Capítulo 2 - Mudança de planos
Fiona acordou já passava da hora de almoço, colocou um vestido branco simples sobre o espartilho, deixou os cabelos soltos e desceu até à cozinha. Lá encontrou a sua tia que assim que a viu sorriu-lhe.
- Ah já acordaste, os teus pais já almoçaram mas guardamos comida para ti, eu sei que gostas muito de paella.
- A tia conhece-me mesmo bem. -disse Fiona sentando-se à mesa. - E os meus pais onde estão?
- Foram tratar dos cavalos para
ficarem prontos para logo. - explicou Mercedes. - Partirão dentro de uma hora.
- Tão cedo?
- Sim, o teu pai quer chegar ao porto e apanhar o barco o quanto antes.
Fiona assentiu e começou a comer a sua divina paella, como Fiona adorava paella só Deus sabia.
Após terminar de almoçar ajudou Mercedes a arrumar a cozinha.
- Fiona? Posso falar contigo um momento? - disse seu pai aparecendo na cozinha.
- Claro papá. - assentiu seguindo-o para a sala.
Chegaram à sala mas o seu pai permaneceu em silencio fitando o exterior através da janela perdido em pensamentos, parecia que não sabia como começar. Quando virou-se para fitar a filha lágrimas banhavam-lhe o rosto, caminhou até ela, ajoelhou-se à sua frente e agarrando-a pela cintura encostou a cabeça à barriga da filha e chorou. Fiona ficou perplexa com aquela reação do seu pai, nunca nos seus vinte e dois anos de vida viu o viu a chorar, e com isto ficou totalmente sem reação.
- Perdoname mi amor. - pediu seu pai com a voz embargada abafada pela sua barriga. - Peço-te por Deus que me perdoes por te colocar a ti e à tua mãe nesta situação, não queria que nada disto estivesse a acontecer conosco não era minha intenção...
Fiona baixou-se ficando cara a cara com o seu pai, passou-lhe os polegares pelas faces para lhe secar as lágrimas e abraçou-o ternamente.
- Não há nada para perdoar papá. - disse acariciando os cabelos do pai. - Nada disto foi escolhido por nós, o destino escolheu este rumo para as nossas vidas e devemos seguir o que ele nos demanda. Além do mais, eu sei que só quer o melhor para mim e para a mamã, por isso não me peça perdão quando não há nada para perdoar, eu não estou zangada consigo nem com ninguém.
- Não estás zangada comigo mesmo?
- Claro que não. Deixamos a nossa
casa? Sim. Deixamos tudo para trás, o nosso modo de viver, para irmos para um local totalmente desconhecido para começarmos uma nova vida? Sim. Mas eu não vejo isto como uma coisa má, eu olho para tudo isto como uma aventura da qual vou adorar viver. Embora sinta-me assustada com o que possa estar por vir apenas procuro ver o lado positivo da situação.
Esteban abraçou a filha tão apertado que quase a deixou sem ar. Fiona sentiu as lágrimas nas suas costas e embalou o pai nos seus braços até ele se acalmar. Sabia que no fundo, por mais vezes que o desmentisse, o seu pai não deixaria de se sentir culpado pela situação da família Rodríguez, mas não devia. Não era culpa dele por não terem dinheiro suficiente para pagar os impostos ao rei, nem todos eram ricos mas ao que parece era coisa que o rei não via.
- Não sabes como me enches de orgulho mi hija. Nunca nunca nunca vou me cansar de dizer o quão orgulhoso estou por ter uma filha como tu, forte, trabalhadora e honesta.
Enquanto isto Mercedes observava tudo na entrada da sala e os olhos encheram-se de lágrimas, mas não as largou. Ficava contente por ver que Esteban tinha uma filha como Fiona, muitas outras jovens nestas situações virariam costas aos pais ou os culpariam eternamente, mas deixava-a contente saber que Fiona não era assim, e era por isso que ela era especial.
Em momentos difíceis é essencial que a família permaneça unida, que lute em equipa para superar as adversidades, assim aconteceria com a família Rodríguez enquanto lhes fosse possível.
Uma hora mais tarde Fiona e seus pais preparavam-se para partir com destino ao porto de Málaga onde depois rumarão a França, e fariam apenas uma paragem pelo caminho.
- Façam boa viagem meus queridos. - disse Mercedes ao aproximar-se do irmão.
- Nunca te poderei agradecer pela ajuda que nos deste mi hermana. - disse Esteban abraçando Mercedes.
- Não tens nada a agradecer, foi um prazer ajudar-vos.
- Esteban tem razão. Se não fosses tu não sei o que faríamos. - disse Milene pegando na mão da cunhada. - Muito obrigada Mercedes.
- De nada, tomem cuidado e mandem notícias.
