VI - III
"Você esquece o que quer se lembrar, e você se lembra do que quer esquecer."
– Cormac McCarthy, em A Estrada.
Eram tantos quadros, objetos brilhantes e tapetes que a sensação foi de passar pela recepção de um museu bem raro. Tudo chamava a atenção dos meus olhos e disfarçar aquela admiração foi um desafio falho.
Todavia, apesar do chão ao teto reluzir em mais perfeita brancura, as palavras ditas por ele não saíam da minha cabeça. Este era o lugar no qual ele conseguia se libertar? Entre aquelas quatro paredes?
- Isso também parece uma prisão para mim. – Miguel parou de avançar por um momento. Os músculos das costas enrijeceram visivelmente por debaixo da camisa. Com suavidade, sua cabeça pendeu para o lado, dando para enxergar apenas o movimento de seus lábios.
- Nem todos têm os mesmos luxos.
Ser livre era um luxo? Então, eu tinha algo que ele não tinha?
- Você quer beber algo? – A voz havia descido alguns degraus e quase estremeceu de tão grave. Senti os pelos do corpo eriçarem com aquele timbre sombrio e a sensação me causou mais medo do que qualquer outra coisa.
Limitei-me a assentir com a cabeça.
- Água, se puder.
- Posso. Ainda tenho duas mãos, copos e alguma jarra perdida nessa geladeira. – Ele riu baixinho. Eu adorava sua risada... Já disse isso, né? Impossível não ficar repetindo.
Afundei no sofá sem me importar muito com etiqueta enquanto Miguel se afastava para o balcão da cozinha. Só o contato com aquele móvel fez a minha cama parecer uma rocha velha e bolorenta.
De supetão, saltei de susto quando o castanho soltou um xingamento seguido do ruído de muitos objetos se partindo num encontro com o chão. Sem delongas, corri até ele e meu ar faltou ao encontrar uma cena horrível: Meu anfitrião ajoelhado sobre um monte de cacos de vidro e uma mancha de água e sangue se misturando no piso claro. Ele segurava o pulso, apertando para parar a corrente do líquido que lhe escapava por um corte na mão.
Era profundo, droga.
Agarrei o primeiro pano de prato que vi e enrolei em volta da ferida, estancando o ferimento. Com o cadarço do tênis, amarrei bem seu braço, impedindo a passagem do sangue. Ficamos assim, em silêncio, por minutos inteiros enquanto eu segurava sua mão.
Quando estava convencida de que não havia mais risco, retirei o pano ensopado de vermelho e retirei, com a ajuda de um garfo, o estilhaço preso na carne. Miguel não gritou ou reclamou, apesar da palidez que exibia. Os orbes de safira permaneciam fixos em meu rosto como se analisassem cada ação.
- Você tem algo para desinfetar isso? – Ele negou de início, completamente perdido. Suspirei fundo, mapeando o ambiente em volta até pousar os olhos numa garrafa de vodka. "Perfeito", pensei.
Assim que o líquido tocou a superfície da ferida, Miguel gemeu e uma lágrima teimosa traçou uma pequena linha na face de porcelana.
Delicadamente, levei o polegar até ela, secando aquele resquício de dor como uma mãe o teria feito a um filho que se rala ao cair de bicicleta. Ele tremeu ao receber meu toque assim como fez em seu carro, porém, dessa vez, não me afastou.
Terminei desatando a bandana que eu amarrava ao cinto e fazendo um curativo improvisado.
- Onde você aprendeu a fazer isso? – Sua voz ainda estava fraca pela dor.
- Você não me conhece. – E sorri, levantando-me para arrumar aquela bagunça.
- Mas eu conheço as garotas de Copa. – O "que" acusador escondido entrelinhas naquela sentença me partiu o coração. Eu fui descoberta! – Quem é você de verdade?
Senti o sangue ferver até subir para o rosto. Um misto de raiva, vergonha e tristeza me atingiu como uma enxurrada de flechas pontudas direto no coração.
Não ousei olhar para o rapaz quando disse:
- De onde eu venho não limita quem eu sou. – E sendo assim, peguei a bolsa e sai correndo daquela prisão de liberdade, tão linda que até se esquecia de estar preso.
Miguel não veio atrás de mim ou tentou me chamar de volta.
Ele era só um idiota.
E eu outra.
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