Episódio Três

Tudo estava escuro, até que finalmente abriu os olhos. As paredes pareciam distantes e incompreensíveis, apesar da escuridão da casa parecer estar rente ao seu corpo e beijar a flor da sua pele. Ela olha ao seu redor e constata que sabia onde estava, mas era diferente. Era a casa. Era a sala de estar. A escuridão chamava seu nome de novo e seus olhos e ouvidos não conseguiam distinguir de qual direção. Era da direita, era da esquerda. Era de cima da sua cabeça, era debaixo de suas pernas sentadas e cruzadas. Ela escutava vindo de dentro de si tanto quanto escutava vindo de fora. E todas as vozes, de todas as escuridões e de todas as direções, repetiam seu nome incansavelmente.

Kaya. Kaya. Kaya.

Quando olha para cima, seus olhos ficam cegos com o brilho de uma lâmpada incandescente acesa. A luz era distante, como se viesse de um teto tão alto quanto às nuvens negras da noite. Pensou ser o sol, até mesmo a lua, mas nenhuma luz era permitida dentro daquela construção maldita. E a lâmpada poderosa carregava uma barreira de clarão em seu entorno, como um cilindro focalizado e impossível. Como consequência, não conseguia enxergar nada além da barreira de fótons. Não conseguia reconhecer os móveis da casa. Não conseguia reconhecer a porta de entrada com um vitral colorido e circular. Não conseguia reconhecer as paredes mofadas e marcadas por anos de infiltração. Não conseguia reconhecer as tábuas de madeira decompostas do chão insalubre. Não conseguia reconhecer formas básicas nem sombras distintas.

Na verdade, mal conseguia enxergar a si mesma.

Kaya. Kaya. Kaya.

Mal conseguia reconhecer a si mesma.

Kaya. Kaya. Kaya.

Quando olha para baixo, se depara com o mesmo monte de cartas que tanto embaralhou em anos de investigação paranormal. Seu baralho de tarô estava distribuído no chão ao qual estava sentada, dentro da área iluminada acima de si pela lâmpada-estrela no teto-céu. Não lembra de ter feito aquela divisão anteriormente, mas tudo estava confuso em sua cabeça. Seus dedos vão instintivamente de carta a carta até serem puxados por uma. Sentia uma energia própria, e tão distinta quanto a energia da escuridão ao seu redor. Quando sua pele inocente toca a superfície de trás da carta, ela sente como se todas as outras cartas tivessem tremido. Talvez fosse sua mão quem tremeu, em um movimento de medo do desconhecido. Talvez quem tremeu foi o chão da casa que a engolia à distância.

Quando virou a lâmina da carta e o desenho da Torre foi iluminado pela lâmpada a quilômetros de distância de si, sentiu a escuridão que tocava sua pele sorrir. Era o mesmo desenho que havia puxado mais cedo. O mesmo farol partido ao meio em metades diferentes, a mesma tempestade escura com o mesmo raio devastador, com as mesmas borboletas libertas. O mesmo desastre capturado na mesma carta. Era a mesma carta.

Kaya olha para a carta da Torre mais uma vez e sente o brilho da lâmpada acima de si ser refletido pela sua superfície plana. Sente como se a luz que atingia seus olhos viesse do farol da ilustração em ruínas. Ela sente seu coração palpitar antes de decidir colocar a carta de volta ao monte lentamente. Ela fecha o leque com as dezenas de cartas diferentes antes de dividi-las em dois montes, as embaralhar com destreza algumas vezes e abrir o mesmo leque de novo. Dessa vez, seleciona a primeira carta que vê.

Era a carta da Torre.

A chance de estar naquela situação era mínima. Embaralhar 78 cartas e puxar a mesma duas vezes seguidas era uma probabilidade absurdamente mínima de acontecer. Quais eram as chances? Nunca havia acontecido antes. Estava ali, novamente, a mesma carta. A mesma Torre. Ela olha ao seu redor e não percebe que a distância das paredes e do teto já estavam na metade do que uma vez eram, e agora eram visíveis aos seus olhos castanhos e nus. Kaya faz um movimento de negação com a cabeça enquanto escuta a escuridão ao seu redor rir e chamar pelo seu nome mais uma vez.

Kaya. Kaya. Kaya.

Ela deixa a carta virada para si dessa vez, em uma parte separada das demais, e leva seus dedos em direção das cartas não viradas. Não era assim que funcionava suas leituras, normalmente. Era apenas uma carta retirada do monte, para cada vez que fossem embaralhadas, assim todas teriam a mesma possibilidade de serem puxadas. Sem a carta da Torre na pilha, ela teria possibilidade zero de ser retirada. Não pensa duas vezes, mesmo assim. Quase que instantaneamente, sua mão vira uma terceira carta.

