Capítulo 9

- Tudo bem. Mas se você não é essa mulher mascarada, diz a ele. Ele vai parar de te perseguir. - Shay ponderou.

- Eu duvido muito, essa gente mata e depois pergunta. - Falei, fazendo uma careta. - Eu não sei o que eu faço.

- Calma. - Shay falou. - Na verdade eu também não. - Falou derrotada.

- Me dá outro beijo? - Pedi com a voz manhosa.

- Você só pensa nisso? - Shay fingia estar irritada, mas estava com um lindo sorriso.

- Com você aqui não tem como pensar em outra coisa. - Falei e a beijei.

A mão dela foi parar na minha nuca, me fazendo carinho. Empurrei-a para deitar no sofá e me deitei por cima dela sem parar o beijo.

Era incrível as sensações que eu sentia com a Shay, com um simples beijo, um simples roçar de pele, com um simples sorriso dela. Eu nunca havia sentido nada assim com nenhuma outra pessoa. Será se em tão pouco tempo eu já estava caída de amores por ela? A resposta é: eu não sei. Só sei que eu quero ela, ter mais um beijo dela, mais um sorriso, poder ver esses olhos maravilhosos dela.

Não sei como eu vou acabar, presa ou a sete palmos abaixo da terra, mas se eu pudesse escolher uma última coisa, um último desejo, escolheria poder vê-la mais uma vez, ver seu sorriso e poder beijá-la, esse seria o meu pedido final.

- Você é perfeita. - Falei entre um beijo e outro. Minhas mãos já estavam passeando em seu corpo, trilhando um caminho que eu já havia feito antes e que queria fazer de novo e de novo...

- Nikki, espera... - Shay falou, soltando um suspiro quando minha mão se apossou de seu seio direito. - Seu amigo pode... Aparecer.

- Não vai. - Falei, beijando seu pescoço e depois marcando-o.

Desci a alça da sua blusa e o sutiã e abocanhei seu seio, fazendo Shay agarrar com força os meus cabelos. Ela puxou meu rosto para beijá-la novamente.

- Nikki? - Escutei o Hugo me chamando do quarto.

- Quê? - Gritei para ele e a Shay aproveitou a deixa e me tirou de cima dela, arrumando o sutiã e a blusa.

- Posso ir na cozinha?

- Pode cara. - Falei aborrecida, vendo Shay sorrir.

Hugo passou para a cozinha e eu fui até lá pedindo para Shay me esperar onde estava.

- Você é o maior empata foda sabia? - Falei irritada. Hugo riu.

- Foi mal. - Ele ainda ria.

- Dessa vez passa, mas não faça mais isso. - Brinquei.

- Pode deixar, na próxima eu vou ficar é espionando. - Dei um tapa no braço dele. - Qual é? Duas gatas transando no meu sofá, acha que eu não veria?

- Só se quisesse perder uma amiga. - Falei.

- Nem vem Nikki, vou te dizer uma coisa, essa sua namorada é uma coisa de louco viu? - Hugo falou.

- Sai fora Hugo, ela é minha. - Hugo fez uma careta.

- Você pode dividir.

- Nem morta. - Voltei para a sala.

Shay olhava o lado de fora pela fresta da cortina. Abracei-a por trás e lhe dei um beijo no rosto.

- Eu sei que nós mal nos conhecemos, mas... Foge comigo? - Perguntei, fazendo Shay me olhar.

- Nikki, eu não posso fugir. Eu não vou fugir. - Ela falou decidida. - Não é assim que se resolve as coisas.

- Mas nós duas sabemos que eu não tenho muita escolha, não é? - Me sentei no sofá.

- E se você pedir proteção à polícia? - Hugo perguntou, voltando da cozinha.

- Isso não vai dar certo. Eles não se metem com gangues.

- Mas o que você pretende fazer neste exato momento Nikki? - Shay me perguntou.

- Eu vou ao banco depositar um dinheiro e depois eu vejo o que vou fazer.

- Que dinheiro? - Shay perguntou, me analisando.

- Eu emprestei para a Nikki um dinheiro para ela se manter caso resolva fugir. - Hugo veio em meu socorro.

- Mas é perigoso você andar por aí agora. - Shay me olhou e eu sabia que ela tinha razão.

- Eu vou. Preciso desse dinheiro. - Dei por encerrado a discussão. Shay suspirou.

- Você é teimosa, sabia disso? - Sorri e acenei.

