CAPÍTULO OITO

Dennis me deixa na porta de casa e se despede com um beijo doce em minha bochecha, que me faz abrir um sorriso bobo. Meus olhos não saem de suas costas até ele virar a esquina e desaparecer.

Apesar de minha mãe estar relativamente mais tranquila em relação a ele, tento manter nosso relacionamento discreto. Afinal, nem sei exatamente se o que estamos fazendo pode ser considerado um relacionamento.

Como definir essa relação em que ele é meu parceiro de crime, mas em que também me dá uns beijos de vez em quando? Em que conversamos sobre tudo, inclusive nossos mais íntimos segredos, e por conta disso é que preciso da sua ajuda?

Ele é meu melhor amigo, talvez namorado e com certeza a pessoa que vai me acompanhar durante um roubo. Que loucura!

Minha mãe me cumprimenta quando entro em casa, sem tirar os olhos do programa de TV de assiste.

— Como foi seu encontro? — pergunta. Por um lado, fico feliz que ela esteja aceitando a situação. Por outro, faço uma careta, pois terei que mentir novamente.

— Muito bom, como sempre. Dennis é um perfeito cavalheiro — respondo, seguindo diretamente para a cozinha.

Bebo um copo de água, mas é como se estivesse ingerindo culpa líquida. Estou fazendo isso por nós duas, é o que digo para mim mesma sem parar. No entanto, não posso deixar de sentir um mal estar descer pelo estômago por estar mentindo para ela tão descaradamente, especialmente depois da conversa que tivemos alguns dias atrás, quando criamos um novo tipo de confiança. 

Durante os últimos dias, mostrei para Dennis minha rotina de investigação. Observamos os movimentos do ministro, lhe mostrei o programa do rastreador que me permitia ouvir conversas, anotamos qualquer coisa fora do comum, sempre à procura de uma brecha.

Sem sucesso.

Não quero pensar que talvez tenhamos que esperar semanas, talvez meses, até conseguirmos uma nova oportunidade de entrar na mansão. Eu não tenho todo esse tempo. Quando a maldição vai agir e fazer Dennis se esquecer de mim?

Quando não posso me encontrar com Dennis - porque, afinal, ele também tem suas responsabilidades e não posso pedir que pare sua vida para me ajudar na investigação, embora essa fosse minha maior vontade -, fico entediada olhando o teto do meu quarto. Talvez eu devesse me preocupar com o meu futuro e estudar para as provas finais, mas sei que, no final, irei roubar as respostas na sala dos professores e tirar nota máxima.

Fazem alguns dias que só fico trancada dentro de casa, ouvindo as conversas sem sentido pelo rastreador. Além da única vez em que meu pai falou o meu nome, nada de mais surgiu, mas não tenho coragem de desligar o programa, com medo de perder alguma coisa.

Ouço minha mãe se despedindo, pronta para outro dia de trabalho. Ela meio que pede, meio que ordena, que eu arrume a casa antes de ela voltar. Então é isso que faço, levando o computador para todos os lados, enquanto lavo o banheiro e passo pano no chão.

Mas mesmo a limpeza durou pouco, pois não moramos em uma casa muito grande e nem fazemos muita bagunça. Portanto, depois de guardar toda a louça, jogo-me no sofá, olhando a tela do meu notebook, como se isso fosse fazer meu pai falar algo de interessante.

Então decido que qualquer coisa é melhor do que essa tortura. Até mesmo ficar seguindo o ministro Kathram durante sua entediante rotina.

Dessa vez, saio de casa apenas com meu celular e um bloco de anotações. Deixo todos os outros utensílios de espionagem em casa, pois foram inúteis nos últimos dias e eu realmente não estou afim de ficar carregando peso.

Sento-me em um banco na praça em frente ao Parlamento e puxo o capuz do meu casaco para cima. Apesar de ser quase verão, uma garoa fina de final de estação cai sobre mim. Passo algumas horas observando a movimentação do lugar, sem nenhum sinal de meu pai.

Me mudo, então, para uma mesa externa do café ali perto. Enquanto tomo minha xícara fumegante de chá, não tiro os olhos do prédio gigantesco, esperando ver qualquer coisa diferente. Mas não há nada. Suspiro, exasperada, e então pego meu celular.

