EU MATEI A KATARINA!
Luíza
ANTES
TENTO EQUILIBRAR MEUS PÉS SOB O CHÃO, mas essa sonolência do caralho não me permite dar um passo sem que eu tropece. Empurro a porta do banheiro feminino, inclino-me sobre uma pia e deixo que água gelada tente me despertar. Com a mente a milhão, não consigo pensar em nada e essa impotência me irrita.
Os pensamentos se intermediam entre os problemas em casa, referente a grande bipolaridade de minha mãe e a atual inimiga dos meus dias, o tempo. Sinto um medo constante, pois os minutos se arrastam me fazendo ter noção de que a qualquer momento irei perder alguém, principalmente quando chegar a hora a qual terei que escolher entre ficar ou partir.
A porta é aberta e um corpo apressado com olheiras evidentes, se aproxima de mim com sua beleza tristonha, colorindo em tons pastéis a merda da minha manhã.
— Por que você não me atendeu? — ela questiona num fiapo de voz.
Seus cabelos dourados estão presos em um rabo no alto da cabeça, e somente um fio rebelde despenca sobre seu rosto.
Esfrego o dorso da mão sobre os olhos, enquanto penso em uma resposta para dar a ela. Estou cansada, porém sua expressão aparenta bem mais cansaço que eu.
— Eu... Não peguei no celular ainda — respondo e ela franze o cenho com desconfiança.
Katarina sente cheiro de mentira à quilômetros, afinal esse é um de seus incontáveis talentos.
— Ela vai me mandar pra longe — diz ela, enfiando um dedo na boca.
A dona dos meus sorrisos, recosta o corpo na parede; seus olhos estão perdidos no além e parecem ter aceito a derrota, a qual ela lutou tanto contra. Não deixo de me sentir culpada, se eu não estivesse tão enrolada nessa teia da mentira, com certeza conseguiria ver além da realidade deprimente que me cerca.
Vou até ela e paro minhas mãos sobre seus ombros, os acaricio de leve, tentando lhe passar uma segurança que não possuo. Afinal, minha vida cretina vai se tornar mais miserável do que já é, caso ela parta.
— Ei, fica tranquila. Eu não vou deixar que ela faça isso.
— E como você pretende impedir?
Os olhos azuis me fitam e tenho medo; esses olhos sempre me fizeram temer algo, pela forma desafiadora a qual eles brilham; eles estão cheios d'água e uma lágrima escorre pelo seu rosto.
— Eu não sei, mas vou descobrir quando chegar a hora.
— Você não entende Lu, não temos tempo. Temos o agora, talvez o daqui a pouco, mas o amanhã... O amanhã é um grande vazio.
Beijo sua testa e puxo seu corpo contra o meu. Ela treme, nunca senti tanta vulnerabilidade nela assim; ainda pouco pensei que ela sequer tivesse alguma. Mas ao contrário do que presumi, cá está ela, tornando a coragem de alguém que amo em deveras fraqueza.
— Shii.. — Acaricio seu cabelo quando ela começa a soluçar. — Vamos dar um jeito... Não vou te deixar partir.
— A gente precisa fugir. — Kat encosta sua cabeça em meu ombro. — Agora ou se possível ainda hoje. Temos que ir embora daqui.
— Ir embora pra onde? Não temos o dinheiro que precisamos ainda.
— Não importa, damos um jeito. Eu consigo identidade falsa para nós duas e a gente vai embora até do país se possível. Mas a gente tem que ir, não consigo mais viver aqui...
Abro a boca para lhe dar uma resposta de consolo, mas a porta se abre e meu instinto é afastar-se rapidamente. Viro o corpo na direção contrária da dela e tento disfarçar a proximidade. A pessoa que entra vai ao encontro dela, noto que são uma de suas amigas. Observo a garota abraçá-la e levá-la para fora. Trocamos um pequeno olhar antes que a porta torne a se fechar.
Fico ali por um tempo, tentando absorver minha ressaca, minha dor e impotência. Bato a mão com força contra o vidro do espelho; meus dedos doem e eu acerto meu reflexo de novo e de novo, até não sentir a ponta dos dedos. Quero esvaziar meu corpo dessa raiva, banir de mim esse sentimento ruim, o qual eu sou a causadora. Tudo que me rodeia parece estar à beira da destruição.
