V

      Escovei os dentes, esperei a guria sair do banheiro feminino e entramos no Volvo. Só chegaríamos em São Paulo na metade do dia seguinte, se não acontecesse nenhum acidente na BR 101. Mas teríamos que pernoitar num posto. Eu estava esgotado, e não queria colocar nossas vidas em risco.

      A crianca era só contentamento, sem aquela carinha de fome e susto de quando a encontrei, mas ainda  assim, eu tinha um pé atrás. Contei quase tudo da minha vida, e ela não me disse nem o nome.

      Um caminhão carregado de toras refreou nossa tocada, e deixei escapar um resmungo. Acho um absurdo que caminhões lentos não dêem passagem para veículos mais rápidos.

      — Tu acha que ela perdoou de verdade quem matou o filho dela?

      A pergunta me derrubou das nuvens.

      — Quem?

      — A mãe de Jesus.

      — Claro que sim. Não tá na bíblia, mas a tradição ensina que ela é advogada nossa, intercessora, mãe dos pecadores.

      — Mas nenhuma mãe deixa maltratar o filho dela.

      — A mãe é aquela que cobre o filho e a filha de carinho. Que deita a cabeça do filho no colo, que escuta e dá conselho. Não que não passe um corretivo, quando os piás aprontam. Tomei muita chinelada da minha mãe nessa vida. Mas só me lembro dela como uma pessoa carinhosa.

      —  Amor de pai é diferente?

      — Pai tem um jeito dele de dar amor. Por ser o provedor da casa, tem que ter uma responsabilidade com a família. A forma do pai mostrar amor é não deixar faltar nada para os filhos. Comida, roupa, material escolar. E tem que ser assim, tem de haver um equilíbrio em família, senão os filhos crescem sem rumo na vida e sem valores. 

      — Mas tem pais que maltratam os filhos.

      — Foi o seu caso?

      — Não, nada a ver. Minha mãe era uma pessoa incrível, a melhor mãe do mundo. Sinto muita falta dela. Penso nela todo dia.

      — E o teu pai?

      — É o melhor pai do mundo.

      — Então, eu não entendo. Por que tu tá sozinha? Se tem um pai…

      — Seu Mateus, não pergunte nada hoje. Não hoje. Vou responder, mas é difícil. Me dê tempo.

      Me sobressaltei com a reação forte da minha companheira, olhei para o rostinho dela, que cruzou os braços e encostou a cabeça no vidro. Havia nela aflição e angústia.

      Desisti de fazer suposições. O melhor era esperar que de livre vontade ela me contasse sua história.

      — Muitas vezes, as pessoas que deveriam cuidar de nós são as primeiras que nos abandonam — a menina continuou depois de ficar  um tantinho de tempo quieta. Notei que lágrimas caiam de um de seus olhos. 

      Não discordei dela, porque suas palavras, jogadas pra fora no calor de uma emoção de uma experiência recente e triste, é o que muitas crianças vivem.

      Existem muitos monstros no mundo, mas os mais hediondos são aqueles com quem vivemos dentro dos nossos  lares, e que muitas vezes chamamos de pai ou mãe.

      Olhei furtivamente para a menina. Ela cantou uma canção muito linda, num idioma que não conheci, e subitamente adormeceu.

      Depois dessa conversa, não tive nenhuma dúvida que minha pequena companheira de viagem foi largada na estrada.

      A vida tem dessas, de nos pregar peças, e nos prova, e olhando devotamente para a pequena imagem da mãe de Jesus, me convenci que Deus não pôs a garotinha na minha vida por acaso.

      Eu estava sendo provado.

Capítulo de 567 palavras

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