Capítulo 35 - Louco revoltado

Na manhã seguinte com o quarto iluminado pela luz da manhã, Louis beijava Fiona com uma calma pouco característica sua, apenas mantinha a calma para não submeter a dama a movimentos bruscos.

- Viste, não me magoaste. - disse Fiona tocando no lábio de Louis com o dedo indicador. _ Eu dei conta de como tentaste ser cuidadoso o tempo todo, e agradeço-te por isso.

- Não quero que te esforçes, mas tu consegues ser tremendamente persuasiva. - retrucou Louis tocando no nariz da dama com o seu.

Deu uma risada divertida e aninhou-se nos braços do rei, disfrutando do silêncio pouco incomodativo que abarcou a divisão mergulhando-os numa onda de paz e calmaria.

- E o Zac? O que é feito dele? - perguntou Fiona alguns momentos depois captando o olhar sério do rei.

- Está nos calabouços, e no que depender de mim tão cedo não sai de lá.

- E a Kira?

- Não sei.

- Não sabes ou não queres dizer? - apoiou a cabeça no peito largo de onde brotavam alguns pelos loiros e observou o rei com atenção.

- Não sei. Desde que te tiramos do casebre do bosque que não a voltei a ver. Mas já convoquei uma busca por ela em Versalhes com autorização para alastrar as buscas até Paris caso necessário.

Fiona assentiu e depositou um beijo no peito pálido antes de pousar a cabeça novamente.

- Tu sabes o motivo pelo qual ela tem tanto ódio por mim?

Sentiu o peito de Louis subir e descer antes de ouvir a resposta:

- Inveja.

- Porquê?

Beijou a testa da dama e ela fitou-o com os seus belos olhos.

- Pelo facto de eu te dar mais atenção a ti do que ela alguma vez já recebeu da minha parte. Pelo simples facto de ela querer estar no teu lugar neste momento e nestas circunstâncias e eu não o querer nem permitir.

- Mas ela não deve ter um ódio igual ao que tem por mim pelas cortesãs com quem já dormiste. - disse Fiona e sentiu Louis ficar tenso por escassos instantes.

- Há quanto tempo estamos juntos? - perguntou Louis.

- Há quatro meses.

- Com as cortesãs era apenas uma noite, nada mais. Nunca ouve a mesma mais do que uma noite.

- Não é muito reconfortante.

- Cogito seriamente a ideia de acabar com este casamento.

Fiona levantou-se e observou-o com atenção.

- Porque farias isso?

Encolheu os ombros e respondeu com naturalidade:

- Não tenho nada a ganhar e não amo a minha esposa. Para quê continuar com um casamento destes?

- E arriscas a deixar o teu reino sem uma rainha? - perguntou Fiona agora apoiada no cotovelo.

- Ainda tem o rei, já é alguma coisa.

- Não seria o mesmo.

- Ser rei já é uma dor de cabeça, então imagina ainda lidar com a dor de cabeça de um casamento.

- Casamento é dor de cabeça?

- O meu é.

Fiona ficou a pensar se aquilo queria dizer que o casamento de Louis com Kira era o exemplo de casamento insuportável, ou se queria dizer por outras palavras que ele não era adepto do casamento.



Versalhes era uma vila onde funcionava o comércio e os pequenos negócios de subsistência, lojas, mercearias e pequenas fábricas de produção de bens de primeira necessidade, como roupas por exemplo, eram em abundância.

Michel Marlon era um homem amargurado e que gostava de transpor as regras, secretamente converteu-se ao protestantismo e já unira uma pequena legião de apoiantes em Versalhes, de modo abater o rei e assim fazer prosperar a igreja Protestante em França, com o bónus de vir a torna-se o novo rei e governar com os dogmas protestantes.

Trabalhava numa fábrica de meias no centro da vila, Michel era um homem insatisfeito pois ele era daqueles que julgavam e acreditavam sentir na própria pele a opressão do absolutismo régio, algo que a sua mente pouco saudável levava como motivo para o rei Louis René-Lorran torna-se um alvo a abater.

Dia e noite planeava o ataque perfeito, algo rápido mas marcante, que acabasse não só com o rei mas com toda a família real, mas o grupo que tinha ao seu dispor não era em número suficiente para fazer frente não só ao rei, mas também ao séquito de guardas que ele colocaria para sua proteção.

- Precisamos de mais apoiantes. - disse Michel fitando as doze pessoas postadas na sua diminuta sala de estar.

- E quem quererá aliar-se a nós, converter-se à nossa igreja e assinar a sua sentença de morte ao tentar derrubar o rei e o poder da coroa? - disse Pierre, um dos integrantes do grupo.

- O rei é quem vai assinar a sua sentença de morte quando se submeter ao nosso poder e às nossas crenças! - alvitrou Michel esmurrando a mesa dando ênfase à sua posição.

- O rei é a figura mais poderosa do reino, como queres enfrentá-lo com doze pessoas quando ele tem milhares de guardas ao seu dispor para sua defesa? - interpelou Jacques fitando Michel atentamente.

- Para isso é que precisamos de mais apoiantes, assim o mísero exército dele não valerá nada perante a nossa revolta. - disse Michel cujo olhar emanava pura loucura.

- É uma missão suicida!

- É uma missão necessária! Tudo pelo bem do reino.

- O reino está bem como está, não há nada que o protestantismo vá alterar no país. Será um ato desnecessário onde vidas serão perdidas. - disse Janet dando um passo em frente.

