Quarenta e dois

Esse é o último capítulo do livro. O próximo é o epílogo. Espero entregá-lo ainda essa semana.

Deus te abençoe!

.....

Katherine observava Flora com piedade. As mãos da jovem pareciam seguir um ritmo próprio e frenético enquanto tricotava alguns gorros que seriam distribuídos para os necessitados antes da chegada do inverno. Era responsabilidade pessoal da princesa de Or aquele projeto que visava famílias carentes. Flora, que nunca antes havia sequer segurado uma agulha, foi uma aluna aplicada e entusiasmada, mostrando-se rapidamente adaptada aos pontos. Contudo, naqueles últimos três dias, sua avidez em trabalhar escondiam uma ansiedade proveniente de más notícias recebidas.

Estava há 3 semanas no palácio, sendo acompanhada de perto por sua futura cunhada, enquanto aprendia tudo a cerca de Or. Sua história, seus reis, suas leis, seus heróis e também os dias tristes, quando o povo viu-se em necessidade e tristeza após guerras e traições. Era igualmente aplicada na busca do conhecimento de seu novo reino, bastante diferente do que dizia respeito ao seu interesse por Ach. A verdade era que Flora parecia beber da fonte de instrução sobre tudo que se relacionava a Or, principalmente das palavras de sabedoria do rei Chesed. Inclusive, não perdia uma sessão de ensino, quando os portões do palácio eram abertos e a entrada dos suditos permitida no grande salão real. O soberano passava, então, a discorrer com sabedoria sobre os mais diversos assuntos, ensinando e instruindo seu povo.

Katherine tinha se afeiçoado pela jovem e em poucos dias tendo-a como companheira, compreendeu o motivo exato do coração de Philip pender em direção àquela mulher. E a isso, devo acrescentar, que a gratidão da princesa de Or para com Flora era imensa, uma vez que ela acompanhou de perto todo o sofrimento de seu irmão nas mãos de Morgana. E, sendo Katherine tão apegada a Phil, Flora logo se tornou uma das pessoas mais queridas de sua vida.

As visitas de Philip eram quase diárias. Sempre quando possível, permanecia na sala da princesa na companhia das duas mulheres de sua vida. Embora Flora tenha percebido uma leveza diferente no comportamento de seu noivo, foi Katherine quem pode observar com clareza a mudança de seu comportamento, agindo como um típico apaixonado. Seu amor pela noiva crescia a cada dia mais, quando ambos podiam acrescentar à sua amizade certo grau de intimidade durante o tempo do cortejo.

E tudo estava indo bem, perfeitamente bem, até que Philip apareceu agitado numa certa tarde. Quando explicou o porquê de seu estado de espírito, precisou manter a firmeza diante da súplica silenciosa presente nos olhos de Flora.

Havia uma última missão. Perigosa. Extremamente perigosa. Terras obscuras seriam percorridas e o tempo era pouco. Embora Queves tivesse deixado claro a Philip que ele não precisava fazer parte do grupo, o nosso guerreiro escolheu, deliberadamente, cumprir com seu dever e prosseguir ao chamado, ainda que isso significasse manter-se alguns dias longe de sua noiva, expondo-se a riscos reais estando tão próximo de seu casamento. Philip amava Flora, mas sabia de seu dever e não poderia ser um homem medroso que desistia facilmente de suas responsabilidades.

Acontece que Flora nada disse. Apenas assentiu quando foi informada sobre o desejo dele de coordenar aquela última viagem, cuja recompensa seria a vida de 2 famílias que eram mantidas em cárcere e privações indignas. Haviam crianças, inclusive. E, apesar de sentir o medo dominando suas emoções, ela sabia da essência do caráter de Phil e poupou qualquer palavra de lamento.

E tudo parecia estar correndo bem. Flora envolveu-se com afinco nos estudos e atividades que mal teve tempo para pensar na ausência de Phil. Até a chegada de notícias difíceis de serem recebidas.

— Ele está bem — Katherine, tentando consolar e acalmar um pouco a jovem noiva, disse com um sorriso bastante forçado, já que ela também permanecia preocupada. — Queves me garantiu que ele não foi um dos feridos com gravidade.

Flora ergueu os olhos para a princesa, mas suas mãos continuaram a trabalhar. Ela suspirou.

