Capítulo 7

KATE WHINTER

Mesmo sábado sendo um dia ruim como os outros eu acordei animada. Iria ter meu próprio dinheiro. Passar mais tempo fora de casa. Me distrair do quão horrível é minha vida.

Graças a Deus ontem quando cheguei em casa Jenifer e Tiago não tinham chegado ainda. Sem fome subi pro quarto e antes de capotar botei o despertador pra tocar.

Meu primeiro dia foi tranquilo. Dona Teresa me ensinou tudo que precisava. Algumas coisas foram difíceis de fazer como por exemplo segurar vários pratos ao mesmo tempo, mas eles me garantiram que com o tempo pegaria a prática. 

Quando saí resolvi ir até o mercado comprar algo pra comer. Precisava de um doce ou salgadinho. O café que tomei quando cheguei na padaria foi o suficiente pra me deixar sem fome ao meio dia. Pensa em uma coxinha deliciosa. Se conseguisse comeria umas quatro, só que meu estômago suportou apenas duas, e desceu com muito esforço. Não podia desperdiçar aquelas coisas maravilhosas.

Minha mãe me proibiu de comer guloseimas por que não quer que eu engorde. Mas sabemos que não obedeço. Meu corpo minhas regras. Uma pena que não tenho coragem de dizer isso na cara dela.

Jenifer foi a que mais me bateu, meu pai o máximo foi um tapa que recebi no braço. Mas eu o odeio por não interferir, deixar que aquela bruxa faça o que bem quiser comigo.

Depois que cheguei em casa havia umas pessoas lá. Pelo que soube eram os pais dos jovens. Minha mãe estava planejando um retiro pra eles.

E como sempre eu não vou. Ela me dá dinheiro pra comprar o que quiser e some com meu pai por uns quinze dias. Ainda bem que não gosto desse negócio. Muitas pessoas no mesmo lugar me dá agonia. Me sinto estressada.

Fiquei no quarto lendo e estudando pro trabalho de português.

No domingo tive que acordar oito horas pra ajudar minha mãe na limpeza. Na verdade fiz tudo. Ela só ligou a mangueira e pendurou os tapetes.
Sou tratada pior do que a cinderella. Ela pelo menos no final encontrou o príncipe.

A semana se passou entediante. Emma não foi como disse. E me odiava por não poder a visitar. Jeni checava minhas faltas no final do semestre.

Me manti longe de Matthew. Ele vinha as vezes me perguntar se estava bem e eu lhe respondia sempre a mesma coisa. Que sim.
Agora só por que sabia o que se passava comigo achava que tinha intimidade e seríamos melhores amigos.

Havia a Loren e as meninas que agora também acharam de ficar no meu pé. Clara era porque queria se aproximar de Matthew, tentar o conquistar segundo ela.

Na sexta no recreio o moreno resolveu se sentar ao meu lado. E o vendo ali é claro que as três vieram também. Nos outros dias eu consegui o expulsar sem insistir muito, mas hoje parece que estava decidido e mesmo eu rosnando e o empurrando ele nem se mexeu.

- Senti falta do seu humor matinal. - Declara zombeteiro sentando ao meu lado.

- Não me provoca ou sua cara vai parar nesse sanduíche. - Ameaço já perdendo a fome. Empurro meu prato e cruzo os braços.

- Que maldosa.

Garoto irritante. Muito insuportável.

- O que sua mãe faz Matthew? - Clara pergunta com um exagero interesse.

- Ela tem uma rede de lojas. É estilista também. 

- Agora tá explicado por que se arruma gato desse jeito. - Geovana solta e olho pro Matthew que não consegue disfarçar seu constrangimento.

- Er... Obrigado. - Agradece e se concentra na comida.

- Ele é tão fofo. - Clara fala dando um risinho chato.

Bufo me sentindo enjoada com tantas besteiras que sai da boca delas.

- Vou dar uma volta. - Nem espero respostas, me levanto e vou andando sem rumo.

Estou com saudades da minha amiga. Ela alegra meu dia. Me ajuda a esquecer dos problemas. O sorriso lindo dela, a energia exagerada que ela transmite.

Preciso dela. Do seu abraço confortante, seu jeito elétrico. Essa escola não é a mesma sem ela.

- O que está pensando? Posso saber? - Levo um susto ao ouvir a voz do moreno na minha frente e sem perceber trombo em seu peito quase caindo. Suas mãos seguram minha cintura firmemente.

- Que coisa Matthew, não pode chegar como um fantasma. - Saio do seu aperto desferindo um soco em seu tronco definido.

Ele arqueia as sobrancelhas e sorri. O idiota nem sentiu nada.

- Desculpa. Mas eu achei legal ver sua cara de assustada. - Ele ri mas para quando vê meu punho fechado. - Ok, não foi engraçado.

