Dez

Em homenagem à vocês e às mil visualizações, retornei com um capítulo a mais. Espero que apreciem!

***

O trio chegou ao pequeno povoado do Rio Pardo ainda pela manhã. Lá, uma família muito querida de Philip insistiu para que pousassem até a hora do almoço e desfrutassem de uma deliciosa e nutritiva refeição antes de pegarem o caminho para a Torre do Refúgio. O cavaleiro não cederia à insistência da matriarca McLee, uma senhora cujo cabelo grisalho estava devidamente ajustado em um coque, a quem ele considerava muito devido aos serviços prestados em outras ocasiões, caso Flora não estivesse com eles.

Flora desceu de sua montaria e sentiu um pouco de dor nas pernas e nádegas. Visualizou Jasper e teve misericórdia do rapaz, viajando no lombo do cavalo. Não conseguia compreender como conseguiam manter-se tanto tempo montados e mal podia acreditar na facilidade de Philip em pular de sua montaria sem grandes esforços, enquanto ela mal conseguia fechar as pernas sem sentir dor.

Contemplou a paisagem ao redor. A pequena propriedade não era luxuosa, um tanto rústica, com animais soltos no quintal e um riacho passando ao fundo. Contudo, Flora estava encantada com a beleza dos detalhes, como o jardim tão bem cuidado e cultivado.

— Minha querida. — Flora sobressaltou quando a voz da senhora ressoou ao seu lado. — Oh, me perdoe! Não queria assustá-la!

— Está tudo bem — a jovem disse esboçando um sorriso simpático. — Eu só estava admirando sua residência.

A senhora McLee segurou uma das mãos da princesa e ofereceu um sorriso afetuoso. Flora, nesse instante, suspeitou de que era do conhecimento da mulher sua verdadeira identidade. Talvez Philip tivesse contado, embora o trio houvesse chegado a unânime decisão de guardar em segredo a verdade sobre a história da jovem para evitar problemas ainda maiores.

— Phil me pediu para providenciar um banho e roupas limpas para a senhorita. Ele está muito preocupado com seu desconforto. Sabemos como uma viagem longa como essa é cansativa para nós mulheres.

Flora surpreendeu-se com a revelação e automaticamente seus olhos pousaram no homem referido. Ele cuidava dos cavalos enquanto conversava com o dono da propriedade.

— Venha, a água já está fervendo. Acredito que a senhorita desejará se lavar antes da refeição.

— Ah, por favor, eu agradeceria muito! — Flora respondeu sem esconder o contentamento com a proposta.

A senhora McLee conduziu Flora para o segundo andar. A princesa não fez questão de esconder sua curiosidade com o local tão distinto dos aposentos reais. A verdade era que ela não imaginava como seu comportamento de extrema curiosidade ultrapassava um pouco as regras de boas maneiras durante uma visita. Para a sorte de nossa heroína, sua acompanhante — e aqui devo revelar que ela não desconfiava da identidade da princesa — era uma mulher vivida, amável e extremamente indulgente, mal se atentando à falta de indiscrição da nossa protagonista.

— O senhor McLee quem fez essa porta — a senhora revelou quando percebeu Flora observando atentamente a curvatura da madeira esculpida. — Cada ramificação representa um de nossos filhos e netos.

— É lindo! — Flora exclamou traçando um caminho com os dedos, completamente admirada pelo valor da peça. Nunca, em toda sua vida, havia imaginado que algo tão simples e rústico pudesse representar tanto.

— Vamos, vamos, antes que a água esfrie.

Flora sorriu e atendeu ao chamado. Adentraram em um quarto com poucas mobílias, mas que revelava bom gosto mesmo diante de tanta simplicidade. No canto direito havia uma banheira de ferro convidativa para o corpo sujo e dolorido da princesa. A senhora passou a andar pelo cômodo, abrindo armários e recolhendo materiais necessários para o banho da jovem. Nesse tempo, um rapaz entrou ao menos três vezes com baldes cheios de água fria e despejou sobre a banheira.

— Não possuem água encanada? — Flora questionou e só se deu conta de ter falado algo estranho quando a senhora a olhou um pouco confusa.

— É um sistema muito caro. Apenas os nobres tem acesso a esse conforto — ela disse e nesse instante avaliou Flora da cabeça aos pés. — Você trabalha para uma família rica?

Flora engoliu em seco e cruzou as mãos em frente ao corpo.

— Não exatamente.

Nesse instante o destino salvou Flora mais uma vez. O mesmo rapaz entrou carregando em uma vasilha a água fervente. As duas se afastaram e após a água ser despejada na banheira, o rapaz se retirou e a porta foi fechada. A doce senhora estendeu uma toalha para Flora e apontou para o local onde estava a banheira.

