Vinte e oito
Flora só se deu conta da alta exclamação quando Jasper sobressaltou-se ao lado. Ela virou-se de imediato para conferir se tivera a infelicidade de despertar também Adrey, e ficou aliviada quando percebeu que apenas o soldado em guarda os observava de longe, embora bastante incomodado.
— O que houve? — Jasper balbuciou um pouco sonolento, mas dispondo-se imediatamente para uma batalha.
— Phil está com febre e uma ferida infeccionada — ela disse soltando as amarras dos pés do guerreiro. Depois, encarou-o com o semblante duro. Dentro de si ainda havia vestígios de coisas mal resolvidas entre ela e o cavaleiro à sua frente. — Por que não me disse que as folhas não estavam fazendo efeito? — Ela crispou os olhos e mesmo no escuro ele entendeu o recado. — Não fez o uso devido?
Philip estava cansado demais para dar grandes explicações.
— Sim, eu administrei duas vezes, como a senhorita instruiu. Estava melhorando.
Philip enrijeceu as costas quando as delicadas mãos da jovem tocaram seu braço avaliando a terrível condição da ferida e provocando dor local. Ele viu, com grande admiração, quando as sobrancelhas dela se uniram ao notar a marca deixada pelas cordas em seu pulso.
— Não estava assim hoje de manhã — ele sentiu grande necessidade de falar e desviar de seus pensamentos a satisfação de vê-la tão preocupada. Que incrível contraste com a sensível jovem da noite anterior!
— Consegue mexer os dedos? — Flora questionou deslizando a mão dela até a de Phil.
Philip respondeu que sim, resistindo ao impulso de fechar seus dedos ao redor das mãos dela e comprovar sua resposta. Contudo, Flora se afastou e avaliou ao redor.
— Precisamos abrigar você imediatamente — ela disse já com um plano arquitetado.
— Ei, Flora, se soltar minhas mãos e pés, posso ajudar — Jasper disse em tom brincalhão. — Seria muito bom me ver livre dessas amarras.
Flora sorriu com o bom humor de Jasper. Ela precisava relaxar e a presença do rapaz era sempre agradável e leve. Ela virou-se até ele e passou a se dedicar a desfazer o nó apertado que prendia as suas mãos.
— Não se preocupe, Flora. Não gosto menos de você por causa dessa tão calorosa recepção — Jasper disse com um sorriso zombeteiro.
— Bom saber — ela respondeu encarando o rapaz rapidamente antes de voltar à tarefa.
— Flora — Philip chamou e quando ela se virou, ele tinha uma pequena faca estendida em sua direção. — Isso pode ajudar — explicou com um fraco sorriso.
Flora aceitou a oferta.
— De onde você tirou essa faca? — ela indagou enquanto cortava as cordas que ainda prendiam Jasper.
Phil apenas sorriu, feliz por vê-la tratando-o com naturalidade novamente. Quando Jasper estava, enfim, liberto, a princesa deu ordem para que ele a ajudasse a carregar Philip até a cabana onde ela havia se abrigado. Contudo, Philip protestou veemente.
— Eu sou capaz de caminhar, é apenas uma ferida — ele disse e se ergueu, apesar do mal estar provocado pela elevada temperatura do corpo. — Já tive piores e sobrevivi.
Flora não hesitou nem um minuto. Com agilidade, colocou os braços do guerreiro em cima de seus ombros e pediu que Jasper assumisse o lugar ao lado oposto.
— Deixem pensar que você está muito debilitado — ela explicou segurando firmemente o braço dele. — Não quero ter que brigar para impedi-los de atarem cordas em seus braços novamente.
Acatando as ordens da princesa, Philip deixou que ela continuasse com seus intentos. Eu não deveria comentar que, é claro, para um homem recém-descoberto apaixonado, a ideia de ter a mulher responsável por aqueles sentimentos atormentadores tão perto novamente era de fato aprazível para si. Ainda que seu prazer silencioso fosse quase que inconsciente, ele não protestou por nenhum instante.
Os três caminharam sob o olhar atento do soldado que, ao vê-los aproximar, não pode continuar quieto. Embora temesse as docas e as centenas de horas em alto mar, sabia que precisava cumprir com seu dever.