O sinal bate e então me recomponho. O dia será longo, regado de mentiras e falsas aparências, mas ainda assim é só mais um dia.
Katarina ficou sem celular, pelo menos é o que sua mensagem mal escrita me diz. Não saber o que fazer nessas horas é a pior sensação. Eu deveria ir até sua casa e enfrentar sua família, lhes dizer que doente são eles por destruir a vida de alguém baseado em um livro ridículo. Mas se eu o fizesse, teria que encarar Valentina e a grande bagagem de mentiras que carrego nas costas para enganá-la. Sinto-me perdendo as duas pessoas que mais amo nesse mundo, sabendo que mesmo se escolher uma, ficarei sem ambas.
Ao contrário do que gostaria, aqui estou eu, numa droga de festa, vendendo entorpecentes para calar a infelicidades desses jovens privilegiados de merda, esperando que esse miserável dinheiro me ajude conseguir algo melhor.
Gabriela diz algo que fazem todos rirem, mas minha cabeça está longe demais para que eu possa entender o sentido de suas palavras. Acomodo-me no sofá e passo boa parte da noite ali, acompanhada de uma garrafa de cerveja que mal encostei a boca. Vez ou outra, alguém vem até mim, procurando mais da droga que eu tenho a oferecer.
Estou quase pegando no sono, quando ouço um alvoroço vindo do lado externo; pessoas riem e gritam em comemoração a algo. Penso em ir ver o que é, mas o peso de meu corpo não permite, então apenas bebo um gole de cerveja quente e ajeito minha postura.
Pessoas invadem a sala.
— Olha quem veio atrás de você. — Alguém direciona-se a mim.
Levanto o olhar e vejo Caio caminhar abraçado com ninguém menos que Katarina, trazendo consigo uma mochila nas costas. Uma expressão deprimente contamina sua face; ela cambaleia e respira de forma estranha.
Essa não!
Coloco-me de pé e caminho apreensiva até ela.
— O que tá fazendo aqui? — pergunto mais surpresa do que nervosa.
Puxo ela dos braços de Caio e tento levá-la até o sofá. Ela cheira a bebida barata de bar.
— Eu... Fugi de casa... — ela responde com certa dificuldade, afundando o rosto em meu peito.
— Você fez o quê?
— Por favor, não briga comigo, tá?
Kat deixa amostra metade de seu rosto, e me encara com seus olhinhos de bebê. Não sei resistir a ela.
— Não vou brigar com você, mas... Como descobriu que eu estava aqui?
— Com isso.
Ela levanta o celular para o alto, como uma bandeira branca da paz. Um sorriso abre-se em seu rosto.
— Eu roubei — ela diz antes mesmo de eu pensar em perguntar.
— Katarina roubando, quem poderia imaginar?
A gêmea dá de ombros e se põe de pé, caminhando em passos tortos em meio às pessoas. A acompanho com medo de que ela apronte alguma coisa. Quero questioná-la sobre o que aconteceu em sua casa. Sei que amanhã seus pais mandará a Tropa de Elite atrás dela se possível. A cada minuto passado, a situação se torna mais delicada.
— O que pensa que está fazendo?
Interrompo-a antes que ela possa virar uma garrafa de vodka na boca.
— Aí, não enche, tá legal?
— Não vai beber mais. Olha pra você, mais alguns goles e teremos um coma alcoólico aqui.
Kat remenda minhas palavras com uma careta infantil.
— Você não vai me dizer o que eu devo fazer. Todo mundo já faz isso.
Ignorando minha advertência, Katarina rouba uma lata de cerveja e abre diante de mim, desafiando-me a pegá-la. Avanço a mão sobre ela, enquanto ela abre a lata, mas ela recua. Ao abrir despeja com veracidade a bebida sobre os lábios, derrubando sobre sua blusa. Agarro sua mão com força e puxo a lata de sua mão.
— Você quer se matar? — pergunto, prensando meu corpo contra o dela.
Devolvo a garrafa e a lata na mesa. Ela me encara e eu só tenho vontade de beijá-la, salvá-la e amá-la de uma forma que nunca desejei fazer por outra pessoa. Seguro seus cabelos dourados e sinto a textura macia transpassar por meus dedos. Mesmo com as olheiras evidentes e aparentando uma magreza incomum, ainda é a coisa mais linda que já vi em toda minha vida.
