a criação
You'll believe God is a woman
And I, I feel it after midnight
A feelin' that you can't fight
My one, it lingers when we're done
You'll believe God is a woman
God is a woman | Ariana Grande
Desperte-se!
Fechei os olhos com muita força, mas da mesma forma, ainda vi claridade, tão intensa quando deixar a cabeça virada para o sol e enxergar o tom avermelhado de nossas pálpebras. Me vi flutuando por algo macio como as nuvens nas quais estive com Morpheus em meus melhores momentos. Como lençóis, pareciam deslizar suavemente pela minha pele em uma carícia sem sentido certo.
As palavras do Criador martelavam em minha mente como mel escorrendo pelas paredes. Tudo parecia grudento, cheio e confuso. O futuro da humanidade me aguardava... Que diabos ele quis dizer com aquilo? Mas apesar de tudo parecer um novelo de lã jogado a um gato, algumas peças começaram a fazer sentido em minha mente.
Sempre acreditei que o mundo precisava de um equilíbrio. Poderia ser um Deus, deuses ou a energia do próprio universo, mas pensava na importância de tudo estar alinhado para que os ciclos pudessem se repetir, vida, morte, sonhos e desejos... Eu acreditava no valor da vida. Buscava vivê-la em cada momento, aproveitar cada pequeno detalhe, prestar atenção aos momentos.
Abri os olhos e meu coração disparou como um cavalo indomado correndo em um campo aberto. Seus olhos azuis gélidos brilhavam em minha direção como da primeira vez que nos vimos. Queria correr para abraçar Morpheus, que parecia tão apático e nervoso com as mãos apertando-se ao lado do corpo, diferente de tudo o que ele sempre fazia. Seu cabelo escuro continuava em uma confusão de ordem dos fios, mas com a mesma intensidade de um breu.
– Olá, meus filhos – disse o Criador, ao meu lado.
– Zoe! – Morpheus chamou meu nome com necessidade, mas o Criador levantou um dedo, como se o proibisse de se aproximar.
– Morpheus... – sussurrei seu nome.
O Criador havia tomado outra forma a qual eu poderia entender, representada pela por um homem branco com estatura mediana, com cabelos cheios e cacheados com barba grisalha e nariz arqueado. Ele usava um terno cinza risca-giz e óculos que pareciam de grau com armação quadrada. Seus olhos, agora castanhos, ainda possuíam a íris brilhante em branco que mostravam sua importância. Sua postura e sorriso mostravam total confiança e ele emanava poder da mesma forma.
Todas as pessoas em volta da mesa se curvaram em uma reverência. Então, depois de não conseguir desviar meu olhar de Morpheus, entendi que ali estavam todos os irmãos do Rei dos Sonhos, os perpétuos. Reconheci Morte ao longe e vi que ela sorriu para mim, mas os outros eu não fazia ideia de quem poderiam ser, apesar de ter alguma indicação, como uma loura de sorriso travesso e desejoso que claramente poderia ser Desejo e uma saltitante de olhos loucos que chutaria ser Delírio.
– Há quanto tempo, pai – o homem de manto soou com sua voz grossa na direção do Criador.
– Bem, Morpheus, acho que seu probleminha já acabou, achou o amor da sua vida, podemos ir embora – Desejo sussurrou para o Rei dos Sonhos e dos Pesadelos, mas em um tom que todos ouviram.
– Eu vou matar você – Morpheus rebateu entredentes.
– Ora, ora, ora... Não sentiam falta de um encontro de família? – o Criador riu e foi até a mesa, separando uma cadeira na ponta e sentando-se nela, ficando entre Morpheus e Desejo.
– Não acho que seja necessário – um ser rechonchudo e asqueroso que estava perto de Desejo comentou. – Temos um mundo para guiar.
– Por favor, eu sei como é criar e gerir um mundo... Mas precisamos ter tempo para a família também. Vocês se lembram do último universo em que brigamos... Nunca dá certo – disse o Criador.
