Capítulo 42 - Corações partidos


A única altura do dia em que de facto Fiona saía do quarto era à noite, onde não havia quase ninguém nos corredores.

Estranhamente sentia Louis mais distante ultimamente, como se algo o incomodasse, e isso deixava-a intrigada.

Usava um vestido vermelho simples e uma capa escura a proteger-se do frio. Caminhava pelos corredores sem prestar atenção ao caminho, apenas vagueava sem rumo tentando perder-se naquela imensidão de luxo. Uma sensação de paz invadiu-a naquele momento, como se a escuridão e a solidão acalmassem a sua alma inquieta.

Através das enormes janelas observava a escuridão no exterior do palácio, suspirou audivelmente visivelmente cansada. Não sabia por quanto mais tempo aguentaria esta hostilidade toda.

- Com problemas? - perguntou alguém atrás de si.

Fiona virou-se abruptamente com o susto e fitou o rosto do duque furagido.

Oliver Bernier observou o rosto de Fiona enquanto a sua expressão assustada suavizava. Pareceu vê-la ponderar no que ia dizer antes de responder.

- Muitos. - disse vagamente virando-se de novo para a janela.

Ouviu o duque aproximar-se e colocar-se ao seu lado em frente à janela olhando na mesma direção.

- Presumo que os seus problemas sejam as más línguas. - disse Oliver com as mãos atrás das costas. - A vista daqui é magnífica.

Fitou o duque de esguelha e voltou a olhar para a janela.

- Não o tenho visto no palácio nesta semana.

- Tive que regressar a minha casa em Orleans, mas regressei esta manhã. - explicou Bernier e Fiona assentiu.

Um silêncio reinou no ambiente, Oliver assumia uma expressão serena no rosto, porém sem esboçar um sorriso.

- Queria agradeçer-lhe por me ter salvo. - disse Fiona observando o duque que a fitou igualmente.

- Não tem que agradecer. Não poderia permitir que aquele louco a matasse, além do mais não convinha que o rei mergulhasse na depressão por perder a mulher que ama. - disse o duque e Fiona desviou o olhar na hora. - Perdoe-me se a ofendi.

- Não há problema. Tenho ouvido coisas piores na última semana.

E novamente silêncio.

- Queira acompanhar-me num passeio no jardim. - disse Oliver estendendo a mão na sua direção.

Fiona pousou a mão sobre a dele e caminharam até ao jardim. A mão do duque estava fria, já a sua parecia muito pequena em comparação com a mão masculina.

Caminharam até ao jardim e o ar da noite atingiu-a no rosto no momento em que saiu para fora do palácio.

- Embora pareça abatida tem aguentado bem a hostilidade da corte. - comentou Bernier mas Fiona não o fitou.

- Pode parecer que sim Vossa Graça, mas seria mais fácil de suportar se estivesse a uma certa distância das más línguas. - disse Fiona vagamente.

- Como assim?

- Seria mais fácil de suportar se eu e quem me insulta estivéssemos em locais distintos.

Enquanto Fiona e Oliver caminhavam pelo jardim, através de uma janela Catherine observava-os com atenção. À dois dias que a meretriz chegara à corte, e a partir daí conseguira aproximar-se de um número considerável de nobres, mas ao ver Fiona e o duque de Orleans no jardim soube logo de que nobre se aproximar de modo a cumprir a missão que a rainha lhe dera.

Observou-os durante o tempo em que caminharam pelo jardim e quando eles entraram, viu quando o duque acompanhou Fiona até ao quarto e caminhou pelo corredor em direção aos seus aposentos, supôs Catherine. Se queria convencê-lo a aliar-se a ela teria que fazer o que sabia fazer melhor, e tinha a certeza que seria tiro e queda.

Esperou calmamente até ele alcançar a porta do quarto, e quando ele estava prestes a entrar decidiu entrar em ação.

- A pé a estas horas vossa graça?

Oliver fitou-a confuso e desconfiado, não percebendo o que ela quereria.

- Perdão mas creio que não a conheço. - disse o duque de modo cortês.

Catherine aproximou-se lentamente evidenciando o vestido caro que usava, e admitia que sentia saudades de usar roupas dignas do seu ego.

- Tendes razão não me conheceis, mas estou a dar-vos a oportunidade de o mudar. - disse Catherine lançando um olhar ardiloso ao duque.

Na hora ele percebeu que se tratava de uma cortesã, claro estava que não sabia se se deixava levar por ela visto que estava de olho noutra mulher.

- E de que forma sugere que nos possamos conhecer melhor mademoiselle? - perguntou Oliver sabendo muito bem a resposta. Aquele tipo de mulher podia ter muita coisa na cabeça, mas só sabia fazer uma.

