Capítulo 40 - Brasão de Vimioso
Encontrar os pais de uma criança desaparecida era mais difícil do que parecia e Lia e Brigitte viviam esse problema na própria pele. Sabiam que Tomás era português e de família nobre, faltava encontrá-la.
Lia banhava o pequeno junto à lareira de modo a não expor o menino ao frio de novembro. Brigitte preparava o jantar para ambas e para o menino, mas a angústia para encontrar os pais de Tomás prevalecia.
No dia seguinte Lia foi cuidar da pequena mercearia enquanto Brigitte cuidava do bebé. Nessa manhã havia pouco movimento, mas com a quantidade de mercearias que havia em Versalhes a concorrência era evidente.
Organizava as frutas e os legumes com cuidado, aqueles que estivessem menos bons punha-os de parte. Era apenas mais um dia normal.
- Bom dia.
- Bom dia Dora. - cumprimentou Lia fitando a mulher.
Notou que ela envergava uma expressão preocupada no rosto, e ficou curiosa quanto ao motivo da sua expressão cabisbaixa.
- Aconteceu algo Dora? Digo apenas porque me parece preocupada. - perguntou Lia fitando a mulher que escolhia alguns vegetais para levar.
- Ai menina Lia nem me diga nada! - disse Dora suspirando angustiada. - A casa do meu senhor está numa tristeza total.
Lia continuou a ouvir o que ela dizia, com um interesse um tanto invulgar para si.
- Mas o que se passou afinal? - perguntou Lia quando Dora se calou.
Dora entregou os legumes a Lia que se pôs a pesá-los.
- O filho do meu senhor desapareceu à mais de uma semana e até agora nada dele aparecer.
Lia congelou no lugar depois desta informação.
- Nem uma pista acerca do paradeiro do menino. E foi a nova criada que o levou, aquela maldita megera! Veja lá que ela teve a coragem de levar o menino e atirá-lo ao rio para o matar afogado!
- Desculpe... Disse que o atiraram ao rio? - disse Lia atordoada.
- Sim. Mas o que se passa? - perguntou Dora estranhando a reação da jovem.
Lia entregou a saca a Dora sem se preocupar com o dinheiro.
- Importar-se-ia de me acompanhar até minha casa?
Uma melancolia tomava conta do casal de Vimioso, nem mesmo quando faziam amor conseguiam disfrutar na totalidade do momento pois a tristeza prevalecia pela incerteza do estado do seu filho e do seu paradeiro.
Raramente saiam do quarto, vez ou outra passeavam pelo jardim da propriedade para apanharem ar, mas quase não tinham ânimo para sair de lá.
Nesse momento a manhã ia a meio, ambos estavam na cama envoltos num lençol, sem roupa alguma. Vimioso beijava o rosto da esposa lenta e levemente alastrando até ao seu pescoço pálido, apertando o seio dela com malícia, já Beatriz suspirava com o toque do marido enquanto o abraçava encostando-o mais a si.
Sentia e recebia o carinho do marido sem questionar nem reclamar, sentia o amor dele por si e o quão arrependido estava por a ter traído. Quanto a Catherine, ela conseguiu fugir da guarda dos homens de Vimioso e no momento encontrava-se em parte incerta.
Vimioso deitou-se na cama e abraçou Beatriz que se aninhou nos seus braços, ambos estavam pensativos enquanto o conde acariciava as costas da esposa com as pontas dos dedos.
- Começo a perder as esperanças. - disse a condessa triste.
- Isso é a última coisa que deves fazer. - retrucou Vimioso com voz suave. - Devemos ter fé de que o nosso menino vai aparecer.
- Eu sei, mas parece que isso nunca mais vai acontecer. - disse Beatriz sentando-se na cama e tapando a nudez com o lençol. - Se aquela meretriz nojenta não o tivesse levado não estaríamos neste suplício!
O conde ergueu-se e observou o rosto delicado da esposa. Não entraria no assunto Catherine pois sentia uma culpa ainda maior quando era relembrado o facto de que ela o levou, e se não fosse pela incompetência dos seus subordinados ela ainda estaria em seu poder, mas agora não fazia ideia de onde ela pudesse estar.
- Não vamos falar nela agora.
De repente batem à porta sobressaltando o casal, as batidas continuavam frenéticas e insistentes obrigando o conde e a condessa saírem da cama e procurando algo adequado para vestirem. Quando abriram a porta deram de caras com o mordomo que fez sinal para o seguirem, e fizeram-no sem contestar.
O mordomo levou-os até à cozinha onde Dora caminhava freneticamente de um lado para o outro. Com certeza aconteceu algo.
- Oh meus senhores, finalmente vos vejo! - exclamou Dora com alívio.
- O que aconteceu para tamanho desvarate Dora? - inquiriu Vimioso fitando a cozinheira alvoroçada.
- Um milagre! Aconteceu um milagre meu senhor!
