Capítulo 5
"A cozinha é multissensorial,
ela se direciona ao olho, à boca, ao nariz, ao ouvido e ao espírito.
Nenhuma arte tem essa complexidade."
Pierre Gagnaire, chef de cuisine francês
Flora vai ao banheiro, lava as mãos e o rosto e respira profundamente. Prende os cabelos e coloca sua touca. Ao chegar à cozinha, encontra uma Maura ansiosa e aflita com a demora do retorno da amiga. Ela abraça Flora com força e começa um interrogatório.
— Flora, por que demorou tanto? O que o senhor Paulo Henrique lhe disse? Você foi despedida? Por favor, diga que isso não aconteceu.
— Calma, Maurinha. Está tudo bem por enquanto, posso lhe garantir. Precisamos direcionar nosso foco para que não haja erros e assim corresponder à confiança que o patrão tem em nosso trabalho. Faremos o nosso melhor! Vamos surpreendê-lo de forma positiva.
— E a madame, quem vai servi-la? Ela já acordou?
— Ainda está adormecida. Quando ela acordar, a Miranda nos avisará. Vou preparar um chá de melissa e patê de berinjela para acompanhar as torradas. O senhor Paulo Henrique irá me acompanhar para evitar algum constrangimento para a mãe.
— Não sei se você me tranquilizou ou deixou-me mais angustiada, Flora. A madame não é flor que se cheire.
— Fé e confiança, Maurinha. Pensamentos positivos sempre atraem boas energias. Vamos direcionar nossas vibrações para a Stella para que ela se recupere. O José Carlos está no hospital e trará as notícias, conforme o médico o informe.
Às vinte e uma horas, pontualmente, Flora entra na sala onde se encontram PH e Beto para dar início ao jantar. Das entradas à sobremesa, ela pode notar que ambos degustavam os pratos servidos. Flora fica em um canto do recinto, próxima a passagem que vai para a cozinha e percebe os olhares cobiçosos que o amigo do patrão lança em sua direção. Beto também é um homem muito bonito, mas não chega nem perto da perfeição de PH.
O evento é finalizado no escritório onde ela serve a eles o licor de pequi, preparado por ela mesma com o fruto nativo do cerrado brasileiro. Eles aprovam o sabor e querem mais detalhes sobre a matéria-prima da bebida. É a primeira vez que ela vê o patrão descontraído e com um sorriso no rosto, ficando ainda mais irresistível. Esses pensamentos persistem em sua mente, mesmo quando tenta evitá-los.
Uma batida na porta encerra aquele momento de descontração. Miranda informa que a madame acordou e chama pelo filho. PH pede licença ao amigo e acompanha a assistente até o quarto da mãe.
Aos sessenta e cinco anos, Cora Mirtes ainda é muita bonita e aparenta bem menos idade. Sempre bem-vestida e arrumada como se fosse passear, seu temperamento está longe de refletir sua beleza física.
Ao ver o filho, finge uma emoção que não sente. Suas queixas sobre o ocorrido não incluem a preocupação com a fiel e competente governanta, que se encontra em um centro de tratamento intensivo em estado grave.
PH a escuta se lamentar, pacientemente, para poder abordar o assunto sobre a substituta de Stella.
— Vejo que está melhor, mãe, e isso me tranquiliza. Não está com fome?
— Evidente que estou faminta. Fiquei só com o meu desjejum. Stella já se recuperou daquela "frescurite"? Até agora não apareceu aqui.
— Mãe, sua governanta teve um enfarte e está internada na UTI em estado grave. O auxiliar de serviços gerais está acompanhando o caso para nos trazer notícias. Espero que ela se restabeleça completamente, mas é certo que não voltará a trabalhar tão cedo. Talvez tenha que se aposentar, dependendo das sequelas que ela possa ter.
— Ah, Paulo Henrique! Poupe-me desses detalhes desnecessários. Contrataremos outra pessoa com um salário mais razoável. Stella está me saindo muito caro.
— A senhora sabe, mesmo que não queira admitir, que substituir Stella não será tarefa fácil. No momento, aceitei a sugestão de Miranda e Hamilton para que a senhorita Flora possa lhe servir.
— Flora? Quem é essa? Nunca ouvi esse nome antes.
Nesse momento, PH se lembra do comentário feito por Flora no escritório algumas horas antes. Ela estava certa em dizer que foi blindada pela governanta.
— Flora trabalha aqui há um mês como cozinheira e parece que foi aprovada. A senhora não reclamou sobre a comida.
— Que piada sem graça, Paulo Henrique. Ainda não conseguimos uma cozinheira decente. Minhas refeições são feitas por um chef renomado que é conhecido de Stella.
— Imagino que a Stella tenha inventado essa história para que a senhora tivesse tempo de se acostumar com a nova cozinheira sem ter pré-julgamentos. A Flora é responsável por todas suas refeições, do desjejum a ceia. Ela também será responsável pelos pratos principais que serão servidos na festa de comemoração ao seu aniversário.
— O que está me dizendo é ultrajante, Paulo Henrique! Venho sendo enganada dentro de minha própria casa. Stella tem que responder judicialmente por esse atentado. Eu poderia ter sido envenenada por essa pessoa, cuja existência desconheço. Estão todos debochando de minha ingenuidade. Isso é o que acontece quando baixamos a guarda e damos um voto de confiança aos serviçais.
