirinha do campus, mostre apenas o passaporte.
— Você realmente já fez muito disso, não foi?
— Mais vezes do que posso lembrar. Então, se quer mesmo ir, vá no seu dormitório e troque essa roupa, eu vou estar te esperando no estacionamento.
— Essa não é só uma desculpa para me deixar pra trás, não é? — Ele me olhou desconfiado.
— Você tem quinze minutos, e contando. — Olhei o horário no celular, para enfatizar. JaeBeom correu.
Sorri, observando ele correr para o dormitório dos calouros, tinham dois prédios de dormitórios, eu fui para o outro, em um passo bem mais calmo e despreocupado. Dividia o quarto com Alec e ele estava lá, jogado na cama, assistindo alguma coisa no notebook. Primeiro ele me olhou sem muito interesse e voltou sua atenção para o que assistia, mas provavelmente ao perceber que eu estava trocando de roupa chamou sua atenção mais uma vez.
— Você está saindo?
— Uhum, vou a Londres.
— As cordas?
— É.
— Então me espera, eu vou contigo.
— Não vou sozinho. — Terminei de vestir uma camisa diferente e peguei uma jaqueta me virando, Alec tinha sentado e me encarava com um sorriso malicioso. — Por que está me olhando assim?
— Com quem você vai a Londres, Markinhos?
— Se eu disser, você vai encher o meu saco.
— Se não disser, eu também vou encher o seu saco, você sabe disso. — Revirei os olhos.
— Vou com o moreno. — Alec sorriu ainda mais maliciosamente.
— Ah, garotão, é isso aí, não perdeu tempo mesmo, heim.
— Nem comece, ele disse que não tinha conhecido Londres ainda, então me pediu pra ir comigo, não vi problemas nisso.
— Então o moreno ou é do interior, ou estrangeiro. Interessante... Eu quero conhecer ele.
— Não quer nada.
— Quero sim, eu vou descobrir mais cedo ou mais tarde, mas não hoje, hoje vou te deixar ter o seu date com ele. Não desvirtue muito o garoto... Na verdade, você é muito virtuoso pra isso, espero que ele desvirtue você. — Deu de ombros voltando a se deitar.
— Vai se foder. — Voltei a colocar o case nas costas.
— Vê se volta antes de conferirem os quartos.
— Se eu não voltar, conto com você para me cobrir.
Saí do quarto e de lá fui direto para o estacionamento, eu até tenho habilitação e carro, nenhuma vergonha de dizer que minha família rica me apoia e me ajuda, mas não dava pra sair de carro de qualquer forma, porque para abrir os portões do estacionamento ou tinha que ter um cartão, esse que apenas professores e funcionários tinham, ou nos finais de semana e feriados. Mas também, a saída do estacionamento era o mais fácil de burlar, porque tinha uma porta contingente que não era automática, precisava de chave e, bom, fazia alguns anos que tínhamos conseguido ilegalmente uma cópia para cada um da banda.
Quando cheguei no estacionamento, JaeBeom já estava lá, o rapaz estava bem diferente, eu ainda não tinha lhe visto em suas roupas normais, ele estava vestido todo em roupas folgadas, moletom e até uma touca na cabeça. Era fofo e essa definição era estranha, porque rapazes sempre me atraíram, mas eu nunca os vi como fofos, geralmente estava atraído por rapazes maiores que eu, como JaeBeom realmente o é, mas mais másculos, ou talvez com mais atitude em vir direto ao ponto do que quer comigo, no caso de JaeBeom, acho que ele só não tinha o mesmo interesse que eu via nele.
— Ah, eu já estava achando que você tinha ido sem mim. — Olhei no celular.
— Quinze minutos, como eu falei. Agora vamos. — Indiquei que me seguisse.
— Como vamos sair? Vamos pular o muro como nos filmes? — perguntou animado.
— Eu poderia te ver fazendo isso, mas sou um bom... hyuni?
— Hyung — corrigiu, rindo.
— Isso daí, sou um bom hyung e não vou deixar você passar por esse perrengue, eu tenho a chave do portão.
— Nossa, como você conseguiu isso?
Chegamos ao portão, ficava ao lado de uma cabine que antigamente tinha um porteiro, quando a entrada não era eletrônica e não tinham um cartão, precisando que os professores e demais funcionários sempre se identificassem, agora, com a nova tecnologia, a cabine não tinha mais um porteiro, portanto era muito fácil sair pela portinha.
— Hm, na verdade, foi o nosso antigo baterista, era nosso veterano, ele conseguiu e não me pergunte como, todos acabamos tirando uma cópia, inicialmente só saíamos de noite, para tocar escondido em algum lugar, depois começamos a sair cada um pra suas coisas pessoais, a nossa única regra é não emprestarmos a chave pra ninguém e se formos pegos, não entregar os outros.
— Eu estava errado quando disse que você não fazia coisas ilegais... — Ele me olhou duvidoso e eu ri, abrindo o portão, ambos passamos e eu voltei a fechar.
— Mas você está saindo comigo, mesmo sabendo que isso é ilegal, então você não está muito longe.
— Você está me levando para o caminho errado, hyung.
— Bem, ainda estamos na entrada, você pode voltar se quiser.
Rapidamente, JaeBeom segurou na minha mão.
— Para que lado? — Ri novamente, apontando com a mão livre, então ele me puxou, como se soubesse para onde íamos e estivesse me guiando.