Era a carta da Torre.

Sente seu coração parar, sente seus lábios ressecarem e sente o frio ao seu redor sorrir ao ver a mesma carta sendo puxada. Não conseguia acreditar. Era fisicamente impossível. Não existiam duas cartas iguais no mesmo baralho e, mesmo assim, ali estavam elas. Ambas viradas para si, lado a lado, como irmãs gêmeas em filmes de terror. Ela olha ao seu redor e a sala já não era mais infinita. Na realidade, ela parecia menor do que da primeira vez que entrou com sua maleta de couro com fechaduras douradas.

Torre. Torre. Torre.

Kaya fecha o leque de cartas mais uma vez e, em um movimento lento, vira as cartas em seu próprio eixo. Com a mão direita, ela faz uma linha com as cartas no chão, sendo reveladas uma a uma na luz alaranjada da pequena lâmpada. Sua respiração era falha, com um ritmo único. E quando a fileira se tornou completa sob a luz logo acima de sua cabeça, já não conseguia mover nem seus braços nem suas pernas. As paredes a encurralaram e já não havia mais espaço para que se movimentasse. E seu corpo começa a se contorcer e se encolher conforme as paredes e o teto a empurravam para uma posição fetal. Estava presa com seu olhar arregalado e estático para todas as cartas de seu tarô logo à sua frente e abaixo de seu queixo. Seus olhos castanhos quase conseguiam encostar na superfície das lâminas.

Todas as cartas, sem exceção, eram a carta da Torre.

Torre. Torre. Torre.

Kaya. Kaya. Kaya.

As batidas contra o vidro da janela fazem com que Kaya desperte de seu pesadelo em um pulo. Seu corpo é pressionado contra a trava do cinto de segurança antes que avançasse no volante à sua frente. Seus olhos castanhos vão de encontro aos raios de um sol distante, mas mirado exclusivamente em seu rosto. Tenta organizar tanto os seus pensamentos quanto a sua respiração, enquanto se situava em tempo e espaço.

Estava em seu carro vermelho de duas portas. Na sua frente, o gravador de voz que gravava seu podcast permanecia em cima do volante. No banco do passageiro, seu caderno preto de folhas sem pauta. No seu colo, a carta do Louco virada para si. Havia caído no sono enquanto observava o semblante escuro e cansado da casa na noite anterior. O sol que brilhava contra seu rosto não estava distante da linha do horizonte, o que indicava ter dormido poucas horas. Sentia que havia dormido poucas horas. Sentia um leve desconforto na lombar, nas costas e no pescoço, mas tudo aquilo já era costumeiro de sua vida de investigações nômades e noites mal dormidas em seu carro.

Escuta batidas leves na janela ao seu lado mais uma vez.

– Bom dia, meu anjo! – O rosto de uma mulher mais velha se apresentava próximo à janela, com um sorriso tão branco quanto os fios de seus cabelos. Tinha um chapéu para o sol que protegia seu rosto da iluminação laranja. Sua voz doce era abafada pelo vidro ainda fechado.

Ainda um pouco desorientada por ter sido arrancada de uma realidade para outra, Kaya demora alguns segundos para responder. A figura idosa à sua frente estava com a sua postura curvada em direção à janela de vidro, mas não tocava no carro. Ambas suas mãos aparentavam estar segurando uma sacola, que se apresentava à frente de seu corpo. Sua roupa era um vestido curto e sem mangas com ilustrações claras e floridas, em tonalidades verdes, amarelas, azuis e brancas. Os seus óculos grossos e dourados não conseguiam esconder o olhar simpático e rodeado de marcas de expressão causadas pela idade e pelo tempo.

– Bom dia? – Ela responde a senhora com uma mistura de entonação afirmativa e interrogativa, logo após baixar o vidro da janela com o toque de um botão. – Posso ajudar?

Não entende o motivo da mulher sorrir de volta para ela como resposta.

– Eu quem pergunto, meu anjo. – A mulher mais velha finalmente responde em meio a um sorriso e outro. Sua coluna permanecia abaixada para ver Kaya na altura de seus olhos. Sua voz era aconchegante, quase quente. Tão acostumada com o silêncio ser quebrado apenas pela sua própria voz, os tímpanos de Kaya estranham por um momento ouvir a voz de outra pessoa. – Não é comum um carro como o seu aparecer nas ruas de nossa pequena cidade da noite para o dia. Você precisa de alguma coisa?