- Há está bem como está? Achas que o reino está bem como está querida Janet? - perguntou Michel aproximando-se da jovem. - Então achas bem que pessoas na miséria, lá bem no fundo do poço, sem um franco no bolso sejam obrigadas a pagar indulgências? A pagar com dinheiro que não têm pelos seus pecados num estúpido pensamento de que assim terão lugar cativo no céu, enquanto os bispos, cardeais e sabe-se lá mais quem usam esse dinheiro em proveito próprio em vez de usá-lo em prol da população, em prol da nossa cristandade! Achas isso bem?!

- Mas o que tem isso a ver com o rei afinal?

- Tem a ver que o rei tem um cardeal como primeiro ministro, ele pode muito bem aceder ao dinheiro das indulgências que estará na posse do cardeal e assim usá-lo como bem lhe aprouver.

- Não faz sentido nenhum!

- Faz todo o sentido meu caro Jacques, faz todo o sentido. - disse Michel calmamente. - Enquanto a igreja católica é esta vergonha que se vê, na nossa igreja nada disto ocorre, as pessoas não são enganadas nem roubadas a troco de uma mentira. Por isso é que eu quero que a igreja protestante prevaleça, assim o povo prosperará e a mentira terá o seu fim.

Todos os presentes na sala olharam uns para os outro incertos daquilo em que se estariam a meter, mas para alegria de Michel todos concordaram e assim tentaram juntar a população de Versalhes, mas como estes não queriam aceder inventaram umas quantas mentiras que se tornaram eficazes na sua conversão. Michel tinha plena consciência que nem todos se converteram, mas não importava, pois estava prestes a alcançar o seu maior objetivo.

- Rumo ao palácio irmãos! - berrou Michel para a multidão. - Vamos mostrar ao rei o quão fartos estamos de ser enganados, e vamos obrigá-lo a curvar-se perante a igreja Protestante!

O povo gritou em apoio às palavras de um louco revoltado, mesmo sem saber que dali não ganhariam grande coisa, apenas a oportunidade de terem uma ocupação diferente para os seus serões.

- Tenho que resolver uns assuntos com Chadd relativos ao comércio, aproveita e vai falar com Anastácia, ela tem algo a resolver contigo. - disse Louis abotoando os botões de punho da camisa.

- Não me recordo de ter assuntos pendentes com ela? - disse Fiona embrulhada no lençol.

- Este assunto em especial não é nada antigo, trata-se de uma decisão que Anastácia está a pensar tomar e precisa de resolver alguns detalhes contigo em particular.

- E sabes o que é?

- Sei, mas não te vou dizer. É um assunto entre vocês as duas. - disse Louis aproximando-se e depositando um beijo nos lábios da dama. - Vou chamar as criadas para te ajudarem a vestir.

Fiona assentiu e Louis saiu do quarto, pouco depois as duas criadas que têm estado aos seus serviços nos últimos dias entraram para a vestirem. Dispensava o uso do espartilho pois as suas costas não estavam em condições de aguentarem o aperto inflingido pelo mesmo, por isso usava vestidos mais folgados, tendo vestido nessa manhã um em musselina amarelo.

Encaminhou-se ao quarto de Anastácia calmamente, entrou no quarto iluminado e a duquesa encaminhou-se até ela com um sorriso doce.

- Bom dia minha querida, então como estás?

- Com algumas dores, mas algo suportável. - respondeu Fiona com as mãos entre as de Anastácia.

Anastácia assentiu e encaminhou-a até ao sofá perto da janela.

- Bom, eu preciso falar contigo acerca de algo, mas antes quero que saibas que não é insatisfação minha por quer que seja. - começou a duquesa e Fiona assentiu. - Quero abdicar das tuas funções e proporcionar-te as tuas próprias damas pessoais.

- Mas porquê que quer fazer isso?

- Para aumentar o teu respeito na corte, os nobres conseguem ser cruéis e quanto mais poder e ostentação mostrares mais como uma igual a eles te irás parecer. Acredita no que te digo, qualquer deslize ou podre teu servirá para denegrir a tua imagem.

- Já tenho reparado nisso, tanta mesquinhice junta é impressionante, pelos piores motivos.

- Exatamente, e é precisamente isso que queremos evitar. Por isso agora serás conhecida pelo teu estatuto de condessa e não pela função de criada.

Para Fiona já lhe bastava não ser mal falada nas cortes, ser alvo de desprezo e chacota era o pior dos castigos em sociedade sobretudo se são todos contra um e sem oportunidade de defesa ou retaliação.

Os podres eram o alimento dos nobres emproados com quem Fiona "convivia", andavam à caça de mexericos como um predador à caça da sua presa, movimentando-se na sua órbita e alimentando-se da sua derrota e humilhação como um abutre alimentando-se da carcaça de um animal qualquer, e depois da dignidade deitada por terra as vidas continuavam o seu curso, pelo menos para alguns.

De repente um barulho faz-se ouvir do lado de fora do quarto, ambas as damas colocam-se em alerta e à escuta pensando o que poderia ser aquele som, pouco depois o mesmo barulho fez-se ouvir, mas desta vez mais próximo e ainda uma terceira vez mais próxima ainda. Numa questão de segundos três homens com cara de poucos amigos inrrompem pelo quarto sobressaltando ambas, e antes que eles fizessem o que quer que fosse Fiona sabia que haviam problemas à espreita.

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