Catherine soltou uma pequena risada.

- Deixe-me entrar no seu quarto e logo saberá. - respondeu maliciosamente.

De facto uma pequena noite de diversão não faria mal a ninguém, e tendo em conta de que tinha uma cortesã a oferecer os seus serviços em vez de ser ele a procurar por eles era melhor ainda, então Oliver puxou abruptamente Catherine para o interior do quarto despertando as fitas do vestido da cortesã.


Para alegria de Catherine o duque aceitou aliar-se ao plano para afastar a Fiona do palácio. Mas o que incomodou a cortesã foi o facto de Bernier ter demonstrado interesse em Fiona, tendo aceite fazer parte do plano justamente por isso, para a tomar como esposa.

- Podes vir comigo para Orleans. - sugeriu Oliver e Catherine sorriu mordendo o lábio inferior. - Assim caso Fiona me rejeite no leito conjugal terei a quem recorrer para não me remeter à abstinência.

Lá no fundo não pôde deixar de se sentir incomodada por Oliver a querer somente para segundo plano. Fiona conseguia ficar sempre por cima e com os homens todos que quisesse, primeiro Doug, depois o rei e agora o duque. E era por isto que a odiava, mas com a sua ida para Orleans iria proporcionaria-lhe uma vida miserável.

- Não tenho que me disfarçar de criada pois não? - perguntou Catherine caminhando pelo quarto despida apanhando a sua roupa e começando a vestir-se.

- Não. Basta apenas ser discreta. - respondeu o duque secamente.

Se quisesse infernizar a vida de Fiona na sua futura casa não podia ser discreta, e caso Fiona e Oliver se casassem e ele a tomasse como amante, iria dar nas vistas mais do que nunca e pouco ou nada queria saber da discrição.



Quando Fiona acordou sentiu uma mão acariciar o seu rosto e não precisou abrir os olhos para saber quem era. Reconhecia o toque de Louis até de olhos fechados.

Virou-se de barriga para cima e fitou-o, Louis sorriu para ela, mas nem um nem outro diziam o que quer que fosse. Não eram precisas palavras quando um olhar valia por mil.

Levantou-se, aproximou-se do rei e beijou os seus lábios rosados carinhosamente, mas sentiu algo estranho em Louis, porém não perguntaria nada por agora.

- Sentes-te melhor hoje? - perguntou Louis com voz baixa afagando o rosto da condessa.

- Um pouco.

- Não pareces muito convicta da tua resposta. - retrucou com um sorriso fraco e Fiona encolheu os ombros.

- Por bem que me sinta agora durante o dia volta tudo ao mesmo.

Levantou-se da cama e caminhou até à janela segurando as lágrimas esforçosamente. Ouviu Louis aproximar-se devagar e abraçá-la pela cintura.

Louis sentia o coração pesado por ver Fiona naquele estado. Começava a ser penoso para ela estar naquele palácio, e quanto mais tempo lá passava mais deprimida e sofrida ficava. Não sabia o que pensar, mas por muito que lhe custasse sabia o que fazer.

Virou a amada de frente para si e beijou-a fervorosamente arrancando um suspiro da condessa, mas por muito prazeroso que tivesse sido o beijo lá no fundo Fiona sentiu ser um beijo de despedida, e isso deixou-a confusa.


Depois do almoço Fiona foi chamada ao escritório de Louis sem saber o motivo. Françoise, Stephanie e Janelle acompanharam-na até lá, ao entrar encontrou na divisão viu Louis, Chadd, Anastácia e o duque Bernier, cuja presença a deixou confusa.

- Ainda bem que chegaste Fiona. - disse Louis um tanto distante. - Preciso de falar contigo.

- Admito que estou curioso com esta conversa, e com o facto de eu e a Ana estarmos presentes. E o duque Bernier também. - disse Chadd e Anastásia assentiu compartilhando da curiosidade do marido.

Louis suspirou e sentou-se na cadeira atrás da mesa, parecia esgotado emocionalmente.

- Estão aqui pois o assunto que tenho a resolver diz-vos respeito de certo modo, já as damas de Fiona estão aqui apenas para tomarem conhecimento do que vai acontecer de modo a ficarem já esclarecidas.

Fiona fitou Louis curiosa com o assunto que ele mencionava, mas pela cara dele não parecia ser coisa boa.

- E o que se passa afinal? - perguntou Fiona tentando que Louis falasse de uma vez.

Louis suspirou e levantou-se devagar apoiando-se na mesa. Fitou Fiona como que a pedir perdão pelo que acontecesse a seguir e então começou a falar:

- Como sabeis Fiona não está a passar um bom momento aqui em Versalhes. Muitos nobres injuriam-na devido à sua ligação a mim e ao caso que temos. E isso está a esgotá-la emocionalmente.

