VI - II
"Hoje em dia as pessoas sabem o preço de tudo, e o valor de nada."
– Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray .
Ainda relutante, puxei a trava da porta assim que ele achou um lugar para estacionar. As pessoas admiravam o automóvel com discrição e faziam comentários ao pé do ouvido. Eu estranhava aquela atitude polida da Zona Sul com tantas luzes e outdoors, cochichos e regras... Tentei, por isso, parecer o mais natural possível.
- Espera! – A voz de Miguel cortou o ar feito lâmina. Não tive coragem de olhar para trás. Metade do meu corpo já estava para o lado de fora do carro. – Eu não quero ir pra casa...
Uma dor dilacerante percorreu meu peito enquanto a enxurrada de lembranças feias da infância me invadia, uma a uma. Eu me via, tão pequena e indefesa, completamente suja, implorando para que Jorge demorasse um pouco mais em seus biscates, assim, evitaríamos encarar mamãe em cima da cama, bêbada e fedida.
Aquela Luneta vivia pedindo para não voltar a casa.
Ela não existia mais.
- Você quer que eu fique?
Não dava para ver sua expressão, uma vez que ele havia voltado o queixo para o lado da praia, perdido nos próprios pensamentos.
Desisti de esperar uma resposta. Travando a merda de uma batalha interna sobre sair correndo de perto daquele louco bipolar ou simplesmente confiar na intuição que dizia que aquela noite seria uma lembrança para todo sempre.
Rendi-me ao embaraço e sentei novamente na poltrona de couro. Ele ligou o carro sem dizer coisa alguma e apenas seguiu em linha reta por alguns minutos. Quando as construções se tornaram majestosas, percebi que havíamos adentrado em uma parte mais elitizada da Zona.
- Pra onde estamos indo? – Miguel sorriu de lado, as ruas iam ficando escuras por conta das árvores altas, o que criava uma enorme sombra em seu rosto.
- Você já vai ver.
Paramos realmente segundos depois de sua resposta. Para minha surpresa, ao descer do veículo, uma grande fachada de pedra bruta se ergueu diante de nós. Era um edifício realmente alto e brilhante, como se fosse polido todos os dias por centenas de mãos transparentes.
O castanho acenou para o porteiro quando passamos pela entrada. Respirei fundo enquanto tentava acompanhar seus passos firmes. Ele tinha tudo a ver com aquele luxo, as plantas gigantes nos cantos, as pessoas sorrindo timidamente enquanto passavam, sua postura de lorde inglês...
- Está quieta... – Soltou despretensiosamente já dentro do elevador.
- Por que estamos aqui? – Havia um "quê" de mágoa em minha voz e não fiz questão de escondê-lo.
- Essa é a toca. – Suas covinhas apareceram de novo quando se virou para encarar minha expressão confusa. – Eu e meus amigos alugamos esse apartamento para fazer as sociais da turma e também para ficarmos longe dos nossos pais.
- Pensei que você havia herdado algo aqui no bairro...
- E herdei, fica há algumas quadras daqui... – Seus olhos passearam do meu rosto até o grande espelho atrás de mim. Ele consertou o cabelo enquanto eu rapidamente virei para ver o estado da minha cara: estava um caos. – Mas... – Aquele timbre gostoso me trouxe de volta. – Às vezes você só quer estar invisível em algum lugar. Meus pais monitoram toda a minha vida... Aqui é o lugar de ser livre.
As portas do elevador abriram de supetão com um clique. Apertei os olhos por conta da luz naquele corredor e tentei não escorregar num piso tão lustroso. Havia apenas uma porta de madeira escura, tão grande que me fazia sentir minúscula. Miguel girou a chave na fechadura e, instantaneamente, um aroma de faxina recém-feita me invadiu.
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