— Alteza, o que a senhorita está fazendo? Esses homens não deveriam estar desamarrados. — Vendo que Flora o ignorou, ele se colocou à frente dela. — Lamento, princesa, mas estamos colocando a sua vida e do grupo em risco. Não posso permitir...
Flora parou e, lentamente e com cuidado, retirou o braço de Phil de cima de seus ombros, forçando o cavaleiro a despejar o peso de seu corpo todo em cima de Jasper.
— Qual seu nome, soldado? — ela questionou limpando as mãos na saia do vestido.
— Percy, Alteza — ele respondeu fazendo uma reverência.
— Percy! — ela declarou e dando as costas para ele, indicou para Jasper onde deveria acomodar Philip, em baixo da cabana. Depois, voltou-se ao guarda. — Percy, estou honrada com seu compromisso em cumprir seu dever com diligência. Afirmo que não esquecerei do serviço prestado. Agora, por favor, providencie uma chaleira cheia de água fervente e só retorne a me incomodar quando for capaz de ajudar. Obrigada.
Flora fez uma reverência e sem esperar qualquer resposta, virou-se e seguiu seu caminho. Ouviu, logo depois, o soldado xingar baixinho antes de ir executar as ordens da princesa.
Philip já estava sentado no chão com Jasper ao seu lado quando ela entrou debaixo da cobertura que abrigaria o trio durante aquela noite. Estava escuro e a pouca luz não possibilitava que a princesa desempenhasse um bom trabalho de limpeza da ferida. Jasper sugeriu que usassem a lamparina a óleo que carregavam em seus pertences, mas antes que pudesse se oferecer para buscar, outra figura masculina e com humor bastante alterado surgiu atrás da jovem.
— Flora! — Adrey exclamou com a voz firme. — Por mil pastos, menina! A senhorita é impossível!
Flora, que se encontrava abaixada, nem ousou dar atenção para o soldado. Os olhos delas se encontraram com os de Phil e por um momento sentiu-se inexplicavelmente protegida.
— Por que esses homens estão soltos? — Ela ouviu a voz irritada de Adrey e compreendeu que àquela altura, todo o acampamento já tinha desperto com a voz imperativa do comandante. — Você! Prenda-os novamente!
Sem se virar, Flora trincou os dentes. Não permitiria que fizessem mal novamente aos dois homens a quem ela devia a vida, principalmente vendo Phil com a saúde debilitada.
— Não! — ela gritou e apenas girou o corpo, mantendo-se ao lado de Philip. Viu Jasper ao lado e abriu os braços, demonstrando que ela lutaria contra qualquer oposição. — Ninguém ouse encostar um dedo neles!
— Ou o que? — Adrey zombou, para completo espanto dela.
— Eles são meus amigos, serão meus convidados no Palácio. Se atreverem desobedecer minhas ordens, precisarão passar primeiro por mim.
Ela observou quando os soldados se afastarem, deixando apenas Adrey lidando com a situação. Querendo deixar claro sua posição, Flora virou-se e, já de frente para Philip, ajoelhou, pronta para fazer o que devia: cuidar do seu herói.
— Sinto muito, Flora! Mas eu cumpro ordens do príncipe Fergie e ele me alertou que a senhorita e seus caprichos poderiam se opor à razão. Não permitirei que sua segurança e bem estar estejam sujeitos a sua inocência! — Adrey discursou tentando levar a jovem a ouvi-lo.
Flora deu de ombros e, sentindo o coração bater forte, segurou a mão de Phil, pronta para limpar a ferida.
— Pela luz da alvorada, Flora! Não me faça usar a força! — Adrey declarou impaciente. — Sabe muito bem que eu não tenho medo de seus joguinhos. Levarei você em segurança nem que seja necessário jogá-la amarrada em cima de um cavalo.
Flora viu quando a cabeça de Phil se ergueu e o olhar penetrante dele pareceu fuzilar Adrey logo atrás da princesa. Ela sentiu os músculos de Philip se contraírem sobre suas mãos.
— Não ouse... — nosso herói murmurou num tom baixo mas ameaçador.
— Não se preocupe — Flora disse rapidamente tocando levemente no braço de Philip. — Adrey é como um irmão, ele não me faria mal.
