Capítulo 3

Eu deixo que a água morna envolva o meu corpo, relaxando assim os meus músculos e tirando a poeira causada pela explosão que, felizmente, não causou mais do que alguns arranhões mínimos nos meus barcos e no meu rosto.
Eu pego os frascos de shampoo e condicionador perto do chuveiro, e assim que me certifico de que os cheiros são bons eu uso ambos.
Eu abro a porta de vidro ao redor do box, e assim que pego o roupão branco super fofo e as sapatilhas com plumas que assim como o roupão estavam no armário do banheiro, eu saio do mesmo.
O quarto, que com certeza é o menor dos três, possui apenas uma cama de casal, um armário mediano; uma escrivaninha de frente para cama; uma televisão grudada a parede e um espelho que fica do lado da escrivaninha.
Eu abro o armário que agora está com as minhas roupas imundas, o meu colete, a minha faca e as cinco armas que eu peguei do arsenal de Hero, e pego a escova de cabelo que eu encontrei em uma das gavetas. É, esse quarto de hóspedes nunca foi tocado antes, mas está muito bem equipado.
Eu termino de pentear meus cabelos, e deixando a escova em cima da escrivaninha eu saio do quarto, indo direto para as escadas e depois para o Primero andar.











- Você soltou a sua trança!













Megan diz na mesma hora que eu entro na cozinha, que para a felicidade do meu estômago faminto está com um cheiro ótimo de macarrão com molho vermelho.
Eu sorrio para a menininha sentada na pia de mármore preto, ao mesmo tempo em que avalio todo o ambiente pequeno, que é composto somente por uma mesa de madeira com quatro cadeiras; uma pia de marmore preto; uma lava louças; um fogão; e uma geladeira, todos de última geração. Além, é claro, dos armários de madeira acima da pia.















- É, Eu estava precisando lavar o cabelo. Você gostou da minha trança?













Eu pergunto para Megan, que já está tão limpa quanto eu e usando uma calça de moletom roxa e uma blusa branca com a estampa de várias borboletas coloridas.












- Gostei, o meu pai não sabe fazer trança. Ele só sabe fazer um rabo de cavalo.












Megan diz, enquanto balança as perninhas no ar, o que me faz rir enquanto eu me aproximo dela.












- Se você quiser eu posso fazer uma trança em você.









- Eu quero!














Megan grita na mesma hora, fazendo com que uma risada escape de Hero, que apesar de não falar nenhuma palavra eu sei que está ciente de todos os meus movimentos.
Eu pego Megan no colo, e apesar de perceber que Hero fica tenso, eu não digo uma palavra, apenas acomodo a menininha de cabelos castanhos escuros e olhos verdes na mesa de madeira, enquanto eu me sento na cadeira.















- Você quer duas tranças, uma de cada lado do seu rosto, ou quer uma igual a que eu estava usando?











- Eu quero uma igual a sua!












Megan diz, e eu a viro de costas para mim, ao mesmo tempo em que começo a fazer uma trança embutida no seu cabelo.














- Você tem quantos anos, tia Jo?












Megan me pergunta, e eu rio comigo mesma pela forma como Megan diz " tia Jo"











- Eu tenho 22.










- Igual o meu pai! Que dia é o seu aniversário?














Megan me pergunta, agora ainda mais animada por saber que eu tenho a mesma idade que o seu pai.











- É dia 18 de agosto.











- Que legal, eu meu é 15 de março! Eu tenho quatro anos, vou fazer cinco, é tudo isso aqui!











Megan diz, quando se vira para mim e mostra uma mão com os cinco dedos levantados.










- É, é muita coisa mesmo. Você já é uma mocinha.










- Não, eu sou uma princesa!










Megan diz, e eu preciso controlar minha gargalhada, Deus, ela é muito engrassada.











- Macarrão com molho vermelho, como a princesinha pediu.














Hero diz, quando coloca uma bacia de vidro cheia de macarrão e outra bacia com molho vermelho em cima da mesa de madeira em que Megan está sentada.
Eu termino de fazer a trança de Megan, e assim que uso o meu elástico para amarrar a ponta da trança, eu tiro Megan de cima da mesa, fazendo com que ela corra para as pernas do pai.
Eu ajudo Hero a colocar os pratos na mesa, e embora ele não diga nada eu continuo ajudando. Talvez eu não devesse ter dito que Elizabeth teria gostado da casa, mas a verdade é que eu não consegui me conter, não quando o pensamento de largar a vida de " filha de Sarah Langford " já havia se passado pela minha cabeça e eu já havia sonhado em ter uma casa parecida com essa.

















