Episódio Quatro

Estando de frente para a janela da sala de estar da senhora Amélie Falkieur, Kaya conseguia ver o semblante da casa escura no final da rua com sua visão em um ângulo de quarenta e cinco graus. Apesar de sua aparência se mostrar estática, quase em um estado de transe ou, até mesmo, de choque, sua mente e seu coração estavam histéricos. E faziam horas que estava ali, naquela mesma posição de pé, de frente para a janela, com os olhos vidrados e concentrados em qualquer um dos mínimos movimentos que aquela construção fazia.

E a casa não fazia muitos movimentos, mas qualquer coisa era o suficiente para seu olhar treinado. Ela duvidava das intenções da grama alta balançando contra a brisa, ela questionava a motivação das grades altas de metal que circundam todo o perímetro do terreno, ela desacreditava das cores hospitaleiras do vitral circular da porta de entrada mas, principalmente, ela suspeitava do olhar escuro que suas janelas tinham ao capturar a sua imagem.

Kaya conseguia sentir o peso do olhar da casa sobre si. O peso sobre seus ombros, sobre seu tórax e sobre suas coxas. Era peso suficiente para fazer com que seus joelhos tentassem ir ao chão. Era peso suficiente para fazer com que seus olhos quisessem desviar sua linha de visão. Era peso suficiente para fazer com que seu estômago vazio se enchesse de ácido e sua boca sentisse o gosto forte da bile.

Era o peso de um olhar malicioso.

Kaya se perguntava como aquilo era possível. Nunca ouviu falar de tal fenômeno. Até mesmo em filmes infantis e músicas para crianças dormirem, as casas eram propriedade de espíritos humanos, e nunca proprietárias da habitação humana. Sua memória resgata imagens vagas de casas monstros dessas histórias. Todas eram, de certa forma, conectadas à humanidade. Aquela não era, e disso tinha certeza. Aquela casa odiava a humanidade e tinha orgulho de esbanjar para as casas vizinhas tal conquista. Tinha orgulho de dizer que era diferente. Tinha orgulho de dizer que venceu.

Ela se perguntava como que a casa conseguiu tal feito. Aquela casa realizou o maior objetivo de uma mansão assombrada ou de uma edificação abandonada: ser temida. Ela queria distância das pessoas daquela cidade, e aquele era um sentimento recíproco. Gerações tinham medo daquela residência. Gerações. Histórias contadas de pai para filho logo se tornaram de filho para neto, e não era possível distinguir o que era e o que não era mais real naquele telefone sem fio de lendas urbanas. Aquela casa se tornou mística, quase fantástica. Aquela casa deixou de ser vista como um local para habitação. Aquela casa não era mais vista como um lar. Aquela casa era vista na mesma posição dos humanos na cadeia alimentar.

Talvez aquela casa era vista em uma posição acima.

A casa não se movia, ao menos não em um sentido que justificasse sua paranoia. Enquanto as horas passavam e os girassóis acompanhavam a mudança de direção dos raios solares, a casa não deixou de ser apenas o que era: uma casa. As portas eram as mesmas, as janelas eram as mesmas, as paredes eram as mesmas. Era a mesma casa. Em alguns momentos, Kaya se perguntou se estava ficando louca, mas seus sentidos respondiam que aquela opção estava fora de cogitação. Ela sabia que a casa olhava para ela de volta, conseguia sentir o seu olhar por todas as células de seu corpo, mas não conseguia desvendar qual era o sentimento que ela tinha por si. Poderia ser curiosidade. Poderia ser desprezo. Poderia ser ódio. Não saberia tão cedo.

Não saberia ali.

Enquanto dava passos lentos em direção à porta da casa que não era sua, seu olhar permanecia inflexível, obcecado por sua nova musa. Sua mente estava dispersa demais para que conseguisse ouvir as falas de preocupação da senhora Amélie Falkieur sobre a sua saúde, sobre sua alimentação ou sobre estar indo em direção à casa que tanto lhe deu pesadelos décadas atrás. Sua audição já não ouvia mais nada. Ao menos, nada que fosse real. Ouvia as portas imundas rangendo. Ouvia as paredes escuras sussurrando. Ouvia o piso destruído chiando. Ouvia a casa chamando seu nome.