- Por que não ficou lá com as meninas? - Volto a andar, com ele ao meu lado.

- Não que eu fique me achando irresistível mas elas me olham como se fossem me devorar a qualquer momento, principalmente aquela loira, acho que é Carla o nome dela. - Desabafa realmente incomodado.

- Clara. - Corrijo revirando os olhos. - E agora entende o porque esse lugar não é pra você. Se acostume pois não vai ser só elas ao longo do ano.

- Mulheres são sempre assim?

- As sem noção e interesseiras sim. - Dou de ombros e paro pra me sentar em um banco mais próximo.

- Vou me lembrar disso. - Se senta também.

- Vai dizer que não gosta de toda essa atenção? Ser o galã?

- Não. - Cruzo os braços o olhando entediada. - Pode não acreditar mas não sou o tipo de garoto que gosta de iludir. E além do mais um cristão tem que mostrar diferença.

- Está esperando a garota certa como falam? É isso? - Pergunto com sarcasmo.

- Sim. Deus não se agrada se desobedecermos seus ensinamentos. O que custa esperar? Namorar todo mundo só vai te fazer desagradar e se afastar mais Dele.

- Você fala tão bem e com tanta paixão que até parece fácil. Você ilude as pessoas falando assim.

- Servir a Deus nunca será fácil. E em João 16:33 ele deixa bem claro. "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." - Cita sem tirar os olhos dos meus. Desde que o ouvi falar lá em cima não consigo tirar minha atenção dele. - Um exemplo que temos alto e claro na bíblia é o apóstolo Paulo. Ele em todos os anos da sua vida sofreu. Foi perseguido, humilhado, chicoteado, preso e apredejado. E em nenhum momento ele vacilou ou reclamou. Pois sabia que ao servir a Deus corria riscos, mas o que o fazia permanecer firme era sua fé. Ele ansiava pelo dia que encontraria com Ele na Glória. Ouvindo assim pode até sentir pena ou raiva por tudo que Paulo passou. Mas pra ele era um privilégio servi-lo. - Pega minha mão a acariciando. - Leia a passagem desse apóstolo e vai entender seu amor pelo evangelho e por Jesus. E não pense que foi só ele que passou por isso. José foi vendido como escravo e no final se tornou governador por não perder a fé e a confiança em Deus. Hananias, Misael e Azarias que foram lançados na fornalha por não se curvarem sobre a estátua do rei. Mas um anjo entrou com eles e não deixou que se queimassem. E o mais importante, Jesus. Ele deixou sua Glória, seu trono pra nos salvar, a maior demonstração de amor. Ele provou que nos ama e que quer nosso bem. Não podemos deixar as provações que passamos interferir em nossa fé. Deus nos faz passar por momentos difíceis pra provar se os amamos mesmo. Nos momentos bons é fácil e nas tribulações? Todo mundo quando está bem glorifica a Deus, mas na hora que a tempestade o amaldiçoam. Todos passamos por isso. Não é só alguns. Sei que o que você passa é difícil e humilhante mas acredite Kate ele olha pra você todos dias e está esperando de braços abertos sua volta.

- E se você estiver errado? - Questiono baixinho sentindo minha voz embargar. - E se ele não me ama mais? E se por causa do tanto que o odiei Deus me esqueceu?

- Eu afirmo com a maior certeza do mundo que isso não é verdade. - Aperta minha mão mais forte. - Não precisa fazer nada por obrigação. Comece aos poucos. Quando acordar fale com ele, peça que abençoe seu dia e lhe ajude a se aproximar dele. Todos erramos Kate. Eu não sou perfeito, alguns erram mais que os outros mas Deus é justo e nos ama mesmo assim.

- Até meus pais?

- Sim. Ama eles mas o que praticam não.

- E por que ele não faz nada pra mudar? - Uma lágrima solitária cai involuntariamente.

- Por que mesmo que Deus abomine nossas ações ele não interfere no livre-arbítrio. O que fazemos é nossa decisão. E com o tempo vamos colher aquilo que plantamos. Pode demorar anos mas nossa recompensa, seja ruim ou boa, aparecerá.

- Acha mesmo que ele vai me ouvir?

- Vai, vai sim. E tente não reclamar no momentos difíceis. A tempestade não dura pra sempre.

- Obrigada. - Suspiro deixando a cabeça cair pra trás.

- Não foi nada. Qualquer coisa estou aqui. - Se levanta soltando minha mão e se afasta indo até Eduardo.

