CAPÍTULO SEIS

Passo muito tempo em frente ao meu computador. O carro do ministro segue pelas ruas de Londres, fazendo os mesmos percursos de sempre.

O rastreador, além de fazer o óbvio, também possui um sistema que me permite ouvir toda e qualquer conversa que aconteça dentro ou próxima do carro. E isso é o que me interessa. 

No começo, foi difícil saber quais vozes eram as importantes. Depois, que consegui distingui-las, me concentrei nas conversas. No entanto, não havia nada. Nenhuma informação confidencial.

Tiro o fone de ouvido e suspiro alto. Achei que Oliver iria dizer algo de importante, que teria uma brecha. Que ele pudesse me dar a informação que preciso para planejar o roubo novamente.

Talvez o rastreador tenha sido um movimento ingênuo. O Sr. Kathram não iria falar coisas importantes dentro do carro. Agora se eu conseguisse colocar uma escuta em seu escritório... Mas isso seria arriscado demais, até mesmo para mim. Entrar no Parlamento... Não. Tiro isso da cabeça no mesmo instante.

O resto do meu dia é destinado a continuar ouvindo as conversas. Fica difícil me concentrar quando todos os assuntos são relacionados a política. Até que algo me chama atenção. 

É quase fim de tarde quando Oliver entra novamente em seu carro e pede para o motorista seguir direto para casa. Ouço quando ele dá um suspiro cansado. E então ele diz:

— O que você quer? Você sabe muito bem que essa decisão foi para... —  E então silêncio. Pelo jeito está falando no telefone, mesmo eu não tendo ouvido o toque. — Escute, não quero falar sobre Alana. 

Alana. 

O meu nome. 

Estou em choque. Tanto que não presto mais atenção na conversa. Meu pai disse o meu nome. A primeira indicação que ele sabe ter outra filha.   

Antes que eu possa sequer colocar meus pensamentos em ordem, meu celular. Tiro os fones de ouvido, ainda estado meio catatônico e atendo. É Dennis. 

Ao invés de sair pela porta da frente, levanto o vidro da janela do meu quarto e passo pelo vão. Coloco uma pedra pequena na base, impedindo que a mesma se fecha totalmente.

Espero voltar para casa antes de minha mãe, mas, depois de nossa briga, essa é uma precaução que acho importante tomar caso me atrase. Como não estamos nos falando e eu permaneço trancada em meu quarto o tempo todo, acho que ela não vai notar minha ausência.

Enquanto o sol se põe, caminho tranquilamente até o local que Dennis indicou. Sinto uma estranha agitação em meu estômago, mas não é nada ruim. Deve ser apenas ansiedade de vê-lo novamente. Desde o nosso beijo, apenas conversamos por mensagens.

Será que ele vai me beijar de novo? Espero que sim.

É incrível como o simples fato de pensar nele faz todo o resto desaparecer de minha mente. Desde que saí de casa, as palavras de meu pai sumiram da minha cabeça. Provavelmente aquilo significava alguma coisa, mas eu simplesmente não queria raciocinar no momento. Sei que ele disse meu nome, mas, ainda assim, parece ser algo surreal, inventado pelo meu inconsciente. 

Como em nosso último encontro, chego primeiro ao Hyde Park. Passo pelo conjunto de fontes, agora iluminadas, e sigo até o primeiro banco que encontro, conforme Dennis havia me pedido. A noite, felizmente, está fresca e estrelada. Sem chances de pegarmos outra tempestade. 

Alguns minutos depois, vejo Dennis se aproximando. Ele usa um casaco preto de aparência cara e seu cabelo está penteado para trás, deixando seus traços ainda mais visíveis. Ele sorri e, mesmo ao longe, vejo suas covinhas.

— Cinderela! — ele chama, sentando-se ao meu lado. — Há quanto tempo não te vejo... Parece ainda mais bela...

Carinhosamente, ele passa os dedos em minha bochecha. Sorrio também, sentindo arrepios percorrerem toda a minha pele. Lentamente, ele se aproxima. E então seus lábios estão nos meus.

Não foi um beijo demorado, mas foi o suficiente para me fazer sentir como se estivesse flutuando. Quando ele se afasta, ambos estamos sorrindo.

Nos ajeitamos no banco de forma que possamos olhar as fontes. Com um suspiro audível, encosto minha cabeça em seu ombro.

— O que aconteceu, Alana?

Franzo o cenho, mas não me movo. Como ele pode perceber que algo está errado só de ficar ao meu lado por cinco minutos?

— Parece preocupada... Você pode conversar comigo. Sou todo ouvidos — ele diz, quando continuo em silêncio.

— Está tão na cara assim? — murmuro baixinho. Mas ele me ouve.

— Acho que já te conheço bem o suficiente. Se quiser desabafar, ficarei feliz em te ajudar.

Me afasto para olhá-lo. E então lhe dou outro beijo, agradecida por suas palavras. Quando nos separamos, Dennis continua sorrindo, embora perceba que seus olhos estão preocupados.

— Minha mãe não quer que eu te veja mais — finalmente falo. — Ela disse que você ia me destruir ou algo assim. — Reviro os olhos. Melhor começar pelo tópico que gerará menos perguntas.

— Te... destruir? — Dennis está muito confuso.

— Sim. Ela acha que nossa família é amaldiçoada, e às vezes eu realmente acho que é verdade, mas ela disse que você seria a minha perdição.

— Você não é amaldiçoada.