– Não, na verdade não. – Kaya responde enquanto reorganiza sua lombar para obter uma postura mais ereta. Sentia as cores vermelhas e laranjas do horizonte tocar sua pele delicadamente. – Apenas caí no sono na noite passada.

A mulher assentiu com a cabeça como resposta. O sorriso permanecia intacto e imaculado.

– Posso lhe oferecer um café da manhã, então? Eu moro em apenas algumas casas daqui, não é longe. – E então, outro sorriso amistoso. Ela também faz um movimento rápido com uma mão em direção à janela do veículo. – E não se preocupe, não é incomodo algum! Na verdade, seria bom ter uma companhia nessa manhã tão bonita.

Kaya desvia o olhar da mulher para a casa escura do outro lado. Por algum motivo, sente como se o semblante da casa não estivesse despertado ainda. Como se também tivesse caído no sono por acidente. A energia diferente que sentiu na noite passada já não se fazia tão presente, apesar de sua memória não a deixar esquecer dos picos de adrenalina que teve apenas algumas horas atrás. Ela olha para o curativo em sua mão ferida e sua mente tem o cuidado de analisar suas proporções mais uma vez. Queria ter certeza de que as paredes e o teto não eram infinitos, bem como não eram do tamanho de uma caixa de sapatos.

Foi apenas um pesadelo.

Seu olhar volta para a mulher de cabelos brancos do lado de fora de seu veículo. Ela parecia esperar uma resposta sua.

Os casos paranormais que solucionou até então foram todos questões de horas para um desfecho. A noite passada foi a primeira vez em seu histórico perfeito que não conseguiu desvendar os segredos sobrenaturais na mesma noite desde que iniciou seu podcast. O que quer que estivesse naquela casa ganhou a primeira batalha, mas ainda haveria uma guerra. O jogo apenas havia começado e ela não aceitaria uma derrota.

– Eu aceito. – Kaya responde e recebe mais um sorriso singelo da senhora, enquanto dá alguns passos para trás para que a mais nova pudesse sair de seu veículo em segurança. – A senhora tem certeza que não quer uma carona no meu carro? Assim eu posso retribuir o favor.

– Tenho certeza absoluta, meu anjo! – Ela responde e espera que Kaya feche a janela e a porta de seu carro antes de continuar. Ela percebe que a mulher mais jovem tinha um caderno preto nas mãos, mas julgou não ser importante. – Desde que meus médicos me recomendaram exercícios físicos, nunca mais eu consegui dizer não para uma pequena caminhada. Além de ser ótimo para a circulação, é ótimo para as pernas!

Kaya responde com um sorriso enquanto inicia com passos lentos, acompanhados dos passos ainda mais lentos da senhora ao seu lado, em direção ao outro lado da rua asfaltada. Por um momento, conseguia sentir suas costas pesadas. Pensa ser resultado de uma noite mal dormida. Ela nota não haver nenhum outro movimento de carros ou de pedestres em seu campo de visão alaranjado por conta do nascer do sol. Além de ser uma cidadela pacata, aparentemente também era pacífica. Típico de pequenas cidades distantes da grande capital. Se tirada fora de contexto, uma fotografia das ruas poderia facilmente ilustrar uma cidade abandonada.

– E como eu devo chamá-la? – Kaya pergunta assim que seus sapatos amarelos tocam o concreto firme da calçada.

A mulher então fita rapidamente os olhos castanhos de Kaya com um olhar de surpresa. Também leva uma das mãos em direção à própria testa, tocando fios brancos e fios soltos de seu chapéu cor de creme.

– Pelos céus, onde estão meus modos? – Ela para de andar de uma vez e então estende rapidamente a mesma mão que levou à testa em sua direção. As tonalidades coloridas de seu vestido, que ia até abaixo dos seus joelhos, brincavam com a cor laranja do céu. – Meu nome é Amélie Falkieur, meu anjo.

– Kaya Novak. – Ela responde, aceitando o aperto de mãos e concluindo as apresentações. Sua pele era macia, apesar das rugas na palma e nos dedos de sua mão.

– Que nome lindo. – Então volta às suas passadas mais lentas na calçada de cimento em pedaços. – Não é daqui, é?

– Não, senhora. – Ela volta a acompanhar os passos da senhora de fios brancos e vestido colorido. – Eu sou de longe.

– Sendo assim, meu anjo, mais um motivo para convidá-la para minha casa. – Amélie Falkieur volta a segurar sua sacola na frente de seu corpo com ambas as mãos. – É dever meu mostrar a hospitalidade da nossa pequena cidade.

