Meia-noite
Então, à meia-noite, deu-se fim ao feitiço que devastou a vida. A cidade horrivelmente tomada pelos mortos se calou num silêncio amedrontador. Os doze que sobreviveram aos caos se deslocaram do ambiente sagrado que era a igreja e pelejaram sobre o tapete de corpos inertes que acobertava cada espaço das ruas. Era o fim, eles sabiam. O fim de tudo.
— O que faremos agora, Liam? — Lia perguntou ao irmão.
— Vai ficar tudo bem — ele afirmou, embora estivesse pouco convencido disso. — Temos um ao outro ainda.
— Aonde estamos indo? — Amélia perguntou a qualquer um do grupo que pudesse responder.
— Ao cemitério — esclareceu Lilith. — Quem sabe encontremos algo lá que justifique o erro da nossa ilustríssima bruxinha. Foi lá onde tudo começou, não foi?
— Não quero voltar pra lá! — resmungou Ágata.
— Cala boca porque você não está em posição de exigir nada! — Layla rebateu.
Assim que chegaram ao cemitério, Lilith orientou para que todos saíssem a procura de indícios que justificassem o ocorrido. De tudo o que foi encontrado, chegaram ao consenso de que a estrela que Ágata desenhou no chão antes do feitiço tinha duas pontas a mais do que deveria ter. Um erro bobo se for pensar, mas o suficiente para provocar o terror que levou a todo aquele estrago. Um terror total que se repetiu mais uma vez com a aparição dos vampiros. Sim, os vampiros que raptaram Ana, ali, no cemitério.
— Matem- os — um dos dentuços vociferou.
Como se sabe, os vampiros são, sem sombras dúvida, a mais terrível das criaturas para se ter como inimigos, pois são mortos-vivos eternos que se alimentavam do sangue de suas vítimas, tão gelados por dentro quanto por fora, e em sua maioria tão brutais quanto a magia que dava força à sua existência. Portanto, os doze estavam sim apavorados, mas não desistiriam sem lutar e, embora ainda estivessem exaustos, deram tudo que restava.
Layla foi a primeira a reagir, sua forma humana explodiu num enorme lobo negro que saltou e abocanhou a cabeça da primeira vítima imortal, o grunhido do vampiro foi interrompido quando ela sacudiu a própria cabeça com violência e arrancou a dele, o corpo decapitado caiu rígido, logo virou pó.
Essa primeira vitória pareceu fortalecer os outros e o pequeno grupo de vampiros recuou por alguns instantes, tempo o suficiente para a confiança emergir com força total nos corações, eles eram fortes, temidos, foi o que pensaram enquanto cautelosamente se afastaram ainda mais dos vampiros.
— Por quê vampiros estão aqui? — o medo na voz trêmula de Gina era quase tangível, se segurava em Gael como se dependesse dele como apoio, Amélia e Virginia se mantinham perto deles.
— Dessa vez acho que a culpa é minha, eu acho que matei o príncipe deles hoje... — quem respondeu foi Ana — ...não fiquei lá para olhar.
Liam e Lia estavam de mãos dadas, a ligação dos irmãos era mais forte que qualquer outra coisa, juntos eram mais fortes.
— Então estão movidos por vingança? Não consigo lembrar a última vez que vampiros agiram nessa cidade. — as palavras do espantalho foram ditas tranquilamente. — Os humanos aqui serão dizimados...
— Não, tenho quase certeza que restam poucos deles, eu chamei um guardião e sob orientação dele marquei toda a minha cela com símbolos sagrados e vi vários vampiros entrando, não é possível que tenham sobrevivido.
— Bom, era um príncipe vampiro, não? — Lilith não parecia apavorada como os outros, já conhecia a morte. — Além disso será que o feitiço de mortos-vivos da bruxa não fortaleceu eles? Não é isso que está acontecendo com Virginia? Olhem para ela, está quase encarnada.
— Não temos como saber essas coisas.... Eu posso explodir eles todos de uma vez! — as palavras carregando o (des)conhecido bom senso de Ágata foram as últimas coisas que alguns deles ouviram.
Mais rápido que um piscar de olhos, os vampiros os atacaram novamente e com força dobrada, dessa vez eles surgiram no meio dos doze usando sua velocidade absurda para driblar qualquer sentido extra, atacaram sem dó e desapareceram novamente. Amélia e Gina foram as primeiras a morrer, com gargantas dilaceradas, sufocando com o próprio sangue. O cerco formado pelos vampiros apertou ao redor deles, fazendo com que os dez restantes assumissem também uma ordem circular, tentando proteger a retaguarda uns dos outros.
— Eles não podem usar essa explosão de velocidade vezes seguidas — Even informou, anjos geralmente não se envolvem muito em brigas entre raças, mas o risco de perder a forma humana fez com que ele soltasse a língua.
— E você só diz isso agora, anjinho?
Pela segunda vez na noite Layla foi a primeira a atacar, avançando sozinha e deixando um espaço aberto no círculo dos nove. Eles perceberam que aquela formação não duraria muito, em pouco tempo seria cada um por si.
Liam segurou firme a mão de Lia e ela puxou Gael o mais perto possível de si, ela gostava de acreditar que os humanos podiam fazer a diferença no mundo, mas a verdade é que naquele ambiente ele não podia fazer nada. Os irmãos paranormais começaram a trabalhar como uma só mente, lançando vampiros para longe com muito mais força que o necessário ou simplesmente arrancando cabeça, nada chegava perto deles, Lia garantia a força e Liam a precisão.