Os três assentiram, subiram para os cavalos e partiram. Fiona tinha uma sensação de que algo não estava certo, mas queria acreditar que era apenas paranóia sua. Não podia negar que estava com receio de como seria a sua vida a partir do momento em que chegasse a França, era um país diferente, cultura diferente, pessoas diferentes, língua diferente... Tudo era diferente. Não sabia o que a esperava mas pedia a si mesma que fosse capaz de se adaptar à sua futura nova vida.
Um grande desejo seu, é mais um sonho do que um desejo para dizer a verdade, era poder dedicar-se à dança, dançar as sevilhanas era a sua grade paixão e vocação e queria dedicar-se a isso a tempo integral, mas precisava de se focar noutras coisas, uma delas era ajudar os seus pais. Por muito que lhe custasse devia-o a eles que, com bens escassos tanto fizeram por si.
Faltava pouco para o anoitecer, faltava cerca de uma hora meia para o último navio do dia partir. Fiona e os seus pais pararam perto de um casebre abandonado a cerca de um quilómetro e meio do porto para descansarem antes de continuar o caminho.
Fiona desceu do cavalo e viu o seu pai descer e ajudar a sua mãe a descer também. Fiona olhou em volta, em breve anoiteceria por isso precisavam de se apressar para chegar ao porto e embarcarem, mas o mau pressentimento permanecia e o que a assustava mais é que os seus maus pressentimentos raramente estavam errados, isso a apavorava a ponto de sentir todos os pelos do seu corpo arrepiados.
- Fiona? Está tudo bem?
Fiona voltou-se e viu os seus pais a fitá-la com expressões curiosas no rosto. Quem falou foi a sua mãe.
- Sim, espero que sim. - respondeu pouco certa do que dissera.
- Algo te preocupa?
- Não... Quer dizer sim... Quer dizer não sei, tenho um mau pressentimento, como se algo de mau fosse acontecer. - Fiona já nem sabia o que pensar, estava com receio de que o seu mau pressentimento se concretizasse e rezava mentalmente para que estivesse enganada.
- Não te preocupes, tudo vai correr bem. - Milene tentava tranquilizar a filha, mas ela mesma temia que tudo isto fosse em vão.
Milene olhou para o marido e fitou o seu olhar azul e cristalino em busca de apoio, como amava aquele homem só ela sabia, e recordar o que ele fez por si, bem como olhar para a filha linda que ele lhe deu, só servia para fomentar a sua certeza de que o sentimento era mais do que correspondido, embora nunca tivesse duvidado.
Ficaram em silêncio, as suas coisas permaneciam no cavalo pois não acharam necessário retirá-las. De repente um barulho distante faz-se ouvir, a princípio nenhum dos três foi capaz de identificar o som, mas à medida que o barulho se tornava mais próximo foi-se tornado possível identificá-lo: cascos de cavalos.
Esteban levanta-se de um pulo e Milene e Fiona fazem o mesmo, Esteban parece congelar no tempo pois olha fixamente para o local de onde vieram momentos antes. Nesse momento soube que o seu mau pressentimento estava certo.
- O que se passa Esteban? - perguntou Milene receosa.
- Shhh... São eles! - disse Esteban quase num sussurro.
- Tens a certeza?
- Tenho. Rápido, tu e a Fiona peguem nos cavalos e sigam para o porto! - disse Esteban exaltando-se.
- Nem penses que vamos deixar-te para trás papá. Estamos nisto juntos. - retrucou Fiona fitando o pai.
- Ela tem razão Esteban, não vamos deixar-te para trás. - disse Milene.
- Por favor vão, vocês podem salvar-se se...
- Não discutas, eu não vou a lado nenhum! - retrucou Milene fitando o marido decidida.
Esteban olhou para a esposa e depois para a filha e suspirou.
- Tudo bem. Fiona pega no teu cavalo e sai daqui.
- Não, se a mamã fica eu também fico. Não posso deixar-vos para trás! - Não ia abandonar os seus pais, nem que isso significasse a sua morte.
- Fiona imploro-te, pega no cavalo e vai para o porto, não falta muito para o navio zarpar e daqui a nada eles estão aqui. Por tudo o que é mais sagrado, vai!
- Não posso! Peça-me qualquer... Qualquer coisa menos... Menos isso. - Fiona já nem conseguia falar com os soluços do choro.
- O teu pai tem razão Fiona, ainda tens a oportunidade de fugir, vai e vive a tua vida. - disse Milene.
- Diz isso como se eu nunca mais vos fosse ver.
- Vai lá, vive a tua vida e sê feliz minha filha. - disse Esteban beijando-lhe a testa. Milene aproximou-se de Fiona e abraçou-a.
- Faz o que eu te peço meu amor, e lembra-te: nós amamos-te muito independentemente do que possa acontecer. Nunca te esqueças disto. - disse Esteban beijando a testa da filha com carinho e com o coração nas mãos.
Fiona fitou os pais com o rosto banhado pelas lágrimas, subiu para o cavalo e a toda a velocidade galopou até ao porto... Sem olhar para trás.
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