Capítulo 12 (Penúltimo)
Sabe quando você não sabe para onde está correndo, mas só reza para não bater em alguma coisa? Pois é, eu estava assim. Estava escuro e o máximo que eu conseguia ver era algumas pouquíssimas coisas um palmo à minha frente, com a ajuda do brilho do luar que entrava naquele matadouro.
Cacau atirava que nem uma doida, então eu corri meio abaixada para não ser atingida por uma bala. Ia ser muita ironia se eu fosse atingida justamente agora e ainda mais pela pessoa que está me ajudando a escapar.
Fui correndo na direção que eu achava que era a saída.
Depois daquele primeiro tiro que assustou a Cacau e fez ela errar o tiro no Zeca, as balas comiam soltas do lado de fora.
Continuei correndo e passei por um local sem claridade nenhuma. Trombei com alguma coisa dura, não sei o que era, mas doeu muito. Acabei batendo a cabeça com força e caí no chão com uma dor monstruosa. Por um momento perdi a noção da onde eu estava. Escutei um grito e soube que o Zeca tinha achado a Cacau.
Tentei levantar, mas caí novamente, minha cabeça parecia que ia explodir.
Escutei a Cacau gritando novamente e ouvi o Zeca rindo. Com a cabeça doendo, eu tentei voltar, mas já nem sabia a direção certa em que eles estavam.
— Nikkiiii, eu sei que ainda está aqui. Estou ouvindo você gemer. Está machucadinha é? – Zeca deu uma gargalhada de gelar a espinha. — Se você não aparecer, a Cacau é que vai pagar no seu lugar e você não quer isso, não é?
Parei por um momento e respirei fundo. A Cacau precisava de mim. Tentei ignorar a dor e levantei. Fui tateando o lugar.
— Zeca, deixa a Cacau em paz! – Gritei.
— Então vem aqui. Prometo que a sua morte será bem rápida e indolor. – Outra risada dele.
Andei lentamente em direção à voz dele. Eu sentia que estava sendo observada o tempo inteiro. Homens como o Zeca, são verdadeiros caçadores, independente se estava escuro ou não, sempre estão à espreita observando.
Fui agarrada pelo pescoço e pude vê-lo. Zeca estava com as feições de um completo louco. Seu ombro sangrava e mesmo assim ele estava sorrindo.
— A princesinha se machucou? – Zeca debochou.
— Deixa ela em paz. – Falei tentando respirar.
— Vou deixar. Meu negócio é com você, Nikki. Sempre foi. – Zeca falou.
— Por quê? Só porque eu vi demais?
— Você não sabe, não é? – Ele perguntou. — Não se lembra? Nadinha?
— Do que você está falando? – Perguntei.
— Zeca... Por favor, não faz isso. – Cacau falou de algum lugar. Sua voz estava fraca, provavelmente ela estava machucada.
— Eles acham que você vai ser a próxima no comando. Acredita nisso? – Zeca falou com raiva. — Que você vai ser melhor do que ele, mas eu não vou deixar isso acontecer. Aquele quarteirão é meu agora.
— Eu não estou entendendo. – Falei. Zeca me soltou. Minha cabeça latejava, provavelmente eu ficaria com um galo do tamanho de uma bola de golf.
— Sua mamãezinha nunca falou sobre o filho que ela teve? O filho que preferiu as ruas, o crime e aquele maldito quarteirão ao invés da própria família?
— O que? – Perguntei. Acho que foi o Zeca que bateu a cabeça e não eu, porque era ele que estava caducando.
— O Jean era o seu irmão. Sua mãe nunca contou? – Ele falou. — É claro que não, você devia ser muito pequena quando ele resolveu sair de casa.
Que merda o Zeca estava falando? O Cebola era meu irmão? Desde quando?
— Ele sabia disso, ele sabia que você saiu de casa porque o seu padrasto era violento com você. Ele seguiu seus passos até aqui. E olha só, você veio pedir para ficar justamente no quarteirão onde seu irmãozinho era o dono. Ironias do destino? – Zeca debochava e ria. — É uma pena, mas você vai ter o mesmo fim que ele.