- Explique-se Dora, e sobretudo acalme-se. - disse Beatriz aproximando-se da mulher e segurando nas suas mãos.
Dora fez o que a sua senhora lhe pediu, mas estava demasiado afogada em felicidade para conseguir tirar o sorriso do rosto.
- O menino Tomás. Encontrei o menino Tomás Vossa Graça! - disse Dora e a condessa recuou um passo atordoada. Já Vimioso arregalou os olhos incrédulo com o que a cozinheira acabara de dizer.
- O... O que disse Dora?! - perguntou Vimioso ainda atordoado.
- Encontrei o bebé meu senhor, eu sei onde ele está. - repetiu Dora. - Duas irmãs mercadoras tiraram-no do rio e têm tomado conta dele durante a última semana enquanto tentavam encontrar os pais. Ele está a salvo e bem tratado.
Beatriz mergulhou num choro de felicidade e correu até ao marido abraçando-o, isto enquanto ele sorria abertamente e deixava correr lágrimas de alegria pelo rosto belo. Finalmente teriam de novo o seu filho nos braços, finalmente!
- E onde ele está? Onde moram essas irmãs? - perguntou o conde secando as lágrimas.
- Eu dei a morada da casa e ambas ficaram de apanhar uma diligência até cá para o trazer. - explicou Dora eufórica. De repente o barulho de cavalos a parar fez-se ouvir e os quatro correram até à entrada da mansão a tempo de ver ambas as mulheres a sair da carruagem, uma delas carregando um bebé nos braços.
Depois da diligência partir ambas viraram-se para a enorme mansão e para as quatro pessoas que as observavam ansiosas. Acanhadas caminharam até eles.
Dora aproximou-se delas e observou o menino, como que confirmando novamente se era ele ou não. O pequeno olhou para ela com uma cara séria e olhos bem abertos, como que analisando tudo ao seu redor.
- Meus senhores, estas são Lia e Brigitte, as irmãs que cuidaram do menino Tomás até agora. - informou Dora mas o casal Vimioso só olhava para o bebé, porém não conseguiam ver bem o rosto dele devido à manta onde ele vinha embrulhado.
Delicadamente Dora tira Tomás dos braços de Lia e leva-o até aos condes, entregando-o a Beatriz. Quando esta observa o seu bebé e reconhece cada traço do seu rosto delicado tão parecido com o do pai começa a chorar de alegria e alívio por ter o seu bebé de volta. Já Vimioso aproxima-se da esposa e acaricia o rosto do filho que abre um grande sorriso desdentado, reagindo ao toque do pai.
- Queríamos pedir perdão por ter demorado tanto tempo a devolvê-lo ao seu lar mas não fazíamos ideia a quem ele pertencia. - explicou-se Lia atraindo o olhar dos condes.
- Não tem porque pedir perdão. Temos que vos agradecer por cuidarem do nosso bebé tão bem. - disse Beatriz com um sorriso meigo. - Como descobriram que ele era nobre?
- Através da pulseira de ouro que ele tinha. - respondeu Lia apontando para o pulso do menino. - Levei-a a um joalheiro que me disse que um dos medalhões era o brasão da bandeira de Portugal. Posso perguntar o significado do outro medalhão?
- O outro medalhão enverga o brasão da minha família, a família de Vimioso. - respondeu o conde cortês. - Gostaria de recompensá-las pelo que fizeram pelo meu filho, por isso se precisarem de algo é só dizerem.
- Obrigada mas não podemos aceitar. - disse Brigitte e Lia concordou. - Para nós já foi bom podermos ter tomado conta desse anjinho, não poderíamos pedir nada em troca por ele.
O casal entreolhou-se e sorriu, depois olhou novamente para as jovens à sua frente.
- Que assim seja, mas quero agradecer de novo pelo que fizeram. Ao menos permitam-me providenciar-vos uma carruagem para vos levar de regresso a casa.
Com a proposta de Vimioso Lia e Brigitte não recusaram e em poucos minutos estavam a caminho de casa. Entretanto os restantes entraram em casa e Beatriz passou Tomás para os braços do marido que pegou e aconchegou-o nos seus braços.
- Nunca mais vais sair de debaixo dos nossos olhos ouviste? - advertiu Vimioso fitando o filho e a condessa riu. Depois disso o conde fitou a esposa e riu também.
- De facto não, a partir de agora vamos vigiá-lo como falcões. - concordou Beatriz.
Ambos puseram-se a observar o filho com ternura nítida.
- E se regressássemos a Portugal? - perguntou Vimioso abruptamente.
- Queres regressar já? - inquiriu Beatriz.
- Porque não? Além disso quero ir embora do local que nos trouxe tanta tristeza. Vamos regressar a Bragança. - pediu Vimioso fitando a esposa com expectativa.
- Acho melhor regressarmos sim, sinto saudades da nossa casa. - disse Beatriz beijando os lábios do marido com ternura.
- Então está decidido: regressemos a Portugal.
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