Vinte e um
— Então, Sra. Bascher, como conhecem o Sr. Philip?
— Oh, por favor, minha querida, vamos esquecer por um momento as formalidades — a senhora sorriu de maneira insinuativa, sabendo bem diante de quem ela estava. — Chamo-a apenas de Flora e a senhorita me chama de Ana.
Flora seria incapaz de se contrapor a uma sugestão feita de maneira tão gentil, principalmente por aquela mulher que a acolhera tão bem desde o primeiro momento em que a viu. Em resposta, a princesa tocou a mão dela.
As duas encontravam-se no salão do chá aguardando a entrada dos cavalheiros que permaneciam reunidos no escritório do Sr. Bascher.
— Philip é muito querido por nossa família, como deve ter percebido — Ana respondeu com um brilho no olhar. — Simon e ele estão há muito tempo servindo ao nosso querido rei.
Flora demonstrou surpresa com a revelação.
— A senhora é uma cidadã de Or?
— Não por nascimento — Ana respondeu calmamente. — Fui aceita pelo nosso soberano e possuo atualmente o título. Simon nasceu e cresceu na mesma província da família de Phil.
A alma de Flora se agitou. Lembre-se, querido leitor, de que nossa heroína tem tendência a render-se à curiosidade e creio eu que esse momento será excelente para revelar alguns pormenores sobre o nosso herói.
— Ana, eu não quero parecer intrometida — Flora disse e mordeu o lábio inferior, depois se remexeu no assento. — Eu ouvi muitas coisas, mas ainda não compreendi nada.
A senhora, prevendo as perguntas que se seguiriam, não poderia ter ficado mais satisfeita. Havia, diferente de Philip, ignorado o fato de a menina ser a princesa do reino, e a considerou muito agradável, gentil e bondosa. Também não tinha escapado de seus atentos olhos o genuíno interesse demonstrado pelo corajoso guilbor.
— Pergunte o que quiser, prometo responder tudo da melhor maneira possível — ela falou e pensou um pouco. — Desde, é claro, que não fira algum segredo a mim conferido.
Flora pensou um pouco, tentando decidir o que era mais importante saber dentre todos os sues questionamentos.
— O que Philip faz exatamente?
— Ora, ele não te disse? — Flora negou com a cabeça. — Ele é um mensageiro do rei Chesed. Aliás, ele é um dos homens de mais confiança do rei. As mensagens que Phil leva às pessoas são de extrema importância.
— Mas qual o teor dessas mensagens? Por que elas importam tanto?
Os lábios de Ana se abriram revelando dentes brancos e alinhados.
— Conhece a história da grande Guerra de Qualah, quando os quatro reinos se dividiram? Foi também quando o Tratado de Berit foi assinado pelos três reinos, Or, Ach e Goi, no mesmo tempo em que Acher declarou oposição aos reinos aliados.
— Oh, minha preceptora me fez debruçar sobre os livros de história, embora, confesso, nunca demonstrei muito interesse com o passado. — Flora desviou os olhos, envergonhada, ciente de que aquela revelação sincera denunciava como era uma péssima princesa. — Sempre pensei no futuro e o que ele me traria.
Ana deu leves batidas na mão da jovem, demonstrando compreensão e apoio.
— Bem, após a guerra, deve saber como as províncias de todos os reinos ficaram devastadas. Crianças perderam os pais nos conflitos, famílias inteiras privaram-se de suas esperanças, do sustento, de suas terras. Foram longos anos para que as coisas pudessem ser restabelecidas, anos devastadores para todos.
— Eu sinto muito por esse tempo — Flora lamentou. — Fergie me contou, certa vez, da visita que fez a um orfanato e pode me descrever com tristeza a situação das crianças órfãs. Penso como foi a dor de tantos que perderam seus familiares durante a guerra.
Ana apertou os lábios. Aquele assunto, em especial, lhe era penoso abordar, dado o conhecimento do sofrimento de alguém tão próximo a quem estava prestes a falar.
