XII

      Minha respiração parou por uns quantos de segundos ao ver a criança chamada Danielle Anitta virando-se de costas para mim para que eu não a visse chorando.

      Foi mais forte que eu. Eu era pai, amava minha filha e esse instinto me impeliu a me aproximar da guria. Fiz que ela se virasse para mim, me ajoelhei e a abracei. Porque quando não há mais palavras, um abraço aquece um coração cheio de dor.

      Ela retribuiu ao meu abraço. Erguendo-a nos braços, a coloquei no assento do caminhão.

      — Me conte o que aconteceu — pedi. — Se quiser se abrir e por pra fora essa dor.

      Danielle enxugou as lágrimas com o dorso da mão, me olhou com olhos tão tristes, que por um momento achei ser impossível para ela dizer algo.

      — Minha mãe era bailarina e morreu num acidente nos Estados Unidos. Ela era casada com um homem chamado Laerte. Ele não deixou meu pai ficar com a minha guarda. Mas não gostava de mim como filha, e eu não aceitava ele como pai, mas a gente até que vivia bem. Daí, ele trouxe uma mulher pra morar em casa… Uma tal de Suki. Ela me chamava de menina careca e feia, e implicava comigo em tudo, e eu a provocava. Eu gostava de provocar os dois.

      Meneei a cabeça de um lado para o outro, atento a cada palavra dita pela guria.

      — Eu não era feliz naquela casa, seu Mateus. Só queria carinho… Eu queria morar com meu pai… Mas o Laerte não deixou. Ele disse que era meu responsável legal. Minha vida naquela casa era muito triste, eu passava a maior parte do tempo trancada no meu quarto. Há uma semana atrás, o Laerte levou a gente para conhecer a Serra Gaúcha… Gramado é linda, né?… Eu não desconfiei de nada…

      Ela começou a soluçar, pedi que parasse, caso não tivesse condições de ir adiante.

      — Não consigo guardar só pra mim…!

      — Tudo bem — concordei.

      — Meu padrasto alugou um carro pra gente passear pelas cidades serranas. Elas são próximas umas das outras. Mas ele estava muito estranho, toda hora cochichava coisas nada a ver com a Suki, tipo… “ galinha pintadinha dos ovos de ouro”, “passaporte para a liberdade”. A Suki me olhava toda hora pelo espelho retrovisor e eu via seu sorriso falso. Aí eu acabei dormindo no banco, e acordei sendo carregada para fora do carro.

      — O que eles fizeram? — perguntei aflito.

      — O Laerte primeiro me ameaçou jogar num desfiladeiro se eu não calasse a boca. Depois, me pôs sentada no chão e disse que minha mãe era uma puta, porque deixou toda a herança com meu pai, e que não ia me sustentar… e estava cansado de mim… E a Suki… aquela vaca! Disse que pensou em me vender para uma quadrilha de prostituição infantil, mas mudou de ideia porque eu era careca e não tinha valor…!

      — Meu Deus! — suspirei horrorizado.

      — Então — a bailarina fez um esforço para se recompor, — a filha da puta me segurou pela cintura, arrancou as botas que eu usava… e me deixou só com um vestidinho azul… Descalça! E eles fugiram…, me deixando sozinha, pra morrer de fome e frio!

      Senti desgosto e tirando meu boné, esfreguei as têmporas, passando uma das mãos na minha barba por cortar.

      Tive vontade de chorar, esmurrar a porta do caminhão, receber Danielle num abraço de pai. Nunca fui de exteriorizar emoções, mas a história triste da criança me ensinou que um homem bruto nada mais é que uma criança. E que não há vergonha em mostrar sentimentos.

      — Não chore — eu a abracei, deixando que todas as desconfianças que tive se findassem. — Não chore, guria. Tudo vai ficar bem. Eu vou te entregar para o seu pai.

Capítulo de 621 palavras

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