Mando uma mensagem para Dennis e fico encarando a tela do celular até se apagar. Ele deve estar ocupado com outras coisas, pois não me responde. Uma parte paranoica de mim diz que é a maldição agindo, mas tento me acalmar. Pelo o que minha mãe disse, teríamos que transar e só então ele começaria a me esquecer. E, apesar de querer muito viver a sensação de ter seu corpo nu colado no meu, o medo de perdê-lo é ainda maior.

É engraçado como agora eu morro de medo de ficar sozinha.

Volto os olhos para o Parlamento bem a tempo de ver meu pai saindo do prédio. De acordo com as horas, ele está adiantado, por isso me levanto de súbito e começo a segui-lo. Ele acena para um grupo de paparazzis que estão parados como abutres esperando os políticos saírem do prédio. Época pré-eleitoral é sempre assim.

Por um segundo, acho que meu pai vai entrar no carro, mas ele faz um desvio de última hora e segue para o parque. Ele não está exatamente sozinho, pois há dois seguranças em sua cola, impedindo os paparazzis de se aproximarem. De qualquer forma, estão longe o suficiente para ele poder falar no celular em paz.

Seus seguranças são os melhores, os mais bem treinados e bem pagos do país. No entanto, não notam minha presença enquanto me embrenho nos arbustos do parque, seguindo meu pai.

Fico alguns metros distante dele, porém ainda mais perto que os dois homens enormes que andam com olhos atentos. Me aproximo o suficiente para ouvir o que ele diz no telefone.

— Eu te falei para não entrar mais em contato comigo. — Ouço-o resmungar. — Que tipo de pergunta é essa? É claro que estou sozinho. Não... Não... Está bem... No mesmo lugar de sempre.

Ele desliga o telefone com um grunhido e continua caminhando. Parece um pouco alterado, preocupado. Vejo-o passar a mão no cabelo de frustração algumas vezes.

O que será que aquela ligação significa?

Não tenho muito tempo para pensar, pois logo meu próprio celular toca. O barulho parece dez vezes mais alto na quietude do parque e eu me atrapalho ao tentar pegá-lo.

— Quem está aí? — meu pai pergunta, se virando para o arbusto em que estou escondida. Posso ser invisível, mas não sou à prova de som.

Skatá.

Vejo que Dennis é quem está me ligando. Me repreendo por não ter deixado o celular no silencioso.

O ministro para, franzindo os olhos para o arbusto à minha esquerda.

Percebo que seus seguranças se aproximaram, as expressões fechadas, já analisando cada canto daquele parque. Eu prendo minha respiração.

— O que aconteceu, senhor? — o primeiro e maior deles pergunta. — Alguém está te incomodando?

Sinto meu coração gelar ao perceber que meu pai está olhando para mim. Diretamente para mim, para dentro dos meus olhos. Ele arfa, mas então balança a cabeça, dando dois passos para trás. Os seguranças se aproximam, mas seus olhares estão focados em alguma coisa a metros acima da minha cabeça. 

— Acho que vi... — ele começa, murmurando. Então balança a cabeça novamente. — Não é nada. Estou só cansado — ele dá uma risada seca. — Época de eleição, sabe como é. Vamos voltar.

Os seguranças se demoram por mais alguns segundos antes de se virarem e voltarem a seguir meu pai. Quando vejo que os três se afastaram, solto todo o ar que segurava nos pulmões, sentando-me no chão molhado.

Por um ínfimo instante, achei que ele pudesse ter me reconhecido. Já sei que ele se lembra de meu nome, mas nunca imaginei que ele pudesse me ver. Não era pra isso acontecer, não de acordo com os séculos de maldição nos quais minha família está presa.

É a minha vez de balançar a cabeça e tentar clarear os pensamentos. Não é hora de ficar pensando nos e se, pois tenho um plano a cumprir. E uma ligação para retornar.

— Espero que você tenha uma boa notícia — resmungo, antes de me jogar na cadeira do café escolhido por Dennis. — Meu dia não foi nada bom.

Ele abre um sorriso travesso.

— Aposto que vai melhorar depois que eu te contar as novidades.

Ergo uma sobrancelha, mas antes que possa perguntar qualquer coisa, Dennis diz:

— Pedi seu preferido. — Empurra um prato em minha direção. Cheesecake de framboesa. Realmente é o meu preferido, mas nunca havia falado para ele sobre isso. No entanto, ele deve ter percebido, durante nossas várias saídas, que eu praticamente só comia essa bomba de açúcar.