— Bem, depois do tratado, Or tornou-se um refúgio para as pessoas sem esperança. Nosso Reino abriu as portas para receber todos aqueles que, segundo os critérios de vossa majestade, aceitando as condições impostas pela nossa lei, pudessem fazer parte de nossa nação e receberem o título de cidadão, ainda que fosse um guer.
Ana levantou-se e caminhou até uma mesa no canto da sala, pegando em suas mãos o grande livro da lei de Or.
— "Qualquer um, independente do passado e de sua conduta anterior, se convocado pelo Rei, se comprometer a obedecer a Lei da Luz e a partir dela conduzir o restante de sua vida, será legitimado como cidadão de Or, naturalizado, recebendo junto com o título o direito a um pedaço das Terras da Herança, repartidas segundo o serviço prestado a seu país" — Ana leu o trecho escrito no livro de capa de couro preta em sua mão. — Eu sou uma dessas pessoas citadas aqui.
Flora estava muito confusa e isso estava nítido em sua feição e na falta das palavras em sua boca. Ana voltou a se sentar e confiou o livro à jovem princesa.
— Há anos milhares de pessoas foram agraciadas com a possibilidade de serem aceitas e conduzidas a uma nova vida no nosso reino. Phil também faz parte dessa contagem.
— Ele não é de Or? — Flora indagou ainda mais surpresa. — A que Reino pertence?
— Ninguém sabe, exatamente, dada as circunstâncias de sua vida. Phil foi encontrado, ainda em idade tenra, por seu pai adotivo, o grande Sr. Baruch. Sua mãe jazia morta na estrada que liga Or ao porto de Acher. — Ana engoliu em seco, lembrando-se do relato daquele fatídico dia. — Tudo indica que ela foi... Foi morta por um caçador vermelho de Acher. Ela tinha uma marca na mão, usada para identificar as servas dos grandes senhores dessa nação violenta. Provavelmente era uma jovem foragida, tentando escapar das péssimas condições de vida naquele reino.
— E Philip? — Flora levou uma das mãos ao coração pensando na pobre criança.
— Phil estava adormecido no colo da mãe, já morta. Creio que ele foi poupado de assistir o assassinato, já que havia um esconderijo próximo onde havia alguns pertences do menino.
— Oh, pobre criança! — Flora tentou imaginar o cavaleiro forte e destemido sendo ainda um garotinho vivendo aquela triste situação.
Ana suspirou e então se forçou a sorrir.
— Ele foi amado e acolhido pela senhora De Baruch no instante quando foi recebido em sua casa. Benjamin de Baruch era um dos homens leais do nosso rei e apelou à Lei da Luz pedindo pelo direito a adoção e a cidadania a Philip.
— Que foi concedida, posso imaginar.
Ana sorriu novamente, recordando-se do pequeno e alegre Phil.
— Ele cresceu rodeado de amor, inserido em uma nova família, recebeu uma herança e cresceu cercado de cuidados. Contudo, desde pequeno, demonstrou ser corajoso e leal. Vivia a maior parte de seus dias na companhia do príncipe Queves, acabou sendo educado junto com vossa alteza. Phil é um excelente guerreiro, mas é também muito inteligente.
As coisas passaram a fazer mais sentido para Flora à medida que a história do homem ia sendo revelada. As atitudes do guerreiro tornaram-se clara e até mesmo sua personalidade poderia ser compreendida ao constatar como sua criação se deu.
— Os pais de Phil, como são? — A essa pergunta, Flora recebeu um olhar triste como resposta.
— Faleceram, ambos. Philip era ainda jovem. Seu pai contraiu uma doença em uma de suas viagens e morreu rapidamente. A mãe, alguns anos depois, também faleceu após um terrível incêndio na casa da família. Phil não estava presente no momento.
— Pobre Phil — lamentou novamente Flora, dessa vez lembrando-se de sua própria dor pela ausência de sua mãe.