Ele não soltou a minha mão, mesmo depois que eu o segui, era um pouco estranho, nunca tinha saído de mãos dadas com ninguém, nem com garotas e menos ainda com garotos, mas para ele não parecia ser nada demais. Assim como ele era mais alto, sua mão também era maior que a minha, era mais fria e em contraste com a minha mão mais quente, sentia um leve choque, ou um formigar, era estranho.
Mas o mais estranho de estar com JaeBeom, é que eu não era uma pessoa que pensava muito nessas coisas, nas sensações que sentia quando estava com outras pessoas, embora eu não tivesse o mesmo histórico de Alec e de Ant, não era nada inocente e sem experiências, já tinha ficado por ficar, dormido por dormir, apaixonado, tido relacionamentos e até términos tranquilos e conturbados, mas no geral, eu não me concentrava nessas coisas.
— Por que você está guiando? Você agora sabe o caminho para Londres? — perguntei, bem humorado, ele parou de andar e me olhou.
— Não, não faço ideia de onde estamos indo. — Também riu. — Como vamos chegar em Londres?
— A forma mais rápida, de metrô. Vem, é por aqui.
Fizemos o caminho em silêncio, a escola de artes não ficava na capital, mas também era apenas a cidade vizinha e de metrô dava para chegar rapidamente, então fomos direto para a estação, o que não era muito longe.
— Estão nos olhando, hyung, será que estão desconfiando que somos alunos?
— Não acho que seja isso... Pra começar, somos visivelmente estrangeiros e depois, você está segurando a minha mão, se não percebeu, eles não devem ver coisas assim com frequência.
JaeBeom olhou para nossas mãos unidas, uma expressão confusa, como se genuinamente ele não entendesse por que para outras pessoas isso poderia ser uma coisa diferente, e para mim, não sabia nada sobre a cultura coreana com a qual ele cresceu.
— Não entendi.
— Suponho que em todos os lugares do mundo, andar de mãos dadas seja coisa de casal? — sugeri.
— Oh, é isso? — Ele riu, mas continuou segurando. — Bem, na Coreia, garotos andam com garotos e garotas com garotas, e é muito comum você encontrar os amigos sendo afetuosos uns com os outros, mãos dadas, carinho... Isso não significa que somos um casal.
De alguma forma, isso soou muito como um banho de água fria, é claro que eu não estava sugerindo isso, mas também me fez sentir que existia uma enorme barreira entre JaeBeom e eu chamada cultura e costumes diferentes. Claro que, uma vez que eu estudo em uma escola de artes que recebe todo tipo de pessoa de países diferentes, eu já fiquei com pessoas de diferentes culturas, o próprio Alec que é inglês e não americano, mas nunca tinha ficado com um oriental e mesmo conhecendo um pouco da cultura onde meus pais nasceram, ter nascido nos Estados Unidos e crescido entre a América e a Inglaterra, me fazia ter uma longa distância da realidade da cultura asiática.
— Como você tem se adaptado, JaeBeom?
— Ah, não tem sido muito fácil, pra ser sincero. Há muitas coisas diferentes, a gente acha que vai saber lidar, mas é difícil até mesmo falar.
— Você melhorou bastante nessas semanas — elogiei.
— Obrigado, estou estudando horas extras.
— Isso é bom, você pretende ficar aqui na Inglaterra ou apenas o tempo do curso?
— Só o tempo do curso, eu sei que vou sentir saudade de casa, minha mãe e meu padrasto, além disso, já tem sido difícil morar aqui para estudar, ter uma carreira não seria nada fácil, acho que será mais fácil me adaptar à indústria coreana.
— Você quer ser um cantor?
— Um produtor, se eu quisesse ser cantor, provavelmente não estaria aqui.
— Como assim?
— Bem, a maioria dos artistas na Coreia não vão para universidades de artes, eles fazem audições e são treinados dentro das agências que pretendem trabalhar se conseguem passar na audição. Além disso, não tem apenas aula de canto e composição e produção não são os tópicos principais, geralmente os trainees só começam a estudar isso quando já debutaram. Na maior parte do tempo estão estudando dança, canto, relações de mídia, como se comportar em diversas situações, em programas de variedade, em eventos, essas coisas.
— Uau, nossa, isso é realmente... diferente... Eu acho que desistiria na parte de dançar, já vi que essa indústria não é para mim. — Ele riu.
— Eu danço, na verdade, eu fiquei em uma empresa dessas, entrei com quinze anos e saí quando decidi que queria fazer o curso de artes, eu amo cantar, mas eu gostaria de cantar as minhas próprias músicas.
— Bem, acho que você pode conciliar as duas coisas, sinceramente, se você quiser mesmo cantar, não deveria desistir porque sua indústria é diferente. Aqui a indústria é difícil de outras maneiras, basicamente você tem que fazer tudo sozinho, se virar, conseguir investidores, produtores que se interessem, se submeter a diversas coisas. É por isso que muitas bandas começam em suas garagens.
— As famosas bandas de garagens que vemos em filmes ocidentais? — JaeBeom sorriu animado.
— Exatamente, tem disso aos montes na minha cidade, parece o berço dessa vida.
— Você já esteve em Hollywood?
— Ah, não, ainda não tive essa oportunidade.
— Um passeio em Hollywood parece divertido, vamos fazer isso um dia, hyung.
Sorri, nem assentindo e nem negando. Apenas o puxei para dentro do metrô.
Eu lembro de várias coisas desse dia, de como fomos para a loja de instrumentos primeiro, eu comprei minhas cordas e peguei JaeBeom entretido com os discos de vinil de alguns artistas britânicos, de termos discutido sobre gêneros de música. Depois nós saímos da loja e passeamos pelas ruas movimentadas, comemos em um café, ouvimos um homem cantando e tocando na praça por algum dinheiro. Foi um dia diferente e atípico, mas eu pude conhecer um pouco mais de JaeBeom.
