A casa de Rosa Paula

   Francisca fez um esforço. Trocou as jeans desfiadas por umas calças de veludo cor bordeaux, vestiu a camisa de tecido fino, concertou o cabelo agora mais curto com as mãos, escovou as unhas durante cinco minutos e borrifou sobre si um pouco da colónia do seu pai. Depois encontrou-se com Rosa Paula no terraço, no quarto andar de um prédio antigo, num pequeno terraço onde ardiam dois braseiros. Odores saborosos, a frango assado, a carvão a arder, a tabaco e a perfumes.

  A voz de Rosa Paula quebra aquele silêncio que por vezes era rompido pelo estalar das fagulhas.

"Chica, queres ir à cozinha buscar o limão? os convidados estão quase a chegar, preciso de temperar a carne!" 

Deslocou-se à pequena cozinha e escolheu o limão que lhe parecia mais sumarento, encontrava-se com a tia ao pé do grelhador, a observar o fogo, a campainha da entrada toca e é Francisca quem vai abrir a porta e leva os convidados até ao pequeno terraço, um casal amigo da sua tia, Joana e Bernardo, poucos minutos depois, Sílvia, jovem professora, cerca de dois anos mais velha que Francisca e colega de Rosa Paula no Liceu Pedro Nunes, ambas professoras de francês .

As narinas de Francisca palpitaram voluptuosamente. Perfeito. Não faltava nada: louro, pimentões, cebolas, cogumelos, tomates intercalados entre os pedaços de carne, sentada à mesa na pequena sala de estar que estava atulhada de livros e de discos de vinil, ao lado de Sílvia, com a barriga a dar horas, Sílvia estava bonita, os seus cabelos apanhados numa trança, uma saia de cores berrantes cingia-lhe o corpo curvilíneo, sorria entre copos de vinho, depois de saborear as espetadas escaldantes servidas em pratos de papel Rosa Paula conversava de forma enérgica com o casal amigo entre cigarros e copos de vinho, ria às gargalhadas, entusiasmava-se a partilhar os seus discos violentos para que os convidados se deixassem arrebatar.

  Mais um copo de vinho tinto, mais um cigarro, a voz rouca de Rosa Paula surgia enquanto apanhava o cabelo grisalho num rolo:

"E digo-te Joana, as estudantes precisam é de exemplos de mulheres da luta e de ter contacto com esses exemplos, como eu gostava de ter uma Maria Velho da Costa ou uma Maria Teresa Horta à conversa com as minhas alunas, a desvendar todo o machismo que temos passado!"

Falaram de música pop. Bernardo atirou-se logo ao assunto. E de repente aquele homem silencioso tornou-se inesgotável...Citou os nomes dos músicos actuais, comentou a qualidade dos instrumentos, brincou com os títulos dos jornais.

Francisca escutava, sonhadora. Era tão bom conviver com quem também era livre de pensamento, Rosa Paula podia ter defeitos mas o certo é que sempre dera liberdade à sobrinha, e a rodeara de cultura, de artes e de interesse político.

Falavam de livros, comentavam um em específico.

Sílvia levou o seu tempo:

"O amor com A grande, é coisa em que não acredito."

Francisca parecia indecisa:

"Eu talvez acredite..."

A sua voz tornou-se forte:

"Mas desejo que isso não me aconteça, porque daria tudo por terra.

-Tudo o quê?

-A minha sanidade!"

Dissera isso com tanto ênfase e graça que até Sílvia se dignou a sorrir, contentavam-se a deitar vivos olhares e sorrisos rápidos uma à outra.

"Vamos lavar as mãos?"

Sílvia levantou-se. Era uma provocação? Francisca perguntou-o a si própria enquanto a ia seguindo para a casa de banho, onde ela abriu a torneira da maneira mais natural.

"Amor à primeira vista? quem?"

Sílvia olhava para o seu reflexo no espelho.

"Eu?"
Francisca soltou uma gargalhada discreta, fez-se de parva e tentou fingir que não percebeu que Sílvia a provocava com a perna, debaixo da mesa constantemente, entre cigarros e alguns abanões ao som da música, uma provocadora nata que não conhecia limites, voltou-se para Francisca de forma a que os rostos ficassem demasiado próximos, sentia-se o cheiro do tabaco, do perfume, do vinho.

"O que tivemos foi muito bom mas neste momento não tenho sentimentos, desde que o meu pai foi preso ando desligada, só te consigo dar sexo..."

A voz de Francisca soou crua e sincera.

"Não é só o facto do Tó estar preso, guardas um novo segredo, eu já te conheço, passarinho novo como diz a tua tia, vamos para a varanda fumar um cigarrito, não te preocupes que não falamos de política, eu sei que a tua tia tem receio que descubram onde é que ela vive"



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