Capítulo 2

Acordei no dia seguinte bem cansada, o esforço de ter carregado aquela garota dava sinais visíveis em meus braços.

Levantei e me arrumei.

Peguei minhas facas, uma embaixo do colchão e a outra em um suporte que eu fiz, preso a minha coxa, guardei-as nos lugares que pertencem. Minhas facas na verdade ficam escondidas na minha cintura e na minha perna, perto do pé, escondida pela calça e presa com o mesmo suporte que eu prendo na coxa. Somente em assalto é que eu uso uma das facas na mão e a outra na cintura.

Agora com a luz do dia, dava para ver o meu esconderijo muito bem, era um galpão abandonado. No canto esquerdo tinha um colchão que demorei em consegui-lo, uma lamparina em cima de um caixote e do lado direito, algumas caixas empilhadas, um varal que estava com as minhas roupas do dia anterior e uma porta que levava ao que um dia foi um banheiro. Ainda tinha o vaso sanitário e eu consegui alguém para fazer um gato, o que me traz água, é claro que não é quente, mas dá para tomar banho.

Minha mochila estava ao lado do colchão com algumas outras roupas, não era muito, mas dava para revezar durante a semana. Eu conheci uma senhora há uns tempos atrás que me deixa lavar minhas roupas na sua casa, é a dona Adelaide. No fundo ela sabe que eu mexo com coisa errada, não sabe exatamente o quê, mas ela sempre tenta me puxar para o lado do bem.

Com o dinheiro que eu consigo nos assaltos, eu compro comida e água e estoco para não passar fome ou sede. O dinheiro que eu não uso, deixo guardado, na verdade muito bem escondido. Já possuo mais de dez mil reais guardado. Meu negócio com assalto começou cedo e eu tenho mais lucro quando pego emprestado de alguém que tenha acabado de sair do banco.

Esse galpão eu consegui há uns dois anos, antes eu morava na rua mesmo, dormia em cima de um papelão e tinha um cobertor surrado que nem esquentava, passava frio e muitas vezes dormia na chuva.

Se eu perdesse esse galpão, perderia também o meu colchão que eu dei duro para conseguir. Tive que trabalhar durante dois meses inteiros entregando compras de um mercado só para ganhar o colchão. Era um colchão bem velho, mas é bem melhor do que dormir em um papelão.

Por falar no galpão, eu dei uma melhorada nele. Arrumei-o do meu jeito, tirei toda a poeira que havia e ainda fiz algumas saídas estratégicas. Quem entrasse aqui jamais conseguiria me encurralar.

Sai do esconderijo, sempre observando a área. Fui andando até a rua de baixo. Lá era a onde ficava a casa da Adelaide.

- Oi Nikki. - Adelaide apareceu na porta quando toquei a campainha.

- Oi Adê. - Respondi sorrindo.

- Andou sumida esses dias, o que houve? Não está metida em coisa ruim não, né? - Ela abre o portão para me deixar passar.

- Fica tranquila, está tudo bem.

-Sei. Esse tudo bem quer dizer o quê?

- Relaxa Adê. - Falei tranquila.

- Menina, menina, assim você não vai chegar nem aos vinte e cinco anos.

- Você fala isso como se eu fosse morrer hoje. Sem contar que ainda faltam seis anos para eu fazer vinte e cinco. - Entrei na casa dela e me sentei no sofá. - Cadê a Jú? - Perguntei me referindo à sobrinha dela.

- Já falei para deixar a Juliana em paz. Ela não é igual a essas mulheres que você fica. - Adelaide diz e me dá um tapa no braço me fazendo rir.

- Eu só quero falar com ela.

- Falar? Porque não vai atrás da Cacau? - Cacau é uma garota de programa que eu conheci e é a única que deixaria de receber dinheiro para ficar comigo quando eu quisesse.

- Que bicho te mordeu Adê? - Perguntei.

- Nenhum. Só estou cansada de dizer as mesmas coisas para você, eu me preocupo e você sabe disso.

- Eu já sei. - Falei, fazendo uma careta.

- Pois não é o que parece. Eu sempre falo e falo e tudo o que eu digo entra em um ouvido e sai pelo outro. - Adelaide diz, com um ar cansado. - Essa vida que você leva, ainda vai te matar. Você pode não me contar o que faz, mas eu sei que coisa boa não é. Todo aquele dinheiro que aparece com você, não é normal.

- Tá bom Adelaide. - Falei suspirando.