[...]
Os dias e as semanas foram se passando, rapidamente transformaram-se em meses e JaeBeom e eu fomos ficando mais próximos, bem como a temporada do festival artístico. Estava me dividindo entre meus estudos, já que era o último ano, os ensaios da banda, monitoria e o tempo que passava de boa vontade com Lim.
— A boa notícia é que o garoto parece gente boa, a má notícia é que nosso Mark foi fisgado. — Alec deu tapinhas nas minhas costas.
— Não enche, eu não fui fisgado.
— Ah, foi sim, você se recusou a me beijar ontem quando eu deitei com você — disse Antoine.
— Agradeça por eu não ter te empurrado da cama e deixado você dormir ali.
— Sobre isso, quando eu cheguei vi vocês dois abraçados dormindo, o que estava fazendo no nosso quarto? — Alec franziu o cenho, eu não olhei pra Ant, sabia que ele iria contar qualquer mentira.
— Estávamos compondo e eu fiquei com preguiça de voltar pro meu quarto... que horas você chegou? — Como sempre, nada sútil.
— Sei lá, umas três da madrugada?
Às vezes eu não sabia se Alec era mesmo tão lerdo ou se ele fingia. Era óbvio que Antoine estava com ciúmes. Ele apareceu no quarto já chateado porque viu que um colega tinha postado uma foto com Alec, estavam em algum bar ou coisa parecida, então ele sabia que meu melhor amigo estava de caso com alguém naquela sexta-feira. Ele basicamente chegou pra reclamar, chorar e depois tentar afogar as mágoas em mim, me beijando ou até mais que isso. Já tínhamos feito isso antes, uma única vez, parte de mim acha que é porque ele queria saber porque Alec ficava comigo as vezes, outra parte achava que Antoine era só uma pessoa muito confusa que misturava todos os seus sentimentos por todo mundo.
— É, já estávamos dormindo mesmo... você curtiu a noite?
— Foi legal. — Alec deu de ombros.
— Enfim, ensaio? — chamei. — Tem uma música que eu escrevi, estou quase terminando, mas acho que vocês poderiam me ajudar a finalizá-la, tentem me acompanhar.
Entreguei a eles folhas com a letra e notas, ambos pegaram e deram uma olhada. Não era um rock, era uma balada, porém eu ainda queria transformá-la em algo mais consistente, não estava pronta.
— É uma música romântica... — Antoine constatou. — Você não escreve muitas músicas românticas.
— E depois ele ainda tenta nos contradizer, insinuando que não está apaixonado. — Alec riu.
— Não encham meu saco. Enfim, queria cantar ela no festival, estava faltando uma música, não é?
— Ah, sim, temos oportunidade de tocar cinco, eu ia cantar quatro e Alec uma... você não gosta de ser vocalista, Mark... — Antoine apontou.
— Não é como se eu fosse ser o vocalista em tempo integral, é só uma música, você canta três, Alec uma e eu uma também
— Por mim tudo bem. — Ant deu de ombros.
— Então é melhor começarmos a trabalhar nela, tem muita coisa pra fazermos, ela nem está pronta. — Alec deixou o papel no suporte e começou a dedilhar as notas de introdução no baixo.
Não queria realmente admitir para meus amigos que estava apaixonado, mas sabia que estava caminhando nessa direção, a música era pra JaeBeom, era sobre ele e eu queria cantar para ele. Tudo em relação a ele tinha sido diferente de qualquer outra pessoa, desde as sensações, minha vontade de estar perto, de levar ele em lugares diferentes sempre que íamos escondido para Londres, como era bom ouvir ele cantando, como ficava encantado com o sorriso dele e com a forma apaixonada com a qual ele falava de seu país e de sua família. JaeBeom era uma pessoa apaixonante e eu não me sentia errado em estar apaixonado por ele.
Mas foi nesse mesmo dia que algo aconteceu, foi a primeira vez que eu vi Park JinYoung. Depois do ensaio da banda, eu fui para o anfiteatro, JaeBeom tinha me dito que iria tentar ensaiar ali. Assim que entrei, não foi nenhuma surpresa encontrar Jae sentado, dedilhando com perfeição as teclas do piano, porém, não era ele quem estava cantando. Havia no palco, um outro rapaz, com um inglês britânico tão perfeito que eu poderia dizer que ele era britânico de nascença, se não fosse por suas características faciais claramente asiáticas.
Observei os dois, uma combinação perfeita porque a voz do garoto era assombrosamente linda, combinava muito bem com a peça que cantava. Sim, era uma peça, eu podia vagamente reconhecer isso. A música não era uma das que eu tinha ouvido JaeBeom ensaiar para o festival, era obviamente uma música teatral, de um musical, bastante animada e combinava com a atuação do rapaz no palco que não apenas cantava, como ensaiava por completo.
— Hey, você! Isso daqui é um ensaio particular, eu reservei o anfiteatro. — Olhei surpreso, era comigo que ele estava falando, eu tinha ficado tão distraído com JaeBeom tocando pra ele que nem o notei me notando.
— Ah, JinYoung-ah, esse é meu hyung, eu o chamei, desculpe não ter avisado — JaeBeom explicou-se rápido.
O garoto estreitou os olhos na minha direção com desconfiança, do que ele estava desconfiando, eu não sabia.
— Ah, então você é o hyung que fica levando meu hyung pra fazer coisas erradas por aí.