— Eu não tenho nenhum irmão. – Falei.
— Com certeza você tem. Ou melhor, você tinha, porque agora ele está em algum lugar aqui, morto.
Enquanto Zeca ria, me lembrei de um dia na casa da minha mãe, quando eu era mais nova, eu devia ter uns sete anos. Meu padrasto entrou bêbado em casa e por algum motivo, ele começou a me espancar. Dizia coisas, gritava palavras desconexas. E sim, havia um Jean em algumas frases dele. Ele dizia que se dependesse dele, eu não iria me tornar o que o Jean era. Que ele iria acabar comigo na pancada, mas que eu seria uma garota de bem.
Então era por isso que muitas vezes eu apanhava sem nem saber o motivo. Era só o meu padrasto chegar bêbado em casa que eu era o saco de pancadas dele. Ele me batia por achar que algum dia eu me tornaria tão ruim quanto o Jean.
Eu me lembro também das muitas vezes em que minha mãe tentou tirar meu padrasto de cima de mim, dizendo que eu não era igual ao Jean.
Eu achava que estava escutando errado e me perguntava quem era esse tal de Jean na época, mas agora eu sei. Fugi de casa achando que minha mãe me odiava por deixar meu padrasto me bater daquela forma, mas ela não conseguia competir com a força dele.
Voltei ao presente. Foi por isso que o Cebola disse que nunca me machucaria, antes dele morrer. Ele sempre cuidou de mim, de uma forma errada, é claro, mas sempre cuidou.
— Lembrou né, gatinha? – Zeca perguntou. — Agora você sabe por que eu terei que te matar. Todos da gangue dele sabem quem você é. Porque você acha que teve tiroteio aqui mais cedo? Eram eles tentando te resgatar.
Eu nem tinha me dado conta de que o tiroteio lá fora tinha acabado.
— E o de agora? O tiroteio? – Perguntei.
— Devem ter sido eles também. – Zeca falou.
Zeca estava distraído, enquanto falava. Nem percebeu a luz vermelha que mirava no seu peito. Será se a gangue do Cebola era tão boa assim para ter até atirador de elite?
Escutei um barulho de vidro quebrando e vi o Zeca caindo no chão. Abaixei-me com medo de ser atingida. Na mesma hora escutei um barulhão. Uma explosão. Alguém tinha explodido a porta de ferro do galpão.
— AQUI É A POLÍCIA. MANTENHAM AS MÃOS NA CABEÇA!
Vários homens armados e fardados entraram no galpão iluminando tudo e apontando suas grandes armas para aquele banho de sangue.
Agora que estava iluminado lá dentro, pude ver onde a Cacau estava. Ela estava com um dos ganchos de pendurar carne enfiado na coxa, mas de resto parecia estar bem.
Não sei quanto tempo levou ali dentro. Uns bons minutos até ouvir aquela voz que me fazia arrepiar.
— Nikki?
Shay veio andando. Uma visão de tirar o fôlego se querem saber. Ela estava vestida de preto, com um colete a prova de balas e com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Estava com uma arma enorme nas mãos.
Fiquei até aliviada ao vê-la. Pouco me importava se ela era da polícia, o que fazia muito sentido agora, todas as perguntas dela e todo aquele ar misterioso.
— Bela arma. – Falei com um sorriso e encarei aqueles olhos verdes maravilhosos.
— É um fuzil M-40A3. Longo alcance.
— Uau.
Shay olhava em volta e dava ordens aos seus homens. Mais pessoas entraram no matadouro, vi que eram paramédicos, com macas.
Eu estava doida para falar com a Shay, beijá-la. Mas por algum motivo ela não chegou perto de mim, deixou que os paramédicos fizessem o trabalho deles, enquanto só observava.
Vi o homem que me seguia no quarteirão. Um deles. Pelo visto era policial, porque o outro com certeza era da gangue do Cebola.
