• Capitulo 98 •
Any Gabrielly
Fiquei morta de vergonha quando tropecei, para completar a tragédia ele ainda ri de mim...
— Num ri di mim... — resmunguei com uma voz fofa e ele me olhou.
Caminhei até a pequena mesa que havia ali e coloquei a cesta em cima.
— Desculpa. — ele riu mais. — Mas a sua cara estava muito engraçada. — cruzei os braços e enchi minhas bochechas de ar.
Achei que o riso dele não ia ter fim nunca, porém ele parou.
— Vai ficar sem beijo por rir da minha pessoa. — digo fazendo um coque no cabelo.
— A não. — choramingou. — Any desculpa, mas você é incrível, não me aguentei. — fechei meus olhos respirando fundo para não rir...
Tudo bem que eu sou um poço de desastres, mas imagina se eu tivesse ido ao chão? Ainda mais com uma cesta dessas? Não, Deus me livre.
Me sentei na beirada da cama novamente, dessa vez sua mão foi sozinha até minha coxa onde ficou fazendo um leve carinho.
— Desculpa ter deixado a Maya entrar. — digo e ele me olha.
— Você que deixou? — assenti.
Maya passou correndo quando saiu do quarto, nós que estávamos ali nos olhamos, eu já sabia que isso ia acontecer de qualquer forma.
— Sua mãe e suas irmãs estão aí. — digo com um pequeno sorriso. — Joalin até me chamou de cunhada. — ele riu fraco.
— Acho que já estou me acostumando com isso. — sorri. — E essa cesta? — virou a cabeça.
— Ah. — me levantei. — Adivinha quem veio te ver? — peguei a cesta e coloquei em seu colo.
— Tenho duas bolas, mas infelizmente nenhuma é de cristal. — encarei ele horrorizada e ele riu.
— Se continuar vai ter só uma. — sorri debochada e voltei a me sentar no canto da cama.
— Mau. — disse me olhando. — Você é mau. — dei risada e ele olhou a cesta.
— Foi o Franklin. — digo e ele me olha assustado.
— Está brincando que o dono da empresa veio ver um garoto espancado?
— Ai que horror Josh. — bati de leve nele. — Mas ele veio sim, porém agora saiu para tomar um café. — ele riu fraco.
— Que legal. — disse abrindo a cesta. — Aqui tem cara de ser tudo caro. — me olhou.
— Tem um chocolate aí dentro que vale 12,5 mil reais o quilo. — me olhou espantado.
— Isso em dólar dá quanto? — tentei me lembrar o preço do dólar...
— Acho que uns dois mil e trezentos. — ele abriu a boca.
(N/A fonte: confia)
Como era esperado ele realmente ficou com dó de comer o chocolate, porém se ele não quiser eu quero.
Após alguns minutos me disseram que ele tinha uma visita e era o Franklin. Eu preferi sair do quarto e deixar eles sozinhos.
Me aproximei de todos e vi meu pai conversando sorridente com Úrsula.
— Oi. — eles me olharam. Sina e Jojo estavam sentadas, as duas me olharam e pareciam nervosas.
— Any, não sabia que era adotada. — desviei meu olhar quando escutei a fala de Úrsula. — Também é brasileira. — abri um sorriso tímida.
— E você não sabe da melhor filha. — disse meu pai me fazendo olhar ele. — Elas eram do mesmo orfanato que você. — prendi minha respiração.
Minha cabeça virou lentamente encarando as duas sentadas... É claro, são elas... As duas meninas que chegaram quando tinham 3 anos no orfanato.
A vida tá me pregando uma peça não é possível, o pior de tudo, as duas também mexiam comigo...
Elas lembram de mim, as duas me reconheceram e não falaram nada.
— Any? — me virei olhando meu pai. — Está tentando lembrar delas?
— É. — digo meio confusa. — Mas não me recordo, pela história que ouvi fui adota um pouco depois então... — encolhi os ombros pela mentira contada.
No fundo do corredor avistei os meninos chegando. Olhei a hora no celular e estranhei terem vindo tão tarde.