— Não sei nada sobre isso... — Fingi não saber do que ele estava falando. — Eu achei que você estaria ensaiando sua música, JaeBeom — mudei de assunto.
— Iria, mas JinYoung precisava repassar a peça, o dia da apresentação está chegando.
— Isso não é para o festival, não é? — Tirei o case das costas e me sentei em uma das cadeiras mais próximas ao palco.
— Não, essa é uma peça de apresentação do semestre da minha turma — respondeu JinYoung. — Eu vou cantar essa música, mas ainda não está bom.
— Eu achei muito bom... — Dei de ombros, mas ele pareceu ofendido com minhas palavras.
— Muito bom não é suficiente, precisa ficar perfeito!
— JinYoung-Ah é um chato perfeccionista — zombou JaeBeom, mas eu percebi, pelo tom de voz e risada, que eles não eram duas pessoas que se conheciam há pouco tempo.
— Suponho que você seja da turma de teatro, como se conheceram?
— Eu faço teatro e música — explicou, mas não parecia com muita vontade. — Nos conhecemos... — Ele olhou pra JaeBeom e ali eu vi perfeitamente um vislumbre do meu próprio olhar. — Há alguns meses.
— Vocês parecem próximos, pareciam se conhecer há mais tempo...
— Estamos dividindo o dormitório, e também, ter alguém pra falar no mesmo idioma, é um alívio — respondeu JaeBeom.
— Seu inglês é muito bom, está aqui há muito tempo?
— Um ano e meio — JinYoung respondeu.
— Uau, isso é impressionante, moro aqui há quatro anos, mas nunca me adaptei totalmente a esse inglês.
— Você não deve ter se esforçado tanto assim — retrucou. Franzi o cenho, qual era o problema dele?
— É, não me esforcei mesmo, gosto do meu inglês.
Ele deu de ombros.
— Bom, você vai ficar? Então acho que vou indo.
— Não precisa ir porque estou aqui, eu não vou atrapalhar.
— Tenho outras coisas pra fazer, não é por sua causa. — Ele se aproximou de JaeBeom, pareceu falar algo mais baixo pra ele, eu não fui capaz de ouvir, apenas vi Jae assentindo antes que o outro beijasse sua bochecha. — Nos vemos mais tarde.
Ele pegou a mochila, guardando uns papéis antes de começar a descer as escadas. Trocamos um olhar rápido antes dele passar direto e sair. Voltei a olhar para JaeBeom e foi ali que eu vi pela primeira vez que eu estava arruinado. JaeBeom ainda olhava para a saída, olhando de uma forma que não olhava para mim, ele tinha um brilho diferente, também era o mesmo olhar que o meu para ele. Isso foi como uma facada no peito.
— Seu amigo parece que não gosta de mim — falei, voltando a ganhar sua atenção.
— Oh, não, não, JinYoungie não deve ter nada contra você, ele só está estressado com essa apresentação, os ensaios, você sabe, é muito importante pra ele, ele tem muitas expectativas.
— Hm, e você, vai ensaiar?
— Sim, com certeza, venha, suba aqui, hyung, tenho a minha música pronta, finalmente.
— Sério? Vou poder finalmente ouvi-lo?
— Vai, mas não completa, senta aqui, vou tocar pra você.
— Por que não completa?
— Porque não vai ter graça nenhuma no dia do festival se você já tiver ouvido aqui. Você também não me deixou ir no ensaio da banda.
— Okay, você tem um bom ponto.
— Eu sei, agora escute...
Novamente, ele começou a tocar as notas do piano, uma melodia que eu já tinha ouvido porque estive nos ensaios que ele estava tentando compor a música. Eu gostava do que ouvia e estava ansioso pra saber com que letra ele havia encaixado.
"Eu já me apaixonei pelo seu cheiro
Não posso mais voltar atrás, meu coração chama por você
Você é a única coisa que continua surgindo em minha mente
Eu acho que fui envenenado por pensamentos sobre você"
Ouvir JaeBeom cantando me trouxe uma angústia sem fim, cada nota já não parecia mais tão doce, cada palavra parecia cortante. Eu podia sentir mesmo ali, enquanto ele cantava pra mim, que não era sobre mim.
"Me balance incontrolavelmente
Me faça esquecer a hora
Me prenda em sua respiração
Eu espero que você diga sim, diga sim, diga sim
Me diga que não há ninguém além de mim
Você vai me dizer que me quer?
Espero que diga sim, diga sim, diga sim
Irei até você, pra o lugar mais próximo"
Era duro ouvir isso e encarar a realidade, mas o que eu podia fazer? Ele cantava com um sorriso animado, às vezes olhava pra mim como se esperasse a minha aprovação, mas não era um olhar apaixonado, não era um olhar de alguém que estava tentando se confessar, se revelando.
"Eu quero tudo de você, te desejo
Sem deixar nada de fora, te desejo
Estou sempre pensando em você
Sempre pensando em você
1 minuto, 1 segundo, sempre pensando em você"
Tocou mais algumas notas antes de finalizar a primeira parte da música, mas continuei perdido mesmo quando ele parou, seu olhar de expectativa era quase infantil e eu não sabia exatamente o que ele queria que eu dissesse.
— E-está muito bom, JaeBeom... — Hesitei um pouco, o que pareceu diminuir um pouco a expressão de confiança dele. — Quero dizer, realmente, está realmente muito bom! E nossa, é a sua primeira composição desde que chegou, isso é muito bom. — Ele pareceu voltar a se animar e me senti um pouco menos pior. Não importava que não fosse sobre mim, eu gostaria de apoiá-lo.
