Capítulo 24 - Mountbéliard
Naquela noite Fiona sentiu uma miscelânea de sensações completamente novas e até então desconhecidas para si. Nunca se esqueceria da noite em que se entregou a Louis de corpo e alma, sentindo pouco arrependimento por estar a ocupar o lugar da esposa dele.
Sentiu o peso do corpo de Louis sobre o seu, o toque das mãos grandes sobre a sua pele era como o toque do algodão, leve e suave. Não se deu ao trabalho de esconder a sua timidez e pelos vistos Louis não se importou com isso.
Nessa noite dormiu no seu quarto, após fazerem amor trocaram carinhos e conversaram, após isso Louis adormeceu profundamente e Fiona também. Naquele momento, sendo ainda de noite, Fiona estava sentada na cama fitando a pequena mancha vermelha no lençol, símbolo da perda da sua pureza, símbolo da perda da sua inocência, símbolo da sua entrega.
Observou Louis dormir por alguns minutos, naquele momento ele estava tão relaxado, tão belo e tão indefeso, era nestes momentos em que se apercebia do quanto o amava, e do quão errado isso era. Vestiu as ceroulas sem fazer barulho, ainda despida da cintura para cima caminhou até ao espelho de corpo inteiro e observou as marcas abaixo e nos seus seios, as marcas que mostravam que tanto ela como Louis se amaram nessa noite. Relembrou de como Louis se entregara, de como ele atingiu o ápice numa onda gigante de prazer e da cara de espanto que tomou conta do seu rosto antes de cair sobre o colchão e repirar com dificuldade acompanhado de Fiona. Após isso ele confessou-lhe que mesmo que se tenha deitado com outras mulheres esta era a primeira vez que sentia o limite do prazer a dois, e Fiona sentiu-se feliz por ter sido ela a proporcionar-lhe tal momento, mesmo na sua mais profunda inexperiência.
Agora Fiona estava marcada, estava marcada oficialmente como mais uma que se deitara com o rei. Ao virar-se para a cama deparou-se com Louis sentado a observá-la, caminhou até à cama e abraçou o rei, sentindo-se aconchegada pelos seus braços fortes enquanto ele a beijava do modo como mais amava: lenta e suavemente.
Passou a manhã com Anastácia, conversou, mas não falou da noite que teve nem do seu envolvimento com Louis, embora fossem amigas não se sentia segura a falar nisso pois havia ouvidos em todo o lado.
De tarde passeou no jardim com Louis do modo mais discreto que o momento permitia sentindo-se observada por todos os cantos, prestes a ser julgada e motivo de ódio, desprezo e falatório.
O casal sentou-se na beira da fonte na zona mais afastada do palácio, porém não fora da vista de terceiros, Fiona continuava em silêncio absoluto e Louis estranhava tal atitude.
- Esta noite vai haver um baile de máscaras na corte. - começou Louis cortando o silêncio sepulcral que estava instalado. - Quero que sejas a minha acompanhante.
Fiona fitou-o surpreendida e sem perceber o porquê de tal vontade, sentia que se aceitasse ia se expor mais do que devia, mesmo com uma máscara a tapar-lhe o rosto.
- Não sei Louis, eu não sou a tua esposa, quem devia acompanhar-te é ela não eu. - retrucou Fiona com voz suave fitando o rei.
- Mas isto não é um evento oficial, é apenas um pequeno encontro na corte com o tema de um baile de máscaras, logo não tenho que estar acompanhado da rainha, posso ir acompanhado da mulher que amo.
A condessa fitou o rei com um olhar a transbordar de incerteza, se não aceitasse iria desiludí-lo pois ele estava a depositar a sua confiança nela ao torná-la sua acompanhante, mas se aceitasse estaria a expor-se e correria o risco de ficar rotulada como meretriz ou cortesã do rei, e assim estaria a submeter-se a tudo o que a todo o custo tentava evitar.
Amava-o muito, e sentia-se honrada por ter o rei na sua vida, só não queria ter de se separar dele. Certamente não aguentaria a separação.
- Por favor Fiona diz que sim. - pediu Louis olhando para a dama com um olhar de súplica.
- E depois? Vão comentar, vão julgar, eu não estou pronta para levar com a língua afiada desta gente. - retrucou Fiona levantando-se.
Louis pegou na sua mão e puxou-a para perto de sí ao mesmo tempo que se levantava, fazendo o corpo de Fiona chocar contra o seu. Deu-lhe um beijo fervoroso movimentando agilmente os lábios sobre os dela.
- Para, alguém pode nos ver! - disse Fiona tentando afastar-se mas Louis apertou-a mais nos seus braços.
- Para de te preocupar com as linguarudas da corte Fiona!
- E a Kira? E se ela nos vê? Se assim acontecer ela faz a minha vida num inferno.
- Não deixarei que isso aconteça. - garantiu Louis beijando a sua testa. - Agora quanto à minha pergunta, ainda não respondeste ao meu pedido. Aceitas ou não?
- Aceito sim, e só espero que corra tudo bem. - disse Fiona num suspiro.
- Irá sim, e o máximo que as outras mulheres poderão fazer é sentir inveja da mulher linda que tu és. - disse Louis e Fiona sorriu, e apanhando-a distraída aproveitou para lhe roubar outro beijo, desta vez mais demorado que o anterior, sem qualquer resistência por parte da dama.
Louis aproveitou a hora de almoço para organizar a papelada no seu escritório, mal conseguia ver a secretária com o amontoado de papéis espalhados que lá tinha em cima, relatórios pontuais dos consulados, apontamentos pessoais, papéis de contabilidade e muitos outros.