Dennis diz isso com tanta convicção, como se soubesse de algo que eu não sei, que quase acredito. Mas só eu sei o quanto é ruim viver em uma solidão sem fim, com as pessoas indo embora sem explicação e ignorando qualquer coisa que eu faça.

Não consigo controlar minha língua:

— Você sabia que eu simplesmente nunca havia conversado com alguém antes?

Ele parece um tanto confuso, não como se eu tivesse falado algo absurdo, mas como se ele não conseguisse entender onde quero chegar.

— É sério — reforço. — Você foi a primeira pessoa em 18 anos a me notar.

— Como isso pode ser verdade? Você é linda.

O elogio me deixa desconcentrada. Dennis pega uma mecha do meu cabelo e brinca com ela entre os dedos. Percebo que ele faz isso com frequência.

Apesar de ainda me sentir quente com o elogio, continuo:

— Estou falando sério. Ninguém nunca reparou em mim. E eu... Bem, eu me aproveitei disso.

Agora sinto as bochechas queimando de vergonha por admitir um de meus piores segredos. Mas já estou em um caminho sem volta. Assim, começo a falar sobre quem realmente sou.

Dennis não me interrompe, apenas continua brincando com meu cabelo de forma carinhosa. E, enquanto isso, vou contando sobre todos os meus roubos, furtos e armações. Sobre como sempre sai impune. Sobre como sou uma pessoa sem rastro, vivendo eternamente sob à sombra do mundo, sem chamar atenção, sem ser notada.

Falo também sobre como minha mãe e avó sempre acharam que éramos amaldiçoadas, pois o mesmo aconteceu com elas. Comento que minha vó, antes de morrer, disse que eu havia transformado a maldição em um dom e que eu ainda não entendia o que isso realmente queria dizer. 

— Bem, isso explica muita coisa — Dennis diz quando termino meu relato, mas ele mesmo não explica o que quer dizer com isso. Ele parece muito tranquilo, mesmo depois de saber que sou, praticamente, uma criminosa.

Não era a reação que eu esperava.

Antes que eu possa questioná-lo, Dennis continua:

— Sabe, também não fui muito sincero com você. Tecnicamente não menti sobre nada, mas omiti algumas verdades sobre mim.

A confissão inesperada me surpreende. Me ajeito no banco para olhá-lo melhor. Não há nenhum tipo de julgamento dentro de mim. Afinal, o que pode ser pior que uma ladra sem escrúpulos? Que usa seu possível "dom" para roubar?

— Você pode ser minha Cinderela, mas não sou nenhum príncipe. — Não posso deixar de notar que ele me chamou de sua e isso, mesmo sem querer, faz meu coração se acelerar. —A verdade, Alana, é que estou mais para os ratos que ajudam a princesa — ele continua, parecendo ainda mais envergonhado que eu quando contei minha história. — Peço desculpas se lhe passei uma imagem errada. Eu só quero que o mundo me veja como um nobre, não como lixo que sou.

— Você não é um lixo — falo veemente, olhando-o profundamente e tentando fazer com que ele entenda. Estou chocada com sua afirmação. — Muito pelo contrário: você é uma das melhores pessoas que encontrei.

— Sou mesmo? Ou só queria que você pensasse isso de mim? — Ele balança a cabeça, desolado. Uma leve brisa noturna balança seu cabelo, fazendo com que alguns fios caiam sobre seus olhos. Me seguro para não colocá-las novamente atrás de sua orelha, principalmente depois que ele se afasta. — Eu sou um charlatão, Alana. Uma farsa!

Ele pega minhas duas mãos.

— Não pode ser pior que eu — comento.

— Não sou. Sou igual — ele admite, por fim, me deixando ainda mais confusa. — Mas você, pelo menos, só entrou nesse mundo para compensar a negligência que tanto sofre. E eu? Entrei porque sou ambicioso e sempre quero mais. Não consigo me contentar com o que tenho. Quero riquezas e fama.

Mordo o lábio inferior. Acredito que Dennis não seja assim tão diferente de mim mesmo. Também sou ambiciosa. Porém, eu cobiço atenção. Ele cobiça dinheiro.

E talvez nós dois poderemos ter o que tanto desejamos.

— Eu fiz o meu caminho até a nobreza, Alana. Minha família é pobre, mal temos onde cair mortos. Mas eu consegui contatos e agora eles me aceitam... Mais ou menos — ele continua, mas não estou prestando atenção direito. — Tive que fazer coisas das quais não me orgulho para chegar em um status razoavelmente aceitável dentro da sociedade londrina. Mas ainda é melhor do que ficar na sarjeta. 

Enquanto penso, Dennis continua falando sobre seu passado. Como ele teve que roubar ternos e roupas elegantes, como teve que usar todo o seu charme e simpatia para conquistar os ricos do Parlamento. Como ele vive em uma mentira sem fim.  

Talvez eu esteja realmente ficando louca, principalmente por colocar em risco tantos anos de trabalho, mas a ideia me parece boa. Parece que vai dar certo.

Quando ele termina, me inclino para frente e o beijo novamente. Ele se surpreende, mas logo retribui. Acho que também não esperava por essa minha reação.

Assim que nos separamos, estou sorrindo. Dennis também, embora esteja claramente confuso.

— Tenho uma proposta para você. Mas preciso que me escute com atenção. 

Oi, oi, oi!

O que acharam do capítulo de hoje? O ministro falando o nome de Alana? Misterioso sim ou claro?

E Alana com essa tal proposta para Dennis? Com certeza vem treta por aí...

Não deixem de votar <3 

Até semana que vem!

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