Kaya. Kaya. Kaya.

Já no meio da rua, com apenas seu caderno preto de folhas sem pauta em mãos e seu gravador de voz em seu bolso, se dá conta que aquele não seria um fim de tarde qualquer. O sol já se mostrava obsoleto, com raios atrofiados pelas nuvens carregadas e pesadas no céu pintado de diferentes tons de vermelho, rosa, laranja e azul. Quando sente que já não pisava em sua sombra, mas na sombra que a casa projetava contra o sol agora tímido, sabia que não tinha mais para onde voltar.

Kaya vai em direção ao portão de entrada da casa, em frente ao seu carro vermelho de dois lugares. As correntes e os cadeados em volta das grades já estavam embebidos de sombra e de penumbra. Ela leva ambas as mãos, tanto a ferida quanto a intacta, de encontro com as barras de metal. Por um momento, conseguia sentir que a casa tentava roubar seu calor pelos pedaços perdidos de ferrugem e tinta, como se tentasse absorver sua energia vital. Como se tentasse entender como seu corpo biológico funcionava.

E seus olhos castanhos não se distraíram daquela construção escura em nenhum momento, nem mesmo por um segundo.

Estava completamente obcecada pela casa.

Sua obsessão era maior que sua fome, maior que sua sede, maior que suas necessidades básicas. Sua obsessão era maior que sua higiene e sua necessidade de se manter com roupas limpas e apresentáveis. A única entrada disponível que ela tinha para entrar na propriedade da Residência Leviatã era a entrada que ela mesma fez por força bruta, que dava acesso apenas para seu corpo adulto deitado se rastejar sobre terra batida e lama, e mesmo assim ela entrava por lá. De novo. De novo. De novo. Sua obsessão era maior que a necessidade de dormir em uma cama confortável, era maior que a necessidade de eletricidade para enxergar por lâmpadas. Era maior que sua investigação ou que os episódios de seu podcast.

Não importava quantas vezes a Residência a expulsasse, ela sempre iria voltar.

Sua obsessão era maior que a casa.

Sua obsessão era maior que si mesma.

Kaya Novak rasteja pela entrada na base da grade de ferro, e sente seu tórax arrastar terra consigo conforme avançava para o terreno de sombras, mato alto e lixo. Já havia perdido a contagem de vezes que teve que se arrastar pelo vão entre as barras enferrujadas e as raízes da grande árvore no canto do terreno. Suas roupas mostravam as cicatrizes encardidas por todo o seu tecido. Agora já era o suficiente para que uma passada de mão não limpasse por completo aquelas feridas de solo e grama. Já não mais arrumava a mecha de cabelo atrás de sua orelha também.

Seus passos já foram tão repetidos desde a noite anterior que a marca da sola de seus sapatos amarelos apenas seguia a trilha já desenhada em meio a vegetação seca e alta. Uma marca também se fazia presente no peitoril da janela de moldura escura. Passa pela janela em cacos com maestria, adentrando a cozinha mal iluminada em um som alto e em um eco seco.

As horas pareciam passar mais rápidas para si. Talvez o sol estivesse cansado e quisesse dormir mais cedo naquela noite. Talvez era a lua que quisesse um pouco mais de atenção de seus súditos minúsculos e seus mares maiúsculos. A escuridão já tomava conta de boa parte de todo aquele ambiente paralizado no tempo e espaço. A energia nefasta da casa já se deleitava com a névoa cinza que vinha da noite. A sua presença já havia sido notada e sabia que a casa faria de tudo para que pudesse vê-la correr em desespero e medo para fora de seu perímetro mais uma vez.