— Obrigada! — digo, realmente grata e subitamente faminta.

Começo a comer e Dennis comenta sobre algo que viu na TV, a história de uma celebridade ou qualquer coisa assim. Conversamos amenidades por um tempo, trocando ideias e falando bobagens que me fazem rir. Nunca pensei que fosse gostar tanto de falar sobre nada e sobre tudo ao mesmo tempo.

Porém, depois de seu terceiro café, começo a ficar impaciente. É muito bom simplesmente passar o tempo com Dennis, mas ele me ligou por uma razão. E é nisso que estou interessada hoje.

— Dennis, eu preciso saber... Não estou me aguentando de curiosidade! — falo. — O que você precisa me falar?

Ele desvia os olhos para a mesa e começa a brincar com a xícara em sua frente. Quando fala, ainda não me olha.

— Tomei a liberdade de fazer uma pesquisa por conta própria.

— Como assim?

— Bem, percebi que você só estava de olho no Sr. Kathram, mas não estava conseguindo nada de novo. Por isso, comecei a seguir sua esposa.

Ergo as duas sobrancelhas, surpresa com o comentário. Ele realmente estava se empenhando nessa coisa de descobrir uma brecha no roubo. Ao mesmo tempo, me sinto muito idiota por não ter pensado nisso antes.

A verdade é que seguir meu pai me dá a sensação de ser próxima dele, apesar de saber que essa é uma baita de uma ilusão. 

— No começo, percebi que a vida da Sra. Kathram não é muito interessante. Vive indo no clube de campo e bebendo mimosas com suas amigas igualmente ricas. Até acho que ela tem algum problema com álcool, afinal, quantos calmantes uma pessoa pode misturar com champanhe antes de desmaiar? Mas enfim, isso não vem ao caso.

Bato na mesa com as unhas, ansiosa. Até aí, nada de novo. Sempre imaginei que a nova esposa de meu pai fosse ser dessa maneira.

— E...? — digo, com um aceno na cabeça impaciente, incentivando-o a continuar.

Dennis abre um meio sorriso, finalmente levantando os olhos para mim. Sinto que está rindo da minha cara, da minha curiosidade incontrolável. Mas por quê? Ele não entende que estamos mesmo lidando com um caso sério? Que o roubo pode mudar a minha vida, a vida de minha mãe e da próxima geração da minha família?

Então me lembro. É claro que ele não sabe sobre isso. Eu nunca contei, explicitamente, sobre a maldição, muito menos que o ministro é o meu pai. E ainda acho que não vou contar. Para Dennis, o roubo representa conseguir objetos valiosos, enquanto para mim representa a liberdade.

— Por favor, fala logo. Vou morrer de ansiedade. Estou falando sério! — digo, fazendo uma expressão dramática, como se precisasse dessa informações para sobreviver. 

Bem, eu mais ou menos preciso. 

Ele ri.

— Eu sei, Cinderela. Você fica muito linda quando está ansiosa. Na verdade, é linda sempre — ele diz, inclinando a cabeça para o lado.

Sinto meu rosto corar e desvio os olhos. Não sei lidar com seus elogios. Não que eu tenha problemas com minha aparência, mas é diferente alguém dizer que te acha bonita também.

— Mas tudo bem, vou acabar com sua curiosidade. Preste atenção.

Dennis se inclina para frente de maneira conspiratória e começa a me contar o que ouviu a esposa de meu pai comentar com as amigas. Ao que parece, haverá um evento muito importante realizado pela rainha, para o qual todos do parlamento foram convidados. As madames estavam ansiosas, principalmente porque a festa teria quase oito horas de duração e seria na casa real.

Ou seja, tempo o suficiente para invadirmos a mansão Kathram.

Sinto meu corpo se encher de eletricidade. Meus pelos literalmente se arrepiam de excitação.

— Isso é ótimo! — digo, mantendo a voz baixa para que ninguém ouça nossa conversa. Não que tenha alguém prestando atenção em nós, mas prefiro não arriscar. — E quando vai ser isso?

— Sábado que vem.

Sábado que vem. Daqui menos de uma semana.

Oi pessoal!

Já estamos no penúltimo capítulo da jornada de Alana. Ansiosos para este roubo? Eu sei que estou!

Até semana que vem!



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