1
Ayla
Tirol do Sul tem a mais bela vista que já vi nesses anos de fuga. A pequena província ao norte da Itália tem sido meu esconderijo nos últimos dois dias e eu vou sentir falta daqui, não tenho palavras para elogiar as Montanhas Dolomitas que se estende por toda região a vários quilômetros da cidade, sem contar os enormes pinheiros nessa extensão que rodeiam um enorme lago do qual não consegui explorar totalmente.
E nessa nostalgia que entrego a última cartolina com o desenho das montanhas para um morador da região, ele me entrega o dinheiro e fica um bom tempo olhando o grande papel em suas mãos, admirando o desenho que modéstia parte, fiz com todo meu coração, exaltando toda a beleza do lugar.
Confiro o dinheiro que arrecadei nesses dois dias e fico tranquila, é mais do que esperava e posso comprar algumas camisas para meu irmão. Aquele malandro esquece de tira-las quando está empolgado e se transforma naquela bola de pelo de quatro patas. E por falar nele, vejo se aproximar de mim pela larga rua de pedras com um belo sorriso nos lábios.
— Vamos monstrinho, as lutas vão começar daqui a pouco!
Reviro os olhos sem conter meu sorriso pelo apelido que na infância, usava para me insultar devido nossas diferenças, mas hoje usa com carinho.
— Quantas vai lutar? — Questiono.
— Consegui duas, a primeira acho que venço de boa, mas a outra fizeram muito suspense sobre o cara. — Dá de ombros.
Vou até uma pequena falha na parede alta de pedra, das antigas estruturas medievais e pego minha mochila, a que guarda nossos pertences mais preciosos como documentos e dinheiro.
Keiko, meu belo irmão de quase um metro e oitenta, pele morena de olhos castanhos claros, um sorriso estonteante que usa para flertar com as nativas, se aproxima pegando a outra mochila maior que ficam nossas roupas.
— Vamos embora assim que as lutas acabarem, tem lobos na região.
Percebo um pouco de aflição no seu tom de voz e concordo. Não podemos levantar suspeita, principalmente se notarem um lobo foragido.
— Por quanto tempo acha que vai conseguir participar dessas lutas clandestinas?
Pergunto quando começamos a caminhada para o centro da cidade, passando por entre várias barraquinhas de mercadorias nas ruas mais estreitas e observando todas as lojas chiques nas ruas mais largas.
— Não sei meu limite Ayla, então quando eu perceber que não dá mais, eu paro. — Percebo seu descontentamento.
Keiko pode me dizer isso quantas vezes quiser, mas sei que não quer. Em qualquer canto que paramos ele vai em busca dessas lutas, primeiro por que diz que precisa já que em infelizmente esse bando de lobos que estão atrás de nós podem nos alcançar e saberá nos defender. Segundo, pela grana, eles pagam muito bem e com isso dormimos e comemos bem. Terceiro, para gastar energia, já que nem sempre se transforma e seu lobo fica louco querendo sair.
— Hum, tem um turista de olho em você.
Murmura quando passamos por um grupo de pessoas entusiasmadas com coisas de uma barraquinha, eu como não sou nada discreta, olho diretamente para o rapaz que acabou de me olhar de cima a baixo e sorri para mim, porém mostro língua e fica nítido seu desgosto. Escuto a risadinha de Keiko ao meu lado e o olho cumplice.
— Nem preciso te defender com você agindo assim.
Dou um soquinho em seu braço que dá quase três do meu.
— É capaz de você se transformar e arrancar a perna dele se eu flertar.
Digo com graça e em troca recebo um olhar de repreensão, não consigo segurar minha risada.
— Ele poderia achar que sou sua namorada, oras. Muitos acham isso.
— Ah monstrinho, do jeito que os humanos são descarados, ele iria chegar perto de você do mesmo jeito. Vamos por aqui. — Rapidinho muda de assunto. Peste.
Passando o braço direito pelo meu pescoço, me puxa para uma rua mais estreita que as outras, onde de longe vejo seis homens mal-encarados fazendo escolta em uma pequena porta preta. Apenas observo Keiko entregar um cartão a um deles, sem me soltar, com a pose de superioridade até finalmente entrarmos.
Minha visão logo se acostuma com a escuridão do local, mesmo que não tenha me transformado como meu irmão nos quinze anos e por isso ele me chama de monstrinho, minha visão, audição e olfato são um pouquinho mais apurados do que de um humano normal.
Se esse salão tem duas janelas é muito, o teto é tão alto que as lâmpadas não conseguem iluminar muita coisa, o cheiro de suor é forte e meu estomago até embrulha. Não me espanto em ver algumas mulheres no meio dos homens gritando enquanto uma luta acontece no ringue mais ao fundo, lá sim a iluminação é mais forte, porém, não consigo ver muito com toda essa gente aglomerada.