Tomei um banho na casa do Hugo e vesti a mesma roupa. Dei duzentos reais para a Shay comprar roupas para mim se ela conseguisse.

- Eu nem sei o seu número Nikki. - Shay falou irritada.

- Tenho certeza de que você vai saber o que comprar, e o tamanho também. - Falei. - Só faz isso por mim? Eu estou precisando de roupas, ou quer que eu vista isso? - Perguntei, mostrando a calcinha dela que por sorte não tinha sido picotada.

- Me dá isso aqui. - Shay pegou a calcinha da minha mão e jogou de volta na minha mochila. - Achei que ela estivesse na lista das roupas rasgadas.

- Não. Ela sobreviveu. Ainda bem porque um presente desses não é todo dia que a gente ganha, não é mesmo? - Falei sorrindo e dando um beijo em Shay

Depois que eu estava pronta, decidimos que a Shay ia sair primeiro da casa e verificar a área, se houvesse algum problema, ela nos daria um sinal e eu não sairia. Eu ficaria observando-a pela fresta da cortina sem deixar que me vissem.

Antes de sair, Shay me deu um beijo de tirar o fôlego, disse que ficaria tudo bem e prometeu que nos veríamos a noite.

Ela não fez sinal, significando que a barra estava limpa. Esperei ela se afastar e saí da casa do Hugo andando na direção contrária a da Shay, indo ao banco. Eu estava com a mochila nas costas.

Cheguei ao banco e peguei uma senha para ir ao atendente. Fiquei esperando durante uns quarenta minutos até ser chamada. Fiz os trâmites para o depósito na minha poupança e saí da agência.

Dei uns dez passos quando olhei para o lado e congelei, meu coração acelerou. Ainda bem que eu já tinha me livrado do dinheiro.

Zeca em pessoa estava parado, encostado em um carro à minha direita. Me olhava fixamente com um olhar de ódio. Dei a volta e quando ia correr para a agência novamente, trombei com três caras que estavam atrás de mim.

- Vai a algum lugar boneca? - Um deles perguntou, levantando a camisa rapidamente deixando à mostra a arma na cintura. - O Zeca que bater um papo com você, princesa. Não vai querer deixá-lo esperando.

E assim eu não tive escolha a não ser seguir em direção ao Zeca.

Zeca era um homem alto, negro, seu porte intimidava qualquer um. Não mais do que o Cebola é claro, para vocês terem uma ideia, a voz do Cebola parecia muito com a do Mr. Catra. Agora soma essa voz, com um cara que anda armado até os dentes e cheio de comparsas... É claro que ele dá mais medo do que o Zeca.

- Nikki. - Zeca falou, me olhando de cima. - Vou me divertir muito com você. - Ele sorriu maliciosamente. - Entra no carro. - Deu a ordem.

- Meus amigos sabem onde eu fui, se algo acontecer comigo vão saber que foi você. - Falei e Zeca riu.

- E o que eles vão fazer? - Zeca me analisou e sorriu. - Entra no carro. - Ele estalou os dedos e um dos caras que estava com ele me revistou, tirando as facas de mim e me empurrando para dentro do carro.

Eu fiquei no meio de dois homens, enquanto o Zeca ia na frente e outro cara ia dirigindo. Eu já sabia qual era o meu fim, só esperava que não fosse doloroso. Esperava que minha morte fosse igual a tirar um band aid de um machucado, bem rápido.

Por incrível que pareça, eu não estava nervosa, acho que já tinha aceitado o meu destino.

Zeca me levou para um galpão abandonado, nos limites da cidade. Não entendi muito bem porque eu estava ali. Se ele quisesse me matar era só enfiar uma bala na minha cabeça na frente da casa dele que não ia dar em nada.

Fui tirada do carro violentamente e levada para dentro do galpão. Enquanto andávamos lá dentro percebi onde estávamos, em um antigo matadouro. Ainda tinha ganchos pendurados no teto que servia para deixar a carne escorrendo, ou sei lá.

Chegamos a um lugar espaçoso. Bem no meio havia um poste cravado ao chão. Fui amarrada ali com as mãos para trás. Não tinha como sair.

- Amarrem os pés dela também. - Zeca falou alto, para ninguém especificamente. - Quando a dor vem, vocês costumam chutar. - Ele disse mais baixo.

Ele me observou por um momento e sorriu.