- Tá bom nada. Eu não sou sua mãe, mas eu me preocupo com você como se fosse minha filha, eu aprendi a gostar de ti. Você nunca me diz o que faz para ganhar esse dinheiro todo. Você vende seu corpo?

- O quê? - Perguntei, incrédula. - Adelaide, que absurdo.

- Eu sou pobre, Nikki. Mas eu nunca precisei fazer nada ruim para conseguir dinheiro, sempre trabalhei honestamente e é o que você deveria fazer.

- Esse papo já deu né? - Levantei e andei até o portão com a Adelaide atrás de mim. - Depois eu venho lavar a minha roupa.

- Nikki? - Adelaide segurou meu braço antes que eu saísse. - Não fica chateada comigo, só quero que você tome jeito.

- Tá tudo bem, Adê. Depois eu apareço.

Ganhei um abraço e saí. Já que eu não consegui o que queria, então eu fui atrás da Cacau mesmo. Eu fui lá na casa da Adelaide para transar com a Jú, somente isso. A garota é novinha, mas faz que nem gente grande.

Andei até uma esquina mais abaixo e vi as garotas de programa que estavam lá. Mesmo sendo manhã, o negócio de "vender o corpo", como diz a Adelaide, começa cedo.

- Oi Nikki. - Suelen diz. Ela sempre teve uma rivalidade com a Cacau, embora a Cacau fosse muito mais gata do que ela. - Quer uma hora?

- Não Suelen. Eu estou procurando a Cacau. - Falei.

- Ela? - Suelen me olha enojada. - Tem muitas mulheres aqui, basta escolher uma, ou melhor, todas que quiser. - Ela fala, se aproximando o suficiente para seus seios tocarem os meus.

- Não, obrigada. É só com ela mesmo. - Me afastei e continuei andando entre as mulheres. Algumas me perguntavam se eu queria uma hora com elas, outras se insinuavam e outras já se entregavam de graça mesmo.

A Cacau foi a única com quem eu fiz essa loucura. Eu nunca tinha imaginado ficar com uma garota de programa, e foi somente porque ela é diferente, ela me entende, além de ser gata e gostosa.

Nos conhecemos de uma maneira diferente, eu a vi sozinha em uma esquina, provavelmente esperando algum cliente, e resolvi assaltá-la. Não deu muito certo, por incrível que pareça, eu não segurei ela como seguro outras pessoas que eu rendo, a abordei de frente mesmo, ela me encarou e disse algo que eu jamais esperaria: "Eu te conheço, Nikki." Naquela hora eu retirei a touca e deixei que me visse. Ela nunca me contou como sabia que era eu por baixo daquela touca, mas eu também não ligo.

Depois disso começamos a conversar, eu percebi que ela era uma mulher incrível, divertida, inteligente e muito bonita. Ela nunca contou para ninguém sobre os meus assaltos, também não ousa falar nada sobre isso até porque ela também não deve se orgulhar nem um pouquinho da vida que leva.

Virei a esquina e a encontrei, estava conversando com uma outra garota de programa. A Cacau era bem disputada pelos clientes, o que ocasionava a raiva de algumas mulheres.

Cheguei perto delas e as duas se despediram.

- O que faz aqui? - Cacau me pergunta.

- Nossa, é assim que você me recebe? Depois de duas semanas sem me ver? - Perguntei, fazendo carinho em seu rosto.

- Por isso mesmo, duas semanas. - Ela falou e virou o rosto.

- Eu estava com alguns problemas, mas já resolvi. - Cacau me analisou.

Cacau é morena, tem olhos castanhos claros, lábios carnudos, um corpo maravilhoso, cheio de curvas sensacionais e um belo par de seios que eram a minha perdição.

- Ah é, e que problemas são esses? - Ela perguntou, agora enrolava uma mecha do meu cabelo no dedo.

- Eu falo se você me der uma bela massagem. - Falei, com cara de pidona.

- Eu nunca consigo dizer não para você, não é? - Cacau fez uma careta.

- Eu sei que você me ama. - Falei em tom de brincadeira. Cacau abaixou a cabeça. Percebi o erro do que eu disse e tentei corrigir. - E eu sou foda, você tem que admitir.

Cacau me olhou um tanto triste e deu um sorriso.

- É, você é foda mesmo. - Ela falou sem vontade.

- Ei, o que foi? - Perguntei, preocupada. Ela sempre se animava quando me via.

- Não é nada Nikki. - Ela falou, e sem prévio aviso saiu andando.

- Não vai mesmo me falar? - Perguntei atrás dela.

