I - II
"Para voltarmos à mocidade, basta-nos repetir as nossas loucuras"
- O Retrato de Dorian Gray.
O pátio traseiro do Instituto Estadual Camila Dunas era um verdadeiro recanto para os desacreditados. Em pequenos grupos, alunos de todas as turmas do Ensino Médio de Madureira se reuniam com litros de vodka camuflados em garrafas de café e com pequenos baseados trazidos em baixo do boné. Eu e meu amigo sempre nos sentávamos atrás de um grande arbusto, assim, a nossa fumaça perfumada não chamaria a atenção dos inspetores.
Não que fizesse muita diferença.
- Você soube do passeio ao Museu do Amanhã na quinta? – Perguntou Cláudio, enquanto acendia seu cigarro. Ele prendeu um pouco a fumaça na boca e sorriu, mesmo sem mostras os dentes, com aqueles lindos olhos verdes.
- Eu tenho detenção na quinta... – Antes que o moreno pudesse me responder, fomos surpreendidos por um corpo gigantesco e com pernas longas de aranha. Seu peso caiu todo em cima do rapaz que o segurou com precisão. Claro, era como pegar uma pluma.
- O que os meus perdedores favoritos estão fazendo aqui sozinhos? – Apesar do sorrisinho amigável, havia mais veneno em sua voz do que numa colônia de viúvas negras. Natasha era a peguete da semana de Cláudio. Estava um ano acima do nosso, já quase terminando os estudos, porém, o charme de meu amigo, sua barba por fazer e os cachos castanhos cobertos por aquela touca larga, a deixaram eufórica.
O pior de tudo é que ela nem era bonita. Media o que parecia um metro e oitenta e quase passava da altura dele, sem falar que, com os cinquenta quilos que pesava, ficava difícil entender como eles iam para a cama sem que ela se partisse ao meio. Mas, apesar dos fios loiros maltratados por milhões de alisamentos de farmácia e da maquiagem gritante às nove da manhã, Natasha era daquelas meninas que cortava o uniforme para mostrar um belo decote nos seios e toda sua barriga lisinha ficava exposta sob um nó apertado que retorcia toda a blusa.
Isso já foi o suficiente para ganhar uma semana com Cláudio. Ele sim era lindo e, apesar da postura rebelde de quem não liga pra nada, sua aparência desleixada se tornou, nos últimos anos, um chamariz de oferecidas. Os badboys estavam em alta mesmo no calor carioca.
Traguei um pouco mais fundo do que devia e a fumaça ardeu quando chegou à garganta, o que causou uma tosse imediata. A loira deixou escapar uma risada debochada, finalmente voltando sua preciosa atenção para a cena ridícula que era eu abanando o ar e buscando oxigênio.
- Você não precisa fingir ser alguém que não é, Lu-ne-ta! – Engasguei ao ouvir meu nome sendo dito assim tão deliberadamente. Apesar de já estar acostumada às gozações desde que o mundo é mundo e a escola, um inferno, não consegui esconder meu ódio, brotando na pele morena como pequenas estrelas vermelhas.
Cláudio abriu a boca para intervir, mas eu fui mais rápida.
- Obrigada pelo conselho, Natasha! Faz todo o sentido vindo de alguém que não assume os próprios cachos desde os dez anos e perde a primeira hora da manhã cobrindo milimetricamente os buracos de espinha da cara com RubyRose. – Bufando, ergui o corpo num salto desengonçado, batendo para longe a poeira da calça jeans. A coisa mais estúpida foi rasgar os joelhos que agora estavam cheios de grama grudada. – E só pra constar... É Luna!
Com a ponta do tênis de terceira mão, amassei a bituca que sobrou e deixei aqueles dois a mercê de seus próprios prazeres doentios. Até a aula no laboratório parecia atrativa agora.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top