A Shay tinha muito o que me explicar. Ela me enganou, ela trabalhava junto com aquele cara o tempo todo. Será se ela transou comigo só para obter respostas? Ou melhor, alguma confissão minha?
Me colocaram em uma maca e a Cacau em outra. Fomos encaminhadas para o hospital.
Lá no hospital, levei vários pontos por causa daqueles cortes que o Zeca fez. Tirando esses cortes e o galo enorme na cabeça, eu estava bem. Deram-me remédio para dormir e eu tentei lutar contra o sono, até para ver se a Shay iria falar comigo, mas fui vencida e logo fui arrastada para um sono pesado.
Acordei no meio da tarde do dia seguinte, pelo menos eu achava que era no dia seguinte.
Tinha uma enfermeira verificando o meu soro. Assim que acordei, ela se assustou e se afastou de mim.
— Vou chamar o médico. – Disse e saiu.
Poucos minutos depois a porta abriu e por ela entrou um homem magro, parecia o mister Bean. Eu quase dei uma gargalhada.
— Olá Nikki. Como se sente? – Ele perguntou.
— Minha cabeça dói. – Foi só o que eu disse.
— Você ainda vai sentir sua cabeça doendo por alguns dias. Com um galo desse tamanho... – Tentei levar minha mão à cabeça, parecia chumbo. — Ei, é brincadeira. Não está tão ruim assim. – O médico disse, sorrindo.
Verificou o soro.
— Você é forte hein menina. Ou pelo menos sua cabeça. Com uma pancada dessa, qualquer um teria ficado um bom tempo apagado. – Eu não vi nenhuma graça no comentário dele.
— Como está a Cacau? – Perguntei.
— Cacau? – Ele estranhou.
— É, a moça que chegou junto comigo, mas em outra ambulância.
— Ah sim. Ela não se chama Cacau. Se chama Jennifer. – Ele começou escrevendo no prontuário. — Ela também é bem forte e está bem. Só levou alguns pontos na coxa e já foi liberada.
— E porque eu não fui liberada? – Perguntei.
— Por causa desse enooorme galo aí. – Levei novamente a mão para a minha cabeça. — Estou brincando mocinha. Não está tão grande. Mas uma pancada na cabeça não se pode ignorar, não é?
— Hum.
— Bom, mais tarde eu venho lhe dar alta. – O mister Bean foi saindo. — Ah, A Jennifer está aqui fora querendo te ver.
Depois que o médico saiu, a Cacau entrou mancando.
— Oi.
— Oi Cacau. Ou melhor, Jennifer. – Falei.
— Nikki, me desculpa. – Cacau falou. — Eu causei tudo isso. No final quem foi passada para trás fui eu, eu não sabia que o Zeca queria se livrar de você. Isso explica as muitas vezes que ele tentou me jogar contra você. Ele me usou para chegar em você, e me fez matar o Cebola.
— Aquilo que ele falou era verdade? – Perguntei.
— Sim, cada palavra. O Cebola matou os meus pais, e depois passou a comandar o quarteirão. Ele era o seu irmão também.
— Eu... Eu... Eu não sei nem o que dizer. O Cebola pagou pelo que fez a outras pessoas, se não fosse assim, ia ser de alguma forma. Eu não sentia e ainda não sinto nada por ele, como irmão.
— Eu sinto muito por isso, Nikki. Me perdoa.
— Você fez o que devia fazer. De alguma forma, você acabou com as maldades do Cebola. – Falei. — O que pretende fazer agora? – Perguntei.
— Agora eu vou colocar tudo o que escrevi naquele bilhete para você em prática. Vou me formar e começar a construir uma vida. Longe disso tudo.
— Faz bem. – Sorri.
— A sua delegada está lá fora desde ontem. Sem contar nos dois armários que ela deixou de plantão aí na porta.
— Por quê? – Perguntei. — Já acabou. O Cebola está morto. O Zeca está morto. Porque ela deixou guardas na minha porta?
—Ainda não acabou Nikki.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top