Vinte e dois

Não escapou de Philip o olhar comovente de Flora. Porém, interpretou erroneamente os sentimentos da princesa, crendo que a pequena emoção que ela se esforçou em esconder se dava pela notícia da permanência na propriedade, não tendo nenhuma consciência de que a sua própria história havia despertado o lado emocional da jovem.

Toda a ansiedade anterior em retornar para a companhia das senhoras tornou-se, de súbito, uma intensa angústia. O pequeno momento em que se permitiu apreciar a presença da princesa e admirar todos seus atributos foi substituído pela dura realidade escancarada diante de seus olhos.

Quem ele pensava que era para sequer supor a possibilidade de merecer qualquer apreço diferenciado daquela mulher distinta, sentada à sua frente como a dama que ela realmente era? Quando se deixou dominar pelo seu próprio sentimento a ponto de permitir sua mente vaguear pelo contentamento de permanecer um dia a mais em sua companhia?

Ele era um guer, e não qualquer guer. Ele sabia a verdade sobre suas origens. Embora há tempos ele se considerasse um cidadão legítimo de Or e amasse a família que o recebera, seu rei e seu príncipe, sabia bem como as pessoas viam pessoas como ele.

"Eu não sabia que era um ambiente frequentado apenas por Achers. Informaram-me que ali se reuniam guers e imaginei que o senhor pudesse estar lá." Lembrou-se das palavras da princesa na ocasião em que havia se colocado em encrencas naquela taverna.

"O senhor pudesse estar lá"... "Apenas por Achers"...

— Graças a Flora e ao Phil. — A voz de Jasper ressoou pelo ambiente.

Philip despertou-se de seus pensamentos conflitantes ao ouvir seu nome. Estava de pé, ao lado da lareira, uma mão apoiada à parede, a expressão grave, sem nenhuma suavidade nas linhas de seu rosto. Não saberia dizer como, mas estava determinado a evitar a qualquer custo voltar o seu olhar para Flora. Contudo, bastou que a voz delicada dela sobressaísse entre as demais, para que seus olhos fossem atraídos como um imã para a esbelta figura sentada com a postura incorrigível.

— Elas eram as mulheres mais lindas que meus olhos contemplaram. Nunca, em toda a minha vida, havia visto tanta beleza reunida em um só lugar e vozes tão doces chamando pelo meu nome — Jasper declarou recordando-se nitidamente da imagem que ainda o atribulava de alguma forma. — Contudo, uma delas era perfeita em todos os aspectos...

— Por mil pastos, Jasper! — Flora exclamou incrédula com a descrição feita pelo rapaz. — Pois eu digo que nunca havia visto criaturas tão feias em toda a minha vida! Nada nelas era atraente aos olhos.

— Como não, querida Flora? — Jasper ergueu as sobrancelhas, não acreditando que a jovem pudesse ser tão indiferente a ponto de não reconhecer a beleza daquelas mulheres quase deusas. — Elas eram perfeitas! Não que a senhorita não seja muito bonita também...

Phil observou com admiração quando as bochechas da princesa se tornaram mais rubra do que de costume e aquele fato em especial chamou sua atenção, além de achá-la incrivelmente bela com a coloração do rosto contrastando com a cor do vestido.

— Jasper, eu garanto, elas não poderiam ser mais altas que uma criança de tenra idade. Tinham orelhas pontudas e a pele áspera, escura. Não, elas não eram bonitas, e qualquer ser humano em sã consciência afirmaria isso com muita convicção.

Jasper inclinou-se para frente, avaliando Flora. Ele não podia crer que ela estivesse falando dos mesmos seres que ele.

O Sr. Bascher, observando com certa diversão a discussão entre os dois, interveio com maiores explicações.

— Não são pouco conhecidos os poderes das ninfas do Vale Embevecido ao enfeitiçar os homens. Até os mais fortes guerreiros não estão imunes a esses poderes — ele disse e apenas uma olhadela para Phil foi suficiente para deixar-se ser entendido. O cavalheiro não gostou nada daquela menção. — Nosso amado rei já dizia: cada um é tentado em sua própria cobiça, quando essa o atrai, o seduz.

— Oh, Sr. Bascher, o senhor diz então que minha cobiça era uma jovem loira vestida com uma saia que deixava a mostra seus tornozelos? — Jasper indagou insatisfeito, embora houvesse um traço de ingenuidade em sua pergunta.

— Muito provavelmente — Ana respondeu divertindo-se com o discurso dos homens. — Talvez você devesse se manter longe de mulheres loiras, meu querido.

