Capítulo 10

— Zeca... – O homem preso ao gancho disse com dificuldade. — Por favor?

Zeca desligou a motosserra.

— Por favor? É isso mesmo o que eu escutei? – Zeca o olhava com ódio. — Em algum momento você pensou em mim enquanto comia a minha mulher? – Ele agora andava para um lado e para o outro. — PENSOU? – Zeca gritou.

— Ela... Ela... – O homem tossiu com muito esforço, fazendo uma careta de dor.

O mínimo movimento fazia com que o gancho se remexesse em suas costas, cravado mais ainda na carne.

— Ela te traía com todo mundo. – O homem falou.

— Agora ela não vai mais trair, não é? – Zeca falou.

— O... O Juca também... Também comeu ela.

Zeca olhou para um cara mais afastado e andou até ele.

— O que você diz sobre essa acusação? – Zeca o estudava. Provavelmente era o tal Juca de quem o homem pendurado havia falado.

— Senhor... – Juca estava nervoso. — Eu não... Eu não fiz isso, senhor.

— Então há algum problema aqui. Ninguém acusa só por acusar. – Zeca dizia, ainda o encarando.

Enquanto rolava esse embate, eu tentei me soltar. As cordas estavam bastante apertadas. Não conseguia mover nem um milímetro as mãos.

— Vai a algum lugar Nikki? – Zeca perguntou alto, fazendo todos me olharem. Neguei com a cabeça. — Apertaram bem as cordas não é? – Ele riu. — Sabe de uma coisa? Eu estou cansado disso.

Assim que terminou de falar, Zeca tirou uma arma da cintura, apontou para o Juca e atirou.

O barulho naquele espaço vazio em que estávamos pareceu ser três vezes mais alto. Meus ouvidos zumbiam enquanto eu via o corpo do Juca cair sem vida ao chão. Na cabeça, um tiro certeiro na cabeça.

Zeca não tentou ver se a história era mesmo verdadeira. Se fosse verdade, bem... Se não fosse, o Juca tinha pagado um preço muito alto pela mentira do cara pendurado.

Se esse homem, pendurado pelas costas bem na minha frente, estivesse mentindo, ele também teria um fim trágico porque o Zeca não estava disposto a liberá-lo não.

— Isso é um recado para cada um de vocês. – Zeca falava e olhava para cada um da gangue. — Tomem muito cuidado ao baterem de frente comigo. – Sem prévio aviso ele ligou a motosserra novamente.

Aquilo fazia um barulhão, mesmo com os ouvidos zumbindo por causa do tiro, ainda assim era muito incômodo.

Zeca se posicionou na frente do homem e levou a motosserra ao pé dele. Os gritos eram insuportáveis à medida que o Zeca serrava o pé daquele pobre coitado. Sangue voava para os lados, salpicando o que estivesse por perto.

Fechei os olhos. Daria tudo para poder tapar os meus ouvidos. Escutei um barulho seco em meio ao barulho da motosserra, deduzi que fosse o pé do homem que tinha caído.

A motosserra foi desligada, indicando que havia terminado o serviço. Não ousei olhar.

— Olha para ele Nikki. Acha que a minha esposa gostaria dele assim? Sem um pé? – Zeca debochou.

Continuei sem olhar.

— E que tal se ele perdesse um braço, hein Nikki? – Zeca sussurrou no meu olvido me dando um susto. Com isso o barulho da motosserra inundou o ambiente novamente.

Mais gritos vieram aos meus ouvidos. Gritos de dor, agonia, desespero... Tudo.

Zeca sorria e dava gargalhadas.

Tentei me soltar mais uma vez, agora mais que tudo eu queria sair dali, meus cortes não eram nada comparado àquilo.

Zeca desligou a motosserra. Eu estava olhando para baixo e então Zeca parou na minha frente me fazendo olhá-lo. Não ousei desviar os meus olhos do Zeca, até porque a visão do homem pendurado estava um pouco mais para a direita e eu não queria vê-lo.

— Vou deixar você com seus dois novos amiguinhos. Amanhã eu volto para terminar com você. – Zeca me deu um beijo na testa. — Ah, só um minuto. – Ele se virou e abaixou, pegando alguma coisa. — Vou deixa-lo aí até que morra. – Disse apontando o cara, mas não com a sua mão e sim com o braço do homem.

Zeca segurava aquele braço cheio de sangue como se fosse um simples brinquedinho.

— Ele vai te fazer companhia Nikki.

Não falei nada, só abaixei a cabeça e olhei para o chão.

