XI
— Meu Deus, se eu soubesse que a bateria estava no fim, nunca que eu ia te deixar ligar pra teu pai — pus o telefone no porta luvas. — Agora ele deve estar mais aflito ainda.
— Só fiz o que tu mandou.
Tudo bem. Era quase hora do almoço, bastava parar num restaurante e por o aparelho numa tomada.
— Como está se sentindo? Foi bom conversar com seu pai, não foi?
Minha pequena companheira de viagem deu um sorriso. Uma pequena lágrima desceu por seu rostinho coberto de sardas.
— O senhor tem sido muito bom pra mim — ela disse com voz embargada. — Não acredito que vou encontrar meu pai de novo.
Vencida pela emoção, a menina virou a cabeça para a janela fugindo ao meu olhar. Resolvi não perguntar outras coisas. De qualquer forma, de um jeito ou de outra, as coisas iam se ajeitar.
Não tive dúvida pela conversa curta entre pai e filha que os dois se amavam. E que pessoas perversas os haviam separado.
Droga! Um sequestro?
Quem quer que tenha cometido tal ato hediondo com uma criança, merecia pagar caro. Eu próprio não teria piedade alguma se fosse posto na frente de semelhante criminoso.
A guria e eu nos sentamos numa mesa, conectei meu celular na tomada. Diferente de ontem, quando jantou com voracidade, o prato de comida agora era saboreado por ela bem devagar.
Uma das funcionárias do estabelecimento apareceu não sei de onde com um controle remoto, ligando a televisão de 42 polegadas. Ela zapeou por vários canais até encontrar um telejornal. Não entendia nada de cotação de dólar (só sabia que as altas mexiam com o preço do diesel), nem de Bolsa de Valores. Política sempre odiei. Só gostava de ver notícias sobre esportes, se bem que já íamos sair; não dava pra ver os gols da rodada da Libertadores.
Me levantei para ir ao banheiro, quando de repente uma reportagem chamou minha atenção.
Em frente à uma casa em São Paulo, uma repórter falava sobre uma garota de dez anos desaparecida há cinco dias. Até aí, normal. Infelizmente, dezenas de crianças são subtraídas de seus pais todos os dias e não aparecem mais.
Mas a foto da criança na tela quase fez meus olhos saltarem pra fora. Não era uma criança qualquer. Era uma menina especial, filha de uma artista (simplesmente uma princesa bailarina) que faleceu há quatro meses num acidente de estrada nos Estados Unidos.
A garota desaparecida havia vencido um câncer no sangue recentemente e estudava balé. Sabia falar quatro idiomas. Gostava de rock. E tinha sardas e olhos azuis.
Ela se chamava Danielle Anitta Răducan.
Era a minha pequena passageira.
A criança, ao se ver na tela, afastou a cadeira para trás e saiu correndo. Encontrei-a encostada na carreta, de braços cruzados. Olhava para o chão. Seu olhar era perdido e com uma revolta crescente se externando através da respiração pesada.
— Já chega — eu a intimei. — Agora quero saber tudo o que aconteceu.
— Tu ouviu o que a moça disse.
— Eles não sabem de tudo, quero ouvir de tu. Eu sei que teu nome é Danielle. Sei que tua mãe era uma bailarina foda, a melhor do mundo, e que faz cinco dias que tu desapareceu depois de sair em viagem com seus padrastos. Mas o que aconteceu depois?
A guria, ou melhor, a Danielle, cobriu o rosto com as mãos e um gemido fugiu de seu peito.
— Tu foi sequestrada, tirada dos seus padrastos?
— Não! Não!
Ela deu dois passos pra trás, deixando-se cair de joelhos.
— Por Nossa Senhora, Danielle… O que aconteceu contigo, guria?
— Eu fui abandonada no acostamento pelos meus padrastos! Abandonada! Eles nunca gostaram de mim, por isso me largaram e fugiram!
Capítulo de 617 palavras
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