A vida de Maria
No fim do mundo
Nos fundos de um quintal
De uma casinha de madeira
Numa bacia de metal
Nascia Maria.
Entre bonecas de pano
E colheres de pau
Entre as goteiras no teto
E os bichos no curral
Maria crescia.
A Maria dos pés descalços
Da negra pele
Dos cachos crespos.
A Maria do sorriso largo
Dos dentes claros
Dos olhos acesos.
Acesos dos pirilampos
Que caçava todas as noites;
Das estrelas que contava
Enquanto ouvia
De dentro das altas madrugadas
Um cantar de violeiro.
Narrando sempre as mesmas histórias
De correntes e chibatas
De batuques, festas ao luar
E outras coisas mais
Que Maria nunca se lembrava.
E quando amanhecia
Lá ia Maria
Lavar roupa no rio.
Ficava a mirar a água
Era sempre o mesmo rio
Não importava que as águas
Fossem outras
Era sempre o mesmo rio
-Como era sempre a mesma
A vida de Maria.
E Maria já cansada
Daqueles dias tão iguais
Decidira certa vez
Por o pé no mundo:
Sentiu que podia mais.
Resolveu: partiria para ver o mar!...
Mas o mar era muito longe
Tanto Maria teria que andar
E podia ainda haver muitos perigos
Os mais velhos lhe preveniam:
"Olhe que o mundo não é bom
Para aqueles lados de lá!"
Maria teve medo
E resolveu continuar
Com a sua vida de rio
Que tanto corre
E nunca sai do lugar.
Casou-se com um vaqueiro
E enterrou cinco filhos seus
Não tinha mais o largo sorriso
Que na mocidade se perdeu
Era triste essa Maria
Encardida da poeira
Com que o tempo a envolveu.
Já não tinham graça os pirilampos
Nem os violeiros
E o rio continuava o mesmo
Como tudo naquele lugar.
A única hora em que abria
Um velho sorriso de Maria
Era quando se lembrava
Do tempo em que ainda havia
Tempo para sonhar.
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