5

Luigi


— O que você acha?

Pergunto após Dante deixar os visitantes no chalé deles e assaltar minha geladeira pegando cerveja para nós.

— Esses dois são problemas. — Me entrega uma garrafa.

— Não senti cheiro de mentira no garoto.

— Ele nem sabe controlar o dom que tem. — Dá de ombros se jogando em outra poltrona. — Mas não é esquisito essa situação deles?

Suspiro assentindo com a cabeça.

Dante sempre foi meu fiel amigo antes mesmo de nos transformarmos e permanece como meu braço direito, me ajudando a tomar as melhores decisões para a alcateia.

Eu gosto da ideia de ser Alfa Supremo, desde quando meu velho abdicou do seu posto de Supremo da Península Itálica, faço de tudo para não falhar. Por sorte as alcateias espalhadas pela nossa região me aceitaram bem e me ajudam a manter os seres sobrenaturais em harmonia.

— A única coisa que me vem à mente, é aquela história dos Osborne. Lembra?

Puxo na memória a história que deu baita repercussão quando ocorreu, antes mesmo de termos nascido, mas que até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu.

— São muitas teorias, nenhuma comprovada. — Digo dando um gole na bebida.

— Ainda acho que a mulher se rebelou contra o marido e fugiu levando o filho junto. Ela ajudava outros seres sobrenaturais, só que o traste do marido era contra.

— O cara era impiedoso, dava muitos problemas ao Alfa Supremo do Canadá e infelizmente, sua única filha era companheira dele.

— Nem das fadas ele gostava. — Dante concorda.

— Eu ainda acho que ela foi sequestrada por algum demônio. Muitos diziam que ela se deparou com um nas andanças.

O cara loiro a minha frente se levanta indo pegar mais duas garrafas. Só assim para ficarmos mais relaxados e tentar desvendar mais um mistério que passa pela alcateia. Não vejo problema em ajudar aqueles que precisam, desde que não nos coloque em risco. Esse lado caridoso devo a minha mãe, a mulher sempre foi muito caridosa, detalhe que fez meu pai se encantar mais por ela, além da ligação de companheiros.

— Se fosse só o Keiko, até diria que ele pode ser o neto do Osborne, só que tem a garota.

— Já se deparou com um demônio?

O questiono aceitando a garrafa, porém minha atenção se volta aos livros ao nosso redor, precisamente na sessão de demônios. O mundo sobrenatural é tão complexo e cheio de surpresas, que por mais que esses livros sejam passados de geração em geração para atualizações, ainda não é o suficiente para sabermos tudo.

— Claro que não! — Exclama como se fosse o óbvio. — Foram banidos de volta ao inferno por quebrarem os tratados de paz. Por que? Você já?

A pergunta foi feita em tom ameno. Então apenas o encaro com um pequeno sorriso de canto, tentando decidir qual livro vou buscar informações.

— Nós Supremos temos uma áurea demoníaca, para quando precisarmos descer naquele lugar horrendo. — Me refiro ao inferno. — Quando olho nos olhos dela, é como se ela também tivesse.

— Cara não viaja. Você só está com essa paranoia porque não achou sua companheira.

O tom de voz de meu amigo não foi nada ofensivo, ainda assim soltei um rosnado devido o assunto. Ele melhor que ninguém sabe o quanto isso me afeta. Antes mesmo de assumir o posto de Supremo a procurei, até me atrevi procurar fora da Itália, eu queria estar completo antes de assumir essa baita responsabilidade.

Meu peito sempre dói, quando a noite olho para a Lua sem minha companheira do meu lado. Não vejo a hora de me livrar dessa sensação de vazio.

— Foi mal cara. Só acho que devia pegar leve com ela, até o irmão dela se coloca na frente quando você está por perto.

— É, ele é bem ciumento. — Murmuro. — Mas voltando ao assunto da áurea, posso estar errado, porém é o que sinto. O problema é que ela teria que ser filha de um Supremo.

— Só que então o garoto que deveria ter essa característica, ele é o mais velho. E se fosse mesmo filho ou neto de um Supremo, ele seria um monstro como você.

— Adoro quando começa com suas piadas. — Digo indiferente revirando os olhos, mesmo que ele não veja. — Apesar de que ele tem também, mas e se ela fosse filha de uma loba com demônio? Sabemos que são de pais diferentes.

— Às vezes parece que você esqueceu tudo o que aprendeu. Seria impossível esse relacionamento. Nunca na história isso aconteceu. — Rebate exasperado.

— Sem contar que devido a ligação, a loba não poderia simplesmente ir embora. Os dois morreriam. — Complemento.

— A menos que tenha uma bruxa de uma linhagem muito poderosa no meio e se tratando de demônios, muitas coisas foge do que sabemos.

O silencio chega ser irritante depois dessas especulações.

— Eu deveria ganhar o posto de Supremo do tanto que me faz queimar os neurônios.

— Não veja abusado.

Devolvo na prateleira o livro que havia pego novamente, sem obter nenhuma informação. Apesar de que...

— Acho que deveríamos chamar a Trice.

— Aquela bruxa medonha?

Os olhos castanhos de Dante quase saltam para fora e me permito zomba-lo. O cara morre de medo dela, não nego que ela tem uma aparência assustadora, só que ele é o único que não consegue disfarçar o medo.

— Vamos precisar dela para saber daquele colar. Temos várias teorias e nada concreto.

Tiro o chinelo e a camisa que uso, além de soltar meu cabelo da xuxa preta.

— Aonde vai?

— Visitar meu velho, preciso saber se ele se lembra de mais alguma história mirabolante.

Movo meus ombros sob o olhar atento de meu amigo.

— Você não deveria ir atrás da Candice?

Me refiro a sua companheira, o que o faz cruzar os braços com um bico em sinal de birra.

— Ela está brava comigo.

— O que você aprontou? — Ergo uma sobrancelha.

— Por que sempre acha que eu aprontei? — Me observa incrédulo.

— Da última vez você quebrou um prato, e agora?

— Toalha molhada na cama. — Resmunga.

— Boa sorte. — Solto uma risadinha quando ele bufa.

— Nem para me defender você serve. Quero ver quando estiver com a sua com...

Dante se cala no mesmo instante com os olhos arregalados e um sorriso amarelo.

— Tá tranquilo cara.

Saio de casa e observo tudo ao redor, puxo o ar úmido da noite com força para meus pulmões, ao olhar para o céu, admiro rapidamente as inúmeras estrelas espelhadas. Uma beleza que o ser humano nunca poderá estragar.

E então, sob minha vontade e a força que faço, em uma nuvem de poeira preta me transformo em lobo. Minha visão ampliada a cada detalhe ao meu redor, o vento em meus pelos o movendo lentamente, o cheiro de frescor. Que a Deusa Selene me abençoe sempre, pois eu amo o que sou.

Dou uma volta rápida na vila, apenas para confirmar quem ainda estava ao redor do que restava da fogueira, ou de guarda e me posicionei a correr, entrando no meio da mata e dos enormes espinhos indo em direção a cidade.

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