Nunca pensei dessa forma. Eu já ouvi na escolinha que Deus entregou seu único filho pra que nós pudéssemos ter salvação, mas não de um modo em que eu imaginasse a cena, a forma que aconteceu.
Quando o moreno começou a falar eu senti uma imensa vontade de chorar, por que eu vi o sofrimento de Paulo, José, só que muitas pessoas não vão entender, mas ao mesmo momento parecia que os vi sorrir satisfeitos por servir a ele, mesmo sofrendo.

O conforto foi grande com essas palavras. Algo me acalmou, me deu paz. Não sei se foi Ele ou eu, só sei que foi a melhor coisa que eu já senti.

Após a aula terminar dispensei a companhia de Matthew. Eu precisava pensar, sozinha, e com ele por perto iria me distrair. Agora eu tinha uma forma um pouco diferente de ver as coisas.

Eu só não entendia como as pessoas podiam ser fortes e ter fé mesmo sofrendo. Tenho consciência de que tem crianças, jovens de todas as idades que sofrem mais que eu, e mesmo assim se mantém fiel.

- Deus, me ajuda a não reclamar como Matthew falou. Se o Senhor pode me ouvir me ajuda. Quero tentar não te odiar pelos erros dos meus pais. - Falo baixinho enquanto chuto algumas pedrinhas.

Ao colocar os pés na padaria a visão que tenho faz meus olhos brilharem de emoção e um sorriso se transforma em meu rosto.

Meus patrões estavam dançando tango e rindo, totalmente distraídos.

- É sempre assim. Se acostume. - Um homem de uns vinte e cinco anos fala os observando. Ele usava terno e segurava uma mala.

- Com eles não tem tristeza e isso é de admirar. Sempre felizes.

- Fazem isso desde que eu era pequeno. Me divertia muito. - Sorri admirado.

- Ai caramba! - Tampo a boca com a mão e depois o olho boquiaberta. - Você é o Júnior. Filho deles?

- Em carne e osso.

- Não estava viajando? Seu pai disse que viria semana que vem. - Entro já pegando os pratos sujos e indo até o balcão.

- Minha reunião foi bem sucedida e decidi voltar antes. - Responde se acomodando em uma das mesas.

- MEU MENINO! - Dona Teresa para de dançar e se aproxima abraçando o filho calorosamente.

- Quero respirar mãe. - Júnior reclama rindo.

- Que saudades! - Se afasta e o beija por todo o rosto.

- Também. Muitas.

- Que bom que voltou mais cedo. - Seu Osvaldo o cumprimenta com dois tapinhas nas costas.

- Venha minha menina e meu garoto vamos todos almoçar. - Ela me puxa pra dentro sendo seguida pelo marido e o filho.

Essa é a primeira vez que entro na casa deles. Sempre comia na padaria mesmo. E eu até tentei dizendo que era apenas uma funcionária mas foi perda de tempo.

- Você faz parte dessa família agora. Já que Deus não me permitiu ter mais filhos ele me presentou você. - Puxa a cadeira pra mim.

Eu não soube nem o que dizer.

Ela me via como uma filha. Alguém importante.

Foi impossível controlar as lágrimas Coloquei a cabeça entre as mãos e chorei. Senti o abraço deles ao meu redor e foi o suficiente para meus soluços serem ouvidos.

- Me desculpa. Esse é um dia feliz e eu não queria estragar. - Limpo meu rosto com as costas das mãos fazendo o possível pra não chorar novamente quando eles me encaram com sorrisos ternos. - É que saber que faço parte de uma família me emocionou, eu não sabia que gostavam tanto de mim.

- Oh, não chora menina linda. Quando você chegou aqui pro seu primeiro dia eu já a considerei como filha. Sua gentileza e humildade me conquistaram. Não importa se faz uma semana que chegou aqui eu e Valdo a amamos como nossa. Creio que Júnior também. Vimos que se deram bem. - Os encaro vendo pai e filho assentirem com o mesmo sorriso.

- Obrigada. Vocês também se tornaram parte de mim. Amo vocês. - abraço cada um e volto pro meu assento.

- Agora vamos comer. Estou faminto. Fiquei horas sem comer pra poder me empanturrar hoje mãe. - Júnior fala massageando a barriga arrancando risadas nossa.

Almoçamos ouvindo o filho dos meus patrões contar como foi a viagem pra China. Ele disse que visitou vários lugares mesmo estando acarretado de trabalho.

Júnior é o presidente da empresa do avô que faleceu. Dona Teresa não quis assumir e passou a responsabilidade pro filho quando fez 18 anos. Ele foi viajar pra fazer uma parceria com contadores que demorou mais que o esperado mas deu certo.

Esqueci naqueles minutos que eu tinha pais ruins. Pra mim eles não existiam. Pelo menos por algumas horas.

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OBRIGADA!💜

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Que bom que Kate encontrou uma nova família né?

Beijinhos😘

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