Feita de papel
07h58 da manhã
(Local desconhecido)
27 de março
Alguém massageava meu cabelo cuidadosamente, abri os olhos e dei um pulo da cama, trazendo comigo os lençóis. Havia uma garota pequenina encolhida ao lado da cama, tentando se esconder. Franzi o cenho.
- O que você está fazendo aqui?! - Falei assustada, mal podia vê-la e notei as cortinas fechadas travando minha visão do sol, me aproximei para abri-las. - Porque você fechou as cortinas?
- Não, por favor, não abra elas! - Ela implorou, se revelando.
Lembrei que vampiros não podem ser expostos à luz do sol, ela com certeza era uma deles. Mas, era pequenina, loira de longos cabelos entrançados, os olhos fundos, azuis reluzentes e suplicantes, pálida como papel, vestida de preto, magra demais. A julgar pela forma que estava, assustada e encolhida, ela devia ter passado por uns maus bocados.
- Tudo bem. - Falei, soltando as cortinas cor de vinho. - Qual é o seu nome?
- Lil. - Ela sussurrou, amedrontada. Como se eu fosse algum perigo para ela. Revirei os olhos.
- Escuta...Lil, eu não vou machucar você, seria mais fácil você me machucar! - Eu ri da minha própria afirmação, tendo consciência daquilo. - Porque está aqui?
Ela se levantou, me permitindo vê-la melhor. Estava mais para menina. Ela tinha aparência de uma menina de 15 anos, albina pude perceber.
- Kaden mandou eu cuidar de você... Ele quer você pronta para hoje à noite... - Sua voz era tão baixa e fina, chegava a dar dó.
- O que tem hoje à noite? - Perguntei curiosa.
Ela se encolheu, estava com medo. Percebi que ela não poderia me dar muitos detalhes, afinal.
- Lua de sangue - ela murmurou, num som quase inaldível.
Senti um cheiro maravilhoso vindo do meu cabelo e o puxei para mais perto, inalando profundamente. Hummm.. Que delícia!
- O que você passou no meu cabelo? Uau! Isso é muito cheiroso! - Exclamei com um sorriso largo.
Lil deu um sorriso tímido, seus olhos baixos focando o chão, as mãos retorcidas escondidas nas mangas longas da sua blusa.
- É uma essência feita da mistura de óleos raros... Que eu fiz... - Ela revelou.
Avistei um vestido de seda fina sobre a cama. Cor pérola, liso e simples, sem aquelas coisas bufantes em baixo. Honestamente, foi o que mais me agradou, mas se fosse menor seria ainda melhor. Andar por aí com esses vestidos gigantes, me fazia sentir como um pano de chão de ambulante.
- É pra mim? - Perguntei, logo percebendo o banho preparado na banheira cheia de espuma altamente convidativa. Meus olhos brilharam.
- Kaden disse que você tem que estar purificada, então escolhi a cor branca para o seu vestido... Não gostou? - Ela parecia triste.
- Na verdade, não sou muito fã de vestidos, prefiro uma boa calça, mas até que gostei desse ali. - Apontei. - Eu quero muito tomar um banho! - Falei com um sorriso.
Comecei a tirar o vestido idiota, louca para tomar banho naquela banheira tão atraente aos olhos. Lil ficou de costas, um tanto envergonhada. Corei, havia esquecido dela ali.
- Desculpa, Lil... Eu já tinha até esquecido que você ainda está aqui... Se importa em esperar do lado de fora? - Perguntei, ao que ela apenas obedeceu.
Eu nem queria demorar tanto, mas estava precisando daquilo há séculos. Enquanto a água quente relaxava meus "músculos", eu refletia sobre a tal "lua de sangue". Eu nunca tinha visto isso na vida, talvez por falta de atenção. Lembrei que esse fenômeno demora uns anos para acontecer. Saí da banheira, indo vestir o vestido mais confortável do mundo. Depois abri a porta para Lil entrar. A menina minúscula entrou com passos tímidos e cautelosos. Fechei a porta e ao me virar, notei que ela estava focada nos meus braços.