— Licença. — dei um sorriso e fui em direção aos dois. — Onde estavam?
— Oi Anyzinha. — disse Noah me abraçando. — A gente estava comendo. — disse rindo. — Desculpa a demora.
— Hm. — olhei eles. — Josh está com visita agora. — assentiram. — E vocês não sabem da maior. — puxei eles para longe.
— O que foi? — perguntou Bay.
— Sina e Jojo, as irmãs do Josh, são duas meninas que mexiam comigo no orfanato.
— Não... — disseram juntos.
— Sim. — cruzei os braços. — Dá para acreditar? — digo incrédula.
— Elas sabem quem é você? — perguntou Noah.
— Tenho certeza. — após dizer isso vejo as duas se aproximarem.
— Any. — disse Sina. — Não lembra mesmo da gente? — olhei para os meninos.
— Lembro sim. — digo suspirando em seguida.
— A gente não sabia como chegar em você. — disse Jojo. — Foi um baque te reconhecer. — assenti lentamente.
— Você já deve saber o que vai escutar. — iniciou Sina. — Mas sentimos muito.
— Quanto a isso nem se preocupem. — digo simples. — Éramos crianças, as pessoas que deviam ensinar não ensinaram, vocês assim como a maioria foram influenciadas por medo da Rebeca. — forcei um sorriso.
— Any aquela menina era o capeta em forma de criança. — disse Jojo me fazendo rir alto. — Ameaçou cortar o meu cabelo e o da Sina se não ficássemos com ela.
— Desculpa, foi engraçado. — todos rimos. — Vocês duas, assim como esses dois. — aponto para os meninos. — Assim como aquele doido que está em uma cama de hospital, erraram. Reconhecer e demonstrar arrependimento já é um começo. — sorri.
— Nós temos uma carta que escrevemos assim que fomos adotadas. — disse Sina. — Escrevemos a falta da nossa mãe que se foi, como foi o período no orfanato e também, que tínhamos o desejo de reencontrar você. — levantei as sobrancelhas surpresa.
— A gente é doida assim mesmo. — disse Jojo nos fazendo rir. — Mesmo sem um adulto para repreender, sabíamos que estávamos erradas, por isso desculpa novamente.
— Desculpas aceitas. — digo com um sorriso.
As duas pularam em mim rapidamente para um abraço e quase fomos ao chão. Soltei uma risada e me senti aliviada por isso, sei lá, é tão estranho quando coisas assim acontecem...
Nos separamos e elas olharam os meninos.
— O Krys também é gay, não é? — perguntou Sina me olhando.
— Como assim também é? — perguntou Bailey confuso.
— Ué. — disse Jojo. — Josh nos contou que vocês dois são gays. — levei a mão na boca segurando o riso.
— Ele falou o quê?! — comecei a rir após a fala de Noah. Eu amo aquele loirinho.
— Se ele não morreu antes, vai morrer agora. — disse Bay indo em direção ao quarto.
— Não! — corri ainda rindo em direção a eles.
Franklin já havia saído do quarto e eu não consegui impedir aqueles dois, eles acabaram por entrar.
Josh ouviu tudo rindo e eu fiquei ao seu lado rindo junto, não pensaria em ideia melhor. Por fim, Noah e Bay riram da situação. De certo modo é engraçado pensar que Josh fez isso para as meninas não terem segundas intenções com eles...
Já estava tarde, eu precisava de um banho e ir comer. Úrsula e as meninas vão ficar com ele de novo, meu pai ofereceu apoio a elas também, inclusive um advogado para ajustar a papelada em relação ao que lhe foi tirado. Em menos de uma semana tudo se ajeita para elas.
Me despedi de Josh e os meninos pegaram carona. Contei para o meu pai a artimanha de Josh e ele também teve uma crise de risos.
É como eu disse, não tem como não amar aquele garoto.
Terça-feira. 11:30h
Já estávamos no período da última aula, todos reunidos em frente ao palco só esperando a tal da palestra.
Hoje o dia foi bem confuso, muitas pessoas vieram falar comigo, pedir desculpas, me entregar alguns presentes para eu entregar ao Josh... Foi estranho, porém aceitei todos os pedidos e presentes de bom grado.