— Foram tempos duros para nosso guilbor. Philp teria sucumbido em sua escuridão se não fosse um par de olhos verdes e loiros cachos para ajudá-lo a se erguer de sua caverna de dor.
Morgana — pensou Flora, ao recordar-se do nome da mulher estar nos lábios de Philip durante seus delírios. Estava prestes a pronunciar o nome, porém, Ana continuou seu relato.
— A princípio, ele se rebelou contra nosso rei. Acusou-o de não ter protegido o pai e de não prestar assistência à mãe, embora ele soubesse que isso não era verdade. Depois, decidido a ser como o pai, alistou-se para a guarda amarela. Vossa alteza tentou persuadi-lo a desistir da ideia, mas ele estava obstinado a seguir a carreira militar e descontar sua vingança pessoal em qualquer um que estivesse no caminho da retidão, apesar de que ele próprio se distanciava cada vez mais dessas veredas.
O olhar de Ana se perdeu e parecia sombrio, devido a desagradáveis lembranças.
— O que aconteceu, Ana?
— Philip esqueceu muito de seus princípios quando passou a lutar carregando a bandeira amarela. Porém, ele não se esqueceu de quem era. — Ana abanou a mão no ar e mexeu a cabeça, forçando um sorriso. — Quando ele mais precisou de auxílio, nosso amado rei o acolheu e o recebeu em seu palácio, ajudando Philip, com suas palavras e demonstração de afeto, mas também com correção e castigos, a endireitar novamente sua vida. Desde então ele passou a servir o rei com a intenção correta e recebeu um novo lugar ao serviço de vossa majestade.
— O mensageiro? — Flora ousou arriscar a opinião.
— Ah, sim! Um dos cargos mais honrados que um homem pode receber. Muitos são os homens que desejam intensamente a oportunidade de carregar as palavras escritas pelo próprio rei, mas poucos são escolhidos por ele. — Ana cruzou as mãos sobre a perna. — Porém, aquele homem tem muitos motivos para servir Or de todo o seu coração.
— Por que o acolheram?
— Também, claro. Ele foi recebido quando órfão, acolhido quando precisou de auxílio após ter se perdido em sua vida, foi inserido na família real como um irmão, recebeu uma herança, uma casa, um lugar para se chamar de seu. Isso por si só já seria motivos suficientes para ele desejar servir ao soberano com todo o seu amor, dedicação e gratidão. Porém, há uma coisa a mais — Ana terminou a frase um pouco reflexiva.
— Pois, conte-me! — pediu Flora, sentindo suas emoções serem envolvidas por aquele relato que abordava muito mais do que a história de um órfão guerreiro.
Ana sorriu imaginando se aquele interesse da princesa era da mesma natureza do interesse de seu amado menino.
— A senhorita sabe como ele recebeu o título de guilbor? — indagou postergando um pouco a história que contava como Phil havia decidido largar tudo e entregar todos os seus dias em prol de seu reino.
Flora negou com a cabeça, sentindo-se animada novamente.
— Não. Pensei várias vezes em perguntar à Jasper, mas Philip não parece gostar muito desse assunto. Percebi certa inquietação da parte dele quando o título foi mencionado.
— É verdade, ele não gosta quando as pessoas atribuem a ele honra, não deseja ser um herói. Prefere sempre apontar para vossa majestade e exaltar como nosso rei trabalhou para que ele pudesse ir e desempenhar sua obrigação da melhor maneira possível. Também se sente indigno de sustentar o título devido aos acontecimentos trágicos que acompanharam o sucesso de sua missão.
Ana se deu conta de que era hora de servir o chá. Levantou-se, resignada, e tocou a sineta dando ordens a uma das funcionárias para que trouxesse a bandeja. Quando ela foi colocada sobre uma pequena mesa de madeira ao lado do sofá, a senhora da casa dispensou a mulher e passou ela mesma a servir as xicaras com o líquido fumegante.
