• Capitulo 53 •

Josh Beauchamp

Desde que subi para o meu quarto ontem fiquei com a voz do meu pai na cabeça e não consegui dormir. Fiquei encarando a porta do meu quarto com medo dele entrar a qualquer momento e me bater...

Chegar na escola hoje foi uma luta, me concentrar foi difícil e eu queria evitar a todo custo descontar algo em Any, foi só por isso que evitei conversar com ela hoje.

Na saída, ao ver que ela saiu sem falar nada me deixou sem saída, tive que ir atrás dela.

Aqui e agora, socando esse saco de boxe posso ver minha vida passando lentamente, a raiva tomou conta de mim e eu só extravasei.

Meu crescimento, minha mãe saindo de casa com uma mala e eu perguntando onde ela ia, tudo o que me disse era que ia ver uma amiga. Com meus 4 anos e ingênuo vi ela passar por aquela porta e nunca mais voltar.

Com meus 6 meu pai começou a beber e aos 7 começou a aumentar seu tom de voz comigo. Com os 10 recebi o meu primeiro tapa ao quebrar um copo enquanto lavava louça.

Com meus 12 comecei a ouvir da boca dele que minha mãe ter ido embora, era culpa minha!

Com meus 14 conheci Noah e Bay, aqueles que me faziam esquecer de tudo e nos divertíamos. Com meus 15 as agressões começaram a aumentar e os hematomas a ficar pelo meu corpo. Nos meus 16 criei coragem e contei para os meninos o que acontecia em casa.

No final do segundo ano do ensino médio meu pai parou de beber, tudo isso porque me deu um soco que me fez ficar desacordado. Isso foi um pouco depois de eu tirar um D- em matemática. Ele nunca chegou a me pedir desculpas, só disse que não ia beber mais.

Passei anos da minha vida me culpando pelo desaparecimento da minha mãe, demorei para aceitar que isso não foi minha culpa, graças a Noah e Bay que me fizeram entender que o único culpado nessa história são os meus pais que não sabiam conversar.

Minha vida virou uma bola de neve, quanto mais o tempo passava, mais ela rolava e mais ela crescia. Me tornei alguém agressivo pela convivência com a pessoa da pior espécie, maltratei pessoas à minha volta porque eu era incapaz de aceitar a vida que levava.

Ia acabar com o Jace naquele momento, iria bater nele até perder sua consciência ou pedir desculpas a Any, mas ela… ela estava ali e me impediu de fazer aquilo. Aquela única frase que ela disse me fez enxergar que independente de qualquer coisa, ninguém me conhece como deveria.

"Você não é assim"

Eu realmente não sou assim, não queria ser assim...

Uma pressão se fez presente no meu peito e eu diminui meus socos, encostei minha testa no saco de boxe e comecei a chorar.

Um choro de raiva, ódio, culpa, arrependimento, tudo, só não aguento mais isso...

Senti Any se aproximando de mim e logo me envolveu em um abraço.

A menina que eu mais machuquei é a que mais está me ajudando...

— Me perdoa. — digo entre o choro.

— Só coloca isso pra fora. — escuto sua voz fraca junto da minha.

Nunca chorei na frente de ninguém, mesmo quando acordava no dia seguinte após uma festa sem lembrar nada, os meninos me asseguravam que eu somente curtia.

Eu odeio me sentir fraco, odeio me sentir incapaz de conseguir algo. Recuperar minhas notas foi minha maior loucura, tudo isso pelo medo de não acordar no dia seguinte.

É certo que nunca vou compensar o mal que fiz a alguém no passado, que infelizmente segui o pior caminho, mas só por ter ela aqui comigo já me sinto tão bem.

Any conseguiu me transformar em alguém mais leve, sem muito esforço conseguiu me mostrar um outro lado. De verdade? Não consigo nem imaginar as coisas sem ela ao meu lado mais.

Any Gabrielly

Nunca me senti tão destruída ao ver alguém chorar, ainda mais que no meio desse choro veio um pedido de perdão.

Algo deve ter atormentado ele durante anos, não sei desde quando, mas acho que ele chegou ao seu limite hoje.

Fiz o que achei ser certo, sabia que ele iria descarregar seja lá o que estivesse sentindo, aqui neste saco de boxe.

Geralmente sou boa com as palavras, mas neste momento acho que tudo o que ele precisava mesmo era chorar e de um abraço.

— Por favor. — disse ainda em meio ao choro e se separou me olhando. — Não me abandona. — neguei com as lágrimas rolando.

— Não vou sair do seu lado. — alisei seu rosto com o polegar.

Josh me abraçou novamente e dessa vez parecia ter parado de chorar. Fechei meus olhos e dei um longo suspiro apertando ele de leve.

Após um pequeno silêncio ele se separou e eu olhei seu rosto inchado.

— Como se sente? — pergunto jogando seu cabelo para trás.

— Melhor. — sorri.

Josh estendeu suas mãos e eu tirei as luvas. Deixei elas em cima do banco e saímos do local indo para dentro de casa.

— Acho melhor a gente não estudar mais por hoje. — digo e ele me olha. — Vem. — segui até o meu quarto.

Abri a porta dando passagem a ele e fechei novamente.

Me aproximei da cama me sentando e Josh veio ao meu lado.

— Tira os tênis. — digo e ele tira sem perguntar nada. — Deita aqui. — peguei um travesseiro e coloquei no meu colo.

Josh apoiou sua cabeça ali e me olhou enquanto ajeitava suas pernas na cama.

— Terapia? — perguntou me fazendo rir fraco.

— Não. — digo alisando de leve seu cabelo. — Você precisa descansar um pouco. — sorriu sem mostrar os dentes.

— Você poderia me contar o motivo de não me deixar falar com o seu pai. — inclinou a cabeça me olhando.

Demorei um pouco para começar, mas acabei contando tudo com detalhes. Josh parecia apreensivo quando contei da reação do meu pai, sobre o processo e os caralho a quatro.

— Essa menina... — perguntou Josh enquanto eu ainda alisava seu cabelo. — O que aconteceu com ela?

— Nem ideia. — rimos. — Meu pai tratou de me tirar o mais rápido possível de lá. — Josh pegou minha mão e entrelaçou nossos dedos.

— A situação ficou difícil agora. — disse encarando nossas mãos. — Mas mesmo sabendo dos riscos quero fazer isso. — fechei os olhos. — Seu pai não foi com a cara do Erick, e entendo o lado dele, até porque ele mentiu. Mas comigo...

— Josh. — interrompi ele. — Só quero que você entenda que a sua decisão vai afetar e muito tudo. — suspirou fechando os olhos. — O fato do meu pai confiar em você piora ainda mais.

— E é por isso que vou contar. — deu um beijo na minha mão. — Prefiro que ele saiba por mim. — assenti.

— Você que sabe loirinho. — me olhou. — O quê? — pergunto sorrindo.

— Você me chamando loirinho. — sorriu me fazendo rir fraco.

— Está com fome? — negou.

— O colo está bom. — dei risada e voltei a alisar seu cabelo.

Após alguns minutos vi Josh deslizar com sua mão lentamente. Inclinei um pouco minha cabeça e notei que dormia.

Soltei o ar pelo nariz com um sorriso e joguei a coberta com cuidado em cima dele.

Me escorei na cabeceira e segui fazendo carinho em sua cabeça enquanto mexia no celular com a outra mão…

Joshua, confia logo nessa menina para contar tudo, antes que algo pior aconteça...

Xoxo - Sun⭒

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