- Vocês não gostam um do outro?













Megan pergunta, quando eu dou a primeira garfada do macarrão com molho vermelho, que por sinal está uma verdadeira maravilha.












- Por que você perguntou isso?












Eu pergunto para Megan ao invés de responder, e a filha de Hero mexe os ombros em um sinal de indiferença, ao mesmo tempo em que olha para o pai e depois para mim .












- É que vocês quase não falam um com o outro. E o meu pai te olha como se não gostasse de você.















Megan diz, e eu rio um pouco, ao mesmo tempo em que olho para Hero, que também está com um sorriso cruzando os lábios.













- Bom, seu pai e eu não somos exatamente amigos, mas isso não significa que não gostamos um do outro.















E esse é o maior eufemismo do mundo, porque se você nasce com sangue Langford você tem que odiar os Fiennes Tiffin, e vice versa.













- Mas se vocês gostam um do outro por que vocês não são amigos?









- Porque nossos pais nos matariam se  fôssemos!












Eu digo no automático, mas logo percebo que não deveria ter falado desse jeito.
Eu olho para Megan, que parece um pouco assutada, e depois olho para Hero, que apesar de estar com a cara fechada novamente parece entender que eu não fiz por mal.
















- Como assim? O meu avô também tinha ódio de você igual ele tinha de mim e da minha mãe!















Megan diz, e Hero cospe o suco de caju de volta no copo, e eu quase me engasgo com o macarrão. É, esse assunto está beirando a classificação de 18 anos.














- Megan, da onde você tirou isso? Eu nunca usei a palavra " ódio" perto de você.












Hero diz, e Megan abaixa a cabeça na mesma hora, enquanto sussurra baixinho.













- Eu ouvi o vovô dizer uma vez. Ele falou que não gostava de mim, que ele tinha ódio de mim por ser filha da mamãe.













E com isso, com essas palavras, todo o clima vagamente leve do almoço acaba de vez.













- Você deve ter ouvido errado, princesa, o seu avô nunca diria uma coisa dessas. 













Hero diz, mas não é preciso ser um gênio para saber que ele está mentindo, e antes que Megan abra a boca para dizer que ela ouviu certo, o que Hero e eu sabemos ser verdade, eu me pego dizendo:












- Sabe, eu estava pensando em ligar para o meu padrinho. Não hoje, tudo ainda está muito recente, mas amanhã.
Se tem alguém que pode nos ajudar a ter a menor nossão de quem fez isso contra nós é o meu padrinho.













- Nós vamos ter que pegar que fez isso mesmo. Amanhã eu pesso para a Eloise comprar um chipe para nós usarmos em uma ligação.














Hero diz, e eu concordo com a cabeça, ao mesmo tempo em que volto a comer o macarrão, que tanto eu, Hero e Megan repetimos.

●●●







- Vem tia Jo, a gente sempre assiste um filme depois do almoço quando ficamos nessa casa!













Megan diz, enquanto me arrasta para a sala, o que me faz rir, enquanto eu deixo que a garotinha de cabelos castanhos escuros e olhos verdes me puxe para o sofá.











- Hmm, aqui está bem mais quentinho que a cozinha.














Eu digo, enquanto me encolho no sofá, já que o robe que eu estou usando não esquenta, mas a lareira acessa perto da parede esquerda resolve o meu problema.














- Pois é! Eu e o papai gostamos de ficar aqui vendo filme, nós sempre ficamos aqui nessa época do ano, para comemorar o meu aniversário.














Megan diz, e eu sorrio para ela, enquanto a menininha liga a televisão e se aconchega perto de mim.













- Então, que filme nós vamos assistir ? Comédia, ação, aventura, fantasia...













- Rá, pode ir esquecendo, aqui para você assistir algo que você queira,  Primero você tem que ver algum filme da Disney!












Hero diz, quando entra na sala e se joga na outra ponta do sofá.










- Tá bom, então qual filme vai ser ?
Não, me deixei adivinhar, vai ser um de princesa!











- Óbvio!









Hero e Megan dizem em uníssono, me fazendo assim começar a rir.







- Qual princesa vai ser, então?









- Eu quero ver o filme da Mulan hoje !















