Deixada para trás.
O motorista não parou o caminhão. Na verdade, até acelerou um pouco mais. Sabia que havia mais álcool no sangue do que deveria, e mais cansaço do que o saudável. Ao parar, perderia o caminhão, emprego, família e, principalmente, a liberdade. Com suor a escorrer pela testa, lançou o olho pelo retrovisor, certo de que o corpo caído, cada vez mais distante, estava morto. Respirou fundo, a mentir para si mesmo que não passava de uma corça, por mais que os olhos de pavor da mulher segundos antes de atingi-la ainda pareciam refletir no para-brisas.
Era para ser apenas mais um dia normal, a dirigir seu caminhão por quilômetros e quilômetros de solidão e asfalto para realizar o máximo de entregas possíveis pelo Brasil afora. Estava cogitando dar uma parada para descansar um pouco (e mijar muito, exagerou nas latas de cerveja), quando aquilo entrou no seu caminho. E ele não ia parar, não senhor. Acelerou um pouco mais, com o coração a pulsar tão forte que parecia estar na garganta. Até a vontade de urinar havia sumido.
Ainda tenso, lançou outra olhadela ao retrovisor, e sentiu um impacto tão grande que quase saiu para fora da estrada. Afinal, não era possível ter visto a mesma coisa que antes - o corpo caído e imóvel em meio à estrada. Havia aumentado a velocidade, seria impossível vê-lo no mesmo lugar, na mesma distância. Foi com grande medo que tornou a espiar, e só viu escuridão. Era noite, logo não teria como ver qualquer coisa lá atrás. Não havia luzes naquela estrada. Sentiu os pelos dos braços arrepiarem com essa constatação. Pois das duas outras vezes, ele viu. Teve certeza de que viu o corpo caído, como se iluminado por um poste que não estava lá. Seu pé pisou mais fundo no acelerador. Não sentia mais sono, nem a leve animação que as cervejas costumavam lhe ceder. Só queria se afastar daquele pesadelo o mais rápido possível.
Os primeiros raios de sol surgiam no horizonte. Assim que avistou uma parada com lanchonete e banheiro, estacionou e respirou fundo antes de descer do caminhão, a sentir o corpo rijo. Deu várias voltas pelo automóvel, em busca de indícios. Encontrou um rastro mínimo no capô, e sua mente visualizou o nariz da moça a soltar algumas poucas gotas com o impacto. Moça, não. Não havia moça, somente uma corça. Puxou um lenço do bolso e esfregou a listra vermelha antes de se afastar para o banheiro. Ficou um bom tempo de frente ao mictório, até desistir. Acreditou que havia suado todas as cervejas.
Engoliu uma xícara de café extra-forte sem açúcar, tentou comer um pão de queijo sem qualquer sucesso, e permaneceu sentado, a olhar para fora, sem saber o que pensar. Assim que o celular tocou, atendeu sua esposa (que provavelmente se tornaria ex-esposa se soubesse que ele teve um encontro com uma mulher na noite anterior. Um encontro que deixou a outra caída imóvel no chão).
– Sua voz está muito estranha, Georgie! – reclamou ela, ainda bocejando. – Não force demais, descanse um pouco! Queremos que retorne para casa vivo!
(Garanto que a família da moça também queria).
– Pode deixar, corcinha.
Georgie prendeu a respiração. A esposa riu alto com aquilo, e ele aproveitou para se despedir e desligar. Estava lívido, a repetir a si mesmo que era uma corça. Apenas uma pobre corça que não sabia ler placas e não entendia o perigo de cruzar estradas de madrugada. Nunca se sabe quando um motorista bêbado e idiota (ele) irá adormecer no volante e atropelar uma (moça) corça. Certo de que não conseguiria dirigir muito mais devido ao mal-estar que invadiu seu corpo, perguntou para a garçonete se existia algum hotel de beira de estrada em que pudesse dormir.
– Não é um hotel, mas na casa antes da curva pode alugar o quarto. Como não é grande coisa, também é barato. – grato, Georgie pagou a conta e foi para a porta. – Não deixou nada para trás?
Seus braços tornaram a se arrepiar conforme se virava para a mulher. Por um instante louco, acreditou estar diante da moça (corça) que atropelou de madrugada. Havia deixado uma coisa para trás. A moça (corça). O corpo (aquilo). Certo de que poderia vomitar, retirou-se apressado, pulou no caminhão e dirigiu rápido. Avistou uma casa antes da curva, pequena e velha, a pintura azul já suja.