Flora não tinha certeza se seria ajudada a se despir, por isso, aguardou alguns segundos em frente à banheira. Quando percebeu que a senhora continuava a andar pelo quarto, dessa vez retirando de um armário um vestido azul, entendeu que precisaria fazer o trabalho todo sozinha. Com um pouco de dificuldade conseguiu se livrar das roupas e entrou na banheira apreciando muito o contato do corpo com a água quente.

— Aqui há alguns vestidos de minha filha. Ela deixou para trás quando se casou e acredito que servirão na senhorita. Embora esteja um pouco velho, creio que atenderá bem sua necessidade. — A mulher deixou na cama todos os objetos indispensáveis para a troca de roupa e sorriu ao ver a cara de satisfação de Flora. — Darei privacidade para a senhorita desfrutar de seu banho. Apenas não demore muito, ou perderá o almoço.

— Muito obrigada, senhora McLee.

Enquanto se lavava e sentia o prazer da água quente aliviando o desconforto de seus músculos, Flora pegou-se pensando na loucura dos últimos três dias. Três dias sem nenhum conforto com o qual estava acostumada, sem a apropriada higiene e o devido descanso merecido. Agora ela compreendia quando Amelie a alertava sobre as dificuldades enfrentadas pelos plebeus, sobretudo os mais pobres.

Lavou-se e, mesmo tentando não demorar muito devido ao conselho da senhora McLee, não resistiu o efeito da água em sua pele. O cabelo já estava limpo, bem como todo o restante do corpo, mas ela só saiu quando a água esfriou, expulsando-a do prazer proporcionado.

Demorou um pouco além do costume para se vestir, mas, embora o vestido tivesse ficado levemente curto, estava muito satisfeita por poder se desfazer das vestes sujas. Penteou o cabelo com a escova deixada na penteadeira e sorriu satisfeita com a imagem refletida no pequeno espelho.

Quando desceu as escadas, ouviu vozes alegres ressoando pela casa. Seguiu o barulho e encontrou todos reunidos em uma pequena sala, discutindo o destino de um porco, ora destinado à reprodução, ora à refeição da família. Flora pigarreou quando entrou e todos os olhos se voltaram a ela.

— Podemos, enfim, nos reunir à mesa para a refeição — o senhor McLee, um simpático homem apoiado em uma bengala exclamou com entusiasmo. — O porco dessa vez se safou de virar o prato principal.

Todos riram e ainda naquela esfera de bom humor seguiram até a sala. Philip adiantou-se e puxou a cadeira para Flora, auxiliando-a a se sentar. Com uma mesura tentou demonstrar sua boa disposição em se tornar mais agradável — e devo acrescentar, menos orgulhoso.

O almoço foi servido e todos apreciaram a boa comida. Faminta, Flora dispensou todas as boas maneiras à mesa e comeu o suficiente para cinco damas. Philip fez questão de dominar a conversa, temendo a língua grande de seu escudeiro, ou a ingenuidade da princesa, ambos pendidos a revelar mais do que o devido. Falaram sobre a diferença climática dos reinos, do triste destino de uma vaca na propriedade do pai de Phil, que depois passou a descrever algumas de suas viagens.

Flora relutava em admitir, mas gostava de ouvir quando Philip falava. De alguma maneira ele demonstrava amar toda a jornada de sua vida. E tudo estava indo bem, até Jasper acrescentar um comentário sobre a primeira de suas aventuras ao lado do mestre.

— Eu nunca me esquecerei da expressão de Philip e Morgana quando meu tio me apresentou aos dois. Phil não esperava um menino tão jovem.

Um silêncio crucial tomou lugar à mesa, sendo interrompido apenas pelo murmúrio saindo da boca de Jasper quando se deu conta do assunto mencionado. Philip coçou a nuca e todos pareciam mais interessados no resto do assado em seus pratos.

— Flora, eu separei alguns objetos e roupas para a senhorita levar durante sua viagem. Phil me informou que perderam sua montaria e imagino que seus pertences estavam juntos. — A senhora McLee levantou-se quebrando o clima ruim ao redor de todos. — Farei uma trouxa e pedirei para atarem em seu cavalo.

— Obrigada, senhora — ela respondeu sorrindo gentilmente.

Philip aproveitou para se levantar e apressou os companheiros de viagem, retirando-se do cômodo, levemente agitado. Estava claro de que o comentário de Jasper o incomodara e Flora lamentou a mudança de comportamento do cavaleiro que minutos antes se apresentara gentil e comunicativo.

Creio que posso dispensar aqui a descrição da despedida. Palavras gentis foram trocadas, agradecimentos feitos e promessas de retorno confirmadas, como deve ser a maioria das partidas em casos similares. Devo apenas acrescentar que partiram, dessa vez com uma montaria a mais, cedida pela família McLee para o conforto da princesa, e uma grande cesta de alimentos para viagem.

Já estavam adiantados no caminho quando Philip aproximou seu cavalo do da princesa, posicionando-se ao lado dela. Sem conseguir encarar a jovem, viu ali a oportunidade perfeita de tentar consertar as coisas.