Kaya respira fundo aquela energia ao seu redor. Não teria medo algum que a fizesse ir embora naquela noite, então desafia a casa a mostrar o seu pior. Ela se vira de costas para a janela de entrada e abre seus braços para o que quer que a observava. Para se entregar por completo à escuridão dentro daquela casa, não tinha mais sua lanterna de bolso consigo. Não fecha os olhos. Apenas espera que suas pupilas se acostumem com a pouca luz que escapavam das frestas nas paredes, nas portas e nas janelas destruídas antes de continuar.

Seus passos em direção ao corredor eram lentos. Não enxergava quase nada e a casa parecia gostar que sua visão falhasse enquanto explorava. Na verdade, não poderia confiar em nenhum dos seus sentidos, uma vez que a casa se divertia enquanto soprava sons agudos por entre as fendas das paredes, rangia as madeiras que seus sapatos pisavam, pregava peças em seus olhos na escuridão profunda dos cantos e mudavam a textura de seus móveis quando passava seu dedo sobre eles. A casa se fazia presente em sua percepção.

Ela caminha sobre restos de madeira e cimento, com seus passos mudando o tom de seu eco a cada segundo. E o chão era nojento. Coberto de lama, coberto de terra, coberto de plantas que abriam espaço por entre as fundações e cresciam fortes o suficiente para quebrar azulejos e mudar móveis de lugar. As paredes estavam em condições semelhantes, com seus ossos de madeira finalmente expostos quando camadas e mais camadas de cimento, barro e tinta descascaram e caíram em direção às pilhas irreconhecíveis de madeira, sujeira, cimento e escuridão no chão. O teto também mostrava suas toras de sustentação, tão arruinadas e destruídas quanto as colunas dispersas por todo o ambiente da sala de estar. Logo, seus pés pisam no círculo desenhado por ela por velas agora apagadas e quase que completamente derretidas.

– Nada mudou. – Kaya pensa alto. Suas palavras ecoam por todos os cômodos, por todas as paredes, e fogem pelos buracos causados pela erosão do tempo. Era a primeira vez que a casa ouvia a sua voz, e parecia fazer questão de que seu tom fosse ouvido por toda a sua arquitetura.

Na realidade, não sabia o que estava esperando. Ela sabia que a casa não era como as demais casas daquela vizinhança. Ela sabia que a casa não era como as demais casas daquele mundo. E ela também sabia que a casa sabia disso. E a casa sabia disso. Esperava que a casa reagisse a isso, e reagisse de alguma forma mais forte. Mais violenta. Mais visível.

E todas as suas expectativas foram quebradas quando a casa permaneceu a mesma da noite anterior. O mesmo chão de fundações em pedaços e com os mesmos buracos que mostravam a mesma terra e a mesma vegetação. As mesmas paredes sujas com detalhes de madeira velha e podre. As mesmas portas rústicas com sua base destruída por enchentes de décadas passadas. Os mesmos móveis deslocados e destruídos.

A mesma casa.

E aquela mesma aparência se repetia cômodo a cômodo. Conforme o sol permitia que a lua brilhasse, seus passos lentos alimentavam seus olhos curiosos. Não demorou muito para que desbravasse o ambiente da sala de jantar. Uma mesa retangular de madeira com detalhes em suas laterais se fazia presente no centro do ambiente, com cadeiras de mesmo material e mesmo detalhamento rodeando todos os seis lugares disponíveis em seu perímetro. Logo acima de seu ponto central, e no ponto central do quadrado do teto arruinado, um lustre circular dominava todo o ar do ambiente. Kaya conseguia ver os feixes de luz lunar refletirem suas ondas-partículas nos poucos pedaços de metal livres de corrosão pelo tempo. Era magnífico. Também tinha seis roldanas em sua circunferência para apoiar velas.

Kaya supõe que a casa era mais antiga que as primeiras lâmpadas elétricas.