– Parece uma cidade bem calma, senhora Amélie. – Kaya perde seu olhar nas demais casas da rua. Não pareciam ser construções antigas, não ao menos tão antigas quanto a casa de sua investigação. A calçada também era decorada com árvores de caules finos e folhas fartas, uma para cada porta da frente que passavam juntas.

– São poucos moradores e a grande maioria é da minha faixa etária. – Ela sorri outra vez. Seus olhos parecem pensar em algo distante, talvez um lugar, talvez uma memória. – Quando chegamos em certa idade, não precisamos de muito.

Seus passos lentos e ritmados seguem em silêncio apenas alguns segundos até alcançarem uma outra árvore de caule fino e folhagem farta. Sem dizer nada, a senhora segue curtas escadas em direção à porta de madeira vermelha e Kaya conclui que chegaram à tal casa. O brilho do verniz da porta refletia os raios solares perfeitamente, dando mais vida e mais cor. A parede era pintada de uma cor branca bem preservada, com linhas de um azul claro. Uma grande janela de vidro se mostrava presente dois metros de distância da porta principal, e era decorada com diferentes tipos de cactos, de diferentes tamanhos e cores. Uma outra janela assegurava a presença de um segundo andar, logo acima da porta de entrada. Em geral, não era uma construção grande, já que todas as casas alinhadas naquele quarteirão seguiam a mesma arquitetura, como um condomínio aberto.

Kaya olha por cima de seu ombro para a direção que veio e consegue ver a casa escura a pouco mais de cem metros de si. Naquele momento, apesar de nada ser diferente na fisionomia do portão de entrada, ou nas paredes sem pintura, ou na árvore ressecada, ou nas janelas quebradas, sentia que a casa estava desperta e que a observava à distância. Por um momento, se perguntou se o peso que sentiu em suas costas momentos atrás tivesse sido o peso do olhar daquela construção sobre si. Seus dedos agarram a capa do seu caderno preto com mais força.

Ambas as mulheres passam pela porta vermelha e adentram uma pequena e aconchegante sala de estar. As paredes brancas eram decoradas com vasos de plantas presos por enfeites de madeira, e davam lugar às cores diversas de um jardim de flores exóticas. Seus sapatos amarelos são abraçados por um carpete baixo e escuro. Logo à sua frente, consegue ver um pequeno sofá de dois lugares, uma mesa de centro e uma televisão de décadas antes de seu nascimento. As paredes seguravam quadros leves, mas com fotografias pesadas, que levavam para outros cômodos visíveis em seu campo de visão, como a cozinha e um pequeno quarto. Também conseguia ver uma escada que levava para o segundo andar.

– Sinta-se à vontade, meu anjo. – A senhora anuncia para Kaya, deixando a sacola que segurava cair graciosamente na pequena mesa de centro na sala de estar. Algumas unidades de pães quentes e maleáveis são revelados nesse movimento. Era possível ver o vapor da massa desenhar linhas contorcidas contra o ar frio. Sem pensar muito, a mulher segue em seus passos lentos em direção à cozinha logo ao lado.

Sem mesmo o comentário se fazer necessário, Kaya já se sentia confortável de certa forma. Ela primeiro segue na direção dos quadros na parede mais próxima. Eram molduras pequenas, com rostos menores, mas que esbanjam grandes sorrisos. Eram fotografias da senhora moradora da casa, em sua maioria acompanhada de um homem de aproximadamente mesma idade. O senhor já não tinha tantos fios de cabelo em sua cabeça, e os poucos que sobraram combinavam em cor com os da senhora ao seu lado. Era bem vestido em todas as fotos, sempre com uma blusa social ou um terno cinza. Seu rosto esbanjava um sorriso ainda maior que o da senhora Amélie Falkieur.

Eles pareciam felizes.

De canto de olho, consegue notar a presença de um crucifixo de madeira logo acima de uma das fotografias do homem bem vestido e sorridente. Era simples, mas bem enfeitado com rosas em suas pontas e pinos prateados em suas laterais. Não era o único naquela parede, muito menos naquela casa. Conseguia notar a presença de diversos outros crucifixos, de diversas outras cores e diversos outros tamanhos, espalhados em seu campo de visão. Em cima da cômoda da televisão de tubo, em cima dos armários baixos da sala de estar, em cima da porta de entrada que era a mesma de saída, em cima do relógio da cozinha. Estava cercada por eles. Estava encurralada por eles.

