ᴄᴀᴘíᴛᴜʟᴏ 14

Stars shining bright above you

Night breezes seem to whisper "I love you"

Birds singing in the sycamore tree

Dream a little dream of me

Dream A Little Dream Of Me | Doris Day

Morpheus soube, no momento em que os olhos de Zoe brilharam tão intensamente quanto sóis, tão claros como ouro líquido, que ela era uma perpétua. Ou pelo menos, viu um poder tão grande quanto aquele que era seu. A força e o poder que emanavam dela surgiam contrários à tudo o que ele já viu em sua irmã, Morte, mas a conclusão não poderia ser outra. Pelo menos, é o que ele achava.

Foi então, que ele percebeu que "Zoe", tão estupidamente claro quanto seu nome, era o significado da Vida. É claro que o Senhor dos Sonhos havia conhecido a deusa original na Grécia, responsável pela vitalidade, que possuía o mesmo nome. Mas ficava claro como aquela conexão feliz representava seu poder.

Morpheus não acreditava que ela poderia ser a deusa, mas se tivesse uma oportunidade, diria que era uma reencarnação ou algo parecido. Pois o poder, tão parecido, era vívido, mas muito mais forte do que ele já viu no mundo daqueles que estão despertos, lutando em suas próprias trajetórias, traçando caminhos junto ao Destino, ao Desejo, ao Delírio e a todos os outros perpétuos.

Depois de uma noite de prazeres intensos, completamente perdido em seus sentimentos apaixonados, agora o Senhor dos Sonhos se via pensativo. O amor entre os perpétuos e mortais sempre fora além da curva da desgraça. Quando tocados pelo Desejo, atrocidades sem fim poderiam surgir. Nada, a rainha do primeiro dos reinos, sofreu tanto pelo desejo que Morpheus sentiu. Seu reino desapareceu, sendo completamente destruído, por negar o próprio Rei dos Sonhos.

Ele se arrependeu disso amargamente por décadas e mais décadas. Enfrentou o inferno para buscá-la e pedir seu perdão, que não foi concedido pela mulher que ele tanto amou.

Seus sentimentos, sempre tão reprimidos, tornavam-se descontrolados em pouco tempo e nada poderia apavorá-lo tanto quanto perder Zoe também. Entre as nuvens, abraçado à sua pele quente e macia e seu perfume de lavanda e baunilha, ele não queria soltá-la nunca mais. E talvez, seu maior problema fosse entender agora a natureza de sua amada.

As carícias suaves de seus dedos finos sob a pele fina e suave de Zoe eram inebriantes. Sua respiração, controlada e leve, finalizava na curva de seu pescoço. Parecia tão perfeito. Duas peças se encaixando, duas pessoas entrelaçadas, os corações batendo no mesmo ritmo agradável. No entanto, o Rei dos Sonhos e dos Pesadelos sabia que precisava sair.

– Preciso resolver algumas coisas – disse Morpheus, um pouco entristecido, envolvendo a moça com os braços finos e musculosos. 

– Ah, sério? Não se vá... – respondeu ela, fazendo uma expressão de Gato de Botas, com os olhos brilhando como galáxias.

– Eu sinto muito, mas juro que nos veremos em breve – o Rei dos Sonhos disse, dando-lhe um beijo suave em seus lábios, segurando seu rosto com delicadeza, firmando sua promessa.

E então, ele se foi, voando como a poeira por entre os ventos do Sonhar, deixando Zoe em dúvida sobre aquilo. Ela parecia reluzir de tanta felicidade e não havia outra sensação em seu peito além de um aperto preocupado quando se foi.

Morpheus entrou em sua sala, o sobretudo escuro cobrindo suas vestimentas de sempre e foi até um dos quadros que recentemente havia usado.

– Morte, minha querida irmã, eu lhe convoco – disse ele segurando a cruz egípcia novamente.

Seus pensamentos estavam confusos, perdidos, apaixonados e tão loucos que ele tinha medo de fazer algo que pudesse destruir os sonhos que ali habitavam. Ele precisava de ajuda e não havia ninguém em quem ele podia tanto confiar quanto a própria Morte. Que surgiu logo em seguida, sorrindo como sempre.

– Morpheus, acho que nunca nos falamos tanto no milênio quanto nos últimos dias, meu irmãozinho – disse ela, brincando.

– Sinto muito, irmã – respondeu ele. – Mas não vejo outra alternativa a não ser chamar você. Não... confio em mais ninguém.