Phil desviou os olhos do soldado apenas para observar o cuidado de Flora que, ignorando as ameaças do impaciente Adrey, voltou à tarefa de cuidar da ferida de seu paciente. Deu algumas instruções a Jasper que prontamente cumpriu, buscando na pequena bolsa de couro as folhas e raízes que a princesa pediu.
Pouco tempo depois, a jovem ouviu a voz de um dos soldados ressoar atrás de si, indicando estar munido da água fervente, como ela mandara. Flora se virou, satisfeita, a tempo de ver Adrey de pé, com cara de poucos amigos, os braços cruzados sobre o peito, avaliando cada movimento dela.
— Obrigada — Flora agradeceu gentilmente quando o homem deixou o objeto quente no chão ao seu lado. — Poderia, por favor, acompanhar meu amigo até seus pertences para ele me trazer uma lamparina? A luz está fraca e preciso cuidar disso aqui — ela disse levantando a manga da camisa e Phil que assistia tudo em silêncio.
— Sim, Alteza — o soldado respondeu, satisfeito por ter agradado a princesa, embora seu comandante estivesse prestes a lhe dar uma punição pela desobediência.
Flora preparou um chá com ervas que auxiliariam a baixar a alta temperatura de Philip. Ele tomou todo o conteúdo sem nada dizer. Estava agitado, não gostando nada da postura de Adrey que vigiava a princesa como se estivesse prestes a corrigir a menina com algumas palmadas, como fazem as mães contrariadas por filhos desobedientes.
Jasper retornou com a lamparina e um pedaço de tecido que estava longe de ser limpo como requeria os cuidados com a ferida. Também tinha conseguido um pouco de álcool. Munida dos objetos, Flora tentou ser o mais delicada possível durante a limpeza. Procurava, a pouca luz, encontrar o que havia de errado, não dando espaço para o processo de cicatrização. Voltou várias vezes os olhos para o rosto de Philip que mantinha o maxilar rígido enquanto resistia a dor infligida na sua pele.
— Pelos ventos do Norte! Acho que encontrei! — Flora declarou um pouco animada quando reconheceu um objeto intruso no meio de todo aquele misto de sangue e pus — Preciso de uma faca! — ela pediu.
Phil retirou a faca outrora usada para cortar as cordas de Jasper, escondida por baixo da barra de sua calça e entregou mais uma vez para ela. Adrey ficou em alerta e chegou a dar dois passos em direção ao trio, antes de perceber a intenção da princesa.
Flora lavou a lâmina com álcool e depois, com o auxílio de Jasper e buscando não se concentrar nos gemidos de dor vindo de Philip, tentou ser o mais rápida possível na remoção do pequeno ferrão que havia sido deixado pelo animal quando Phil fora surpreendido naquela noite antes de chegarem à Torre. Depois, lavou o braço dele e aplicou o emplastro preparado com as folhas e raízes medicinais separadas para esse fim, protegendo o lugar com uma improvisada atadura.
— Agora você ficará bem — ela falou avaliando o pequeno ferrão retirado da ferida.
— Obrigada — Phil agradeceu ousando segurar por um instante a mão dela. — Estou em dívida com a senhorita.
Flora riu e depois de limpar a faca, para desespero de Adrey, entregou o objeto novamente para Phil.
— Eu quem devo minha vida a você, Philip De Baruch. — Ela ajeitou o espaço atrás do guerreiro. — Deite-se e descanse. Amanhã pela manhã o senhor estará bem melhor.
Philip hesitou por um minuto, mas quando as delicadas mãos da jovem o auxiliaram a deitar, nada pode fazer do que se render à instrução dela. Flora jogou a manta por cima dele e instrui que Jasper deitasse ali também. Depois de organizar o lugar, virou-se e deu de cara com um Adrey indignado.
— Não permitirei que fique aqui, sozinha, com esses dois! — ele declarou com autoridade.
— Excelente, Adrey. Você pode fazer a guarda e vigiar durante toda a noite — ela respondeu com naturalidade entregando a chaleira na mão do soldado que estava à espreita na porta.
E sem dar chance para qualquer resposta, ela encontrou um lugar ao lado dos dois companheiros de viagem. Deitou-se e fechou os olhos rapidamente, embora tenha demorado a pegar no sono.
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