– O que o Senhor está aprontando dessa vez, papai? – Desejo o questionou com a voz melosa e sedutora.
– Primeiro, quero que todos se sentem... – retrucou ele e com um movimento de mão, todos estavam sentados firmemente contra suas cadeiras.
Eu continuava em pé no mesmo lugar em que estava, travada. Mas não fiquei assim por muito tempo, pois o Criador arrastou a fileira de cadeiras do lado de Morpheus e, do nada, surgiu uma nova cadeira.
– Sente-se conosco, Zoe – disse o Criador, mas claramente soou como uma ordem, portanto, foi o que eu fiz.
Tremendo e com o coração a mil, me sentei na cadeira ao lado de Morpheus e do Criador na ponta da mesa, ficando de frente com Desejo que parecia querer arrancar minha cabeça fora. Tudo parecia estar em um silêncio extremamente constrangedor, mas senti a mão de Morpheus por baixo da mesa pousar em meu colo, entrelaçando em meus dedos. Quentes, me apertavam como se eu fosse tudo para ele. Sua expressão não parecia dizer tal coisa, mas no momento em que seus olhos se encontraram com os meus de tão perto, não pude deixar de observar quanto sentimento havia por trás daquela máscara.
– Vamos aproveitar para nos banquetear e beber um pouco – o Criador continuou, balançando as mãos de forma divertida enquanto a mesa ia se preenchendo de pratos e copos, com comidas douradas e brilhantes.
– Ambrosia e néctar dos deuses! – a mulher ao lado de Morte comentou. Até ela parecia feliz com os brindes que enchiam nas taças.
– A banana está fresca o suficiente para o rubi estilhaçar em mil agulhas de crochê – uma mulher baixinha de olhos loucos começou a resmungar, gargalhando em seguida.
Os perpétuos começaram a comer e beber, menos Morpheus, que não me largava por nenhuma razão. Eu pessoalmente, estava zonza, não conseguia nem pensar em colocar algo na boca, pois sentia meu estômago revirar com a possibilidade. Estava com medo do jeito que as coisas estavam caminhando.
– Zoe. Gostaria que você experimentasse um pouco desta comida e bebida – o Criador olhou para mim e falou baixinho.
– Não. Se ela não for imortal, morrerá – Morpheus me interceptou no momento em que peguei a taça, ressabiada.
– Desde quando tem medo de sua irmã, Morpheus? – o pai questionou ao filho com uma pitada de curiosidade.
– Não posso arriscar isso, não assim, não enquanto você não disser o que quer conosco – Morpheus rebateu com cuidado. O Criador parecia estar se divertindo muito com a situação, coisa que eu claramente não estava.
– Não foi você quem disse que ela era uma perpétua, Morpheus? Vamos lá, a deixe provar a comida dos deuses! – Desejo disse com desdém em nossa frente. Senti um frio na barriga novamente.
Peguei a taça novamente e observei o líquido dourado como ouro derretido balançar. Se eu não for imortal, morrerei, mas se eu for imortal, o que isso significaria?
– Beba, Zoe, não há problema – o Criador me disse, com uma piscadinha. Ele parecia convicto de suas informações e apesar o olhar temeroso de Morpheus, não queria desrespeitar ninguém naquele momento.
– Mil unicórnios com chifres dourados fazem uma carroça, mas se o limão não estiver fresco não dá unha encravada – a louca continuava a falar as coisas sem nexo. Constatei que ela só poderia ser Delírio, com certeza.
O sabor da bebida era adocicado, mas azedinho, como mel e limão, mas mil vezes melhor. Não fazia a menor ideia do que era aquilo, mas com certeza era melhor do que qualquer outra coisa que eu já havia provado em toda a minha vida. Era como se meu corpo tivesse revigorado, todo o mal estar foi embora e uma leveza me inundou.
– É muito bom – falei uma frase inteira desde que cheguei ali.
– Não lhe disse? – o Criador sorriu. Morpheus pareceu respirar novamente.