Todo o ambiente da sala de jantar se mostrava desgastado. Mais montes de madeira, sujeira, cimento e escuridão se faziam presentes em toda a base das paredes que se conectam ao piso. Mais raízes que quebravam a fina camada de madeira do chão. Mais terra e lama espalhadas por toda parte. Tecidos grandes e irreconhecíveis pareciam correr por toda a extensão do local de forma livre, mas agora estavam deitados para a chegada da noite. Suas cores pareciam ter mudado bastante nas últimas décadas, talvez no último século.

A entrada para aquele ambiente também já não tinha mais sua porta, com as dobradiças enferrujadas e abertas ainda presas à parede. O que restou foram pedaços de madeira derrubados e arrastados por algum dilúvio do passado, que se misturam e somam à massa de materiais distintos e desfigurados nos cantos da sala.

Kaya volta para o corredor inicial entre a sala de estar ampla e a cozinha mergulhada em névoa, deixando a sala de jantar para ser digerida pela escuridão. Ela caminha vagarosamente em direção à porta de entrada. As cores do vitral circular pareciam brilhar com maior intensidade sob a luz da lua daquela noite que sob a luz do sol daquele dia. Nenhuma imagem era vista do outro lado das cores, como se toda a casa estivesse submersa e refém da sombra que ela mesma projetava contra seu jardim de entrada.

Kaya. Kaya. Kaya.

É quando olha para trás, de volta à escuridão guardada por aquelas paredes, que percebe os dois lances de escadas que levavam para o segundo andar. Seus degraus recebiam um brilho único, azul e fosco, que vinha de um telhado destruído acima de si. As tábuas de madeira que formavam os degraus estavam presas junto à uma base central de um lado e junto à parede suja e sem camadas do outro. Por toda a sua extensão, pedaços de cerâmica do que um dia formaram as telhas altas acima da escada se encontravam jogados ao descaso. Tinham uma coloração escura, com eventual sujeira e musgo em certas localidades. Todas em pedaços por perderem uma batalha que travaram contra a força da gravidade, contra a força da natureza ou contra a força do tempo.

Kaya leva sua mão à base central que, por ser unida a todas as demais tábuas, formava uma espécie de corrimão que acompanhava todos os degraus. Sua madeira tinha uma textura que só conseguia explicar como sólida-líquida. Era tão apodrecida que se desmanchava em seiva, água e matéria. Também cheirava mal, como se o seu corpo estivesse em processo de decomposição mas o próprio tempo não permitia que se acabasse.

Não deixou que essa inconveniência a impedisse de continuar em direção ao segundo andar. Conforme seus passos subiam pelos degraus frágeis, sentia a Residência grunhir com seu peso. Ouvia os gemidos do Leviatã à sua volta. E seus gemidos eram de dor. E logo a dor passa a ter um tom de raiva, e logo de ódio. Por um momento, Kaya trava seus passos no meio da escada de madeira presa, bem como paralisa sua respiração. Apenas mexia seus olhos castanhos enquanto analisava minuciosamente todo o ambiente à sua volta, garantindo que mais nada estava ali com ela.

Além da casa, mais nada estava ali com ela.

Kaya. Kaya. Kaya.

Ao dar o primeiro passo com seus sapatos amarelos na base que formava o chão do segundo andar, Kaya sente ser observada. Ela olha para as paredes à sua direita, que eram tão imundas e desgastadas quanto as do andar inferior, e não acha nada. Ela olha para as portas à sua esquerda, que eram tão destruídas e estufadas quanto as do andar inferior, e não acha nada. Ela olha para sua frente e encontra um corredor longo com portas fechadas e uma janela destruída em seu final.

Kaya. Kaya. Kaya.

Com passos cuidadosos, ela atravessa os montes de entulho de mais telhas, madeiras, móveis e ferragens que enchiam aquele corredor e chega à abertura na parede. Bem como a senhora Amélie relatou, e como todas as demais janelas da casa, aquela já não tinha mais sua chapa de vidro intacta. Cacos transparentes e brilhantes se faziam presentes na sola de seus sapatos e tilintavam sons agudos quando os pisavam. Apenas um lado da janela estava enfeitado com um tecido vermelho desbotado, que poderia ser o que restou de uma cortina que já não mais era necessária.