Meu irmão entra por uma portinha e a diferença do lugar é assustadora. Minha atenção é arrancada do lugar quando Keiko entra na sala como se conhecesse bem o lugar e pega minha mochila, guardado junto a outra em um armário. Está tão empolgado para as lutas que não consegue conter o sorriso, só que diferente dele não me sinto tranquila com essas lutas, hoje não. Se eu disser algo, ele ficará visivelmente triste e bravo, já que da última vez que isso aconteceu, acabou lutando contra outro lobo e perdeu.
Sou guiada para fora da sala por outra porta, que nos leva mais para perto do ringue, Keiko me puxa pela mão até o meio da multidão que grita enlouquecidamente enquanto a contagem chega a zero e um dos lutadores sobe nas grades gritando por ter vencido, o cara é um monstro de enorme.
— Daqui você me vê e eu te vejo, qualquer coisa soca a cara do imbecil.
Grita no meu ouvido para que o escute devido a gritaria que não para, assinto e o perco de vista quando se afasta não deixando de sentir medo. Espero que ele não lute contra esse cara que acabou de ganhar.
Meu coração está a mil com toda essa adrenalina, quem me olha acha que sou uma pessoa encrenqueira, principalmente por meus olhos serem tão pretos quanto a própria escuridão e ainda parecer que uso lápis de olho, o contraste perfeito para minha pele branca. Na verdade, eu sou pacífica e o único momento que fico confortável com briga é quando meu irmão da uma bela surra em seu adversário e grita como louco comemorando.
Como agora.
O grito que sai da minha garganta chega a machucar, pulo e bato palmas gritando por seu nome, ele joga beijo pra mim e grito mais. Isso é um alivio para o pressentimento que tive.
Não consigo falar com ele antes da segunda luta, mas consigo vê-lo descansando do outro lado, conseguiu até beber água. Quando o chamam de volta, percebo que está bem, praticamente não apanhou do outro e não para de pular para se aquecer. Ao chamarem o outro lutador, quase fico surda pela gritaria, o dobro do que estava antes e fiquei tão aturdida, que tive a impressão de escutar um uivo.
O adversário faz muito suspense, sobe no ringue usando uma capa preta, percebo a postura de Keiko mudar, ele não me olha nem quando rezo baixinho para fazer tal, preferia que desse pra trás e desistisse, sua aflição é nítida. E quando o desconhecido tira a capa, meu coração para pôr um minuto, um arrepio percorre meu corpo ao encarar o rosto bem marcado, o físico nem tanto, naturalmente os lobos usufrui de impecável porte físico, mas a força de presença dele é assustadora.
E quando volto a mim, Keiko acabou de ser derrubado com um soco e até seu sangue é arrancado.
— Acaba com ele Keiko!
Grito a pleno pulmões, ele me olha antes que o monstrengo o pegue, tento me aproximar mais, porém sinto um puxão em meu pescoço e consigo segurar o colar a tempo. Olho para trás e encaro com fúria o cara barbudo que arregala os olhos, ele até tenta puxar o colar de minhas mãos, dou um sorrisinho debochado e com minha mão esquerda fechada em punho, dou um soco na cara dele. O mané se desiquilibra e aproveito para fugir, me agarro a grade do ringue, o cenário agora é outro.
O adversário que me faz suspirar involuntariamente, está olhando ao redor, o semblante confuso, como se procurasse algo. Foi o necessário para meu irmão se recuperar e dar uma boa surra nele, o colar pesa em minha mão.
— Droga!
Me apresso em colocá-lo. Tia Freya adorava colares e meu amuleto de proteção é um, eu particularmente preferia anel. Como sinto falta daquela bruxa.
Volto minha atenção a luta depois de fechar o colar, grito de alegria por meu irmão estar conseguindo lutar bem, o outro cara parecia meio perdido, como se não esperasse apanhar. O que dura pouco. Meu irmão é golpeado das costelas com muita força, perde o ar e o equilíbrio, o que é suficiente para me deixar maluca querendo encerrar essa luta. Grito que o golpe não vale, só que alguém grita que tudo vale aqui dentro e meu desespero só aumenta. O rival babaca dá uma chave de braço, com as pernas pressionando o tronco do meu irmão, seu rosto está tão vermelho que começo a chorar.
— Solta ele. — Murmuro sentindo as lágrimas escorrerem.
Peço a Deusa Selene, segurando o pingente do colar, um soluço escapa de minha boca no meio dessa multidão que com toda euforia começam a contar chegando ao zero. Então meu irmão é solto, está desmaiado no chão, enquanto que dois caras sobem em socorro do ganhador querendo ampara-lo, mas ele recusa e volta a encarar toda a plateia minuciosamente.
Seus olhos param nos meus. O encaro com braveza, ele pode não saber que o rapaz desmaiado no chão é meu irmão, só quero que saiba que alguém não vibrou pela sua vitória.
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