PRÓLOGO
1.282 a.c.
Opala Mira sentiu a presença divina antes mesmo que pudesse ver quem chegava em seu gineceu¹. A jovem, que penteava os cabelos encaracolados tranquilamente, abriu um sorriso sereno. Aquela energia só podia significar uma coisa - ou melhor, uma pessoa.
Estranhou que ele estivesse tão quieto, mas podia sentir seus olhos observando-a. Opala pousou a escova na base da penteadeira e, se olhando no espelho, ajeitou o diadema florido ao redor da cabeça. Sorrindo satisfeita com o resultado, se virou.
A jovem sentiu o rosto murchar quase que instantaneamente. Suas sobrancelhas formaram um vinco de confusão, enquanto olhava ao redor do quarto, como se estivesse procurando por uma saída ou como se esperasse que alguém aparecesse para dizer que aquilo era um dýskolo².
— S-senhora...?
Parada no centro do aposento, usando um quíton³ branco que se prendia em suas curvas perfeitas, estava a Deusa mais bela que os gregos conheciam - e temiam. Seus cabelos claros estavam decorados com diversos fios de ouro, que brilharam quando a brisa suave da janela bateu sobre eles. Seu rosto era perfeito, simétrico e tão belo que Opala quase ofegou.
Não era mentira quando comentavam sobre o estranho magnetismo que a Deusa emanava. Apesar de temê-la, Opala sentiu uma vontade incontestável de agradar a bela mulher.
Mesmo estando estupefata com a presença da Deusa do Amor em seus aposentos, Opala ainda era uma jovem que conhecia os bons modos. Por isso, fez uma referência, desviando os olhos da beleza estonteante da intrusa para tentar recuperar o ar.
A Deusa estava silenciosa enquanto observava Opala. Mas, assim que a jovem se endireitou, se aproximou e começou a circundá-la. A moça ficou parada, tentando não deixar que a Deusa visse o quanto estava nervosa, nem que suas mãos tremiam.
Só havia um motivo para Afrodite estar ali.
— Então é você — finalmente falou, sua voz carregada de desprezo.
Opala achou melhor permanecer em silêncio e de cabeça baixa.
— Opala Mira — continuou. — A jovem que foi agraciada com o nome de uma pedra que visa atrair o amor e com o sobrenome que significa "maravilhosa".
Afrodite deu a volta completa em torno da garota, parando em sua frente.
— No entanto, quando olho para você, não vejo nenhuma maravilha. E também não entendo como consiga atrair... o amor, especialmente um amor tão especial... — ela fez uma careta ao terminar a frase.
— Senhora... — Opala começou novamente, pensando no que poderia dizer para se defender, mas a Deusa a interrompeu quase que de prontidão.
— Para uma mortal, talvez você se destaque dentre as outras tantas. Não posso dizer que não entendo porque ele foi atrás de você. O Senhor da Guerra pode ficar entediado com frequência, principalmente quando estou ocupada com meus afazeres.
Afrodite soltou um suspiro longo. Para o alívio de Opala, ela se virou e começou a caminhar pelo amplo aposento, observando um objeto aqui e ali, analisando os itens mundanos que o decoravam.
— Me diga, querida Opala — a Deusa tornou a falar, sua voz tão carregada de ironia que a pobre humana estremeceu —, você estava se arrumando para quem?
— Para ninguém, senhora — a jovem respondeu rapidamente.
— Vocês haviam combinado de se encontrar aqui? Ora, mas os padrões de Ares estão decaindo! — Ela franziu o nariz perfeito em desgosto.
— N-não, senhora, eu não...
— E o que iam fazer? Amor?
Afrodite voltou-se para a jovem novamente. Seus olhos estavam brilhando em um tom dourado um tanto assustador. O rosto, normalmente belo, estava desfigurado em uma expressão raivosa que fez Opala recuar alguns passos, até bater no espelho que minutos atrás usava para arrumar os cabelos, quando ainda achava que encontraria ele.
— Pois saiba que não irei tolerar isso! — a Deusa gritou. — Saiba que não deixarei que usem do meu nome, do meu poder para me traírem! Isso acaba hoje!
— Minha senhora, por favor...
— Calada! — Afrodite fez um gesto brusco com o braço e uma onda de energia invadiu o quarto, fazendo todos os objetos preciosos de Opala se estilhaçarem ao chão.
A jovem soltou um gemido baixo e sentiu lágrimas formarem em seus olhos. Em um apelo silencioso, clamou pelo seu amado, por Ares, implorando para que ele viesse salvá-la.
Afrodite se recompôs para a mesma postura perfeita. A explosão raivosa de segundos atrás parecia não ter acontecido. Seu rosto voltou a aparentar calma e serenidade, ainda tomado pela beleza estonteante. Ela fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo e então tornou a encarar sua presa.
— Apesar de minha vontade ser de matá-la, meu amante me proibiu de machucá-la de qualquer forma — falou, inclinando a cabeça de maneira complacente para a garota, que continuava encolhida em seu canto. — É claro que esse... caso... não poderá continuar. Geralmente não me importo com as humanas com quem Ares se relaciona, mas por algum motivo, com você, ele ficou mais tempo. E isso não me agrada.
Apesar do medo que a deixava praticamente paralisada, Opala não pôde evitar e sentiu uma chama de orgulho e vaidade crescer em seu peito. Ela já sabia que o Deus da Guerra havia lhe prestado uma atenção ainda maior, mesmo que não entendesse o porquê. Mas ver que a própria Deusa da Beleza e do Amor sentia ciúmes de seu relacionamento com Ares... Aquilo lhe fez um bem danado para a auto estima!
— Portanto, ainda que não possa machucá-la, definitivamente irei puni-la. Puni-la pela audácia de se achar melhor do que eu. Puni-la por tentar fazer o meu Deus escolher você.
Opala engoliu em seco. Então a Deusa sabia muito mais do que ela pensava...
Afrodite se aproximou novamente, dessa vez parando cara a cara com a humana. A Deusa era mais alta que ela e fez questão de segurá-la pelo queixo, para que Opala não pudesse desviar os olhos dos seus.
— Opala Mira, pela Deusa do Amor, Deusa Afrodite, você será amaldiçoada! Você provou do amor divino, a melhor e mais pura forma de amor, e, por isso, deve ser punida. Então, humana, aqui está sua perdição!
A Deusa se aproximou ainda mais, quase encostando a boca no ouvido da jovem, que agora tremia. Embora Opala quisesse gritar, se afastar e implorar por misericórdia, ela não conseguia se mover, paralisada pelo poder da Deusa. E então, naquela tarde quente de verão, em palavras sussurradas no ouvido de uma garota desesperada, Afrodite selou o seu destino.
¹Local da casa onde os gregos acomodavam as mulheres, apartadas dos homens que, por extensão, passou a significar também uma instituição em que só as mulheres podiam participar.
²Pegadinha, brincadeira
³Tratava-se da túnica dos gregos, colocada no corpo presa sobre os ombros e embaixo dos braços, sendo uma das laterais fechada e a outra aberta, que pendia em cascata.
Finalmente chegou o diaaaaa!
Eu já não estava mais me aguentando de ansiedade. Tive que me controlar para não começar a postar logo, mas queria deixar tudo pronto rs.
Já começamos o livro com deuses gregos e profecias. Ai, ai,ai. O que será que vem por aí?
Não esqueça de deixar sua estrelinha e de comentar! <3
Até a próxima sexta!
Αντίο
(Tchau!)
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