Kaya. Kaya. Kaya.

Ela olha para fora da janela destruída do final do corredor e encontra uma rua vazia e solitária, iluminada apenas pela luz da lua e por postes mal distribuídos de lâmpadas incandescentes tão laranjas quanto o nascer e o pôr do sol. Então passa a mão sobre o peitoril e sente sua textura áspera em seus dedos lisos. Conseguia enxergar a casa da senhora Amélie Falkieur, com sua árvore de caule fino e folhas fartas, sua parede branca com linhas azuis e sua janela a dois metros da porta de entrada. Ela se perguntou se a senhora conseguiria ver sua presença esbelta daquela distância.

KAYA. KAYA. KAYA.

Ela finalmente escuta seu nome ser chamado e um arrepio percorre toda a sua coluna vertebral e seus dedos agarram o caderno preto de folhas sem pauta. Em um movimento de espanto, Kaya se vira de volta para o corredor atrás de si e seus olhos castanhos se deparam com uma escuridão sem fim. A luz da lua fez com que suas pupilas perdessem o costume com o breu dentro da casa, e com que seu coração perdesse seu ritmo. Não enxergava absolutamente mais nada, e a escuridão estava tão próxima de seu rosto que conseguia sentir seu bafo podre e vil.

KAYA. KAYA. KAYA.

Mas não era apenas isso. Ao longe, na altura dos degraus de tábuas de madeira dos dois lances de escadas, seus olhos conseguiam desenhar perfeitamente a silhueta deformada de uma massa torcida. Nada era reconhecido, nem seus membros, nem seu corpo, nem seu rosto, mas conseguia ver perfeitamente a imagem de algo. E esse algo era repugnante. E esse algo brilhava em prata como se fosse mercúrio em seu estado líquido. E era algo tão deformado e tão prateado que formava uma amálgama com a escuridão e crescia e se contorcia como células cancerígenas em metástase. E esse algo deu um passo em sua direção.

KAYA. KAYA. KAYA.

Outro passo.

KAYA. KAYA. KAYA.

Outro passo.

KAYA. KAYA. KAYA.

E logo corria em sua direção, sem membros definidos, sem corpo conhecido, sem rosto material. Conforme os seus olhos se perdiam em meio à escuridão, mais a escuridão chegava próxima de si. E mais próxima. E mais próxima.

Kaya grita em desespero, e seu grito percorre todo o corredor e desce as escadas. Ela leva sua mão livre para a maçaneta da porta lateral mais próxima de si daquele corredor e força seu ombro contra sua placa de madeira. Nada acontece. A escuridão que chamava pelo seu nome continuava a correr em sua direção, agora com mais velocidade. E Kaya continuava a gritar enquanto forçava seus membros superiores e inferiores contra a porta de madeira até que, momentos antes de ser engolida pelo que quer que estivesse guardado dentro das sombras ao seu redor, a porta cede por completo e ela adentra o interior do quarto principal.

Seu corpo cai de frente contra o carpete fino que cobria o chão daquele cômodo. Ela olha para a porta aberta atrás de si e já não enxerga mais nenhuma escuridão. Seus pulmões respiravam aliviados enquanto sua mente se recompunha do estado de adrenalina. Aquela poderia ter sido mais uma brincadeira da casa com seus sentidos, com suas necessidades básicas e com seu sono. Era sua culpa, afinal, foi ela quem desafiou a casa a mostrar o seu pior. Ela enxuga a única lágrima que havia descido de seu rosto em anos e levanta seu olhar para o interior mal iluminado do quarto onde estava.

