O estranho
2h47 da madrugada
Apartamento em Semytiville
18 de março
Ainda nem havia dado três da madrugada e eu já estava acordada. A insônia era meu problema, quase todas as noites.
Me obriguei a levantar da cama e ir tomar um banho, no frio congelante de Semytiville. Em quase todos os dias eu me perguntava por que raios eu havia ido para lá, eu devia ter escolhido um lugar mais quente, onde o sol aparecesse pelo menos uma vez no ano. Minhas pintas estavam quase sumindo. Sempre fui um ser humano complicado, tinha dias que eu odiava meu cabelo quase ruivo, minhas sardas salpicadas pelo nariz e meus olhos castanho-claro tão normais, mas em outros dias, eu amava ser assim.
Me olhei no espelho, estava magra feito um palito. Eu não costumava vestir muita roupa para dormir, apenas uma camisa bem grande me bastava.
Caminhei indo para a cozinha, meu caminho toda madrugada. Meu estômago roncava pedindo sorvete.
Do nada, me vinham loucuras na cabeça, como fritar batatas e comer com mel, fazer pipoca e misturar com feijão, nem eu entendia essas minhas idéias noturnas. É isso que a insônia faz, lerda.
Então, tive a brilhante ideia de passar marshmellow no sorvete enquanto assistia O pangaré da tia Rosilda , um filme ridículo que eu odiei.
Três e alguma coisa, quase quatro. Decidi escolher um filme bom, mas antes, fui buscar outro pote de sorvete. Eu não tenho culpa se aquele filme era uma merda filmada sendo produzida. Assisti Velozes e Furiosos 8, enfim um filme bom.
Faltavam quinze para as seis quando o filme acabou e eu joguei fora meu pote vazio. Me vesti e desci, pegando o elevador.
Minha vida estava tão parada que eu mesma estava me cansando de tudo, minha vontade era sumir de novo por uns dias, encher a cara e depois voltar, mas bem, tenho que ser pelo menos um pouco responsável pela minha vida e não estragar meu estômago com bebidas, apenas com besteiras que deveriam me engordar.
Fiquei feliz ao ver a chuva cair, pois eu havia lembrado de comprar o guarda-chuva. Depois de meses banhando na chuva, como normalmente acontece.
Entrando no ônibus, vejo aquele homem. Ele não precisa me encarar para que eu congele por dentro e meu coração acelere. Sento na minha cadeira de costume, novamente tendo que aturar os olhares daquela mulher insuportável.
- Mathew, presta atenção, essa é a última vez que vamos nos falar, então, aproveite... - Digo, certa da minha decisão.
- Por que esta é a última vez? - Sua voz soa preocupada.
- Por que você já tem 16 anos, é um homem, não precisa mais de mim. - Digo mais uma meia verdade. Completa seria simples, eu não queria me cortar de tristeza, me fragmentar cada vez que ouvia sua voz e me arrepender de não tê-lo trago.
- Então, eu vou desligar desta vez. Eu sei que você sumiu por que é mais corajosa que eu, que odeia nossos pais tanto quanto eu, sei que você é a minha irmã... É tudo o que sei com certeza sobre você, e quer saber? Isso está ótimo. - Ele afirma, com sua voz grossa.
Eu não tenho palavras para lhe responder, queria ouvi-lo uma última vez, queria que aquela fosse A SUA ligação.
- Skyla, eu não vou esquecer você - é o que ele me diz, antes de desligar.
- Eu também não - Afirmo para o vento, pois ele já não podia me ouvir.
Abri os olhos à tempo de descer e seguir meu caminho para a estação. Pensei em Mathew durante todo o dia, pois afinal, a culpa por ele não estar vivo, era minha. Eu o havia abandonado, em plena adolescência, sujeito a tantas coisas... Se eu estivesse lá, mudaria alguma coisa?
Pais ausentes, um lar sem o tal do amor, uma família sem laços, sem união, destruída por tudo e qualquer coisa. Acho que não dá pra sobreviver a isso por muito tempo.
Não houve muito movimento naquele dia. O ar estava melancólico, triste, cansado de passear por aí. O universo parecia ter ido tirar umas férias enquanto o meu mundo se desmoronava de vez.
Caminhei pelas ruas com as risadas da minha infância me seguindo, presas em minha memória a longo prazo. Risadas de quando Mathew começou a andar e derrubar as coisas no chão, eu na verdade, fui a mãe dele, enquanto a minha estava fazendo cirurgia para tirar a pele esticada pela gravidez. Aquilo só me trazia raiva, cada vez mais. As memórias daquela voz de criança dizendo "Skie" pela madrugada, me pedindo para dormir comigo quando ficava com medo.
Peguei o ônibus, dando de cara com o homem lá no fundo, com um olhar que diz pouco ou nada.
- Boa noite - uma mulher negra diz.
- Boa noite - murmuro, sem saber o que dizer. - Onde está Madson? - Perguntei, ao notar que ela estava no lugar dele, de cobrador.
- Acho que ele está doente, não pôde vir hoje. - Ela responde, com um sorriso tímido.
- Ah, sim. Obrigada. - Respondo, indo na direção do homem que me encara sem desviar o olhar.
Meu coração acelera, meus pelos se eriçam, o medo me invade, mas eu continuo, algo em mim, não sei bem o quê, diz para não me aproximar senão não haveria volta, era perigoso. Aquele gosto ardoso na boca. Era como se um ímã estivesse me atraindo a ele. Me sento ao seu lado.
- Quem é você? - Pergunto, tentando não parecer nervosa e assustada.
- Quem sou eu? - Seu olhar expôe perigo, meu estômago reage se embrulhando. Sinto desejo de me aproximar, mas não posso. Era como se um alarme estivesse sendo ativado dentro de mim, para não me meter com aquele cara.
- É... Eu moro aqui há uns anos, nunca vi você, é um bairro pequeno. - Afirmo, disfarçando meu medo. Era incrível como um desconhecido me causava tanto pavor.
- Sou novo, acabei de me mudar. - Ele diz, me encarando. - Talvez eu também queira me esconder do passado, assim como você. - Me perguntei como ele sabia disso. - Você disse que mora aqui há uns anos, não nasceu neste fim de mundo. Prestei atenção.
Ele se aproxima, as luzes se apagam e o veículo para. Meu desespero começa a surgir, mas é vencido pela curiosidade da doce tentação.
Posso ver suas íris, brilhando na escuridão. Ele se aproxima de mim, afundando seu nariz em meu cabelo, me puxando para si, tocando minha pele exposta do pescoço com seus lábios frios e doces. Quero me afastar e ao mesmo tempo, me agarrar a ele. Quero muito pertencer, mas também quero fugir de seus braços fortes e seguros.
A luz volta e ele some, estou sozinha de novo, assustada e curiosa.
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