– Não sinta. Eu fico feliz quando nos falamos. Mas conte-me, o que aconteceu? – perguntou ela, com a preocupação aparente em sua expressão.

– Zoe pode ser uma perpétua – disse ele, afirmando a conversa anterior. – Como você pareceu dar a entender.

– O que ela fez para que você pensasse isso? – a Morte cruzou os braços, ouvindo atentamente o irmão.

– Ela me fez sentir... vivo – respondeu ele, pensativo.

É claro que ele não estava morto, mas a sensação de se estar em um mundo como o Sonhar, em outro plano, era totalmente diferente do que o simples viver humano, limitado pelo tempo, pela jornada e pelo destino até chegar à Morte.

– É assim que sempre deveria se sentir, meu irmão – disse a Morte, os olhos castanhos brilhando com intensidade.

– Ela me faz sentir vivo mesmo – repetiu ele. – É como se, quando eu estivesse com ela, tudo ficasse ampliado: o próprio Sonhar parece mais vivo. As sensações são ampliadas e meus sentidos se intensificam. Eu sinto esse poder emanando dela e desde que você falou o quanto vocês eram opostas, isso não me saiu da cabeça.

O Rei dos Sonhos agora tinha as sobrancelhas franzidas enquanto passava a mão pálida sobre os fios de cabelo escuro, como se buscasse alguma informação. A dúvida era clara em seu rosto quase sempre inexpressivo, como se implorasse pela resposta de algo da qual ele já tinha conhecimento.

– Isso é amor, não imortalidade e poder, Morpheus – respondeu ela, com as mãos cruzadas no colo, com doçura.

– Não é isso, Morte. É mais. Eu tenho certeza – retrucou o irmão mais novo, franzindo o cenho.

– Sabe que novos perpétuos são praticamente impossíveis de existir, não sabe? O Criador se certificou que fossemos apenas os essenciais – disse a Morte, que entendeu a existência do sentimento também, mas dele não ser o foco.

– E a Vida não seria uma dessas essências, minha irmã? – questionou-a Morpheus, fitando seus olhos com intensidade. – Sempre me mostrou a força que tem ao coletar as almas, mas, com o mundo medíocre e a humanidade do jeito que está, caminhando para a autodestruição, não seria ela aquela que poderia apoiar os despertos?

– Não vou negar, meu irmão, que isso parece real. Sabe o quanto luto para que os mortais possam viver mais, valorizar mais o tempo que passaram na Terra, mas não conseguirei te ajudar daqui. Eu sei que Zoe tem poder. Ela tem força, garra e claramente captou não só sua amizade como seu amor...

Morpheus engoliu seco com a última frase. Ele ainda tinha dúvidas sobre essa palavra, sobre tudo o que ela poderia considerar e levar a causar. Não sabia se poderia amar, muito menos ser amado, verdadeiramente.

– ...Mas só o próprio Criador poderá ajudar você a entender mais sobre isso – terminou Morte.

– Sabe que ele não aparece há eras, não é? – questionou-lhe Morpheus.

– Não é sempre que surge um novo perpétuo, Morpheus. Ele pode estar mais perto do que você imagina. Tente entrar em contato. – a perpétua terminou. Ela foi até o Rei dos Sonhos, lhe deu um abraço apertado e fraternal antes de se despedir.

– Adeus, irmão. Espero que saiba o que está fazendo. Conte comigo se precisar de qualquer coisa. – e então, ela sumiu, voltando ao seu posto de guardiã das almas que partem.

– Adeus – sussurrou o Senhor dos Sonhos para o vazio deixado pela irmã.

Morpheus respirou fundo e encarou seu reflexo no espelho da parede. O rosto forte e fino, os olhos marcados pesados por uma nuvem de pensamentos. Toda sua sabedoria e seu conhecimento não o prepararam para os sentimentos que se revoltavam dentro de si.

Aquela dúvida, não seria ali que ele conseguiria tirar. Precisaria convocar o próprio Criador para que aquilo saísse como o esperado. Como poderia ficar frente a frente com o ser mais poderoso que todos os perpétuos e o questionar sobre uma decisão?

Se fosse necessário, era exatamente o que ele faria. Por Zoe, o Rei dos Sonhos e dos Pesadelos faria qualquer coisa. Pois aquela mulher, que surgiu em seu território o fazendo questionar suas próprias decisões de vida, poderia ser uma das novas governantes do mundo, e mais que isso, um dos seres que havia feito com que ele acreditasse no amor novamente, depois de tantas dificuldades.

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