— Não é uma música pra ser tocada no piano, ela tem batida, eu acho que vou transformá-la em um R&B, sabe?! Mas eu gosto do piano e sei que você também, por isso toquei assim, agora eu tenho que começar a harmonizar ela e incluir todo o instrumental, mas acho que ela tem potencial, não tem?
— Está brincando comigo? Potencial é pouco, você está compondo uma música muito boa, acho que com batida vai combinar com a letra, ela tem um toque de sensualidade que não combina tanto com o piano, realmente, mas se ficou assim agora, mal posso esperar para ver quando você finalizar.
Eu não podia deixar de apoiá-lo, acho que isso era mais do que uma paixão unilateral que eu tinha, gostava de ver ele feliz, gostaria de poder dar apoio e ser alguém que no futuro ele lembraria como alguém que mesmo não estando mais na sua vida, ele poderia dizer: esse hyung me apoiou desde os meus primeiros passos.
Foi assim que eu me vi incluso na história de JaeBeom, nada mais do que isso. Se todos nós somos protagonistas da nossa história e personagens secundários ou figurantes da história de outras pessoas, eu me vi como alguém passageiro nos primeiros capítulos do livro de JaeBeom, alguém que não apareceria no restante da história, mas que foi importante pro desenrolar do enredo que ele levaria.
Naquele mesmo dia, quando entrei em meu quarto, estava cego por uma desilusão amorosa, eu larguei o case em cima da cama e fui até minha escrivaninha, rasgando todos os rascunhos daquela música que tinha escrito para ele.
— Ei, ei, o que você está fazendo? Enlouqueceu de vez? — Alec se aproximou, puxando os papéis de minhas mãos, embora já estivessem rasgados.
— É lixo, jogue todos fora.
— O que está acontecendo, cara? — Seu olhar de preocupação me fez me sentir lamentável, eu não sabia que estava tão apaixonado a ponto de me sentir tão mal.
— Não importa, é uma música tola pra uma pessoa que não me vê da mesma forma.
— O que está dizendo? — Olhou para os papéis, lendo o que estava escrito. — Essa é sua música nova... Mark, você escreveu isso pro moreno? — Não respondi, apenas fui pra cama, tirando o case e me joguei, fechando os olhos. — Você se declarou pra ele e ele te deu um fora? — Talvez em outro momento Alec dissesse isso com um tom de brincadeira, pronto para me zoar, mas o fato de seu tom de voz ser sério, me fazia sentir ainda mais lamentável.
— Não, eu não cheguei a esse nível de humilhação, mas ele gosta de outra pessoa e escreveu uma música pra essa outra pessoa e também vai cantar pra ele no festival. Não vou me prestar ao papel de idiota de cantar isso pra ele quando ele vai estar cantando pra outra pessoa.
Senti a cama afundar ao meu lado e um toque carinhoso em meu cabelo, cafuné, uma das coisas que eu mais amava e Alec sabia bem disso, estava tentando me acalmar. Abri os olhos, meu amigo tinha um olhar triste, isso me deixava chateado, mas não suficiente pra brigar com ele.
— Seu primeiro coração partido, quem diria... — brincou, sorrindo ainda tristemente, ele brincava no passado dizendo que nunca me veria de coração partido, porque eu nunca demonstrava meus sentimentos com facilidade. — Mas Mark, essa música, não importa se você não está sendo correspondido, quem é você pra impedir que uma música incrível nasça?
Eu o olhei com incredulidade, mas ele tinha um sorriso perspicaz.
— Eu te disse isso...
— Sim, você disse, então agora você vai ter que arcar com seu próprio argumento. Na minha humilde opinião, alguém que tem uma música como essa, é um idiota se não consegue enxergar como você se sente e como você o vê.
— Ele não é um idiota, ele... não é obrigado a sentir o mesmo por mim, eu sou apenas burro de me apaixonar por alguém como ele.
— Alguém como ele?
— Alguém incrível demais pra alguém como... AI! — Alec simplesmente estapeou minha cabeça.
— Você não ouse usar a palavra "eu", ou eu vou espancar você. Qual é, desde quando você é esse tipo de pessoa que se sente menos do que qualquer outro? Tá bom, ele pode ser incrível e os caralho a quatro, mas você também é. Essas coisas acontecem, não comece a se diminuir.
— Hm... — Não estava afim de continuar discutindo isso, apenas dei de ombros. — De qualquer forma, está tudo rasgado agora.
— Nem tudo, você me deu uma cópia e uma ao Antoine, você não vai se livrar dessa música, além disso, Antoine já saiu espalhando que você vai cantar no festival, seria uma lástima para seus fãs que você não cantasse.
Revirei os olhos, eles sempre diziam que eu deveria cantar mais vezes, e me incentivavam porque todos sabíamos que a banda não era pra sempre, e eu seria o próximo a ir embora. Eles achavam que eu deveria ser vocalista da minha própria banda, mas eu não me via sendo um vocalista, gostava de ser guitarrista e fazer a voz de apoio, pra mim toda a banda era importante, não só aquele que cantava, embora fosse a posição de maior destaque e a ambição da maioria das pessoas, comigo não era assim, minhas ambições estavam em lugares diferentes.
[...]
— Está nervoso? — perguntei a JaeBeom, nos bastidores do anfiteatro, estava lotado de pessoas, várias delas fazendo maquiagem e arrumando sua vestimenta, tinha todo tipo de apresentação, dança, canto, show de improviso, e até exposição de artes, embora não fosse no anfiteatro.