Seus olhos castanhos se deparam com um interior arrasado. Primeiramente, é recebida com a visão de uma janela aberta na parede contrária à porta que levava de volta ao corredor escuro. Era uma abertura grande, quase metade de toda a área do muro ao qual estava conectada, impossível de não ser vista. Era enfeitada com dois pares de tecidos distintos, um mais externo e outro mais interno, que se desmontava em algumas das roldanas as quais se conectam à uma barra metálica e horizontal acima de si. Raios lunares, claros e azulados, entravam pela grande janela, como se abençoassem os móveis desgastados.

As paredes tinham uma camada destruída a mais, sendo um papel de parede sujo, com marcas de umidade e fungos pelo que ainda restava de pé. A mesma sujeira e entulho que caía das paredes da cozinha, da sala de estar, da sala de jantar e dos corredores também se fazia presente em sua escuridão. Os escombros subiam e se acumulavam em pilhas sobre outras pilhas. Afundadas em lixo, estavam outros tecidos velhos e abotoados, como peças de roupas antigas que já não mais vestiam ninguém. Além disso, mostrava sua ruína com blocos de cimento e barro expostos ao ar frio do quarto. Também era possível ver marcas esverdeadas em todas as quatro paredes, que cresciam em musgo e lodo no cimento restante, e que desciam rumo à companhia das demais plantas que invadiam o ambiente pela abertura na janela e pela abertura no chão.

Kaya se levanta lentamente e avança em passos tímidos e cuidadosos rumo a uma das partes melhor iluminadas pela luz da lua. A madeira escura de sua fundação fazia um som muito mais alto do que em qualquer outro cômodo que já explorou quando era pisada. E sua estrutura não parecia ser firme em algumas posições, sentindo um chão macio e fofo sob seus sapatos amarelos.

Uma cama de casal vermelha descansava no centro do quarto, com sua cabeceira e tábuas que um dia foram mesas presas à parede à sua direita. Tinha marcas que se assemelhavam a listras e a ondas por toda a sua pintura fosca. Era formada por duas barras de madeira, tão grossas que poderiam ser blocos, até mesmo quadros, que seguravam dois colchões de solteiro que se encostavam pelas suas laterais. Como se já não bastasse o tecido imundo dos colchões estar repleto de manchas fúngicas e de entulho que se acumulou da parede corroída, uma camada fina de vegetação rasteira dominava boa parte de seu comprimento. O verde do limo brilhava com a luz que escapava das cortinas sujas da janela aberta.

Na frente da cama, duas cadeiras estavam prostradas uma de frente para a outra. Entre as duas, uma pequena e baixa mesa, semelhante à mesa de centro da sala de estar da senhora Amélie Falkieur. Na parede logo ao lado, que não era a parede da porta, nem a parede da cabeceira, nem a parede da janela, uma mesa alta ocupava todo o espaço, com um espelho retangular aos pedaços em seu centro. Tudo isso com restos de parede, de teto e de plantas por todas as suas superfícies.

O teto também tinha a presença da mesma coloração esverdeada, e suas cores mudavam de tonalidade conforme se espalhava para a escuridão e para as barras metálicas que formam sua base. Também estava destruído, com filamentos soltos do que quer que fosse o material de que era feito. Também possuía um lustre, mas este estava quase desistindo de desafiar a gravidade, apenas com uma ponta ainda presa em um dos filamentos originais do teto.

Era lindo. Duvidou mais uma vez da própria sanidade quando essa foi a sua primeira conclusão. As cores do caos ao seu redor se balanceavam e se complementavam. Sabia que aquele ambiente não estava próprio para uso, muito menos para descanso, mas sabia que, dado o seu contexto de abandono, aquele quarto era lindo.

Kaya dá mais alguns passos até conseguir passar a mão sobre o colchão da cama vermelha. Era uma textura única, suja, viva. Move uma parte da sujeira e do entulho com a lombada de seu caderno preto de folhas sem pauta, fazendo com que os restos caíssem no chão próximo aos seus pés. Ela repete aquele movimento até conseguir uma área grande o suficiente para que coubesse seu corpo sentado, e limpa o suficiente a ponto de desenterrar o tecido do colchão.