Mais vampiros começavam a vir do escuro e da névoa que cobriu o campo, mas apesar de ganharem terreno, limitando a área e fazendo os dez recuarem, estavam perdendo. Obrigada a recuar frente a uma investida feroz que ela interrompeu com uma conjuração de fogo, Ágata tropeçou numa lápide e caiu de cara com seu athame abandonado, a lembrança de Manuela lhe pinicou o coração e ela teve uma ideia.
— EU PRECISO DO SANGUE DE VOCÊS! — gritou com toda força que tinha e, sem esperar permissão começou a correr no meio da batalha, o que foi trabalhoso já que eles acabaram se afastando (as aulas de dança finamente salvaram sua vida), habilidosamente pôs-se a cortar cada um dos sete restantes.
Virginia, a ex-fantasma, estava estirada no chão com o pescoço num ângulo impossível. Layla também estava caída, com o corpo meio transformado e a mandíbula destruída, movia-se espasmodicamente. O espantalho não passava de tufos de palha espalhados entre lápides.
A bruxa pensou que deveria sentir qualquer coisa pela morte deles, mas estava ocupada demais tentando manter a própria vida e a dos outros para isso, parou de correr ao chegar perto de Lilith. A imagem da meio-demônio estava mais nítida que nunca, sem dúvidas alimentada por todo o horror que a cercava, por isso quando o athame passou por seu braço o sangue brotou e Ágata sorriu.
— Me dê proteção enquanto eu digo o feitiço, quando eu terminar todos nós estaremos exaustos, mas esses sanguessugas vão queimar no inferno!
— Ah, sem dúvidas! — um riso escapuliu da garganta da mestiça enquanto ela usava mãos invisíveis para partir um vampiro ao meio.
Ágata expandiu seus sentidos de bruxas, deixando sua energia se conectar a cada aspecto da realidade. Bruxaria para ela era aquilo, o poder de, através de sua energia, se conectar com o universo e alterar o que quer que a desagradasse. Naquele momento nada era mais desagradável que aqueles vampiros. Ela não sabia as palavras necessárias, mas buscou o conhecimento ancestral que residia em seu sangue. Ao contrário de sua antecessoras ela não tinha medo do poder, tinha controle.
— Combine-se carmim profundo de criaturas poderosas... força ingovernável do universo, mais iluminada que o paraíso, mais escura que o abismo, luz envolta em escuridão e fumaça de mistério, eu suplico, deixe que a origem do colapso se manifeste! Assim como terra quer firmar, o vento quer soprar e a água quer fluir, o fogo tem seu lugar na natureza, queime meu inimigo aqui até as cinzas! Venha e me obedeça, Ifrit.
Nenhum deles imaginou aquele final. No exato momento em que os lábios da bruxa se fecharam quase toda energia foi drenada de seus corpos, eles caíram no chão enquanto o calor abrasador que surgiu tomava forma, a pequena faísca inicial cresceu em segundos se transformando uma criatura humanoide de fumaça e fogo, os olhos incandescentes de Ifrit, não exprimiam nada.
Os vampiros recuaram perante aquela criatura, mas não o suficiente, nunca o suficiente, onde quer que estivessem o fogo os alcançava e eles viravam cinzas, deixou de ser uma luta para se tornar um massacre e Ágata gargalhou, trêmula e fraca, mas cheia da sensação de poder. Foi muito rápido, não mais que minutos até que o espírito do fogo acabasse com todos os vampiros do cemitério e desaparecesse.
— Acabou? — Ana perguntou ainda exausta demais para se levantar e estava prestes a ouvir a resposta quando teve a cabeça arrancada por um pontapé.
— Acho que não... — disse o príncipe Christian — Lá se vai a mestiça, deixem a bruxa por último.
Liam e Lia foram os próximos, ainda estavam segurando as mãos um do outro quando dois vampiros avançaram contra eles. Um outro vampiro abriu a barriga de Gael, o jovem cantor não pareceu acreditar naquilo, e morreu com os olhos muito arregalados. Lilith, antes orgulhosa de seu corpo recém concebido a partir do terror, agora se arrastava tentando fugir, uma mão atravessou suas costas e exibiu seu coração ainda pulsante diante de seus olhos. Even teve a garganta dilacerada e o ichor que era seu sangue divino incendiou a mão do vampiro que tirou sua vida.
Ágata ficou a cargo do próprio príncipe, que a arrastou pelos cabelos enquanto ela se debatia, débil e um pouco horrorizada, tentando fugir. Dos doze, só havia restado ela.
— Ah, eu aposto que você achou que ia vencer não é? Vocês bruxas sempre se acharam superiores, faz muito, muito tempo que eu não caço bruxas... desde Salém, talvez? Bem, não importa, você vai morrer, queimada. Irônico, não?
— Ifrit, eu te chamo... — o desespero lhe deu voz, mas ela chamou em vão, não lhe restava magia nem para acender uma vela — Ifrit!
Um vampiro qualquer veio em sua direção com uma tocha, as lágrimas já borravam sua visão quando o príncipe sussurrou em seu ouvido.
— Sabe como funciona o charme dos vampiros? — ele largou os cabelos dela e fez com que o encarasse enquanto falava — Você vai ficar parada aqui, não vai se mover nem um milímetro enquanto queima.
O charme do vampiro era tão poderoso que ela não se moveu nem para implorar, nem mesmo quando foi encharcada de gasolina. O vampiro encarregado da tocha se aproximou mais ainda e Ágata encarou o fogo até que tudo que podia ver eram as chamas, a única coisa que pôde fazer foi fechar os olhos e esperar.
***
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