JaeBeom já estava arrumado, não era nada extravagante, seu cabelo estava penteado para trás com gel segurando um topete charmoso e sensual, usava uma roupa social que eu soube que ele pegou nos figurinos do pessoal de teatro, era na cor vermelha, então dava mesmo uma impressão sensual e quente, algo que eu nunca tinha visto ele usar, mas combinava demais.
— Um pouco — respondeu, passando as mãos pela calça, enxugando o suor, provavelmente. — Você vai assistir daqui ou na platéia?
— Eu guardei um lugar na frente pra poder assistir.
— Isso é bom, se eu encontrar o hyung, acho que vai ser mais fácil, vou me sentir menos nervoso.
— Você... já cantou pra ele? — Não consegui me conter, eu gostaria de saber. Ele pareceu confuso.
— Ele quem?
— A pessoa pra quem você escreveu. — Eu não tinha coragem de dizer o nome daquele rapaz.
— Como você sabe que eu escrevi para alguém? Não pode ser uma música aleatória?
— Também sou compositor, JaeBeom, eu sei que nunca é aleatório. — Ele fez uma expressão desgostosa.
— Não vou responder isso.
— Acho que isso responde de qualquer forma. — Sorri pequeno. — Vou estar na platéia, boa sorte.
Saí do camarim, eu não queria pensar muito, sabia que se pensasse demais iria me sentir mais lixo do que já estava sentindo. Sentei na platéia, a atração antes de JaeBeom era uma dupla de garotas brasileiras, algo que chamavam de dupla sertaneja e eu não entendia nada do idioma, mas mesmo se entendesse, não estava prestando atenção, a mente muito pesada, despertando apenas quando o apresentador chamou seu nome, tinham palmas de celebração por todo o lado antes de tudo ficar silencioso e segundos depois uma batida, acompanhada da figura tão bela do rapaz que estava me deixando louco.
JaeBeom parecia outra pessoa, tão etéreo, uma aura cheia de sensualidade, uma persona que eu não conhecia ainda, mas que começou não só a despertar minha paixão como também desejo. Era um novo sentimento, e era péssimo, porque quanto mais eu cultivasse coisas por ele, pior seria. A música se aprofundava na sensualidade e seu olhar caiu sobre mim, ele sorriu de lado, confiança, ele disse que sentiria mais confiança olhando pra mim, era isso, parecia que ele estava tentando me seduzir, não sabendo que já tinha conseguido. Mas ele não ficou olhando apenas para mim, parece que depois de estar carregado com sua confiança ele pôde soltar-se mais, ser mais atrevido.
Eu fiquei ali até o fim, engessado demais para me levantar e sair. JaeBeom era mau para o meu coração.
— Hey, vamos, vão dar uma pausa de dez minutos pra arrumarmos os instrumentos no palco. — Alec me puxou, eu nem tinha percebido que as cortinas tinham sido fechadas.
Voltamos para os bastidores e eu implorei para não conseguir encontrá-lo, que ele tivesse descido e ido para a platéia, qualquer lugar, porque não saberia o que fazer caso o encontrasse. E de fato não o encontrei. Armamos rapidamente os equipamentos e ficamos atrás das cortinas, esperando a pausa acabar.
— Com vocês First Beat! — anunciou o apresentador, antes das cortinas abrirem.
As palmas estouraram, juntos com assobios e alguns gritos animados, David bateu as baquetas três vezes, anunciando a contagem de batidas antes de começar a tocar a bateria e eu segui com a introdução da guitarra. A cortina começou a abrir, Alec já acompanhava com o contrabaixo e Ant estava no centro, com sua pose de rockstar, segurando o pedestal do microfone. A gritaria aumentou, mas não ofuscava o som instrumental e logo que a música começou a ser cantada, o público acompanhou.
Nossa primeira música foi uma já conhecida pelo público da academia, era a mais escutada e tocava com frequência na rádio do campus, sendo assim, as pessoas conseguiam acompanhar sem problemas, muitos eram realmente nossos fãs. Mas depois dela Ant apresentou uma nova composição sua e depois outra, então quando chegou na quarta música ele deixou seu lugar no centro, pegando o baixo de Alec e o inglês tomou seu lugar. As pessoas vibraram, todo mundo adorava Alec e sua voz era mais doce que a de todos os membros da banda, então quando ele cantava, era sempre uma música mais melodiosa, fosse romântica ou uma música triste, ele conseguia fazer com que as pessoas derramassem o seu coração enquanto o ouviam cantar.
Quando a música terminou, e ele pegou de volta o seu baixo, Ant pegou uma segunda guitarra, e eu tomei o seu lugar no centro. Era realmente uma raridade que eu estivesse como vocalista, no nosso último cd eu não tinha nenhum solo, mas não tinha vergonha e não me sentia nervoso com o público, mas estava nervoso, porque mesmo que eu não conseguisse ter encontrado JaeBeom ainda, eu sabia que ele estava por ali.
— Essa é a nossa última música hoje — falei no microfone, sorrindo, especialmente com as reações das pessoas, expressando que queriam mais. — Me disseram que estavam ansiosos pra que uma música minha estivesse inclusa dessa vez, eu espero que vocês curtam essa música.
Comecei a tocar as primeiras notas e os outros me acompanharam.
"Todas essas pessoas
Tão surreal
Você já os viu?
Eu estou sonhando?
Tenho procurado
Para minha pessoa
Através das cortinas"
Percebi que do centro do palco era mais fácil ver as pessoas do que do meu antigo lugar. Comecei a passar os olhos pelo público, era idiotice da minha parte, sabia que o encontrar deixaria as coisas piores para mim, mas era inevitável, se eu só teria essa chance de dizer a ele, então eu queria que ele soubesse.