— Pare de falar absurdos, minha mãe. Stella está conosco desde minha adolescência. Ela sempre lhe foi dedicada, correta e um verdadeiro cão de guarda em sua defesa. Não estou de acordo com a mentira usada para lhe persuadir, mas ela não tinha alternativa, já que todas as outras opções foram rejeitadas pela senhora. Se a sua impressão é de que, ultimamente, saboreou pratos de um renomado chef, então Flora tem qualificação para continuar trabalhando aqui.
— Desde quando você ousa me afrontar em defesa de pessoas que são pagas para nos servir? Se é para agir dessa forma, transfira o dinheiro que lhe pedi para minha conta e pode pegar o próximo voo para a Alemanha. Não faço questão de sua presença em minha festa.
— Dona Cora Mirtes, estou cansado de suas queixas infundadas. Viajei dezoito horas para chegar com antecedência e, desde o momento que desembarquei, não tive um minuto de descanso. Sou seu filho, eu a respeito e procuro atender a todos os seus pedidos, mas não dá para aturar essa sua birra e falta de consideração. Quer que eu vá embora? Eu irei, mas meu dinheiro vai comigo. Não vou compactuar com esse seu discurso incoerente e infantil. Se quiser sua refeição de chef famoso, peça para um restaurante que faça entrega. Duvido que a senhora receba pratos com o sabor dos que degustei no jantar. Beto me fez companhia e pode endossar minhas palavras. Ele ficou impressionado com a qualidade e apresentação do que foi servido.
— Que falta de respeito com sua mãe, Paulo Henrique. Não o estou reconhecendo.
— Isso é normal. A maioria das pessoas amadurece com o tempo. Vou deixá-la refletir. Estarei no escritório, caso mude de ideia. Um delicioso jantar a espera, basta que aceite ser servida pela senhorita Flora.
Passa da meia-noite quando o celular de PH sinaliza uma mensagem. Ele havia adormecido no sofá do escritório sem perceber. Estava exausto. Ainda sonolento, lê a mensagem da mãe.
"Mande a cozinheira trazer algo para eu comer."
"Não sei se será possível. Os empregados já estão descansando."
"Isso é uma ordem, Paulo Henrique. Não passarei a noite toda com fome."
"Vou ver o que posso fazer. Aguarde."
Paulo Henrique esfrega os olhos e puxa os cabelos. Sua vontade é de pegar a mala e sumir dali. Viver sob o mesmo teto que Cora Mirtes é inconcebível.
Palavras ditas por Flora vem à sua mente. Ela tinha razão em vê-lo como uma pessoa preconceituosa. Filho de peixe, peixinho é, diz o ditado, mas ele não quer ser como sua mãe. Abençoada com uma vida de luxo e facilidades, Cora Mirtes não passa de uma pessoa orgulhosa, egoísta, arrogante, intolerante, preconceituosa.... que outros adjetivos poderiam descrevê-la? Abominável! Nem amor por seu único filho ela tem. Só o dinheiro é que lhe interessa.
Agora mais essa. Quer que ele vá incomodar Flora, nesse horário, para servir o jantar para a "madame". Com que desculpa irá até o quarto da moça para acordá-la? Isso é totalmente inapropriado. Sua indignação é tão grande que interroga a si mesmo: — Ah! Dona Cora Mirtes, que mal eu fiz a Deus para merecê-la como mãe?
PH percebe que mesmo diante dessa condição vexatória, a curiosidade para rever Flora o acomete. Durante o primeiro contato que teve com ela, fez um grande esforço para não se mostrar atraído por sua beleza. Flora tem um encanto que ele não sabe explicar. A miscigenação do sangue indígena com o do europeu gerou uma mulher lindíssima, exótica. Mas a suavidade daqueles olhos puxados é quase hipnotizante. O corpo tem curvas acentuadas e bem distribuídas para alguém alta e magra como ela. Nem o uniforme consegue disfarçar os seios generosos, as pernas grossas e o bumbum arrebitado.
Não lhe passaram despercebidos os olhares luxuriantes que Beto lançou para ela durante o jantar. Isso o incomodou muito sem que ele entendesse o motivo.
Levanta-se do sofá e entra na toalete privativa do escritório. Olha-se no espelho que reflete todo o seu cansaço. Está com olheiras e a barba por fazer. Joga uma água no rosto, escova os dentes e ajeita a camisa amarrotada dentro da calça. Demora-se mais do que o necessário para criar coragem de tomar aquela atitude. Contudo, quanto mais tempo passar, pior vai ficar. Ele poderia ligar ao invés de ir pessoalmente. O número do celular de Flora está no currículo em cima da mesa. A vontade de vê-la vence todos os argumentos coerentes de sua mente.
Ele deixa o escritório e sai à procura de um segurança que possa lhe indicar qual o quarto da cozinheira. O rapaz se prontifica a chamá-la, mas PH o convence de que ele mesmo pode fazer isso. Em frente à porta correta, suas mãos começam a suar no momento de bater. Ainda se encontra indeciso e não sabe como justificará sua presença quando ela atender. O corredor é iluminado apenas por luzes de emergência que acenderam com a sua passagem. Ouve passos vindos em sua direção e imagina que seja o segurança a verificar se ele encontrou a pessoa que procura.
Sem perceber, suas mãos esmurram a madeira com mais força que o necessário. No silêncio do local, aquele barulho acordou não apenas a cozinheira, mas vários outros funcionários. Que mico está ele a pagar!
Em meio à confusão que se formou, a porta dela se abre e ele desata a falar rapidamente que precisa da ajuda dela e a aguarda na cozinha. Depois praticamente corre pela ala dos funcionários, deixando todos perplexos, imaginando que algo grave teria acontecido com a madame.
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