- O que você quer Nikki? - Cacau perguntou, se virando para me encarar.

- Você sabe o que eu quero. - Falei.

- É claro, a única coisa que meio mundo também quer de mim. - Ela soou irônica.

- Porque você está me tratando assim?

- Porque eu estou cansada, Nikki. - Realmente eu percebi o semblante dela, cansado, exausto para falar a verdade.

Fiquei sem saber o que dizer. Ela me encarou, esperando algo da minha parte, que não veio, suspirou e seguiu andando.

Acho que eu acordei com o pé esquerdo hoje.

Não fui atrás da Cacau, ela precisava de espaço. Eu realmente não entendo porque que ela está nessa vida de programas ainda. Ela é linda e já juntou dinheiro suficiente para mudar de vida. Poderia ir viajar, se mudar daqui e fazer faculdade, ou até mesmo abrir seu próprio negócio, mas a verdade é que eu não sei o que a prende aqui.

Depois eu voltaria para falar com ela.

Passei na casa do meu grande amigo Hugo.

- E aí Nikki? - Hugo falou, vindo abrir o portão. Dei um abraço nele.

- Fala mano. - Falei, dando um sorriso.

- Fica vacilando não, andando nessas esquinas aí. O pessoal do Zeca está de olho em você. - Ele falou, entrando na casa e sentando no sofá.

- É, eu tô sabendo. Se preocupa não, estou alerta. - Falei, me sentando no outro sofá.

- Eles estão com raiva porque encontraram o Dindim morto num beco aí da vida, e estão falando que foram eles. - Hugo falou.

- Dindim? - Perguntei sem saber de quem ele estava falando.

Hugo pegou um jornal e me entregou. Vi que era o jornal "Hora Certa", só fala sobre os crimes que acontecem na região.

- É de hoje. - Falou.

Logo na primeira página, bem no centro, estava a foto do cara que eu furei com as minhas facas na noite anterior. No canto direito tinha uma outra foto, alguém mascarado e uma interrogação por cima. A reportagem começava com letras bem chamativas e abaixo o texto, junto com as fotos:

HEROÍNA MISTERIOSA

Na noite de ontem, a jovem Ariele, 19 anos, relatou à polícia que foi salva por uma mulher mascarada ao sofrer um estupro. O Estuprador, Pedro Souza, conhecido pelo apelido de Dindim, 32 anos, foi morto pela misteriosa mulher, com quatro golpes de faca. A jovem esclareceu não ter visto o rosto da suposta heroína, mas que deixa claro sua enorme gratidão a ela "O que eu passei foi e está sendo um pesadelo para mim, só quero agradecer à minha heroína por ter me salvado, se não fosse por ela, nem sei se eu estaria aqui".

A mãe da jovem Ariele também agradece à misteriosa mascarada "Agradeço a Deus primeiramente por trazer nossa filha com vida de volta para nós e agradeço a essa moça, se soubéssemos quem é, eu daria um abraço pessoalmente".

Depois do relato da jovem, a polícia investiga para descobrir a identidade dessa mascarada, mesmo tendo tirado das ruas um estuprador, ainda assim é uma assassina.

Se alguém souber sobre essa misteriosa mulher, ligue para o número 190 e denuncie.

Terminei de ler e joguei o jornal em cima da mesa.

- Sabe de alguma coisa sobre isso? - Hugo me perguntou.

- Não. - Menti. - O Cebola acha que foi o Zeca e o pessoal dele que mataram o Dindim?

- É. Isso vai dar uma confusão dos diabos. - Hugo se levantou, foi até a cozinha e pegou uma cerveja na geladeira, neguei a que ele oferecia para mim.

- Mas aí diz que foi uma mulher que o matou. - Falei.

- Vai ver o Zeca mandou a mulher dele matar o cara.

- É bom que com isso o pessoal do Zeca esquece de mim.

- Duvido gata. - Hugo falou, rindo. - Você o peitou na frente do bando dele, acha que ele ia deixar passar essa?

Fiz uma careta. Eu sabia que estava encrencada com o Zeca, e agora com a polícia. E sem contar que agora o Cebola andava de olho em mim também.

Zeca é um bandido barra pesada que mora no quarteirão de cima. É líder de uma gangue e ainda por cima, chefia uma boca de fumo.

Cebola por outro lado, comanda a gangue do quarteirão de baixo. São mais violentos que a gangue do Zeca e se eles não descobrirem que fui eu que matei o Dindim, haverá uma grande retaliação entre essas duas gangues.

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