Capítulo 9


A gritaria no parlamento estava ecoando pelas paredes até o lado de fora, onde os criados resmungavam junto. Lá fora, onde a tarde caia por terra em um sol laranja que banhava as nuvens em tons rosados, deixava o clima frio de Ruaely, agradável.
Lorde Bouchap estava clandestinamente jogando cartas com as mãos enluvadas no tecido de couro branco por baixo da mesa, enquanto seus colegas gritavam e por pouco, não se estrangulavam uns aos outros.

— Francamente Cavalheiros, o que isto está virando? — Um dos lordes gritou em tom de repulsa.

Lorde Bouchap sorriu como se estivesse ouvindo uma piada. Ele pegou o relógio de bolso dourado, abriu com agilidade, olhou as horas e rezou para quem estivesse ouvindo, para que logo estivesse em casa, no conforto de seus lençóis.

— Você, Lorde Bouchap — Um dos lordes gritou do outro lado da bancada e ao ouvir o próprio nome, Bouchap olhou para ele com os olhos arregalados, tirando os óculos redondos e se esticando todo na cadeira.— Você tem algo a ver com esse absurdo?!

Bouchap olhou Lorde Ivan com papéis na mão sacodindo na sua direção, Lorde Pierre do lado como um cão raivoso. O homem de meia idade branco, agora estava vermelho como um pimentão. Prova viva do sangue nervoso correndo pelo corpo, tudo que Bouchap não estava no momento. Ele sorriu e deu de ombros.

— Ela é uma monarca, pode muito bem assinar os relatórios no lugar do rei — Bouchap disse.

— Carmélia nunca assinou nada na época de Augustus! — Outro lorde gritou no canto, muitos concordaram gritando junto. A cabeça de Gregory doeu e ele massageou as têmporas com a ponta dos dedos.

— Problema dela, Catharina não é Carmelia, Milorde — Bouchap disse pondo o cachimbo na boca.

Lorde Pierre olhou para ele com os olhos furiosos. Ele jogou os papéis no chão, passou por cima do balcão e foi até o outro lado, parando na frente do balcão do lado esquerdo, onde Gregory Bouchap estava sentado acendendo seu charuto com uma calmaria de dar nos nervos.

— Como ousa...— Ele rugiu entre os dentes.— Essa filha de fazendeiro de Lamburg nunca será digna como Carmélia foi!

— É! — Os outros gritaram.

Lorde Bouchap deu uma longa tragada e soprou a fumaça no rosto de Lorde Pierre, massageando o próprio rosto barbudo.

— O que Carmélia fez além de ficar penteando os cabelos enquanto o marido ia para a guerra, Milorde? — Bouchap disse de maneira descontraída enquanto Pierre serrava o punho com força.— Entenda, meu caro, ela tem poder para assinar os papéis, o que isso tem a ver?

Lorde Pierre sorriu de escárnio, o olhar fuzilou Gregory e ele bateu na Madeira do balcão, fazendo um estrondo no salão do parlamento.

— O que tem é que agora ela assina os papéis em nome do rei, logo vai querer escolher e dar ordens! — Ele berrou.— Entenda, milorde, — Pierre disse com ironia.— Não vamos receber ordens de uma fazendeira!

— É! — Gritaram.

— É isso mesmo! — Mais vozes no fundo concordaram.

Bouchap olhou além de Lorde Pierre e viu a figura atrás, entrando no salão, a cartola era tirada da cabeça, junto do casaco de pele preto, ele acendia um cigarro.
Bouchap sorriu mordendo a Madeira do cachimbo e cruzou as pernas, voltou a olhar novamente para o Lorde na sua frente.

— Eu escolheria melhor as palavras para falar da minha rainha, milorde — Ele sorriu.— Afinal, ela é a rainha.

— Para mim continua sendo uma criança burra brincando de reinar! — Pierre disse com mais raiva ainda.

Mas diferente do que ele pensou que fosse acontecer, os lordes não gritaram em afirmação. Pelo contrário, ficaram em silêncio é um sorriso cinico brotou por baixo da barba expensa de Bouchap quando ele se encostou no encosto da cadeira.
Atrás dele, passos fizeram Lorde Pierre se virar para olhar quem era e encontrou os olhos verdes do rei Damon. Vestido uma blusa branca, um colete truncado e um lenço branco no pescoço, uma bengala com a ponta de prata, que fazia um barulho agudo toda vez que tocava no chão, acompanhando os passos do rei com sapatos pretos polidos perfeitamente. Damon com um cigarro na boca, deixou a fumaça escapar dos lábios, segurou o fumo entre os dedos e se encostou no balcão, cruzando os tornozelos, olhou para Pierre de lado.

— Apesar de ficar grato por toda sua devoção ao reinado de meu finado pai e mãe, Lorde Pierre — Ele começou por dizer.— O senhor acaba de cometer um erro terrível.

Lorde Pierre sem saber como agir, com todos olhando para ele com expressões assustadas, engoliu em seco e deu de ombros, olhando para o rei.

— Não pode me repreender por falar mal de sua esposa, esse país ainda tem livre arbítrio! — Lorde Pierre disse nervoso, tremendo.

Damon sorriu apagando o cigarro na Madeira do balcão, arrumou a garganta que parecia rouca e seca e voltou o olhar verde frio para Lorde Pierre.

— Ah, mas o senhor não falou mal da minha esposa — Ele disse sério.— O senhor falou mal da rainha deste reino.

Eles ficaram se encarando e Lorde Pierre deu alguns passos para trás quando Lorde Bouchap se levantou e foi até Damon.

— Nesse caso...— Pierre parecia buscar palavras.— Peço perdão pelo meu erro, Vossa graça.

Damon balançou a cabeça em negação quando Bouchap se juntou ao seu lado, cruzando os braços.

— Não é a mim que o senhor deve desculpas, é a rainha...— Ele sorriu como uma crianças, o sorriso assustou até mesmo Lorde Bouchap que sabia que ele estava se segurando para não avançar no pescoço de Lorde Pierre.— Mas hoje à noite no baile de caridade o senhor poderá se desculpar pessoalmente com ela, não acha?

Lorde Pierre engoliu e concordou com a cabeça, sem jeito.

— Certamente, Majestade.

— Maravilha! — Sorriu se virando para Bouchap.— Terminamos?

Bouchap esticou a mão como quem da passagem e Damon começou a andar em direção à saída. O silêncio foi tão constrangedor que todos os lordes estavam de cabeça baixa. Quando Damon já estava chegando à porta, com o casaco já sobre os ombros, ele parou e se virou para Lorde Pierre, segurando a bengala e a cartola na mão.

— Aliás, sei que são Lordes, alguns aqui, Duques e Marqueses, sei que não são burros, meu pai não tolerava burros em sua corte — Disse com uma expressão calma na voz.— E sei que não preciso lembrá-los, mas farei mesmo assim: Catharina é rainha de todo território Ilyano. Com isso, ela pode assinar a porra que ela quiser! — Damon rugiu como um lobo raivoso.— Estamos entendidos?

— Sim, Vossa graça! — O comitê de lordes gritou em coro.

— Ótimo — Disse com uma maneira alegre.— Te espero lá, milorde.

Apontou para Lorde Pierre e saiu do salão.

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