Megan diz, ao mesmo tempo em que coloca o filme da Mulan, o que me faz encontrar uma posição mais confortável.
A primeira música do filme começa, e nem eu, nem Hero ou Megan falamos qualquer coisa, só ficamos prestando atenção no filme.
Quem diria ? Eu, uma Langford, estou sentada no sofá da sala de estar da casa de Hero Fiennes Tiffin, e no entanto  não me sinto nenhum pouco incomodada. Não, até que é legal estar em uma casa que ninguém sabe a localização e ficar vendo um filme de princesa.
Eu olho para o lado, e sorrio um pouco quando vejo Megan segurando a mão do pai, que apesar de olhar para o filme como se conhecesse todas as músicas e falas, não parece incomodado por estar fazendo isso.
Eu volto a prestar atenção no filme, mas logo tenho minha atenção desviada para Megan, que deita a cabeça no meu colo, enquanto puxa a mão do pai, para que ele continue seguntado a sua mão pequena.
Eu levo minhas mãos ao cabelo de Megan, que ainda está usando a trança que eu fiz, e começo a fazer carinhos na sua cabeça, fazendo com que os olhos de Hero fiquem presos em mim.
Eu ignoro a atenção de Hero, e continuo fazendo os carinhos em Megan, que se aninha mais contra o meu toque.














- Acho que agora está na hora de escolhermos alguma coisa.















Eu digo em um sussurro, porque sei que Megan dormiu no meio do filme, já que ela ficou muito quieta e sua respiração mais constante e silenciosa.











- O que você quer assistir ?










Hero pergunta, e eu me surpreendo tanto que chego a abrir a boca.











- Nossa, nada de grosseria ou de dizer que eu não posso ficar mais tempo. É, acho que a Megan tem mesmo você na palma da mão.













Eu digo, claramente provocando Hero, que abre um sorriso ao mesmo tempo em que diz :












- Bom, ela está dormindo,  o que significa que eu ainda posso te trancar do lado de fora da casa. Tenho certeza de que você vai ficar bem confortável usando esse roupão com quinze graus lá fora.













Eu sorrio perante a provocação de Hero, mas logo volto minha atenção para a TV que já está apresentando um filme cuja sinopse é sobre três pais que resolvem seguir as filha no baile de formatura porque elas decidem perder a virgindade nesse dia. Porra, acho que Hero escolheu o pior filme de comédia.
E, vinte minutos depois, eu estou tampando a minha boca para não acordar Megan com as minhas gargalhadas. Cara, esse filme é muito bom!













- Meu Deus! Coitada da Megan, eu já estou até vendo você impedindo ela de tranzar!












Eu digo rindo histericamente, e Hero acaba rindo enquanto olha para Megan.










- Ela não vai tranzar.











- É mesmo? Olha, sei que os Fiennes Tiffin são, na sua maioria, homens, mas você sabe que ela terá que perder a virgindade na festa de Iniciação. 
É assim que as coisas funcionam no nosso mundo .


















Eu digo rindo, mas observo quando as feições de Hero ficam sérias e ele encara Megan como se ela fosse um animal prestes a ir para o abatedouro.












- Essa é uma das razões para eu não querer que ela fassa parte disso.













Hero diz muito baixo, como se estivesse conversando consigo mesmo, mas eu não me contenho e me pego balançando a cabeça em uma negativa, atraindo assim a atenção de Hero mais uma vez.














- Você sabe o que vai acontecer a ela se não a declarar sua herdeira. As leis serão extintas e qualquer um que desejar o mal a você irá poder pegar Megan.
Eu sei que você não desejava essa vida, todos sabemos, mas se você não apresentar Megan como sua sucessora  quando ela fizer 16, será como dizer que ela não é sua filha e ela estará em perigo, e você não terá como protege-la não sem assumir todas as responsabilidades e acabar tão morto quanto ela.














Eu digo, e por mais que Hero e eu não tenhamos intimidade o suficiente para falar sobre esses assuntos, parece simplesmente inevitável que a conversa não continue.












- Como foi para você? Meu pai contratou uma prostituta e sei que sua mãe fez o mesmo, mas na prática, sei que foi diferente para mim e para você.













Hero diz, e nós dois sabemos que ele não está me fazendo esse pergunta porque se importa comigo, mas sim porque está avaliando as opções, avaliando se deixar Megan fora da máfia é mesmo uma boa ideia.