Um deles, em particular, chamou sua atenção. Estava disposto em cima de apenas um livro da estante da sala de estar. O livro tinha uma capa preta, era volumoso e a cor da lateral de suas folhas era do rosa mais claro que já viu, quase como se um dia tivesse sido de um vermelho vivo. Chamou sua atenção porque era costumeiro de sua mãe sempre colocar o crucifixo mais novo de sua coleção por cima da sua Bíblia Sagrada mais antiga. Kaya se pergunta se esse era o mesmo caso.

Também conseguia notar a presença de outras imagens que, mesmo sendo desconhecidas para ela, tinha certeza que eram de grande importância espiritual para a anfitriã. Algumas imagens tinham asas brancas atrás de si, outras tinham auréolas douradas acima de seus rostos. Algumas tinham marcas de sangue em seus membros, outras em suas roupas. Algumas lutavam contra criaturas místicas e desconhecidas, outras pareciam lutar contra si mesmas. Todas com seus olhos virados para o céu, implorando por misericórdia.

Talvez implorassem por penitência.

Kaya se senta no sofá de dois lugares da sala de estar e coloca seu caderno preto de folhas sem pauta em cima da mesa de centro. Aquela era a casa de uma mulher com uma religião que não era a sua.

– Espero que goste de café forte, meu anjo! – A voz doce da senhora de cabelos brancos e vestido colorido se projeta da cozinha, roubando-lhe sua atenção. – Já fazem anos que estou acostumada com o gosto amargo dessas sementes pela manhã!

Kaya apenas responde com um sorriso silencioso, mesmo sabendo que essa resposta não seria vista nem ouvida pela senhora no outro cômodo.

– E o que você veio fazer em nossa pequena comunidade, meu anjo? – A voz da senhora Amélie se projeta perfeitamente pelos cômodos, como se conhecesse bem a tonalidade necessária para que fosse ouvida naquela distância de sua hóspede. – A viagem deve ter sido longa para ter que dormir em seu carro noite passada, não é?

– É uma viagem a trabalho. – Kaya escolhe bem as palavras que utiliza. Tendo em vista os seus instrumentos paranormais, não sabia qual seria a reação da mulher mais velha sobre o seu real trabalho em meio a tantas imagens sacras.

– Logo vi. – Ela responde simplesmente. – Nossa cidade é pacata demais para passar as férias, e não temos muito a oferecer além do silêncio.

– Eu trabalho com investigações. – Tenta contornar a curiosidade da outra com respostas vagas, mas sem sucesso. Já mesmo esperava qual seria a próxima pergunta, então a responde antes mesmo de sua concepção. – Sou uma historiadora, por assim dizer.

– Ah! Então é uma repórter? – A voz doce se aproxima, materializando a senhora com uma bandeja de metal em suas mãos e um bule com duas xícaras em cima. – Eu me perco em palavras bonitas, meu anjo. Se tivesse dito que era uma jornalista eu teria entendido mais rápido. A idade chega para todos, não é?

Ela dá um sorriso simpático e Kaya dá um sorriso nervoso. A bandeja vai de encontra à mesa de centro, logo ao lado da sacola de pães. Por um momento, consegue ver as linhas de vapor da massa e as do líquido escuro se entrelaçarem. A mulher então se senta no lado livre de Kaya no sofá.

– Isso! – E decide continuar sua mentira com base no que a própria mulher ao seu lado sugeriu. Era uma jornalista em uma reportagem a partir de agora. – Eu busco entender a história de algumas cidades pelo país do ponto de vista dos moradores.

A mulher de vestido colorido bate ambas as palmas de sua mão uma contra a outra em meio a um sorriso aberto. Rapidamente, ela corrige sua postura contra o sofá de dois lugares.

– Sinta-se à vontade para me entrevistar então, meu bem! – Ela respondeu animada. – Pergunte qualquer coisa, eu conheço essa cidade como conheço a palma da minha mão.

– Isso é muito bom saber! – Então Kaya se posiciona de tal forma que ficasse frente a frente com sua entrevistada. – Há quanto tempo você mora aqui, senhora Amélie?

– A minha vida toda, meu anjo. – Amélie olha ao redor e seus olhos cansados procuram as fotografias nas paredes. – Morei nesta casa com meus pais, e então morei com meu marido e meus filhos. Anthony já está na presença do Senhor, e meus filhos me visitam com suas famílias todo ano no Natal. Eu nunca saí dessa casa, e sinto como se ela e eu nos tivesse tornado uma só. O meu fim, quando o Senhor me chamar, será aqui.