Estava a organizar os papéis referentes aos condados de França que esteve a analisar à umas noites atrás, tendo lá ficado esquecidos, organizou-os por ordem alfabética, pegou no arquivo e pousou-o em cima da mesa organizando e guardando lá os documentos.
Após guardar os documentos referentes ao condado de Marselha Louis folheou as páginas até encontrar o condado de Montbéliard. Imediatamente pegou nas folhas preparando-se para ler tudo o que dissesse respeito àquele condado.
A primeira folha continha a árvore genealógica da família inicial do condado, os Rodríguez. Ela começava em Ramón Rodríguez, o vassalo do rei, a par dele vinha a esposa lady Julliete de Toulouse, a partir deles surgia um novo ramo onde marcava que ambos só tiveram um filho, Lucien Rodríguez. Por sua vez ele casou com lady Colette de Rennes e com ela teve três filhos, os gémeos Esteban e Mercedes e Phillipe Rodríguez. A partir daí não havia registo dos herdeiros de cada um.
Na página seguinte continha a história e o relato da família e do condado, página que imediatamente começou a ler:
"O condado de Montbéliard foi um dos poucos condados, ducados e marquesados que ficaram sob os domínios da coroa. Com a chegada de Lorde Ramón Rodríguez, cavaleiro espanhol que prestou grandes serviços à coroa francesa, foi-lhe presentiado o dito cujo condado como recompensa pelos serviços. Também lhe foi entregue em casamento lady Julliete de Toulouse, filha do marquês de Toulouse. Juntos tiveram um único filho e o seu nome é Lucien Rodríguez de Montbéliard.
Posteriormente lorde Lucien, com a sua prometida Colette de Rennes, teve três filhos, sendo os dois mais velhos gémeos, e os seus nomes são Esteban, Mercedes e Phillipe Rodríguez de Montbéliard, sendo o seu legítimo herdeiro Esteban Rodríguez.
Há registo de uma desavença entre o conde Lucien e o filho varão, a princípio o motivo manteve-se oculto mas aprofundando-o um pouco mais veio à tona o caso amoroso que Esteban mantinha com uma camponesa espanhola emigrada em França, soube-se que em nenhum momento Esteban negou os factos, o que aumentou a ira de lorde Lucien que exigiu o fim do caso com a camponesa, sendo recusado prontamente pelo filho. Acusando o filho de estar a pôr a linhagem e a dinastia Rodríguez em risco por mero capricho Lucien acabou por deserdar Esteban alegando estar a fazer o melhor para a família. Inconformada com tal decisão Mercedes deixou claro que apoiava o irmão plenamente e achava injusto o que o pai estava a fazer com o irmão levando Lucien a deserdar a filha também, deixando assim o filho mais novo, Phillipe de Montbéliard como herdeiro oficial do condado.
Pouco tempo mais tarde o conde aposentou-se devido a uma doença terminal deixando-o acamado, a partir daí o filho mais novo ajudava a gerir o condado. Poucos dias antes de concluir dois meses que estava acamado Phillipe morre num acidente de caça e dois dias depois Lucien morre deixando Colette regente de Montbéliard. Com a perda do marido e do filho e a falta de contacto com os filhos mais velhos revela-se demais para aguentar, e uma semana mais tarde a condessa sucumbiu a uma depressão profunda sendo sepultada no mausoléu da família numa cerimónia fúnebre íntima. Quanto aos filhos deserdados não há registo do local para onde foram".
Louis parou a leitura refletindo sobre o que lá estava escrito. Flashbacks da conversa que teve com Fiona apareceram na sua mente e o que ela lhe contou, comparando com o que leu, batiam certo em muitos fatores. A certeza começava a ficar cada vez mais nítida na sua mente mas precisava ter a certeza antes de tirar conclusões precipitadas. De entre alguns papéis caiu um em cima da secretária com mais texto referente à família em questão, imediatamente pegou no papel e leu o conteúdo:
"A pedido do duque de Reims, amigo da família Rodríguez, eu realizei uma investigação sobre os filhos do conde Lucien, nomeadamente para onde eles foram após serem expulsos de casa.
Através de populares e responsáveis do porto de Marselha foi confirmado que viram os gémeos embarcarem num navio para fora de França, tendo descoberto que o destino era Espanha.
Viagei até lá, segundo os meus dados eles seguiram para Sevilha, em Andaluzia, lá falei com o pároco local onde ele me mostrou um certificado paroquial do casamento de Esteban Rodríguez com Milene Fuentes, a mulher com quem ele mantinha um caso em Montbéliard. Quanto à irmã soube que ela casou com Marco de Landa indo com ele viver para Málaga. Quanto a Esteban, ele e Milene tiveram apenas uma filha, chamada Fiona, eles vivem inteiramente do trabalho no campo visto terem chegado a Espanha sem um tostão. Quanto à filha, como o herdeiro estipulado no testamento era Phillipe, com a morte dele sem herdeiros o seu legado ficou anulado sendo o herdeiro legítimo o filho ou filha do filho varão, logo Fiona é a legitima herdeira do condado e, se assim for a vontade da mesma, poderá assumir o comando do condado.
Isto foi tudo o que descobri, espero que seja suficiente esclarecedor."
A carta que lera não estava assinada, mas mesmo assim foi esclarecedora, de modo que se Louis tinha alguma dúvida agora não tinha mais.
- Agora só falta saber como lhe vou contar.
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