O fim das coisas é melhor que o seu início, e o paciente é melhor que o orgulhoso — recitou Philip com a voz firme, fixando seu olhar em um ponto a frente. — Nosso sábio rei Chesed sempre nos instruiu a sermos servos, pacientes e humildes. Contudo, sei que não agi de maneira correta ontem, mesmo a senhorita sacrificando coisas importantes para cuidar de minha saúde debilitada. Gostaria de apresentar minhas sinceras desculpas. Não deveria ter agido daquela maneira com ninguém, quanto mais com uma dama, tampouco sendo ela a princesa desse reino.

Flora atreveu-se a olhar para ele e encontrou em sua feição marcas de um verdadeiro arrependimento. Naquele momento ela passou a gostar mais do rígido cavaleiro e viu-se forçada a se desculpar também.

— Suas desculpas foram aceitas e eu também me coloco na mesma condição. Talvez meu comportamento não tenha sido dos melhores. — As engrenagens de seu cérebro passaram a trabalhar e uma brilhante ideia passou em sua cabeça. — Mas, se o senhor quiser se retratar, agradeceria muito se me levasse diretamente para o palácio.

Philip não conseguiu se segurar e riu da destreza da princesa. Ele não revelou que havia cogitado aquela possibilidade, mesmo depois de ter avisado sobre a mudança de planos, contudo, algo na personalidade de Flora e o caminho a qual ela insistia em tomar o fizeram retroceder naquela ideia, mesmo ele mesmo não compreendendo seu posicionamento.

— Você já está atrasada para seu Tslach. Não chegaríamos a tempo para o baile de hoje a noite mesmo se nossos cavalos tivessem asas — ele informou tentando fazer ela mesma decidir o mesmo caminho que o dele.

— A essa altura creio que o baile tenha sido cancelado. — Ela deu de ombros e voltou a olhar para a estrada à frente.

— Teremos notícias na próxima cidade. Lá buscaremos informações sobre o que acontece em Gadol e se é de conhecimento do Reino o sumiço da princesa — Phil disse e riu novamente ao imaginar as confusões em que Flora havia se metido.

Flora suspirou.

— Espero que não esteja tão encrencada. Mas, senhor Philip, se puder adiantar meu retorno, creio que pouparia o sofrimento de meu pai sem notícias do paradeiro da filha. — Flora mordeu os lábios inferiores sentindo uma pontada de culpa. Disposta a não pensar nisso, acrescentou: — E Henry já deve estar lá, preocupado com meu sumiço.

A menção do nome do príncipe fez Philip remexer-se em sua sela. Só percebeu a força com que apertava as rédeas quando Ezer protestou balançando a cabeça.

— Deseja tanto se casar com o príncipe Henry? — Phil questionou tentando não demonstrar o desdém em sua pergunta. — Percebo sua ansiedade em reencontrá-lo sempre quando o menciona.

Flora sorriu, esses sorrisos dado por mulheres inevitavelmente apaixonadas.

— Sim, mal posso esperar o momento de selar nosso compromisso de uma vez por todas e me tornar sua noiva.

— Desculpe minha intromissão, mas conhece o príncipe Henry há quanto tempo, princesa? — ele indagou tentando compreender como uma doce mulher pudesse se ligar a um homem como Henry de Goi.

— Desde quando era criança. Henry é o homem mais incrível que já conheci. Quanto mais tempo passo com ele, mais o admiro por suas excelentes qualidades. — E, claro, era conquistada pela ardente paixão demonstrada quando se encontrava com ela.

— A senhorita conhece mesmo o príncipe? — questionou dessa vez sem esconder seu desgosto com o homem.

— Sim, conheço. — Incomodada com a intromissão de Philip e notando o claro desprezo demonstrado, ela ergueu as costas deixando claro sua desaprovação com aquela interferência. — Creio que talvez esse não deva ser um tema tratado entre nós, senhor. Agradeço seu cuidado, mas é um assunto pessoal e de esfera íntima. Henry não gostaria que eu discutisse nosso possível relacionamento com um guer desconhecido.

Philip riu alto e estava prestes a dizer algumas verdades acerca do príncipe querido quando se lembrou da repreensão meditada durante o dia. Por isso, escolheu o caminho da mansidão, mesmo um pouco contrariado.

— Perdoe-me a indiscrição. Não tocarei mais nesse assunto, se assim deseja.

— Sim, é como eu desejo, senhor — Flora declarou e empinou o nariz dando a conversa como encerrada. — Peço licença, pedirei Jasper que me ensine mais algumas canções.

E foi assim que Phil viu a princesa se afastar e se juntar a Jasper alegremente. Praguejou com sua falta de jeito e decidiu que o melhor caminho era não falar o nome do amado da princesa em nenhuma ocasião posterior.

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