— Você dá uma de durona, mas por dentro deve estar tremendo. – Zeca passou os dedos daquele braço decepado em meu rosto. Zeca foi para trás de mim e checou as cordas que me prendiam. — Não preciso deixar nenhum guarda, você não vai conseguir escapar mesmo.

Ele e sua trupe saíram do matadouro me deixando amarrada naquele poste com um cara pendurado bem na minha frente sangrando até morrer e um corpo sem vida de outro jogado a alguns passos à direita.

Escutei um gemido bem fraco na minha frente.

Eu nem sei como esse cara ainda estava vivo. Talvez não durasse muito tempo.

Já devia passar das duas da tarde. Será se a Shay e o Hugo estavam me procurando? Será se já tinham avisado a polícia?

Procurei manter a calma, eu precisava me soltar. Não devia ser muito difícil soltar essas cordas. Fiz força, puxando minha mão.

Continuei a árdua tarefa de escapar, a hora passava e eu já nem sabia se era de tarde ainda. Eu tinha conseguido afrouxar um pouco a corda, mas meus pulsos ainda estavam presos.

Parei de me mover e olhei para o cara pendurado, ele começou a tremer, talvez tendo um choque anafilático ou sei lá. Durou alguns segundos e depois nada, ele parou de se debater assim que deu seu último suspiro. Uma pena ele ter demorado tanto tempo para morrer, sangrar até a morte... Não desejo isso para ninguém, é muito sofrimento.

Agora mais do que tudo eu estava sozinha ali, antes esse homem ainda estava vivo mesmo com um fiozinho de vida, agora nem isso. Eu tinha esperança de que ele conseguisse se soltar do gancho, se arrastasse até onde eu estava e soltasse a corda, mas agora eu estava por conta própria.

Passaram-se mais algumas horas até que escutei barulho. Pareciam passos. Andava de forma lenta, sem pressa alguma.

O lugar já estava meio escuro à medida que ia anoitecendo. Esperei para ver quem era, podia ser o Zeca que tivesse voltado.

Prendi a respiração quando vi o meu visitante. Se eu não fosse morrer pela mão de um eu morreria pela mão do outro.

— Nikki, há quanto tempo? – Cebola debochou. Sua voz grave retumbava no espaço vazio.

Ele veio na minha direção, mas examinando o trabalho do Zeca.

— É, o Zeca aprendeu bastante. – Cebola apontou para o homem pendurado. — Sabe o que faz para que eles não morram rápido? Coloca sal grosso na ferida. – Ele tinha um sorriso maníaco no rosto. — Assim você corta os pedaços e logo trata o ferimento. Uma hora a pessoa não resiste, é claro. Mas dura mais tempo. Quanto tempo esse daí levou? – Cebola perguntou para ninguém em particular. — Três horas? Talvez quatro.

Ele respirou fundo.

— Adoro esse cheiro, está sentindo? – Ele se aproximou de mim. — Cheiro de desespero, de dor, de sangue... De morte!

É, acho que dessa vez eu não escaparia. Talvez seria a minha cabeça que estaria dentro da caixa que o Cebola me mostrou. Seria a minha cabeça que faria alguém quase vomitar ou ter pesadelos pelo resto da vida.

— Eu quero saber agora Nikki, porque mentiu para mim? – Sua voz demonstrava chateação. — Você matou o Dindim e ainda roubava na minha área, por quê? Eu te deixei ficar, não foi o bastante?

— Eu... Eu... Sim, eu matei o Dindim, mas foi um acidente. Eu não sabia que ele ia morrer, eu o deixei desmaiado quando saí.

— Você o golpeou até a morte. A última facada foi no coração, se você não tinha o desejo de matá-lo, então eu não sei.

— O quê? Coração? – Perguntei incrédula.

Relembrei aquele fatídico dia da tempestade, quando vi o Dindim com aquela garota no beco escuro. Lembrei os lugares em que o furei: na coxa e na barriga. Depois o chutei na cara fazendo-o desmaiar.

Duas facadas, nem mais nem menos. Como o Dindim poderia ter levado uma facada no coração?

Naquele dia que o Hugo me mostrou o jornal, eu tenho certeza que li que foram duas facadas. Será se eu tinha lido errado?

— Não fui eu que o matei. – Constatei.

— Como não? Você acabou de confirmar. Está doida mulher? – Cebola disse.

— Não. Não fui eu. – Eu pensava freneticamente. — Eu lembro daquele dia. Eu dei duas facadas no Dindim, uma na coxa e uma na barriga, o chutei e o deixei desmaiado. Peguei a garota que ele estava abusando e levei para o hospital.

