O Passado
Liffiting Hall
29 de março de 1705
A chuva caía, as poucas luzes oscilavam, fracas. Eu podia ouvir o som deles se aproximando. Os rugidos ferozes, as ruas desertas. Estávamos todos prontos, preparados para aquela guerra. Mesmo que eu não quisesse lutá-la. Meu pai pôs sua mão em meu ombro, sussurrando palavras no meu ouvido.
- Mate eles, Miguel! Eles são criaturas imundas que não merecem nossa piedade! Você sabe, eles nos matariam sem pestanejar. Faça o mesmo. - Ele se afastou.
Meu corpo se transformava toda vez que meu pai me dava ordens, as quais eu executava, sem ter a liberdade de contestá-las. Não por não querer, eu não podia desobedecê-lo mesmo que lutasse com todas as minhas forças. Era a minha maldição, estava preso à ela.
Kaden, meu pai, havia me transformado em um monstro perverso, cruel, sem raciocínio em combate, apenas com desejo de sangue e morte. Vampiros são seres secos, movidos por ódio e vingança e, o desejo de sobreviver matando tudo que represente perigo à nossa espécie. Devíamos ficar juntos e nos defender, mas o que fazíamos não era isso...
Senti o cheiro deles cada vez mais perto. Aquela guerra seria épica, a batalha contra nossos maiores inimigos. Todos os sete clãs contra uma alcatéia igualmente numerosa. Como o filho do líder de um dos clãs, eu devia lutar e honrar meu pai. E ali estávamos nós, vampiros e lobisomens, dispostos a lutar por uma rixa de 1 milênio. Os sete líderes avançaram e nós fomos mais atrás, esmagando cabeças, quebrando costelas, partindo-os ao meio. E eu lutei como se minha vida dependesse daquilo, pois de fato dependia. Matei milhares, sem sentir remorso algum. Vampiros não sentem nada, são ocos por dentro. Vivemos para destruir e matar. Se é que estamos vivos... Havia sangue em minhas mãos e ódio em mim. Gritei alto, em meio a trágica paisagem à minha frente. Milhares de corpos espalhados pelo solo manchado de sangue, vampiros estilhaçados e lobisomens esquartejados, o frio me dominava por dentro, aquela frieza tão comum para mim.
- Hoje, nós mostramos a eles que nós somos os fortes! Que nós temos o poder! Agora, selemos, pois, com fogo. A nossa vitória entra para a história e o nosso triunfo jamais será esquecido. Brademos agora e nos orgulhemos deste dia a cada vez que o relembrarmos. - Declarou o meu pai, Kaden.
E naquele dia, a raça dos lobisomens acabou.
. . . . . .
- Sua presa?! - A encarei confusa.
Ela se afastou um pouco, pensativa. Esperei que ela dissesse algo, pois estava perdida naquela situação.
- Skyla, lembra-se que lhe disse para ficar longe de Miguel? - Assenti com a cabeça. - Ele não é confiável. Vampiro algum é digno de confinça! Quero matá-lo, de qualquer forma! E você é a chave. - Ela declarou para minha surpresa.
- Como eu posso ser a chave? - Perguntei.
Aestória se aproximou de mim segurando minha mão. Aquele choque se espalhou pelo meu corpo.
A garota... Francielle. Por quem Miguel nutria um amor incompreensível. Ali estava a bela garota, quieta em um canto. Pude vê-la, em sua calmaria, em seus conselhos, sua compreensão com todo o conhecimento adquirido. Aestória e ela eram amigas, se defendiam, se protegiam. Uma memória distante, cheia de ódio...
13 de fevereiro de 1780
As ruas molhadas, as luzes oscilantes, o desespero a infiltrar-se em nossas veias. Eu a segurava pela mão.
- Aestória... Eu não consigo mais... - Ela parou, ofegante. Respirava com dificuldade.
- Eles estão vindo! Precisamos ir! - A tomei pelo braço novamente.
Ela puxou sua mão, seu olhar escuro a brilhar. A vi ali, parada, imóvel, recusando-se a correr, a fugir deles. Por causa dos vampiros, perdi toda a minha família e não podia perder a única que se importava comigo.
- Não irei deixá-la para trás. - Esclareci de imediato.
- Eu sei que não. É a mim que querem. Não deixarei que encontrem você. Fuja.
- Não, Francielle. Venha comigo. Vamos fugir juntas! - Ela apenas murmurou um "me perdoe" em resposta e saiu correndo em outra direção.
Me neguei a fugir sem ela, mas cheguei tarde demais para salvá-la. A minha culpa me consumiu. Sem outra alternativa, procurei um esconderijo onde ninguém me achasse. As únicas vezes que eu saia era durante o dia, mesmo que as pessoas me encarassem de forma pouco amistosa. Estava sempre alerta. As feiras movimentadas eram meus focos. 3 dias se passaram e eu não tinha notícia alguma sobre Francielle. Quando, em uma noite escura, eu a vi. Vestida de preto. Corri ao seu encontro, mas ela não se mexia, se negava a olhar-me nos olhos.