— Um ataque de um Behemoth apenas é suficiente para deixar guerreiros temerosos. Um ataque inesperado, de 2 criaturas dessas, numa área aberta, a um grupo pequeno de homens, ainda que bem treinados... — Flora moveu a cabeça rapidamente, buscando afastar a imagem de uma possível cena sangrenta de sua mente. — Oh, não, Katherine. Só ficarei sossegada quando seu irmão atravessar aquela porta e eu me certificar que ele de fato não está entre os que se feriram gravemente e não corre risco de morte.

— Quanto a isso, não me restam dúvidas — Katherine disse tentando soar bastante firme, enquanto apoiava a mão nas pernas, buscando parecer despreocupada. — E daqui uma semana estaremos celebrando o casamento de vocês, sabendo que nos preocupamos atoa. Se conheço meu irmão, ele não deve ter tido mais do que alguns arranhões. — Seu semblante, então, mudou e seus olhos se tornaram distantes. — Lamento, porém, pela perda dos dois soldados e pelos que foram feridos.

Flora assentiu e voltou seu olhar para o trabalho. Katherine, que estava longe de estar calma como gostaria de aparentar, largou suas agulhas, deixou o trabalho de lado e erguendo os braços, alongou o corpo.

— Acho que eu paro por aqui. Minhas costas doem. — Com cuidado e apoiando no braço da cadeira, ergueu-se, alisando a barriga em seguida. Percebendo a movimentação de Flora, levantou a mão em direção a ela. — Não, não se preocupe, querida. Eu preciso apenas me exercitar um pouco e acho que pedirei um chá para nós.

E, olhando para a porta, Katherine deu um grito abafado, chamando a atenção de Flora que rapidamente acompanhou o olhar da princesa de Or.

A figura de Philip de pé na entrada fez Flora perder todo e qualquer senso de raciocínio. Sem pensar exatamente como deveria reagir, largou completamente tudo que tinha nas mãos e seu corpo, ganhando vontade própria, correu em direção aos braços de seu amado.

Philip a recebeu sem reservas. Abraçou Flora, aconchegando-a em si enquanto ouvia o choramingar de sua noiva.

— Philip! Você está aqui! Oh, Philip! — ela murmurava enquanto seus braços, rodeados na cintura dele, pareciam querer provar de que ele era real. — Tive tanto medo!

— Eu estou bem, minha amada. — Ele ergueu o queixo dela com bastante tranquilidade, até que os olhos de ambos estivessem presos um no outro. — Eu amo você!

Flora, sentindo uma lágrima solitária escorrer por sua face, tocou o rosto dele, percebendo arranhões e pequenas lesões.

— Eu também amo você, Philip. Por mil pastos! Nunca mais me deixe aflita como me deixou!

Phil sorriu antes de depositar um beijo suave na testa dela.

— Não foi minha intenção, te dou minha palavra.

Ele a segurou novamente, mantendo-a por perto. Só então voltou-se a Katherine, parada no mesmo lugar, com as mãos no rosto aflito. Phil lentamente ajeitou Flora para o lado, deixando o braço direito livre e estendeu-o em direção a irmã, que como Flora, seguiu para o contato direto para com ele.

— Você não muda nada, Philip De Baruch! Continua assustando sua irmã, mesmo estando prestes a se casar! — Ela disse após certificar-se também de que ele estava inteiro.

Philip apenas riu, sentindo a alegria de ter seus dois maiores tesouros por perto. A falta da presença delas havia sido duramente sentida, sobretudo após o ataque, enquanto a tensão em relação às consequências e perdas de seus homens o rodeava. Recobrou seu ânimo em meio àquela desgraça, lembrando-se de que tinha para quem voltar, e ele precisava estar inteiro para isso.

Katherine foi quem afastou-se primeiro. Informou que pediria chá e biscoitos, alegando que Philip deveria estar esfomeado. Flora mantinha-se relutante em largar seu noivo, mas ele, com gentileza, segurou sua mão, entrelaçou os dedos de ambos e a encarou com olhos amorosos, convencendo-a de se sentarem. Flora percebeu, enquanto caminhavam até o sofá, que Philip fazia um pouco de esforço para andar, repuxando lentamente a perna direita. Não queria sequer imaginar pelo que ele e os outros homens haviam passado, mas ao mesmo tempo, a curiosidade e o cheiro de aventura no ar lhe pareciam pregar uma peça, gerando o desejo de um relato completo sobre o que passaram.

