II
"... tu, um mercenário, que depende do trabalho para obter teu pão!"
- A Epopéia de Gilgamesh.
Meu pai estava preso por tráfico de armamento militar. Tínhamos uma vida decente antes: um apartamento pequeno na Usina, plano de saúde, dinheiro pro cinema... Então veio a aposentadoria e o dinheiro ficou curto já que nenhum de nós, incluindo mamãe, trabalhávamos. Meu velho se sentia culpado por nos ver sempre na corda bamba, driblando cobradores e suando para pagar as contas e foi aí que apareceu o Tenente Amaro.
No começo, ele era só um amigo bizarro que almoçava lá em casa e depois se trancava com papai no terraço para conversas que ninguém podia ouvir. Dois meses depois, o BOPE bateu à nossa porta e carregou meu pai para fora o acusando de fazer parte de uma quadrilha que estava financiando o tráfico e a violência no Rio de Janeiro.
Alana Farias Pimentel nunca precisou mover um dedo para trazer dinheiro para o lar. Quando jovem, seus pais cumpriam todas as suas vontades e caprichos. Não é preciso dizer que o casamento com um policial militar quebrou totalmente essa relação e foi, por isso, que ao se ver sozinha, todos aqueles anos de glamour lhe pesavam as costas.
Minha mãe pirou e começou a beber e beber. Mesmo com a grana que vinha do governo, nada era suficiente para manter o padrão de vida dela. Até que, em um momento, eu não tinha mais roupas para vestir ou sapatos para calçar.
E, claro, ainda tinha meu irmão.
Eu tinha apenas treze anos quando aconteceu, três anos depois da prisão de papai. Nós estávamos morando em Madureira, neste mesmo conjugado. A casa estava imunda, havia ratos e baratas por todo o canto e Alana nem mesmo se levantava para defecar, tornando impossível chegar perto dela.
Jorge era um adolescente difícil de dezoito anos. Como nossa aparência e cheiro não ajudava muito, ele trabalhava fazendo entregas para um vizinho da banca de jornal e recebia alguns trocados. Não tínhamos luz em casa e tomávamos banho nos postos de gasolina das redondezas. Sempre tentávamos variar parar não parecer suspeitos. Naquele dia... Não tínhamos comido coisa alguma, pois era feriado e não podíamos nos privilegiar das refeições da escola. Meu irmão estava nervoso, não por ele, mas por mim e por mamãe.
Ele decidiu roubar comida da mercearia da esquina e foi pego no ato. Quando contou ao dono do estabelecimento pelo que estávamos passando, ele entrou com um procedimento para internar minha mãe e, para que eu não fosse separada de Jorge, ele assinou um termo de responsabilidade sobre mim até que eu completasse dezoito anos.
Seu Carmelito era o dono do mercadinho que nos salvou. Ele deu um emprego decente ao meu irmão e nos ajudou a por as contas em dia. Um mutirão de gente voluntária limpou o lar devastado no qual vivíamos e, por um momento, as coisas se ajeitaram. O primeiro ano foi bom. O dinheiro da pensão de papai era revestida para uma poupança destinada à minha faculdade e possíveis emergências.
Sobrevivemos com o salário de vendedor e estoquista de Jorge e ainda sobrevivíamos. Só que, agora, eu não era mais uma garotinha. Havia um mundo lá fora e eu tinha que desbravá-lo sozinha.
"A descida ao inferno é fácil", disse Virgílio. Isso porque ele não tinha dezesseis anos e ainda usava sutiã tamanho P.
Virgílio não fazia ideia de como era fácil.
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