– Então deve conhecer bem a vizinhança. – Kaya tenta continuar a conversa desviando do teor mórbido. Sua intenção era buscar respostas, então teria que achar uma maneira de perguntar algo direto, sem que a outra mulher desconfiasse de seu interesse exclusivo apenas em seu caso. – A senhora sabe, por exemplo, quem morou naquela casa cercada no final da rua?

Amélie responde com um sorriso estranho. Um sorriso que Kaya não havia visto projetado ainda nos lábios finos da senhora.

– Essa é uma boa pergunta, meu anjo. – Kaya percebe que a mulher pisca algumas vezes enquanto busca em suas memórias alguma informação útil a ser relatada. – Em todo o meu tempo nesta cidade, eu nunca vi ninguém morar naquela casa. Ela sempre foi uma casa abandonada. Tanto que todos os jovens acreditavam que fosse assombrada.

Assombrada. A palavra que estava buscando.

– E qual o motivo dessa crença? – Ela continua a suposta entrevista.

– Por ser uma casa abandonada. – A resposta é firme. A senhora enche ambas as xícaras com a infusão escura e quente do bule de cerâmica e leva uma à boca. – Todo mundo na minha juventude tinha medo dessa casa. Nas noites mais chuvosas, era comum que nossa turma se reunisse para contar histórias de fantasmas para assustar os mais novos do grupo. A maioria das histórias envolvia aquela casa. As cercas altas, as janelas escuras, a árvore ressecada. Tinha algo que deixava todo mundo desconfortável. Alguns dos meninos mais velhos jogavam pedras para quebrar as janelas de vidro, enquanto outros batiam nas grades com materiais escolares.

Kaya assente para a mulher com cada sentença completa.

– E alguma vez você entrou lá?

– NUNCA! – E a exclamação da mulher é seguida por uma gargalhada alta. – Nunca nenhum de nós entrou lá. Nem mesmo os mais corajosos. Ninguém tinha coragem, nem se fossem acompanhados. Nem sequer os adultos queriam que os mais jovens tentassem entrar naquele terreno. E isso passou de geração também, porque os meus pais tinham medo da casa, assim como os amigos dos meus pais.

– Nenhum dono nunca apareceu? – Foi a vez de Kaya tomar o líquido preto de sua xícara. Realmente estava forte. – Nenhum herdeiro distante?

Ela faz um movimento de negação com a cabeça.

– Nunca houve nada do tipo, pelo menos não enquanto eu estive aqui. Ninguém que se importasse em ter o trabalho de cuidar do jardim ou das paredes. – A senhora repete o mesmo movimento de Kaya. Apesar da temperatura, ela toma por completo o café de sua xícara e devolve a cerâmica polida para a bandeja de metal. – Talvez seja por isso que o prefeito assinou os papéis para a demolição.

– Demolição? – Ela diz e distancia a xícara que segurava de sua boca.

Sente seu subconsciente desbloquear aquele detalhe de suas memórias. Aquela fazia parte da mensagem que um dos seus ouvintes mandou quando sugeriu aquela localização. A casa seria demolida, era verdade. Por isso escolheu aquele como seu próximo caso para seu podcast. O tempo estava correndo e acabando. Tinha que desvendar a origem daquela energia que sentiu na noite anterior, e que continuava a sentir toda vez que olhava na direção daquela construção escura e cercada.

– Sim, ele assinou os papéis faz algum tempo já. Passou na televisão. – A senhora falou para si mesma ao buscar memórias em sua cabeça. Seus olhos apontados para cima, para um tempo que já não mais voltava. Suas palavras fazem com que Kaya também volte de seus pensamentos.

– Ele disse o motivo da demolição? – Suas palavras saem rápido de sua boca. Talvez sua voz quisesse apostar corrida com seus pensamentos. – O que vão fazer com o terreno?

– Talvez vire uma praça, não sei. Tudo vira uma praça por aqui. – E dá de ombros. A senhora Amélie levanta seus olhos em direção aos olhos castanhos de Kaya e notam a marca de expressão que suas sobrancelhas formam. – Qual o motivo da preocupação, meu anjo?

– Nada demais. – É tudo que responde, finalmente terminando o café de sua xícara. – Queria apenas entender.

A boca da mulher volta a fazer o mesmo movimento que fez tantas vezes desde que a conheceu.

– Vocês jornalistas são muito engraçados. – Ela diz entre um sorriso e outro. Lentamente, ela levanta do sofá de dois lugares e segura a bandeja de metal com ambas as mãos, seguindo sua marcha de volta para a cozinha. – Enquanto estiver trabalhando em sua reportagem, meu anjo, sinta-se à vontade para dormir em minha casa. Tenho um quarto extra com banheiro e não faço muito barulho. Eu garanto que é mais confortável que dormir no assento de um carro, pode ter certeza!