- Vamos ver... - Zeca falava para si mesmo. - O que vou fazer com você? - Ele me olhou. - Primeiro eu deveria fazer o que você fez com o Ângelo, mas não teria graça porque o primeiro tiro seria na testa.

Zeca pegou uma faca, poderia jurar que parecia uma das minhas facas.

- Eu não matei ele. - Me defendi da acusação.

- Eu sei que você é a misteriosa mascarada, não adianta negar. - Ele falou tranquilo.

- Eu confesso. Sou eu sim. Mas não matei esse cara.

- E quem matou? - Zeca parecia estar perdendo a paciência.

- Pode ter sido o Cebola, já pensou nisso? - Falei. - Eu não uso arma. Sempre usei faca.

- Sabe Nikki, eu não acredito em você. Mas mesmo que não tenha sido você, alguém tem que pagar o pato, não é? - Ele sorriu.

- Eu... Eu só matei o Dindim. Só porque ele estava abusando de uma garota, mas foi totalmente acidental, eu não sabia que ele ia morrer. - Abri o jogo. - O Cebola pensou que você tinha matado o Dindim, então descontou no tal Ângelo. Você tem que acertar contas com ele e não comigo.

- É, eu tenho que acertar as contas com ele mesmo. Mas mesmo assim, você me trouxe grandes problemas. Assaltando na minha área... Meu próprio povo acha que eu sou um banana por deixar algum merdinha vir assaltá-los. - Zeca andou na minha frente. - Bom, no final o Cebola ainda vai me agradecer por ter acabado com a sua raça.

- Podemos fazer um acordo. - Tentei jogar verde.

- Não. Você não tem nada para me oferecer. - Zeca debochou.

- Pensa comigo... Se você me der proteção, eu posso me juntar a sua gangue. Usar as minhas habilidades para o que você quiser.

- Uma boa proposta... - Ele deixou em suspense. - Mas não estou a fim.

Zeca rasgou a minha blusa na parte da frente deixando visível meu sutiã.

- Vamos ver se você aguenta um cortezinho.

E com isso, Zeca pegou a faca e fez um corte do meu ombro direito a um pouco acima do meu seio esquerdo. Gritei por causa da dor. Senti o sangue escorrer pelo corte sujando meu corpo.

Se era assim que eu acabaria, então eu lutaria até o fim. Cerrei os punhos por conta da dor e travei a mandíbula. Não deixaria que ele me visse em outro momento de fraqueza.

- Muito bom. Gostei. - Zeca riu. - Será se você aguenta mais um?

Zeca posicionou a faca na minha barriga. Fez um corte da minha barriga até a minha cintura. Os cortes não chegavam a ser tão profundos, mas eram dolorosos e suficientes para me tirar sangue, provavelmente me deixaria com belas cicatrizes se eu sobrevivesse. Esse da barriga doeu mais que o outro, mas dessa vez eu não gritei.

Eu apertava tanto os dentes que achava que ia quebrá-los. Respirava com dificuldade.

- Corajosa. - Zeca falou. - Será se agora você aguenta um furinho? - Zeca me observou. - Onde será esse furo?

Zeca pensou e desistiu.

- Vamos ver se você passa a implorar. Gosto quando vocês imploram. - Ele sorriu e estalou os dedos.

Escutei barulho de correntes e olhei para cima. Parecia um varal com alguns ganchos. Se movia como se alguém estivesse puxando algo de outro lugar. Do outro aposento, vi uma forma se aproximando, estava presa a um gancho.

A forma parou bem na minha frente, a uns dois metros de distância e não acreditei quando vi. Era um homem. O gancho estava fincado em suas costas que pingavam sangue. Ele gemia baixo por causa do movimento da corrente sendo puxada e do movimento que levava a fazer suas costas serem repuxadas.

Engoli em seco. Meus olhos teimavam em olhar com horror para o homem.

- Esse cara, Nikki, foi meu companheiro de muitos anos. Ontem eu o peguei traçando a minha mulher, na minha cama. - Zeca falou com uma voz sombria. - Eu já dei um jeito naquela vagabunda. Agora o camarada aqui... Esse vai sofrer um pouco antes de ir pro buraco.

Zeca olhou para um parceiro da gangue e acenou. O homem saiu de vista e voltou alguns minutos depois. O único barulho naquele amplo espaço eram os gemidos daquele homem preso pelas costas como um animal morto.

O homem entregou para Zeca alguma coisa grande que eu não vi o que era. Só descobri um minuto depois, quando Zeca a ligou.

Uma motosserra.

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