Ela se senta e se acomoda. Fecha os olhos e respira fundo, de novo, de novo e de novo. Quando voltou a abri-los, o quarto estava à sua espera. Conseguia ver seu próprio reflexo no que restou do espelho na cômoda à sua frente. Seus olhos cansados, seus cabelos desgrenhados, suas roupas sujas. Kaya sorri para si mesma quando percebe que não estava em posição de julgar o ambiente ao seu redor.

Talvez a casa e ela não fossem tão diferentes quanto um dia pensou que eram.

Ela olha para os lados e sente como se as infiltrações nas partes mais altas das paredes do quarto fossem a casa salivando em sua presença. Sente o ranger das molas do acolchoado da cama como se fossem os sons famintos de um estômago que queria comer, comer e apenas comer. Apenas naquele momento, sua obsessão permitiu que pudesse analisar o lugar onde estava, e em que condições se encontrava.

Ela engole em seco. Se pergunta em qual parte realmente estava da casa. Pela primeira vez, quando o Leviatã chamou pelo seu nome, conseguiu sentir o cheiro forte de seu hálito por todo o lugar daquele quarto. O cheiro era forte de ácido.

E aquela casa não tinha a presença de comida dentro de si há muito tempo.

* * *

"Dissecar uma casa é um pouco mais complexo que dissecar sapos em aulas de biologia, mas segue os mesmos princípios."

Kaya não pensa duas vezes antes de puxar o pequeno gravador de voz de seu bolso e colocá-lo sobre o colchão que estava sentada. Sua coloração cinza brilhava com a iluminação azul da noite.

"Você precisa cortar com cuidado o tecido que reveste o interior do monstro. Ao meu ver, a sala de estar seria o coração. Quando a lâmina fria abre o sapo em dois, esse é o primeiro órgão que vemos, assim como sua conexão entre a porta de entrada e a grande maioria dos outros cômodos. Essas conexões se assemelham à estrutura física e funcional do sistema circulatório do corpo animal. Quando pensamos em um organismo vivo, pensamos em um coração. Pensamos na circulação de glóbulos vermelhos e brancos, de água e oxigênio, de hormônios e sinalizadores e em todas as conotações fisiológicas que se ramificam por si. Quando pensamos em uma casa habitada, pensamos na movimentação, na conversa, no calor e na circulação de pessoas na sala de estar."

Sua voz tentava se manter firme, por mais que seus instintos alertassem que aquele era mais um momento de adrenalina. Aquele era mais um momento para que fugisse daquele terreno maldito.

"Em uma noção mais básica, pensamos em barulho, em som. Essas são as batidas do coração de uma casa. E seus corredores conectados à sala de estar são suas veias e artérias, que levam aos demais pontos de vivência. E, mesmo assim, essa não é a comparação lógica que fazemos ao atravessar um corredor escuro quando desligamos a última lâmpada mais próxima e temos que alcançar o próximo ponto iluminado. As veias e artérias passam a ter uma figuração diferente da fisiológica. Quando está cheio de escuridão e de medo, o corredor passa a ser maior que a casa, com suas paredes já estreitas se fechando ainda mais contra a pobre alma que corre por sua vida, antes de ser inevitavelmente esmagada e engolida por seus capilares de concreto."

Ela leva seus olhos castanhos em direção à porta ainda aberta do quarto e à escuridão que a aguardava no corredor do segundo andar. Lembra do que sentiu momentos atrás. Lembra do seu coração acelerado, das suas mãos suadas, do seu grito de medo. Lembra da capacidade que a casa tinha. Lembra do controle que a casa tinha.