Katherine voltou rapidamente e se sentou à frente do casal. Ela também sentia o mesmo alívio de Flora por constatar que Philip estava inteiro e ainda sorria. Só Queves saberia o quanto ela já havia chorado por seu irmão, alguém por quem se apegara profundamente desde tenra idade, quando deparava-se com o semblante do homem infeliz. E o contraste de vê-lo mudado ao lado da princesa de Ach fazia ela gostar ainda mais da cunhada. Recordou-se, por um momento, da chegada da última carta, quando Phil anunciou que retornaria a Or noivo, incubindo-a de cuidar das necessidades de Flora e dos preparativos para o casamento. Foi uma das melhores notícias que Katherine poderia ter recebido nos últimos tempos, e qualquer traço de dúvida se ele estava casando por amor, sumia quando via os olhos dele brilharem ante sua amada.

— Por mil pastos! Conte-nos logo, Phi. Como sucedeu o ataque? — Katherine pediu sabendo que Flora compartilhava da mesma curiosidade.

Philip, que ainda segurava com firmeza a mão de sua noiva, sorriu de leve.

— Estávamos voltando. A empreitada havia sido um sucesso. Conseguimos resgatar as duas famílias apenas com negociações e retornávamos em tranquilidade até chegarmos ao Riacho do Meio. Nossos homens pararam para descansar e se refrescar, quando ouvimos um barulho alto entre os arbustos perto de um grande salgueiro. Percebemos algo se movendo e entramos em guarda. Foi tudo muito rápido. Quando demos por nós mesmos, duas daquela criatura vinham em nossa direção. Infelizmente, não deu tempo para reagimos e eles atingiram dois dos nossos homens com seus chifres perfurantes.

— Oh! — Flora exclamou levando a mão até a boca. — Pelas barbas dos sábios, Phil! Já ouvi falar dessas criaturas, mas nunca tinha conhecido alguém que os vira de perto.

— Eles são assustadoramente grandes. A cauda é forte como cedro e seus lombos e músculos denotam seu vigor. Quando partimos para o ataque, nossas espadas pareciam insuficiente para pará-los. Nos dispersamos e entramos em posição de combate, mas as pernas daquele animal pareciam barras de ferro e seus ossos canos de bronze — Philip relatou e havia certa admiração ao descrever tal criatura. — Foi preciso muito esforço para conseguirmos contê-los. Eles não pareciam ser pegos de surpresa pelas nossas tentativas de ataque e conseguimos golpeá-los apenas duas vezes. No fim, a fuga pela montanha foi a única solução. E nesse momento mais dois de nossos homens se feriram gravemente.

— E as crianças, Philip? Você disse que haviam crianças e mulheres entre os resgatados.

Philip assentiu, umedecendo os lábios antes de continuar seu relato.

— Por sorte eles tinham atravessado o riacho e correram do outro lado da margem a tempo de se protegerem. Encontramos eles em cima de árvores posteriormente, quando os animais enfim nos deixaram. Só então prestamos assistência aos feridos e pudemos resgatar o corpo dos mortos. Foi quando enviamos o pedido de socorro e esperamos sermos resgatados.

Flora voltou os olhos para a perna direita dele e mordeu o lábio inferior.

— Você se feriu — ela disse.

Philip movimentou a cabeça em afirmativa.

— Sim, infelizmente acabei machucando a perna, além de outros arranhões. Mas nada sério que me impedisse de estar com você hoje a noite. É um dia muito importante e eu fiz de tudo para chegar a tempo.

— Eu também mal posso esperar para a cerimônia — Katherine emendou. — Flora se tornou uma aluna muito aplicada e estava entusiasmada com a cerimônia até a sua carta chegar. — Ela ergueu a mão direita em direção a Philip, olhando para a jovem. — E agora que você se certificou de que ele está bem, podemos retornar com aquela empolgação anterior, afinal, hoje é, com efeito, um dia muito especial.

Flora se expressou com alegria. Era verdade, ansiava por aquela cerimônia desde quando chegou a Or. As roupas novas já tinham sido escolhidas. Seus novos trajes possuíam as características dos moradores de Or, e substituíriam todos seus vestidos antigos, que agora fariam parte do passado. Seu cabelo receberia um novo corte, ela colocaria um vestido de renda branco, ganharia uma joia de sua nova família, e na fente de inúmeras testemunhas, após entregar ao rei seu pergaminho, teria seu nome assinado no livro dos cidadãos do reino, tornando-se legalmente um deles. Ali também aconteceria a tradicional Mitzvá, quando uma água pura e límpida seria despejada sobre uma bacia de prata e as mãos de Flora seriam lavadas naquela água, representando um novo começo de vida, quando ela deixava para trás seus antigos costumes, assumindo os costumes de seu novo povo.