Kaya então se levanta do sofá de dois lugares e caminha em direção à janela. Ali estava ela, a casa abandonada que assombrou gerações. A cerca que os jovens um dia bateram seus lápis. As janelas que os jovens um dia quebraram ao arremessar pedras. Por um momento, pensou que finalmente aquela cidade estaria livre de seu terror quando fosse demolida e suas paredes sujas e madeiras podres caíssem ao chão. Pensou que finalmente as crianças estariam livres de suas histórias e os adultos estariam livres de seus pesadelos.

Mas antes, teria que solucionar seu mistério.

Kaya olha para si mesma pelo reflexo que a janela tinha com a luz do sol. Uma visão translúcida de uma mulher sólida. Uma visão de uma mulher determinada.

Ela então percebe um detalhe branco no bolso esquerdo de sua calça. Quando desce o olhar para baixo de si, lá estava uma tira branca e pequena, quase que em um formato triangular. Sua mão puxa para si o detalhe e revela ser a ponta de uma das cartas de seu tarô.

O Enforcado.

Era a ilustração de um homem pendurado pela perna, de cabeça para baixo. Simbolizava uma mudança de perspectiva, para ver uma situação com um outro ângulo. Simbolizava ver algo que estava ali o tempo inteiro. Talvez a carta tivesse se separado do restante do baralho enquanto caía no sono na noite passada.

Ela olha de volta para a casa. Talvez significasse algo? Talvez fosse o indício da ação inconsequente que a carta do Louco anunciava? Talvez ela estivesse procurando algo que não estava ali e, se estivesse, não era o que estava procurando? Talvez não estivesse procurando o suficiente.

Talvez fosse isso.

Não estava procurando o suficiente.

Não tinha procurado o suficiente.

Precisava procurar mais.

Kaya não espera que a senhora Amélie Falkieur volte da cozinha para pegar seu caderno de capa preta e folhas sem pauta e sair pela mesma porta que entrou. Seus olhos castanhos estavam focados única e exclusivamente em uma mesma direção. Sentia seu olhar em túnel a cada passo que se aproximava da casa escura e cercada. Também sentia que a própria casa havia sido pega de surpresa com seu movimento repentino e sua aproximação silenciosa. E quanto mais se aproximava, mais tinha a certeza que o efeito do deslumbre não havia durado muito tempo, e que a construção já estava pronta para a receber mais uma vez.

Sente o metal frio das barras da cerca, sente a terra batida debaixo da abertura feita por ela e sente a grama alta tocar seus calcanhares desprotegidos. Também sente a moldura da janela da cozinha com seus dedos e sente a gravidade a puxar de volta ao solo quando finalmente adentrou a casa mais uma vez.

A presença dos raios solares mudaram completamente o ambiente interno da casa. Feixes de luz cortavam os cômodos por frestas nas paredes, no chão e no teto. Não era a melhor iluminação, mas era o suficiente para que pudesse enxergar o que estava à sua volta. Conseguia ver os detalhes das paredes sujas, as marcas de infestações fúngicas nos móveis e as sombras projetadas pelas fendas abertas pelo tempo. Também sentia a energia da casa. A energia diferente, que se mostrava de forma diferente para ela. Era uma energia turva. Uma energia que deixava o ar ao seu redor mais pesado e que, silenciosamente, tentaria a sufocar se não tivesse o devido cuidado.

Era uma energia opressiva.

Era uma energia semelhante à má vontade, semelhante à não cooperação. Era a energia de algo que não precisava de ajuda, e nem queria ajudar. Era uma energia que abafava o som de seus passos, até mesmo de sua respiração. Era uma energia sufocante para os pulmões e para a mente. Era uma energia autoritária, ditatorial, tirânica. Uma energia que ordenava que sua presença não fosse mais feita. Que desse meia-volta e saísse de onde veio. Que saísse de sua sala de estar, que saísse de sua cozinha, que não explorasse mais nenhum cômodo que ela não possuía, pois nenhum cômodo a ela pertencia.

E aquela não era a energia do cômodo onde estava, nem das paredes ao seu redor, nem do chão onde pisava, nem do teto que a recobria. Aquela energia que sentia era maior, era gigante e estava por toda parte. Conforme os passos de seus sapatos amarelos adentravam os demais interiores da casa, sentia aquela energia violenta sair da madeira desgastada do piso em forma de rangidos. Sentia a energia querer lhe dar um aviso, e sentia que aquele seria seu último.