Após estacionar sem tanto cuidado, desceu e caminhou hesitante. Lançou um rápido olhar ao capô e o gelo tornou a invadir seu corpo. Ali estavam as linhas vermelhas. Como se tivesse atropelado a moça (corça) há poucos instantes. Como havia jogado o lenço no lixo do banheiro, arrancou um punhado de grama e esfregou ali. Ficou um trabalho de porco, contudo, ao menos disfarçou as listras vermelhas.
– Posso ajudá-lo, senhor? – perguntou um homem magrelo, de pele marcada pelo sol, a sair da casa e medi-lo com curiosidade.
– Só estava limpando a sujeira de uma co... pomba. – disse desajeitado, a esfregar a mão na roupa antes de estendê-la para o outro. – Disseram que posso alugar um quarto, é verdade? Só para cochilar algumas horas.
– Certamente. Nunca deixamos o visitante sozinho, contudo, se importaria? Não tenho nada de valor que possa querer roubar, nem mesmo televisão, então...
– Se não for atrapalhar, não tem problema.
– Ótimo! Vou levá-lo ao seu quarto. Pode se servir em nossa geladeira e usar o banheiro. Não posso lhe oferecer nada fresco no momento, já que minha esposa não está aqui. Estou saindo para procurá-la. Por acaso não deixou uma mulher para trás conforme dirigia até aqui?
– Não. – mentiu ele, olhos arregalados e pelos para cima. Havia, sim. Uma moça (corça). Havia deixado para trás.
– Bom, não se preocupe, sinta-se em casa. Caso tenha de sair antes que eu volte, por gentileza coloque o dinheiro debaixo do travesseiro. Seu quarto fica ao final do corredor. Vou trancar a porta, encontrará outra penca de chave na parede da cozinha.
Georgie agradeceu, sem se importar. Não era novidade. Já havia dormido em casas como essa, deixado sozinho, com a promessa de deixar o pagamento. E ele sempre pagava, mesmo quando a cama era dura e o chão cheio de baratas. Ao menos parecia que ali tudo estava limpo. Sem fome (e sem sono, na verdade), caminhou pelo corredor iluminado por uma vela sobre uma cômoda, adentrou o quarto escuro e caiu na cama. Duvidava que ia conseguir dormir, certo de que só ficaria pensando na moça (corça), e estava errado. Adormeceu quase no mesmo instante, a sonhar que uma corça (moça) o perseguia. Haviam gotas pingando de seu focinho (nariz). E o magrelo dono da casa começou a gritar em sua direção. De início, Georgie não entendeu a pergunta.
– Por acaso não deixou uma corça para trás?
Com um pulo, Georgie sentou na cama. Nunca temeu o escuro, porém aquele quarto lhe pareceu mais que sufocante e assustador. Puxou o celular do bolso e ligou a lanterna, girando-a para todos os lados, sentindo-se idiota. Não havia nada, afinal de contas. E assim que a luz revelou dois olhos de uma moça (corça), Georgie gritou e seu celular voou.
Ele ficou de punhos cerrados para o caso de ser atacado pela moça (corça). Nada aconteceu. De coração a mil, se abaixou para pegar o aparelho e, com pavor, virou a lanterna para o mesmo lugar, grunhindo diante do rosto da moça (corça). Soltou uma risada nervosa diante do quadro, ao menos até analisar aquela feição com pouco mais de calma. Não era qualquer moça (corça). Já a conhecia. Vira aquele par de olhos arregalados em seu para-brisa conforme o caminhão a acertava e passava por cima. Por mais que quisesse sumir dali, parecia hipnotizado pela imagem. Imaginou que o dono da casa iria retornar com uma espingarda ou facão, a gritar que ele matou sua corça tão jovem e linda. Em sua tensão, acabou por rir de novo. Não tinha como aquela corça chegar tão longe, andando a pé. Ele havia dirigido por horas e horas, em alta velocidade depois do ocorrido. Não passava de sua imaginação alcoolizada e cansada.
Permaneceu mais um tempo parado, começando a considerar tentar dormir mais um pouco e esquecer aquela loucura, quando escutou um pequeno barulho. Um som mínimo, como um pingo de chuva a cair no chão em um dia silencioso. Cogitou uma possível barata. Estava no meio de lugar nenhum, em um dia quente, essas porcarias tendem a aparecer. Girou a lanterna para os lados, procurando o ser rastejante sem sucesso. Tornou a escutar aquele pingo outra vez, mais certo de que estava para frente. E assim que a luz bateu no retrato, seu corpo tornou a ficar retesado e gelado. A moça (corça) o encarava com os olhos pintados. E seu nariz estava sangrando. Dois filetes a escorrer e se acumular na moldura, até deixar uma gota cair ao chão com aquele som mínimo.
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Agradeço a leitura.
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