Então, o senhor de todos se levantou e pigarreou, como se estivesse pronto para um discurso.
– Acho que todos até aqui já entenderam do que este encontro se trata. Sim, minha convidada da noite é uma perpétua, mas diferente do que imaginam, ela não é irmã de vocês – o Criador se levantou e começou a falar. Todos estavam no mais profundo silêncio enquanto ele falava. – Eu sei que é diferente do que qualquer coisa que já aconteceu, imagino que nem mesmo Destino havia previsto tal coisa, pois só havia uma pessoa com conhecimento de tal: eu.
O homem com o capuz marrom parecia em choque no final da mesa. Com uma corrente no pulso conectada a um gigantesco livro, ele parecia querer folheá-lo para descobrir algo. Sua surpresa era clara com essa informação.
– Como isso pode ter acontecido, pai? – Destino perguntou. – Como eu não vi isso?
– Por que eu não permiti, meu filho – disse o Pai de Todos. – Afinal, há eras, esperava que isso acontecesse e finalmente chegamos a este dia.
– Do que está falando, senhor? – Morte o questionou.
– Autodesenvolvimento – o Criador falou simplesmente. – Permitir que um universo avalie suas próprias necessidades e crie o equilíbrio que precisa para seguir com sucesso. Zoe é a primeira perpétua que foi criada, não nasceu assim.
– Eu o quê? – fiz uma pergunta retórica que expressava minha surpresa.
– O seu universo a fez porque acredita no seu potencial para com este mundo. Você é a Vida, seu nome já lhe diz isso – o Criador falou comigo neste momento.
– O mundo finalmente girou e girou como eu disse que ia girar! – Delírio começou a rodopiar em volta da mesa.
– Aqui, temos o meu mundo dos sonhos, temos a Morte, o Desejo, a Destruição, o Destino, o Desespero, o Delírio... Mas todos nós perpétuos observamos o quanto os humanos desperdiçam seu tempo na Terra quando são apenas carregados por pesos estúpidos – Morpheus começou a refletir. – Falamos de sua mediocridade, do seu passado, presente e futuro, de suas guerras e sua conectividade estúpida ao trabalho e a tecnologia, mas principalmente, como os humanos vem perdendo cada vez mais sua humanidade. Se esta é uma necessidade deste universo, vejo que você estará aqui, querida Zoe, como alguém que foi humana, a trazer a Vida ao foco, ao equilíbrio.
– Como não puder ver isso antes? – Destino resmungou novamente.
Até Desejo agora parecia mais calada. Com os lábios cerrados, ela me encarava como se não tivesse certeza do que esperar. Mas quem sou eu para julgá-la, afinal nem eu sei o que esperar de mim.
– Tenho certeza que podemos ajudá-la inicialmente em sua função, entendendo mais sobre seus poderes e a guiando nesse mundo imortal – Morte se levantou, falando em minha direção como uma amiga. Senti alívio depois de ouvir tantas coisas que eu deveria ser ou fazer.
Tanto poder. Tanta responsabilidade. Como eu poderia guiar um mundo para um futuro como esse? Jamais conseguiria ter certeza, afinal, perpétuos como eles foram feitos assim, nasceram assim e sabiam como agir desde sempre. Porém, se o meu futuro era ajudar a humanidade a se recuperar, seria isso que eu faria. Se pudesse estar ao lado de Morpheus, faria qualquer coisa.
– Quando lhe disse que o futuro lhe aguarda, não estava brincando, criança. Não será fácil, mas tenho certeza que se sairá bem – o Criador deu uma piscadinha com um sorriso travesso e desapareceu em um brilho forte como o qual chegou.
Oi pessoal, Ayla aqui! Peço desculpas pela demora. Estou passando por uma crise e travo para continuar essa história, mas quero terminá-la. Já que cheguei até aqui kk Se estão gostando, me falem, ou então, me contem um caminho que vocês gostariam que a história seguisse.
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