"Mas então você entrou pela porta
Meu ego subiu
Eu não poderia ignorar como você está me fazendo sentir
Agora estou partindo com você
Diga-me, eu estou sonhando?
Você me dá uma razão para sair da cama"
Ele não estava entre as pessoas das primeiras fileiras, era frustrante não conseguir encontrá-lo, talvez ele não estivesse ali. Era a entrada do primeiro refrão e eu não estava cantando olhando em seus olhos como esperei fazer, então fechei os meus.
"Há apenas um em um milhão
Apenas um
Oh, eu sou um?
Oh, eu estive na área desde que você apareceu
Apenas um
Você sabe que é o único em um milhão"
Foi isso que senti desde o início, quando Alec insinuou que ele era um em um milhão, era verdade, era dessa forma que ele me fez sentir, como se todas as outras pessoas sumissem do mundo, como alguém que atrai os meus olhos. Então eu os abri novamente, fixo nessa conclusão, todas as outras pessoas que estavam ali, eu queria estar cego para todos eles, e meus olhos chegaram onde precisavam estar. Bem ao centro, com um sorriso encantador. Ali estava JaeBeom.
"Sim
E eu sei mais ainda
Você mantém minha cabeça erguida
Me sinto bem melhor contigo
Quero ficar pra sempre com você
Quando estou em Nevada, sinto sua falta
Quando estou em Los Angeles
Tenho que passar pelo vale
Eu fui para MIA em Miami
Tentando pegar um pouco de pão para minha mãe
Estou perdendo a conta, é demais
Manteve minha visão sobre nós
Segure meu amor por você"
Eu não conseguia desviar mais os olhos dele, como uma atração ininterrupta, como ímã, eu queria que ele conseguisse entender isso como eu entendia, gostaria que ele sentisse como eu me sentia. Era tão real pra mim, mas eu não podia ver realmente sua expressão por causa da distância e da luz que estava sobre mim e a platéia tão escura.
"Mas então você entrou pela porta
Meu ego subiu
Eu não poderia ignorar como você está me fazendo sentir
Agora estou partindo com você
Me diga que eu estou sonhando
Você me dá uma razão para sair da cama
Há apenas um em um milhão
Apenas um
Oh, eu sou um?
Oh, eu estive na área desde que você apareceu
Apenas um
Você sabe que é o único em um milhão"
De repente, a bolha que eu senti que estava apenas entre nós dois foi estourada. Ele virou o rosto, desviando de mim para a pessoa ao seu lado, JinYoung. Eu queria sua atenção de volta, mas ao invés disso ele parecia focado no que o outro rapaz tinha a dizer, JinYoung aproximou o rosto de seu ouvido e deveria estar falando algo, eu queria sua atenção de volta, a sensação de perder sua atenção enquanto eu estava me declarando pareceu que me deixaria sem ar.
"Você é o único, você é o único
Você é o único, em um milhão
Você é o único, você é o único
Você é o único, em um milhão"
Repeti como um mantra, queria que ele entendesse, mas foi o fim, bem ali, enquanto dizia que não havia mais ninguém, que JinYoung o beijou. Aquele momento pareceu passar em câmera lenta, pareceu que eu estava assistindo a um filme de terceiros, como se a minha música na verdade, ao invés de estar me declarando, estava declarando o amor de um casal a parte. Eu não era o protagonista da história, eu era a trilha sonora da história deles dois.
"Há apenas um em um milhão
Apenas um
Oh, eu sou um?
Oh, eu estive na área desde que você apareceu
Apenas um
Você sabe que é o único em um milhão
Você sabe que é o único em um milhão"
Quando as últimas notas foram dedilhadas, eu não olhava mais para eles, tudo parecia tão escuro como de fato estava. Os holofotes ainda estavam em mim, mas todo o resto parecia escuro. As pessoas gritavam animadas, aplaudiam e tudo que eu desejei foram as cortinas fechadas. Quando elas se fecharam, eu não consegui me mover, não consegui sair dali até ser despertado pelo toque em meu ombro.
Vi os olhos de Alec, confuso, porque ele provavelmente não viu o mesmo que eu ou talvez porque lágrimas grossas começaram a escorrer pelo meu rosto.
— Mark... — Sua voz falhou.
Eu apenas puxei o cabo do amplificador e saí dali o mais rápido possível, deixando todos eles para trás. Existe um branco em minha memória, eu não tenho certeza do que fiz depois disso, provavelmente devo ter ido de volta para o dormitório, eu não gostava de beber naquela época então duvido muito que tenha feito algo semelhante. Acho que apenas fui dormir, tentar esquecer.
No outro dia não fui para o segundo dia de festival, não respondi mensagem de ninguém no celular e não quis conversar com Alec e nem com Antoine. Finalmente eu podia entender um pouco como Ant se sentia quando via Alec com outras pessoas.
E assim, quando a segunda-feira chegou e eu tinha que parar de ser deprimente, quando não pude mais fingir que a vida não precisava ser vivida, eu finalmente saí do quarto e fui para minhas aulas. Sabia que não podia fugir, não tinha como. Quando entrei na sala de monitoria, ali estava JaeBeom e era o único aluno.
— Hyung! Você está bem? Não te encontrei nem no sábado e nem no domingo, você não estava nem recebendo mensagens. — Ele parecia mesmo preocupado, mas isso só me fazia sentir pior.
— Estou bem, só queria um tempo sozinho.