A essa constatação, foi adicionada mais conversação. O grupo riu e se divertiu à custa do rapaz, passando a relatar logo depois, como Phil e Flora haviam livrado Jasper de uma morte lenta e dolorosa.

Philip, contudo, mantinha-se retraído, tentando ignorar seus pensamentos enquanto as vozes na sala ecoavam distantes. Buscava, com esforço e diligência, substituir a ternura que sentia por Flora, pela lembrança do quanto os sentimentos de paixão podiam afundar um homem.

Sim, havia sido tentado e atraído por sua cobiça e o fim havia sido desastroso. Só não fora pior graças ao seu amado rei.

Pensar nisso, constatou, não lhe trouxe nenhum alívio. Pelo contrário, além da dor de seu passado e da lembrança de suas péssimas escolhas, recordou-se do futuro previsto para aquela doce criatura cujos movimentos delicados despertavam em si um instinto masculino há tempos ignorado. Ele queria privar Flora de um futuro de sofrimento e oferecer a ela toda felicidade que estivesse ao seu alcance.

Raios! O que ele estava pensando? Não poderia mudar o destino dela, e muito menos o dele! Havia feito um juramento e por nada naquele mundo ele deixaria de honrar com sua palavra. Porém, talvez pudesse alertá-la de alguma maneira. Poderia poupar a desgraça de uma vida infeliz, porque, não havia, segundo seu julgamento, outra opção para os dias vindouros a partir da perspectiva da escolha feita por ela.

Phil suspirou e passou a andar pelo cômodo, tentando pensar com mais clareza.

Flora ainda tinha dentro de si muitas perguntas sem respostas. Não sabia por que sua alma se encontrava tão agitada naquele momento e mal havia percebido o distanciamento frio de Philip. Na verdade, ela ainda se sentia constrangida pela história do nobre cavalheiro e isso fez com que sua atenção se desviasse do homem constantemente.

— Bem, eu tenho uma pergunta e espero não ser indelicada ao fazê-la — por fim, quando o assunto findou-se e apenas amenidades eram ditas entre o grupo, tomou coragem para continuar a desvendar os mistérios a sua volta.

— Claro, minha querida, não se preocupe. Estamos em família aqui — Ana, com toda sua sensibilidade e uma grande expectativa no peito, ofereceu a mão passando-lhe segurança.

Flora hesitou apenas por um momento.

— O que realmente vocês fazem? Se amam tanto seu reino, porque permanecem aqui? Por que preferem ser guers em uma terra estrangeira do que viver em seu próprio reino, desfrutando das dádivas oferecidas por seu rei? Oh, desculpem-me se estou sendo impertinente, não quero que pensem, em nenhum momento, que esse questionamento tem alguma relação com minha condição superior aqui em Ach. — Flora suspirou deixando os ombros penderem-se para frente. — Eu sinto que tenho feito tão pouco pelo meu reino —murmurou baixinho, reconhecendo desconhecer a realidade do mundo além dos muros do palácio.

Simon abriu um largo sorriso. Talvez a oportunidade que ele esperava havia chegado mais depressa do que supôs. E sem perceber como aquela pergunta havia afetado Phil, que jazia imóvel encarando a princesa, avaliando todos os seus movimentos apenas para reconhecer a verdade de suas palavras, o Sr. Bascher se inclinou para frente de uma maneira amistosa.

— Não se aflija, criança — ele disse com um olhar acolhedor. — Responderemos suas perguntas sem nenhum temor. Phil disse confiar em você.

Flora foi atingida pelas palavras. Seu olhar encontrou, enfim, os do guerreiro que outrora havia sido um pobre e frágil órfão. Um sorriso gentil foi oferecido e recebido com tamanha intensidade, que acendeu as brasas do coração de Philip.

— Você deve ter percebido, logo na entrada antes de nossa propriedade, uma torre.

— A Torre do Refúgio — concluiu Flora.

— Sim, minha querida. Esse lugar é especial para todos nós, cidadãos de Or. É aqui onde acolhemos aqueles que recebem um chamado de nosso rei, mas precisam, de antemão, se estabelecerem, seja para se recuperar de ferimentos, ou se prepararem para a longa viagem até nosso amado reino. E tem sido assim desde quando as portas de Or foram abertas para receber os estrangeiros, segundo a nossa estimável Lei — Simon discursou com uma visível alegria.

— Nosso rei precisa, portanto, de servos fiéis que trabalhem no auxílio daqueles que necessitam de alguma intervenção e outorgou o privilégio para alguns de seus subordinados para desempenharem essa função — Ana continuou com seu tom gentil.