- Não foi tão ruim quanto eu pensei que seria. Apesar de ser brutal, minha mãe era boa comigo, ela me deu instruções e disse exatamente o que aconteceria, então, eu estava preparada.
O homem não era muito mais velho, e ele me respeitou, minha mãe o escolheu porque sabia que ele me ouviria caso eu pedisse para ir mais devagar.
Hero, você não pode evitar isso, você tomou esse decisão quando permaneceu na máfia, e sei que é uma merda, mas nós não temos escolha, nunca tivemos e Megan também não terá. Nós já nascemos com...













- Sangue nas mãos, eu sei.
Apenas queria que tudo fosse diferente, e por um tempo eu acreditei que seriam.















Hero diz, e eu não sei o que dizer, principalmente porque não há nada que eu possa dizer que vá livra-lo desse sentimento, da culpa. 













- Sei que não tenho nada a ver com isso, e que pode parecer que estou dizendo da boca para fora porque sou uma Langford, mas você não tem culpa.
Não foi sua culpa o que aconteceu com a Lize, e quanto a Megan eu sei que você faz o melhor que pode.
É, talvez você seja responsável por ela ser a futura herdeira da máfia Fiennes Tiffin, mas se não tivesse feito isso, se tivesse realmente largado tudo, vocês dois estariam mortos e sei que a Lize não gostaria que isso acontecesse.
Por um lado você pode acreditar que colouco uma corda ao redor do pescoço da Megan, mas está errado. O sobrenome dela garante que ninguém tenha o direito de machuca-la, e quando ela fizer 16, quando assumir para todas as outras máfias o título de sua sucessora, ela continuará segura.
Essa não é a vida que vocês queriam para ela, mas é a única forma de manter Megan a salvo!
















Eu digo com toda a sinceridade, e por mais que não encare Hero, sei que ele está respirando fundo, e tentando absorver as minhas palavras.
O filme que nós estávamos vendo termina, e outro começa em seguida porque Hero não escolheu nada. Ele está sentado do meu lado me vendo fazer carinhos na cabeça da sua filha, e eu permaneço olhando para o corpo pequeno de Megan. Não sei por quanto tempo ficamos assim, tanto eu quanto Hero, ambos envolvidos completamente por nossos pensamentos.

●●●







- Boa noite, tia Jo!












Megan diz, quando Hero a pega no colo e a leva para o segundo andar .
Depois da minha conversa com Hero, o clima entre nós ficou estável, nós assistimos mais um filme, mas tivemos que parar na metade porque Megan acordou e não seria apropriado ela ver o mesmo filme que a gente.
Nós jantamos, vimos mais TV, comemos sorvete e agora que o relógio bate só oito da noite eu sinto que estou pronta para desmaiar. Hoje o dia foi bem cheio.
Eu tiro os pratos da lava louça, e assim que eles já estão guardados eu ajeito melhor o meu robe enquanto vou para o segundo andar.
Eu entro no quarto de hóspedes, mas antes que eu possa tirar o robe branco escuto alguém bater na porta, me fazendo ir até a mesma.












- Oi, precisa de alguma coisa ?














Eu pergunto para Hero, que está usando somente uma calça de moletom cinza, me fazendo assim ter a perfeita visão de seu peitoral esculpido.











- Aqui, para você não ter que dormir com o mesmo roupão que você usou desde que saiu do banho.














Hero diz, ao mesmo tempo em que me entrega duas peças de roupa perfeitamente dobradas.
Eu pego as roupas, e um nó se instala na minha garganta quando desdobro a calça de moletom azul celestes e a blusa de mangas cumpridas e de tricô branca.














- Você tem certeza de que quer que eu use isso? Eu não me incomodo de ficar de roupão .














Eu digo, porque sei que essas roupas são de Lize, e que se estão aqui, nessa casa, mesmo que ela nunca tenha pisado aqui, significa que Hero não se desfez do possível guarda roupa da noiva.













- Está tudo bem, essas roupas estavam pegando pueira mesmo.













Mentira, uma mentira descarada, porque essas roupas não estão cheirando a poeira e não estão sujas, pelo contrário, o cheiro de ambas as peças é de amaciante o que significa que a empregada lava essas roupas constantemente.












- Obrigada.












Eu digo, com toda a sinceridade, e Hero concorda com um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que dá meia volta e vai na direção da porta ao lado da do quarto de Emery.
Eu fecho a porta, e logo coloco as roupas que Hero me entregou, soltando assim um suspiro de alívio quando sinto meu corpo esquentar.
Eu subo na cama, e por mais que o dia de hoje tenha sido pesado e sufocante e eu tenha perdido Eleonora, a única coisa que eu consigo fazer é fechar os olhos, em uma tentativa de pegar logo no sono...

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