— Há alguns anos nosso rei conferiu a Philip uma arriscada empreitada. Ele soubera de algumas jovens mulheres que estavam sendo vendidas como escravas, muitas delas para fins libidinosos, no reino de Acher. Algumas não se passavam de crianças, em seus dez anos de idade — Ana contou assentando-se ao lado de Flora novamente, entregando a ela uma das xícaras.
— Que coisa horrível! — Flora sentiu seu estomago revirar e não ousou tocar na bebida naquele instante. — Como podem? Como essas mulheres... Como podem, senhora?
— Oh, ingênua menina! Os homens são maus, fazem qualquer coisa por dinheiro, ou para satisfazerem os desejos lascivos de sua carne. — Ana bebeu um pouco do chá e depois suspirou. — A maioria dessas meninas eram vítimas da cobrança de dívidas do ganancioso rei Shequer. Ele aceita, constantemente, virgens como pagamento.
Flora tinha as mãos trêmulas, por esse motivo descansou a xícara sobre sua perna. Estava aterrorizada com tamanha maldade.
— O que aconteceu com elas, senhora? Por favor, me diga que fim tiveram.
— Pela luz em meio às trevas! — Ana exclamou. — Acalme-se, menina. Felizmente, para esse grupo de vinte e nove jovens, foi-lhes poupada uma vida dura e escura, embora elas nunca mais pudessem se reunir com seus familiares depois de resgatadas.
A garganta de Flora se fechou diante daquela triste perspectiva. De repente, a distância de seu pai e irmão se tornou dolorosa, ao imaginar ser privada da presença deles em sua vida.
— Nosso soberano arquitetou um plano ousado e muito arriscado. As chances de sucesso eram mínimas, seria uma ação suicida. Phil foi o primeiro a se manifestar para cumprir os designíos do rei. Secretamente, ele e mais dois soldados adentraram em terreno inimigo e numa argilosa trama, resgataram as jovens.
— Em Acher? — perguntou Flora ainda mais surpresa.
— Sim! Philip coordenou a equipe e seguindo as instruções e planos do rei, sendo enviados juntos com uma preciosa carga das mais preciosas joias reais, eles conseguiram negociar com o mentor do comércio de escravas, comprando em silêncio quantas meninas lhe foi possível com o valor. Porém, ainda assim não conseguiram saldar com o pagamento de todas. Arriscaram seus pescoços, raptando as que não lhes foram vendidas e depois as retirando pelo mar numa noite turbulenta. Infelizmente, apenas Phil, dos três guerreiros, sobreviveu. Phil foi condecorado por seu corajoso trabalho, sua valentia reconhecida e junto recebeu toda a hostilidade dos homens de Acher. Ele é odiado. Há uma sentença de morte pronta para recebê-lo caso ele coloque os pés em qualquer pedaço de terra daquele reino.
O coração de Flora batia acelerado. Achou que faria bem tomar um gole do chá em busca de se acalmar, muito embora suas mãos tremessem. Quando conseguiu sorver boa parte do líquido, pegou-se pensando em quanta coragem aqueles homens tiveram ao dar suas vidas por pessoas desconhecidas.
— Sra. Bascher...
Flora estava prestes a fazer mais perguntas, quando foram interrompidas pela entrada dos homens no salão.
— Boas notícias, minha querida — Simon bradou com alegria. — Convenci Phil a permanecer hospedado conosco por mais um dia. — E, olhando para Flora cujos olhos brilhavam pelo efeito de lágrimas contidas, completou. — A senhorita precisa descansar antes de prosseguir viagem até seu destino final.
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Há algumas analogias bíblicas por de trás de consideráveis ocorrências, como, creio eu, as senhoras e se porventura há algum senhor, notaram no decorrer dessa obra. Não obstante, peço-lhes que não considerem as mencionadas alegorias como um todo, uma vez que são meramente partes distintas que refletem pedaços de uma história muito mais valiosa.
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