Kaya para no meio de um corredor. Mesmo sem a névoa da noite anterior, sentia como se os seus pés estivessem mais pesados. Sentia que precisaria fazer mais esforço para que pudesse continuar sua jornada. Por um momento, sentiu que não estava preparada para continuar. Sentiu que a energia ao seu redor não era arquitetônica. Sentiu que era produzida pela humanidade, mas que não era a mesma energia que havia em outras casas.

Aquela energia era quase vital.

Aquela energia era quase visceral.

Aquela era a energia da casa.

Ela então lembra da carta do Enforcado. Lembra da mudança de perspectiva para solucionar problemas com uma outra visão, um outro ângulo. Lembra que algumas vezes é necessário que sejamos enforcados para que possamos enxergar com clareza uma situação antes invisível, com soluções insolucionáveis.

Kaya. Kaya. Kaya.

Ela olha ao seu redor. Olha para as paredes mofadas com marcas de infiltrações. Olha para as portas carcomidas por pequenos insetos e suas sociedades. Olha para o chão destruído pelo avanço das raízes da árvore fora de seu perímetro, com correntes de vegetação por entre seus pisos. Olha para a escuridão há anos guardada em segredo, há anos estudando planos de ataque e há anos pronta para dar um bote certeiro em uma vítima alheia aos seus arredores.

Kaya puxa ar para seus pulmões vazios em um movimento rápido de espanto, quase como um suspiro reverso.

Era a casa.

Aquela conclusão rouba uma palpitação de sua frequência cardíaca. Sua mão abre e solta o caderno de capa preta ao chão.

Não era um demônio, não era um espírito, não era uma alma, não era uma maldição, não era uma lenda urbana, não era um fantasma, não era uma energia. Não era nada que ela já tivesse contato anteriormente em seus anos de experiência trabalhando com o sobrenatural. Não era nada que ela esperava que fosse quando preparou sua maleta de instrumentos, seu caderno preto de folhas sem pautas ou mesmo seu lápis de ponta para fazer.

Não era nada que estivesse acostumada.

Não era nada que não tivesse medo.

Era a casa.

Era a casa.

Era a casa.

* * *

"Existem milhões de histórias de casas assombradas por algo. Histórias de fantasmas, lendas urbanas. A casa é apenas um objeto que teve seu destino selado por ter sido construída em cemitérios centenários ou terrenos amaldiçoados. A casa é apenas o meio de contato, até mesmo o meio de comunicação, como a folha branca de uma carta, ou a tela escura de vidro de uma televisão. Nessas histórias, a casa é apenas um personagem secundário."

Kaya observava a casa à distância. Ela desistiu de sua curta exploração para buscar o pequeno gravador de voz em seu carro e voltar para a casa da senhora Amélie Falkieur. Com a sua visão presa nas paredes escuras e sujas da casa, ela segurava o gravador na altura de seu torso com sua mão ferida. A adrenalina em seu corpo a protegia de qualquer dor que poderia ainda sentir com o ferimento aberto.

"É possível ver a casa como um reflexo de nós mesmos. Uma extensão de nossos corpos. Assim como há o eu-lírico na escrita, como uma extensão do autor e sua obra, acredito que também haja o eu-casa, como uma extensão do morador e seu lar. E enquanto nós somos organismos vivos, qual seria a improbabilidade da casa, como uma extensão do nosso corpo, também não ser classificada como tal? Qual seria a função anatômica dos cômodos que ela formam? Qual seria a função fisiológica dos móveis que ela carrega? Uma vez que vemos as paredes em um primeiro olhar, seria fácil o julgamento de que estas formam o esqueleto da casa. Mas há muito mais em um corpo que seu esqueleto, tanto em peso quanto em massa."

Seus olhos viam as sombras que a luz solar fazia na frente da casa. Viam como aquela escuridão se entrelaça com a energia de ódio e vingança do seu interior. Viu que as plantas, mesmo mortas e sem cor em sua maioria, faziam movimentos para si com a ajuda do vento, como se a convidasse para outra sessão à sós. Viu que a casa a observava atentamente, e sabia que chamava pelo seu nome.

A Torre.

A Casa Deus.

Kaya já sabia o nome do episódio de seu podcast. Ela abre o caderno preto de folhas sem pautas e encontra a página do caso de numeração setenta e nove. Sobre a linha que cortava todo o cabeçalho da folha, escreve com letras grandes e cursivas o nome do verdadeiro personagem principal daquela história. A folha era quase rasgada enquanto as letras eram escritas. Sentia sua mão tremer.

"Essa é a primeira vez que encontro um caso em que a casa é a protagonista."

A Residência Leviatã.

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