"O quarto acompanha os seres humanos antes mesmo de sua vigência sedentária. Mesmo sem um conceito de casa, o homem primitivo buscava um ambiente aconchegante para passar uma noite de sono em segurança até que o sol raiasse novamente. E isso é regra para todos os animais. A casa é onde se dorme. O quarto é onde se dorme. Logo, a casa é o quarto. E esse sentimento de segurança é o que nos motiva, de uma forma primitiva e quase instintiva, a nos conectarmos com esse cômodo. É a caixa que nos guarda dos predadores, das doenças, da fome. É a caixa que nos guarda de nós mesmos, em nossos sonhos mais profundos. É um ambiente seguro, acolhedor, que te aguarda para fazer sentido todas as noites, apesar de nós o abandoná-lo logo de manhã."

Lembra que estava longe de casa. Lembra que estava longe do seu estúdio de gravação. Lembra que estava longe de sua zona de conforto. Lembra que aquele não era um caso paranormal comum.

"Mas o quarto deixa de ser um ambiente seguro quando alguma parte do seu corpo está exposta à imensidão do irracional. A arquitetura cotidiana passa a ser mais um ser desconhecido em que você precisa fazer as pazes todos os dias para poder descansar ou, em alguns casos, sobreviver mais uma noite. A verdade é que o quarto nunca foi um ambiente seguro. Se a casa é um predador e eu sou a presa, o quarto seria o cômodo que a casa quer que eu me sinta mais confortável. Que eu passe a maior parte do tempo, a maior quantidade possível de horas seguidas e ininterruptas. O quarto é a boca do predador. Quando eu fujo do corredor para o quarto, eu busco refúgio nos dentes daquele que quer me devorar. Eu busco tranquilidade enquanto descanso confortavelmente minha cabeça em sua língua. E a escuridão que tanto tento fugir é da garganta impiedosa do monstro ao meu redor."

Lembra que estava dentro da Residência Leviatã.

"Nós dois sabemos que não há escapatória uma vez dentro da boca de um predador."

Kaya olha ao seu redor. Olha para as cortinas da janela aberta, olha para o chão mole e fofo ao toque, olha para a cama vermelha coberta de musgo e entulho, olha para as paredes destruídas e descamadas, olha para os filamentos soltos do teto. Kaya olha para si mesma no reflexo que os cacos de espelho projetavam. Talvez não vissem a mesma mulher que viu no reflexo da janela da vizinha sorridente e acolhedora.

"É no quarto que somos deixados à mercê da confiança de nossas casas. É onde esperamos que os únicos olhos que nos assiste dormir, vulneráveis ao mundo externo e estranho, sejam os olhos da casa. Os olhos das portas, das janelas e das paredes se viram para dentro, observando ansiosamente a sua presa cair no sono para que possa finalmente abocanhá-la. A única coisa que nos resta é esperar que sua misericórdia nos permita acordar no dia seguinte com nossos corpos descansados e mentes renovadas. O residente confia em sua residência assim como uma presa confia em seu predador em uma relação de mutualismo. Confia que esta relação ecológica seja entre duas espécies diferentes que vivem associadas por um favorecimento mútuo."

Por um momento, Kaya viu a sua mãe aparecer no reflexo daquele espelho quebrado. Viu uma mulher que não era forte, viu uma mulher que não era verdadeira, viu uma mulher que jamais perdoaria. Viu uma mulher que não era ela. Uma mulher que nunca seria ela. Finalmente, ela desvia o olhar.

"O que uma casa que é abandonada vê é que a relação a qual estava era de comensalismo, a qual apenas uma das espécies foi beneficiada. Que o caráter protetivo nunca foi mútuo nem contínuo. Mas, uma vez que a casa é uma extensão de nós, uma extensão de nossos corpos, de nossas mentes e de nossas almas, essa se torna uma relação de seres da mesma espécie. Uma sociedade. E quando percebe que os parâmetros mútuos não foram respeitados, o que garante para nós que essa relação não se torne canibalística?"

O único pensamento que passa pela mente de Kaya Novak é que esperava que a casa não estivesse com fome naquela noite.

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