- Fica tranquila, isso foi culpa minha... Uma invenção não muito inteligente... - Comentei num som quase inaldível.
- Posso cuidar disso, mas vai doer um pouco. - Ela se aproximou, pegando minhas mãos, parecia um tanto perturbada, como se alguma coisa interior estivesse em luta.
Suas mãos começaram a brilhar, como vários cristais juntos. As veias dos seus braços estavam iluminadas num tom claro, doando energia para mim. Meu braço cheio de arranhões, desde os mais profundos aos mais leves, começou a cicatrizar, fechando cada ferimento, de pouco a pouco, logo nem haviam mais cicatrizes e eu me sentia renovada. Dor de cabeça... Ai, não!
Ela, mordida por Kaden, transformada para sempre. Seus olhos lindos de cor semelhante a violeta, nunca mais seriam os mesmos. Sua alma pura agora enegrecida. Trancafiada e escravisada pelas trevas. Sua voz, seus gritos de horror, as marcas, a dor, a regeneração. A menina perfeita.
Soltei suas mãos, dando passos para trás, um pouco tonta. Ela parecia fraca, estava mais pálida.
- Não doeu. - Comentei, tentando esquecer o que eu tinha visto.
- É em mim, sua presença e seu cheiro já me envenenam, me levam ao doce caminho da morte... - Ela disse.
Ela parecia uma velha dizendo essas coisas... Como o caminho para a morte podia ser doce?
- Quantos anos você tem? - Perguntei, pois uma garota tão nova não almejaria a morte tendo a imortalidade e a juventude.
- Eu tinha 15 anos quando Kaden me transformou... - Ela sussurrou.
Se meus pensamentos estavam certos, Kaden iria fazer alguma coisa comigo pela noite e eu precisava dar o fora dali depressa. Lil disse que até meu cheiro os matava aos poucos, então eu era realmente uma ameaça para eles. Provavelmente, vampiros não deviam gostar de estar em perigo. Olhei para a menina, me perguntando se ela por acaso saberia como eu poderia voltar para casa.
- Lil, você... Pode me fazer um favor? - A garota arregalou os olhos, aflita. - Eu não vou chegar sequer mais um centímetro perto de você. - Garanti. - Só quero ir para casa... Acho que essa lua não vai me fazer bem aqui... Por favor, me mostra a saída... - Pedi.
Eu nunca tinha sido tão legal com alguém na vida como eu estava sendo com ela. Alimentei minhas esperanças de que ela me ajudaria.
- Não posso... - Ela se encolheu. - Kaden... - Balançou a cabeça inúmeras vezes, tentando espantar as más recordações.
- Por favor, Lil... Você nem precisa ir comigo, é só me dizer onde fica, eu posso achar sozinha. - Afirmei.
A menina suspirou profundamente, concordando para meu alívio. Ela me guiou até os porões do palácio, me levando até uma porta no chão, onde havia um túneo.
Observei o lugar por onde eu passaria, feliz por estar indo para casa.
- Siga sempre pela direita, quando chegar na divisão com vários canais diferentes, escolha um símbolo. - Ela disse, já se despedindo.
- Obrigada. - Pulei para dentro do buraco. A menina ia fechando a porta. - Lil, minta sobre tudo. - Recomendei.
Ela assentiu uma vez. Andei cuidadosamente pelo túneo e logo encontrei a divisa, onde haviam 12 canais. Escolha um símbolo, Skie. Segui no túneo onde havia o desenho da constelação de escorpião, por algum motivo.
Fui ficando com sono, meus passos estavam lentos e trôpegos, nem sabia mais o que estava fazendo. Meu corpo se movia, teimoso e resistente, mas eu não duraria muito mais, estava com sono e cansada.
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