Observou o rei e concordou com ele, só não sabia onde ele queria chegar com aquilo.

- E então? Qual é o problema? - inquiriu Chadd não compreendendo a situação.

- O que se passa é que devido a esta situação ela tornou-se bastante reclusa no quarto, e já não comparece assiduamente aos encontros da corte.

- Desculpem, mas poderiam parar de falar como se eu não estivesse aqui? - interviu Fiona e todos na divisão a fitaram.

Louis fitou a condessa, pouco depois baixou o olhar para a secretária. Porque é que Fiona sentia que algo de menos bom viria daqui?

- Eu estive a pensar e acho que seria melhor se desses um tempo à vida no palácio e na corte. - disse Louis com os olhos pousados no tampo da mesa, ao erguer o olhar encontrou o olhar confuso da amada.

- Como assim? - inquiriu Fiona. Louis suspirou e controlou a voz que ameaçava sair tremida.

- Acho que seria melhor para ti e para o teu bem estar se te afastasses de Versalhes por uns tempos até a poeira assentar. - disse Louis e Fiona fitou-o sem acreditar no que ele dizia.

Ela não podia ter ouvido aquilo. Louis estava a mandá-la embora de Versalhes?! Justamente agora que ela mais precisava dele?!

- Não! Não seria melhor coisíssima nenhuma! - retrucou Fiona irritada.

- Por favor Fiona, não tornes isto mais difícil do que já é. Achas que quero que vás embora? - interrogou o rei fitando a condessa. - Óbvio que não!

- Então não mandes! Eu posso aguentar bem tudo isto.

- Acredita quando te digo que seria melhor deixares o palácio, não definitivamente.

Fiona bufou sem acreditar nisto. Estava a ser praticamente expulsa do palácio pelo homem que amava.

- Desculpa lá Louis mas Fiona tem razão! - interviu Chadd captando o olhar do irmão.

- Será melhor para ela afastar-se desta gente, quando os boatos amenizarem ela volta.

- E o que o duque tem a ver com isto? - perguntou Anastácia.

O rei suspirou observando Fiona debruçada na janela amparada pelas damas de companhia.

- Esta manhã ele veio falar comigo, acerca de Fiona. - disse o rei e Fiona olhou para ele de novo. - Ele fez-me uma proposta sobre a qual eu estive para recusar...

- Qual proposta? - perguntou Fiona com voz dura e rude.

Fitou o duque com o mesmo olhar gelado com que fitava Louis.

- A tua saída abrupta iria levantar falatório na certa, então o duque Bernier propôs... Propôs a tua mão em casamento...

O queixo de Fiona quase caiu ao chão com tamanho absurdo. Casamento? Com o duque? É verdade que ele lhe salvou a vida, mas isso não quer dizer nada pois não?

- E eu, embora com muita relutância da minha parte... Aceitei. - disse Louis e Fiona esbugalhou os olhos na sua direção.

- Tu o quê?! - bradou Fiona quase aos gritos.

- Fiona eu...

- Tu nada! Como podes estar a fazer-me isto Louis?! Como te atreves a decidir a minha vida por mim sem me consultares e entregares-me em casamento a um homem que mal conheço?!

- Isto também não foi fácil para mim Fiona! Mas tens que compreender que é para o teu bem. - disse Louis tentando convencer a amada. Sem sucesso.

- Para o meu bem... Para o meu bem o tanas! Isto não tem nada de bom para mim!

- Fiona, a decisão está tomada. Ainda hoje vais partir com o duque para Orleans. - disse Louis irredutível. - Quando as coisas acalmarem por aqui poderás regressar.

Embora tentasse parecer firme Louis estava quase a cair num pranto desesperado, pois no momento o que mais queria era agarrar em Fiona e nunca mais a largar, e o facto de ver as lágrimas a escorrer pelo rosto da amada e a expressão de ódio no seu rosto quebrou-o por completo.

- Pelos vistos não irás mudar de ideias não é? - disse Fiona com frieza na voz e na expressão facial. - Que seja, mas fica aqui o aviso Louis: não esperes um retorno meu a este palácio, pois se eu sair por aqueles portões nunca mais me pões a vista em cima! - disse Fiona saindo de imediato seguida das criadas. Pouco depois o duque Bernier e Anastácia saem também, já Chadd antes de sair fitou o irmão com uma cara descontente e saiu fechando a porta com brusquidão.

Louis sentou-se na cadeira e escondendo as mãos no rosto caiu num choro desesperado, sentindo-se o maior idiota à face da terra por mandar embora a mulher que amava. Chorou como nunca chorou na sua vida, e sentia que ainda tinha muito para chorar.

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