Cebola me analisava.

— Cebola... Eu estou falando a verdade. Eu vou morrer do mesmo jeito, porque eu iria mentir agora? – Eu esperava que ele acreditasse em mim. — Outra pessoa terminou o serviço.

— Quem? – Ele perguntou.

— Eu não sei. – Falei triste. — Eu não vou negar, eu roubava sim. Eu precisava de dinheiro para me manter. Por isso eu não deixava ninguém ver meu rosto.

— Eu faço o que faço, mas nunca roubei ninguém Nikki. – Só mata, pensei.

— Eu sei. Eu tentei mudar, tentei achar um emprego. Até ia ser contratada, mas nem cheguei a levar os documentos, eu me enrolei mais ainda nessa história toda.

Cebola passou a andar de um lado a outro, muito pensativo.

— Então tem outra pessoa agindo na encolha. – Ele me olhou. — E a corda acabou arrebentando para o lado mais fraco.

Ele voltou a andar.

— É, o lado mais fraco. – Repeti.

— Como você acabou de dizer, você vai morrer. Ladrão não fica impune aqui. Mas eu quero descobrir quem é essa outra pessoa.

— Mas se você me matar, não vai descobrir quem é.

— Porque não? – Cebola me olhou.

— Porque talvez essa pessoa estivesse agindo quando eu estava agindo... Roubando, entendeu? – Falei. — Ela ou ele aproveitava que eu saia e depois que eu voltava para o galpão, ele agia. – Isso era uma suposição.

— E sobre o Tebas?

— Quem? – Perguntei.

— Tebas. Um amigo meu que também foi executado? – Ele perguntou. — Mataram ele uns dias antes do Dindim. No jornal dizia que assaltaram ele e o mataram.

— Eu não sei sobre isso. – Falei. — Eu nem sabia disso.

— Nikki?

— Eu juro.

Cebola parecia tão confuso quanto eu. Alguém estava matando os companheiros de gangue dele e pelo visto forjavam a cena do crime para parecer que tinha sido um assalto. E a culpa estava caindo em mim.

— Eu vou pegar esse desgraçado que anda matando meus companheiros. – Agora ele estava bem irritado. — Mas sabe Nikki, é uma pena ter que fazer algo com você. Comecei a ter estima por você, a gostar de você. Eu tenho idade para ser seu pai. Mas eu não posso abrir exceções, você entende não é? – Ele respirou fundo. — Senão vira bagunça. E não queremos que o nosso quarteirão seja dominado pelo crime. Aqui, eu sou a Polícia. Eu sou a segurança de cada morador.

— Eu... Eu entendo Cebola. – Abaixei a cabeça.

Já estava escuro lá dentro do matadouro. Eu já estava com os braços doendo de ficar amarrada, com as pernas doendo também de ficar em pé na mesma posição.

— Quem sabe se você me der uma lição? Assim não precisa me matar. – Falei esperançosa. Acho que mais um pouquinho e eu conseguia chegar ao pouco de bondade que tinha no coração do Cebola.

— Que lição? – Ele perguntou com sua voz grave.

— Não sei, talvez... Você pode me dar uma surra e esquecemos isso. – Dei um pequeno sorriso.

— Nikki, Nikki, Nikki. Não é tão simples assim menina. – Cebola suspirou.

— Eu sei que não é tão simples. Me coloca no seu negócio, na gangue... Qualquer coisa? Eu prometo fazer certo dessa vez.

— Olha Nikki... – Bem, seja o que for que o Cebola iria falar, ele jamais chegaria a dizer.

Ao mesmo tempo que escutei o barulho de um tiro, vi o Cebola caindo de lado.

Alguém do lado de fora o acertou. Não sei onde a bala pegou, mas ele ainda estava vivo.

— Nikki... – Cebola tentou falar.

Escutei mais tiros do lado de fora. Tentei me soltar o mais rápido possível, puxando as cordas de qualquer jeito.

Consegui tirar uma mão da corda e depois a outra. Desamarrei meus pés e fui até o Cebola.

— Eu vou chamar ajuda, aguenta. – Cebola segurou a minha mão.

— Eu... – Ele tinha uma crise de tosse atrás da outra. Saia sangue pela boca dele e eu já sabia que ele não duraria muito. — Eu nunca... Nunca iria... Te machucar.

Seus olhos estavam fixos em mim eera assim que permaneceriam. Cebola estava morto.

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