— Eu e Ana somos, atualmente, guardiões da Torre. Recebemos todos aqueles que precisam e auxiliamos até sua partida — Simon declarou e segurou com carinho a mão da esposa. — Nós não tivemos a felicidade de termos filhos, mas o nosso rei nos deu a oportunidade de adotarmos tantas vidas carentes de um recomeço e ajudá-los, como crianças recém-nascidas, a darem o primeiro passo rumo a uma nova vida.

— Embora a Torre de refúgio seja o ponto central de nosso trabalho, há outros de nós espalhados por vários pontos das nações, não apenas em Ach, mas nos outro três que compõe os Reinos de Chail.

— Até mesmo em Acher? — Flora indagou surpresa. Até mesmo ela conhecia a fama do reino inimigo, embora, cada dia mais se surpreendia com a maldade que os seres humanos demonstravam ao conhecer o mundo além de sua pacata vida.

— Inclusive em Acher — foi Jasper quem respondeu. — É um dos países onde o serviço da Luz mais trabalha, embora secretamente. Também onde somos duramente reprimidos caso descobertos e onde os nossos resgatados mais sofrem nas mãos de seus governantes.

— É verdade. Todo o trabalho lá é muito perigoso. Apenas os guerreiros mais leais se arriscam a entrar para conduzir algumas vidas e nem sempre temos sucesso — Ana disse e mirou rapidamente o cavalheiro em pé antes de voltar-se a Flora.

Flora compreendeu bem o recado e uma onda de perguntas invadiu seu ser na medida em que impressionava-se ainda mais com aquelas pessoas que davam sua vida em amor a outros. Lembrou-se do resgate relatado por Ana e como Phil havia se disposto a arriscar sua vida para comprar as jovens cujo destino estava cruelmente traçado.

Sentindo a garganta fechar, não conseguiu dizer nada. A sua admiração aumentava em detrimento ao desprezo por sua condição, aumentando ainda mais sua angústia. Sentiu-se péssima por passar grande parte de sua vida apenas pensando em si própria, nos seus sonhos além dos muros, no dia do seu Tsalach e em seu breve casamento com Henry.

Ah, Henry! De certo que ele sabia de toda aquela história! Sim, claro, ele seria o futuro governante de seu reino, não deveria estar alheio ao sofrimento de seu povo. Estava resoluta, conversaria com ele na primeira oportunidade e juntos poderiam traçar algum plano de auxílio envolvendo os três reinos, facilitando assim que a ajuda chegasse a todos os necessitados. Fergie também seria consultado e ela insistiria com seu pai que travasse uma aliança ainda mais íntima com o reino de Or.

— Devemos acrescentar — Philp falou pela primeira vez desde que chegara à sala. Sua voz grave obrigou todos os olhares a voltarem-se a ele —, que toda essa história é de assunto confidencial, princesa. — Fez uma pausa sentindo o poder daquela simples palavra em sua boca. — Embora a senhorita tenha nossa confiança, nosso trabalho correria sérios riscos caso outras pessoas tomassem conhecimento. Há muito mais envolvido por trás de toda a política dos quatro reinos.

Toda a esperança de Flora foi apagada e aquela resposta não a satisfez. Não quando ela continuava incomodada com seu próprio egoísmo, travando dentro de si uma batalha para tentar aliviar o peso da culpa que a apoderava quanto mais pensava que era uma pobre criatura que até então bem nenhum havia feito além daqueles próximos a si.

Tentou, em vão, culpar sua imposta reclusão durante todos aqueles anos, sem a permissão de saber mais do mundo exterior. Porém, não poderia negar que sua própria alma pouco caso fez em buscar descobrir qual utilidade ela teria na vida, além de ser a futura esposa de um homem maravilhoso, tendo que lidar apenas com a escolha do melhor vestido e do penteado que mais valorizasse sua beleza.

Sim, ela era culpada. Pouco fez em favor dos outros e menos ainda se interessou pelo sofrimento das pessoas. Oh! Como poderia ser tão perversa?

Ana, percebendo no rosto da menina uma sincera tristeza, muito sabiamente, ergueu-se, obrigando a todos os homens a sua volta a fazerem o mesmo. Phil, dominado pelo apreço que possuía àquela senhora, corrigiu sua postura e inclinou a cabeça.

— Está muito tarde e vejo claramente que vocês são viajantes cansados que precisam de uma noite de descanso. Encerraremos por hoje, e amanhã, menina querida — disse estendendo a mão para Flora — conversaremos mais e esclareceremos suas dúvidas.

E sem nenhuma cerimônia entregou a mão de Flora para Phil.

— Conduza a dama até seus aposentos, Phil, meu querido.

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