- Francielle..? Está tudo bem? Estou feliz por vê-la! Como conseguiu voltar?
Ela se virou calmamente e então, lá estavam os olhos azuis brilhantes. As presas afiadas. Ela tremia, parecia chorar. Ela havia me traído, se tornou uma deles!
- Me perdoe, Aestória... Eu precisava fazer isso... Pelo Miguel...
- Miguel?! Você sabe que ele é cruel, perverso, sem coração! Ele matou minha família e agora transformou você em uma deles... - Eu não sabia ao certo o que sentir.
- Ele não é tão mal... No fundo, ele é bom... Mas, não pode controlar sua fúria e isso não é culpa dele... Kaden o manipula, bem como faz com todos os outros...
- Você me traiu! Está com eles agora!
- Não... Eu o amo... E você é minha amiga, assim como defendi antes, lhe defenderei agora! Acredite em mim. - Ela pediu, antes de se transformar em pássaros e sair.
Aquela foi nossa última conversa. Eu a segui, usando minha velocidade e invisibilidade, apenas esqueci que ela sentia o cheiro. Mas, ela me permitiu ir. Vi quando Kaden a acorrentou em correntes de prata pura. Vi quando o sol nasceu e atingiu seu rosto, o petrificando naquele lugar para toda a eternidade. Vi Miguel, sem mover um músculo para ajudá-la. Vi a alegria exorbitante de Kaden ao vê-la queimar e pretrificar-se. Chorei de ódio e jurei vingança. Apenas um deles me olhou, mas não deu sinal. Fugi o mais depressa que pude, eu não podia confiar nele. Eu os odiava com todo o coração. Francielle foi morta por não revelar meu esconderijo, por que Kaden não conseguiu ler sua mente, como fazia com todos os outros vampiros. Ela foi morta, momento algum me abandonou e eu falhei com ela. Mas, eu vingaria sua morte!
Abri os olhos, respirando loucamente. Havia acabado de ver o passado de Aestória. Havia entendido a razão de todo o seu ódio. Ela se levantou.
- Cadriel me viu, mas não contou para o pai. Ontem, eu só soube onde você estava e só salvei você por causa dele. Ele sabia dos planos de Kaden e me contou. Não deve sua vida apenas a mim.
Me remexi. Não fazia ideia de nada daquilo. Me senti culpada mais uma vez. Ele não estava lá, mas mandou alguém para me salvar em seu lugar. Me arrependi amargamente por ser tão grossa e por tê-lo afastado de mim. Ele já era tão difícil de demonstrar e quando demonstrou, fui cega o suficiente para não ver.
- Eu não confio em ninguém, muito menos em um vampiro. Mesmo que ele não seja tão vampiro assim... Então, Skyla. Vai me ajudar? Se pensar bem, notará que está ajudando a si própria também. - Ela me encarou, esperando minha resposta.
Eu queria continuar sendo a durona, mas quem eu queria enganar? Aquele mundo não era minha responsabilidade, não era meu dever ser heroína, eu não sou uma heroína, sou um ser humano! Apenas me meti numa confusão! Mas, eu não ia ser covarde.
- Se depois dessa loucura toda eu não for enviada para um hospício, quero que tudo isso desapareça! Quero esquecer que existe tudo isso, que aconteceu tudo isso, quero ficar em paz! Eu ajudo. - Declarei.
Ela sorriu, vitoriosa. Era tudo o que queria ouvir. Ela se virou, indo buscar alguma coisa. Por dentro, tudo doía em mim, eu estava acabada, queria conseguir dormir, queria acordar e descobrir que tudo aquilo era um sonho de gente maluca como eu. Mas, bem, isso estava longe de acontecer. Quando parei para pensar, notei que havia me metido em algo pior ainda.
É, acho que meus dias não serão tão longos nessa Terra! Tentei sorrir, mas acabei lembrando de Mattew. Matt...
O celular tocou e eu me recusava a atender. Sabia que era ele. Queria ouvir sua voz, mas não queria enfrentar sua fúria mais uma vez. E o celular tocou trinta vezes. Eu não atendi. Desisti de tentar manter-me longe do aparelho. Haviam 3 mensagens e um recado. Coloquei para ouvir o recado e logo senti as lágrimas se formando e meu coração dar um pulo.
- "Oi, Skyla. É o Mattew, o garoto que você chamava de irmão! Você destruiu a minha vida! Você não sabe ser irmã! Você fugiu quando as coisas não iam bem e me deixou para trás. Você nem me dá o direito de saber onde você está! "
As mensagens diziam: " Para você, é fácil esquecer!" e a outra: " Realmente eu cresci e cresci sem a sua ajuda!"; " Você morreu pra mim, Skie".
Logo, eu estava sem ar de tanto soluçar. Não enxergava nada além da frase "você morreu pra mim". E eu o amava tanto... Mas, como todos os grandes idiotas, não soube demonstrar. Esse foi meu maior erro.
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