Encarei aquele palco e meu coração disparou no momento em que vi a diretora subir. Junto dela estava meu pai, Franklin, Bia e também o Krys. Fiquei mais confusa ainda ao ver ele ali...
De início ela começou a dizer sobre o bullying. Noah e Bay estavam ao meu lado e eles ouviam tudo com atenção, assim como todos ali presentes.
Eu não preparei nada para fazer um discurso, vou falar apenas o que achar coerente... Talvez eu chore, até porque só de pensar já está se fazendo uma pressão no meu peito.
A voz foi passada para Krys e ele deu um discurso maravilhoso sobre a homofobia, chorei também porque ele relatou fatos que aconteceram com ele. Sua finalização foi aplaudida por todos, Bia deu um abraço nele e eu limpei meu rosto com um sorriso.
Todos ali no palco falaram sobre assuntos importantes, até Franklin se pôs a frente do assunto e já relatou ter sofrido bullying na infância, hoje ele tem orgulho de onde chegou!
— Bem, para finalizar gostaria de passar a voz para uma de nossas alunas. — meu coração disparou e eu engoli seco. — Any Gabrielly, por favor. — olhei para Noah e Bay e os dois me deram um leve sorriso me encorajando a ir.
Mordi meu lábio inferior e segui até o palco. Subi aquelas escadas encarando meus pés e sem olhar ninguém fui até o microfone.
Ao levantar minha cabeça me vi de frente com um mar de alunos, pessoas do primeiro, do segundo e os temidos do terceiro…
Respirei fundo e coloquei minha mão no microfone.
— Olá. — digo meio sem jeito. — Meu nome é Any Gabrielly, mas como alguns gostam de me rotular, "A nerd mal vestida". — forcei um sorriso. — Talvez eu nunca entenda o motivo de alguns se sentirem bem ao machucar alguém. — digo sentindo a pressão crescer em meu peito. — Acho que ninguém aqui sabe, mas sou adotada. — alguns murmurinhos começaram.
— Nasci no Brasil e vivi lá até os meus sete anos. Beto. — me virei vendo meu pai que já chorava. — Que é como eu adoro chamar ele. — sorri segurando o choro. — Me adotou e me criou sozinho com todo o amor que alguém poderia me dar. — voltei a atenção para todos.
— Fui deixada ainda recém nascida no local e se você pensa que foi tudo lindo. — neguei lentamente. — Não foi. — fechei os olhos respirando fundo novamente.
— Viver em um orfanato foi a pior experiência da minha vida, o que vocês já fizeram comigo quase nem chega perto. — olhei alguns rostos. — Lá mexiam com minha cor de pele, com o meu cabelo, me batiam. Crianças. — ressaltei. — Crianças faziam aquilo sem ao menos se importar.
— Isso que vocês fazem machuca, e machuca muito. "Ah porque todos mexem vou mexer também" Não seja assim. — digo com a voz embargada. — Se vocês tivessem o mínimo da dimensão disso nem pensavam.
— Pessoas tiram suas vidas por não se sentirem aceitas, pessoas tiram a vida por serem julgadas por serem quem são. Sou uma menina inteligente sim, me visto assim porque é assim que me sinto confortável, e vocês não tem o direito de querer me julgar!
— Hoje tenho 3 amigos incríveis e um garoto que eu amo na minha vida. Tenho meu pai ao meu lado, e se Deus quiser terei alguém que poderei chamar de mãe. — digo olhando Bianca que também chorava. — Eu sou assim, sou feliz. — sorri em meio às lágrimas.
— Eu não espero um pedido de desculpas de ninguém. — digo olhando para todos. — O mínimo que espero é que tomem consciência do que já fizeram. O sentimento de culpa é algo que vocês jamais vão querer carregar. — abaixei minha cabeça rapidamente e uma onda de aplausos tomou conta do local.
Fui de encontro ao meu pai e só abracei ele.
— Eu te amo! — digo entre o choro.
— Também te amo meu amor.
⋆ ❤🩹
Xoxo - Sun⭒
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