— Aconteceu alguma coisa? — Sua pergunta soou tão injusta, eu queria jogar na cara dele que ele aconteceu, que por causa dele eu me sentia de coração partido, me sentia idiota.
— Aconteceu sim. — Suspirei, deixando o case no chão, encostado em uma cadeira. — Eu queria responsabilizar você por isso, mas também não consigo, eu sei que sentimentos não são controlados, da mesma forma que eu não pude me controlar e não me apaixonar, você não tem culpa por não sentir o mesmo.
Ver os seus olhos se arregalando com a mais sincera surpresa quase me fez rir, eu me sentia tão óbvio, que era também surpreendente que ele nunca tivesse percebido. Ele abriu a boca, mas eu não queria ouvir suas desculpas, não ainda, então me adiantei:
— E aquela música, eu escrevi para você, porque era como eu me sentia, e não importava que você não fosse retribuir, eu queria que você soubesse.
— Hyung, e-eu sinto muito, mas... — Ri soprado, realmente não queria ouvir desculpas, me sentia ainda mais miserável.
— Eu sei, eu vi você e ele, os vi se beijando durante a música — era amargo dizer isso, parecia ser mais um soco na minha cara. — E também sei que aquela música era pra ele. Eu não preciso que você se desculpe, eu não vim te cobrar nada, não vim cobrar que sinta o mesmo que eu, não quero que se sinta obrigado a nada, nem mesmo com pena de mim. — Já bastava a pena que eu mesmo sentia.
O olhar de JaeBeom era tão triste, no entanto, que eu sabia que tinha estragado toda a nossa amizade confessando tudo agora.
— Hyung... não sei o que dizer, eu... agora... naquele dia, JinYoung-ah me pediu em namoro e eu... aceitei... não sabia sobre os seus sentimentos, eu... — Ele parecia em conflito, me fazia sentir egoísta, mas um pouco melhor por não ser o único se sentindo mal, embora por motivos tão distintos.
— Está bem, JaeBeom, como eu disse, não espero que você sinta-se obrigado a nada.
— Não estou, eu apenas queria ter tido a chance de saber antes, agora eu... — Ele franziu o cenho, olhando para baixo, parecia estar refletindo em algo. — Hyung, nós podemos...
— Deixe isso. Não seria a primeira vez que eu receberia um fora — o cortei, sorrindo, tentando recuperar um pouco da minha dignidade. Ele voltou a olhar pra mim e lentamente assentiu.
— Ainda seremos amigos, não é? Você sabe que eu gosto muito de você, hyung, não quero que nossa amizade acabe.
— Claro que seremos amigos... agora se você não veio para monitoria, acho que vou usar esse horário para outra coisa. — Peguei o case. — Até depois, JaeBeom. — Sorri, acenando. Não olhei para trás.
E foi o nosso último encontro, porque eu fui dali direto para a direção da academia e pedi pra puxarem o meu diploma. Faltavam apenas algumas semanas de aula, as provas seriam finalizadas durante o decorrer delas e eu sabia que tinha nota suficiente para ser aprovado. Como um estudante estrangeiro, consegui pedir um adiantamento das minhas provas, todas para um mesmo dia, mesmo sabendo que ficaria sobrecarregado. Depois mandei mensagem no grupo de monitoria, dizendo que eles poderiam me mandar suas dúvidas por mensagem no grupo e eu responderia todas e os ajudaria como pudesse, mas que nossos encontros presenciais não aconteceriam mais.
Eu estava fugindo, mesmo que de qualquer forma eu fosse me formar em duas semanas, estive em dúvida por muito tempo se ficaria na Inglaterra ou se voltaria para Los Angeles, isso só me fez tomar a decisão que eu estava retardando em tomar.
— Você é um idiota, sabia? — Alec falou, me abraçando no aeroporto.
— Eu sei, você me diz isso todos os dias pelo menos duas vezes.
— É pra não perder o hábito e você não esquecer, porque você é mesmo idiota.
— Ei, não vá começar a chorar. — Belisquei sua cintura e ele se afastou, me dando um tapa no braço.
— Você não vale minhas lágrimas. — Enxugou o rosto e eu ri. — Vou sentir sua falta, droga, você era parte dos meus dias há anos, isso vai ser uma droga sem você.
— Também vou sentir sua falta, então vá me visitar nas férias, vou te levar na casa de praia da minha família em Malibu, você está precisando de uma cor.
— Vou visitá-lo...
— Sai pra lá, deixa eu me despedir também. — Ant se aproximou, empurrando Alec e me abraçou. — Ele tem razão, você é idiota. E vai me convidar pra Malibu também.
— Não mais que você. — Retribuí seu abraço. — E claro que você está convidado, não é como se você não fosse de qualquer forma — zombei.
— Vê se não faz besteira por lá.
— Você tá tentando me dar conselhos do que não fazer?
— Claro.
— E que tipo de besteiras seriam?
— Qualquer coisa que eu faria.
— Uh, uma longa lista de besteiras então. — Ele riu, assentindo. — Ei — o segurei antes que ele se afastasse e sussurrei em seu ouvido: — se eu sou idiota por estar indo embora, você precisa parar de ser idiota por ficar.
Ele me olhou intrigado, mas ele sabia do que eu estava falando. Fez uma expressão brava e me soltou. Naquela época eu não sabia, mas Ant e eu éramos mais parecidos do que eu imaginava, a diferença é que ele continuou apaixonado pela mesma pessoa durante muitos anos, mas teve coragem de manter essa pessoa perto de si. Eu, por outro lado, continuei apaixonado pela mesma pessoa, mas fui embora.
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