O despertar do sonho
Como era pequena
Aquela menina
E como pouco sabia
Como pouco pensava
O mundo era-lhe um lugar estranho
Obscuro, cinzento
Como uma manhã sem sol
Não tinha sonho
Nem tinha dúvida
Não sabia que era um ser
Que girava em torno de uma estrela
Numa imensa galáxia
Dentro de um ainda mais
Imenso universo
Não era capaz de sentir o milagre
Das coisas ao seu redor
Certa vez, encontrou, ali perdido,
Entre cadernos de desenho,
Aquele que seria seu melhor amigo
Para o resto da vida
Toco-o, sentiu-lhe o cheiro,
Explorou-o e, por fim,
Deparou-se com a primeira palavra
Procurou decifra-la,
Apaixonou-se por ela.
Amou a segunda;
A terceira também
O mundo ,finalmente, abria-se
Desabrochava
- Tinha cor de girassol
Ela sorria, encantada:
Não imaginava que fosse ele
Assim tão belo
Nem que pudesse sentir-se
Do tamanho desse mundo
Estava grande, cheia de alma.
Antes de chegar à última página,
Já queria mais.
Todo seu ser pulsava,
Escapava de dentro de si;
Buscava forma de transcender
O corpo, a matéria: existir
Algo bem no fundo dela gritava;
Ganhava voz
Tudo nela falava agora:
A surpresa, a descoberta,
A curiosidade, a indagação
- E precisava falar fora
Súbito, tudo isso tomara a forma
De uma linda gaivota
Que com suas asas de tinta
Pôs-se a lançar doçura
Nas linhas vazias do papel
A menina desejou naquele instante
Que a gaivota não se fosse
Nunca mais;
Que permanecesse sobrevoando
As linhas de seu caderno,
Enchendo o seu mundo de palavras
E as pessoas de amor
Nascia dentro de si
Uma necessidade nova
De ter o que dar para alguém;
De tocar o outro
No fundo de sua alma,
Como ela própria tinha sido tocada
Seu sonho estava ali
Entre a ponta da caneta
E a superfície do papel.
Estava entre os versos
Entre as páginas
Entre as histórias
Ainda não escritas
Mas que um dia seriam
Por ela...
Aquela menina
Que agora existia
E de cada rabisco
Transbordava poesia.
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