— Eu te amo — digo.
Como resposta, um sorriso brinca em seus lábios.
— Então me beije.
Aceito o desafio e encontro nossos lábios, e com velocidade a beijo, sentindo um desespero incontrolável de a perder ali ou depois.
Abandono seus lábios e por alguns segundos contemplo sua face. Katarina é minha perdição e eu não sei ao certo se me encontro mais perdida agora ou antes de conhecê-la. Porém sem sombras de dúvidas, mais perdida eu estarei sem ela.
— Vamos fugir — ela pede. — Trouxe uma bolsa com tudo que precisamos...
— Fugir requer planejamento, cara. Não dá pra simplesmente fugir...
— Dá sim. Não temos tempo pra planejar mais nada. É agora ou nunca.
— Você tá bêbada, nem sabe o que tá dizendo.
Coloco a mão sobre seu rosto e alicio sua bochecha. Com uma cara decepcionada Kat a afasta e desvia seu olhar de mim.
— Bêbada eu estou mais sóbria que nunca... Você tá me enrolando, né? Tem medo de deixar essa cidade de merda, deixar a bipolar da sua mãe que só te machuca, medo... é isso... Você tem medo que a vida ao meu lado não dê certo!
— Kat, para... Quem está me machucando agora é você. — Tento sorrir para amenizar seu discurso depreciativo. — Eu não estou te enrolando, nem com medo. Mas pensa na bagunça que seus pais vão fazer pra te encontrar e eles vão nos achar... Não vamos poder ficar juntas e pior ainda, sua irmã nunca perdoaria a gente...
— Não fale dela como se a conhecesse melhor do que eu — ela me interrompe. — Meus pais já fizeram uma bagunça, não acha? Olhe pra mim, não acha que sou uma droga de uma bagunça?
— É a bagunça mais linda que já vi.
— Agora não. — Katarina vai para longe de mim. — Você quer ou não ficar comigo? — Ela cruza os braços.
— Eu quero mais do que tudo nessa vida, mas não é bem assim que as coisas funcionam. Eu sei que você está com medo, eu também estou, mas eu já te prometi, sua mãe não vai te enviar pra longe; não enquanto eu viver e poder te proteger dela.
— Você não pode me proteger do que se passa aqui dentro. — Kat bate a mão no peito, alterando o tom de voz. — Eu acabei de terminar com o Cadu... Eu não quero mais me esconder de quem sou, mas quero fazer isso com você e bem longe daqui. Um lugar onde ser o que sou, não pareça ser tão errado.
— Você terminou com ele? — Sorrio.
— Sim, chega de mentiras... Eu tô pronta pra sumir daqui... E você está?
— Eu... Tô, mas fugir agora com tamanha imprudência não é a resposta. Não duraríamos uma semana longe...
— Você não quer ir.
— Amor, eu quero ir... É o nosso sonho, mas isso só depois que...
— Que o quê? Que eu for torturada em algum retiro, hospício ou sei-lá-onde? Depois que eu não conseguir mais me reconhecer e nem a você? Não existe o depois, tudo o que temos é o agora... E eu prefiro morrer do que voltar para aquela vida de mentira...
— Você não vai morrer. — Tento segurá-la. — Nem ser torturada, mas você precisa confiar em mim. Eu vou te ajudar.
— Então me ajude a ir embora.
— Você tá com ideia fixa.
— Não, Luíza. Eu tô com medo. Eu te amo e isso parece ser a decisão mais errada que eu não consegui evitar de tomar. E toda vez que eu olho pra essa cidade, vejo todos os erros se acumularem... Não suporto mais isso aqui. — Katarina segura os cabelos como se fosse arrancá-los.
— O.K., então me dê mais um dia pra ver o que posso fazer.
— Não tenho mais um dia.
A garota de cabelos dourados e olhos azuis me dá as costas e começo a caminhar. Ouço o seu soluçar, mas não consigo acompanhá-la, apenas observo seu semblante sumir pela porta. A sensação que tenho é que perdi a força da fala e dos outros sentidos.