— Estou feliz porque você está aqui, Philip.

— Não poderia perder esse dia tão significativo — ele respondeu levando a mão dela até os lábios e deixando um beijo ali.

O chá interrompeu a conversa e livrou Flora do constrangimento de receber o carinho explícito na frente da cunhada. Os três aproveitaram a refeição juntos, enquanto compartilhavam mais sobre os dias em que ficaram afastados. Phil contou sobre sua missão e Flora sobre os preparativos para o casamento.

Quando o último biscoito foi consumido, Katherine levantou-se e apertou o chale sobre os ombros. Ela estremeceu com leveza.

— Está tão frio. Acho que gostaria de descansar um pouco perto da lareira. Phi, poderia levar minha poltrona até lá? Meus pés estão gelados, preciso aquecê-los.

Philip ergueu as sobrancelhas tentando compreender o ataque súbito de frio de sua irmã calorenta. Mas, atendendo seu pedido, colocou a poltrona exatamente onde ela queria, só compreendendo exatamente as motivações da irmã, quando ela frisou bastante que gostaria do móvel de frente a lareira — de modo que, devo explicar, ela mantinha-se de costas ao casal no sofá.

Já com a desejada privacidade, Phil e Flora sentaram-se lado a lado, as mãos unidas, bem como o coração. A intimidade crescia juntamente com o sentimento, provocando nos dois extrema satisfação por estarem próximo de quando se tornariam uma só carne.

— Sei que já disse, mas estou tão feliz e aliviada, Phil. Tive profundo medo de perdê-lo, agora que encontrei o verdadeiro significado do que é amar de verdade.

Nosso guerreiro não poupou o sorriso de satisfação por ouvir sobre os sentimentos recíprocos de sua amada.

— E eu só conseguia pensar em você enquanto lutava contra aquelas criaturas. Eu precisava voltar para você, Flora. — Ele ousou acariciar o rosto dela por um instante. — Eu te amo tanto e a cada dia fico mais espantado com a intensidade desse sentimento tão puro e verdadeiro.

Flora inclinou-se até o peito dele e descansou ali. Embora não tivessem o costume de se abraçarem, ela não conseguia resistir à vontade de estar perto dele, como seu coração pedia. Philip manteve a distância necessária entre eles, mas rodeou os ombros dela com seus braços. Ficaram assim, em silêncio, por alguns minutos apenas aproveitando a sensação de pertencerem — ou quase pertencerem totalmente — um ao outro.

— Deixe-me contar sobre Jasper — Philip disse e Flora ergueu a cabeça em direção a ele, que sorria. — Ele usou suas recomendações curandeiras para tratar as feridas dos soldados. Parecia muito orgulhoso em poder ajudar. Depois, precisei ouvir, a todo instante, que seria um grande desperdício não levar você conosco em nossas viagens. Parece que você arrumou um grande aliado.

— Como ele está? Se feriu? — ela questionou preocupada.

— Quebrou 3 dedos, mas foi bem cuidado. Logo estará recuperado.

— E você pretende ouvir a minha petição agora? — ela indagou com um olhar esperançoso.

— Eu e Queves decidimos que viajarei por mais um ano, porém, não entrarei em territórios hostis. Permanecerei com minhas missões apenas nos reinos aliados e longe de perigos explícitos.

Philip certficou-se de estar bastante atento às reações dela antes de revelar seus planos.

— Sendo assim, acatarei os conselhos da Sra. Darcy. Uma esposa não deve ficar tanto tempo longe de seu marido...

— Ah, Phil! — Flora rodeou o pescoço dele com os braços e o apertou rapidamente, externando toda sua empolgação. — Eu sabia que você seria bondoso comigo!

Ele riu e tirando as mãos dela de seu pescoço, a afastou o suficiente para que pudesse lançar seu olhar mais autoritário — embora duvido que Flora interpretou assim.

— Mas isso apenas até você gerar a nossa primeira criança. Não pense que desejo criar meus filhos na estrada. Imagine! Se eles decidem imitar a mãe, estarei em apuros!

— E se eles imitarem o pai, terei uma longa carreira como doutora.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top