Em algum momento, quando sinto meus pés se descolarem do chão, corro na direção em que Kat desaparece. Vejo-a de longe, ao lado da fogueira conversando com Maíra. A garota assente e lhe dá a bolsa que tem consigo. Observo-a caminhar com sua mochila para o estacionamento. Apresso meus passos para segui-la.
Ela entra em um carro e observo-a colocar a chave na ignição. Corro até seu alcance.
— O que pensa que está fazendo? — Bato com força no vidro do motorista, na esperança que ela abra.
O carro liga; Katarina não me ouve, sequer me olha.
— Você não está em boas condições pra fazer isso agora. Sai desse carro, por favor...
Bato mais uma vez, porém ela já manobra o carro e tenho que me afastar.
— Katarina, você não tá me ouvindo! — grito.
O automóvel dá ré. A luz dos faróis iluminam meu corpo e enfim Kat me olha, seus olhos estão inundados pelas lágrimas. Ela passa a mão apressada pelo rosto e vira o carro em direção ao portão.
— Não, não! Você não sabe o que tá fazendo. KATARINAAA!
É tarde, ela já atravessou o portão.
Sem que eu perceba, as lágrimas já revestem meu rosto com sua umidez gelada. Dou meia volta e corro em direção a casa. Encontro Maíra próximo a piscina e não consigo disfarçar minha fúria.
— Por que você deu o carro pra ela? — questiono, empurrando o corpo da menina contra a parede.
— Dei o carro pra quem? He he... — Pelo tom embargado de sua voz, sei que está completamente drogada.
— Katarina, ela acabou de sair com o seu car.. — A garota cai no chão e começa a mexer os braços para o alto. — CARALHO MAÍRA!
— Fica fria, irmã... O mundo é feito de substâncias mágicas — ela diz isso antes de fechar os olhos e apagar sobre a grama.
Chacoalho seu corpo com força e percebo que é inútil. Olho em volta a procura de alguém que possa me ceder ajuda, tanto para Maíra quanto para Katarina, porém todos parecem tão alucinados quanto Maíra, seria eu por mim mais uma vez. Saio apressada, em busca do meu celular para tentar encontrar alguém capaz de me socorrer.
Sinto um sentimento forte e avassalador esmagar o meu peito, como um presságio do mal.
AGORA
— Ninguém me ajudou. Tentei chamar um carro pelo aplicativo... — Coloco a mão sobre a boca para abafar o soluço. — Moto táxi, qualquer merda que me fizesse chegar até ela. Pensei em te ligar; eu não sabia o que fazer. No fim das contas fui andando, tentando achar algum rastro dela pelo caminho. E três horas depois, quando eu já tava chegando em casa... Você ligou.
Passo a mão pelo cabelo, não evitando sentir com a mesma intensidade a dor daquele maldito momento.
— Agora entende por que me afastei? Por que não pude contar? Porque você ia saber que a razão dela estar morta... Sou eu! Eu matei a Katarina!
Fito o rosto de Valentina, buscando alguma reação. Mas ela simplesmente caminha até a cama e joga seu corpo lá, o abraça e chora. Tenho medo que seus pais estejam em casa e me encontrem aqui.
— Eu sinto muito, Val. — Aproximo-me da cama e coloco minha mão sobre seu corpo. — Não pude te olhar por medo, culpa e dor. Toda vez que eu te via, era como se a visse de novo, era como estar a um passo de perdê-la outra vez. A minha vida acabou; eu não sei mais viver sem ela. Eu tento encontrar um meio de seguir em frente, mas só me encontro voltando para trás; para aquele momento infeliz que eu não consegui impedir. Me perdoa!
Valentina mira seus olhos molhados à mim, ela tem uma expressão aflita evidente, algo que reflete meu interior por completo. Vê-la assim me faz chorar mais, agora sei que perdi ambas, a conhecendo ela nunca irá me perdoar. Aguardo ela me expulsar, mas antes que eu possa voluntariamente me retirar, Val senta-se no colchão.
— Vem cá — pede ela.
Ajoelho-me diante dela, e seus braços se envolvem ao meu redor. Surpreendo-me, fazendo com que mais lágrimas caiam. Estamos nos afogando; alguém berra, mas não sei dizer se sou eu ou ela. Porém a dor que partilhamos parece ser grande demais para nós carregarmos, então as despejamos no chão e inundamos o quarto com a nossa angústia.
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