Um
Capítulo 1
Danilo
— Não é possível que isto vá acontecer logo esta semana — falei exasperado.
— Vamos dar um jeito. Calma, senhor Danilo — pediu minha assistente.
— Calma como, Maika? Acha que é fácil encontrar alguém que fale hebraico e árabe da noite para o dia? E o principal, alguém de confiança?
— Eu sei, mas ficar exaltado não vai ajudar em nada, vai apenas piorar sua gastrite.
— Falando nisto, peça uma água com limão e bastante gelo, por favor.
— Mas, senhor Danilo, limão de novo? Tem certeza?
Eu nem respondi, apenas olhei-a com a minha expressão que ela bem conhece e já diz tudo: obedeça! Tirei meu celular do bolso para recorrer a um amigo, que era dono de uma agência de empregos e com certeza poderia me ajudar nesta questão.
Marta, funcionária do RH, tinha acabado de me informar que não encontrou alguém, dos contatos da empresa, com tal formação. Depois de chamá-la de incompetente e outros sinônimos, eu estava arrependido, mas fazer o quê? Agora já havia falado e a minha atitude errada já tinha prescrevido.
— Luciano, meu amigo, apenas você pode me salvar hoje. Eu vou te pagar um almoço, diga que podemos nos encontrar?
"Já que é por sua conta, posso escolher o restaurante?" — foi a resposta do cretino. Nem quis saber do que eu precisava.
Já passava do meio-dia quando peguei meu paletó no encosto da cadeira e saí para o almoço. Até àquela hora, eu não tinha recebido nenhuma novidade. Ninguém que falava essa maldita língua apareceu. Perderíamos milhões por falta de um intérprete capacitado para nos ajudar nas negociações. Quer dizer, final das negociações.
— E a Adele? Tinha que ficar grávida logo agora? Pior: perder esse neném? — resmunguei para as "paredes" do carro, até perceber a besteira que falei. Não sou insensível a tal ponto. Coitada, deve ter sido um baque.
Cheguei à frente do restaurante e deixei meu carro com o manobrista. Luciano já devia estar me esperando. Logo na porta, o aroma de mistura de sabores veio como um bálsamo ao meu estômago irritado.
— Pode ser pontual uma vez na vida, Dan?
— Posso, quando você aprender a não almoçar em horário de criança.
— Você que não tem horário para nada. Meio-dia é mais que natural.
— Mas você pediu para eu estar aqui às onze e meia e eu falei que seria impossível, então não reclame.
— E quem está precisando de ajuda?
Olhei para o seu copo e tomei toda a água com limão contido ali, para irritá-lo, mas também para agradar meu paladar.
Levantei a mão e chamei o garçom para fazer meu pedido, porque sabia que Luciano já devia ter feito o dele.
— Cara, se você me ajudar, eu prometo um almoço às onze horas da próxima vez e pago no Terraço Itália¹.
— Nossa! É tão sério assim? Já sei. Uma mulher de classe para te acompanhar em algum evento.
— Quem me dera que fosse algo fácil assim. O que preciso é de uma pessoa para ontem que fale fluentemente hebraico e árabe.
— Não fechou ainda aquele contrato dos resorts?
— Estamos no final, mas Adele, minha arquiteta que mediava o acordo, teve um problema de saúde e os empresários árabes chegam hoje.
— Mas eles não falam inglês?
— Os mediadores, que vieram negociar, sim. A diferença agora é que o presidente da empresa estará presente para fechar o acordo e ele fala apenas hebraico e árabe. E você sabe que é extremamente importante ter alguém fluente na língua deles do nosso lado.
— Entendo. Bom, vamos dar um jeito nisso, então... — Ele pegou o celular e fez algumas ligações.
Depois de falar com uma pessoa e não conseguir nada, ele ligou para alguém e explicou a urgência. Ao desligar, olhou para mim, derrotado.
— Dan... Acho que vou estudar essa língua, este profissional está escasso no mercado. Liane falou que, se fosse mandarim, seria mais fácil, mas mesmo assim ficou de me ligar. Vamos almoçar e esperar. Cruze os dedos.
Ao final do almoço, o telefone dele ainda não tinha tocado para aliviar meu estômago incendiado. Nossa surpresa foi o meu celular tocar e ser a minha assistente. Se fosse mais uma notícia ruim, eu nem voltaria para a empresa.
"Senhor Danilo, tenho uma boa notícia. A Adele encontrou uma pessoa para substituí-la. A nova intérprete está esperando pelo senhor.
— Maika, segura essa pessoa aí que estou chegando. — Desliguei o celular já sentindo certo alívio no estômago. — Lu, parece que Deus resolveu me dar mais uma chance. Estou indo, companheiro. Desculpe não ficar para o café.
— Se eu conseguir alguém, te aviso — ele me disse de modo sarcástico. — Pode ser que eu te encontre uma gatinha e você troca pela velha que te arrumaram.
— Quem disse que é velha?
— É um barbado?
— Não sei, cara. O importante agora é a pessoa ser eficiente e de confiança. Nem me importa se é feia ou bonita. — Antes de sair, virei para ele e completei: — Claro que uma bela morena não seria mal.
— E já viu alguma gatinha hoje em dia falar hebraico? Ou é velha ou alguma imigrante coberta da cabeça aos pés.
— Que seja! Até mais.
Paguei a conta e voei para a empresa. Pelo menos tentei.
Chegar ao prédio e não ter que disputar vaga no elevador era uma das vantagens de se ter um particular e de uso exclusivo. Assim que entrei na recepção da presidência, varri com o olhar a ampla sala. Além de um menino, provavelmente um dos esquisitos e minguados da T.I., que conversava com as secretárias, não encontrei mais ninguém. A irritação se somou à frustração pelo atraso, cortesia do trânsito que não cooperou comigo.
— Onde está a pessoa, Maika? — perguntei. — Você não pediu para ela me esperar? Não falou que era urgente? Quem, hoje, pode perder uma oportunidade dessas por causa de um atrasinho?
— Senhor... — Ela olhou para o lado e tentou falar, mas a interrompi.
— Não, Maika! Você poderia ter me ligado de novo.
— Danilo! — ela exclamou.
Olhei para onde ela olhava e não entendi.
— O que foi?
— Eu quero te apresentar a pessoa... — Olhou na direção do rapaz de novo.
— Maika! Pelo amor de Deus, não é hora de estagiário e de apresentações. Quero saber o que você fez, ou melhor, não fez direito?
— Senhor Danilo, por favor, queira ser paciente, deixe que eu lhe explique e apresente a Heloisa.
Olhei para o rapaz mais uma vez, e então foi quando percebi que, na verdade, tratava-se de uma garota. Ela ria baixinho, o que me irritou ainda mais, minha vontade era de colocá-la para fora do andar da presidência.
— O que é tão engraçado aqui, eu posso saber?
— Prazer, sou Heloisa, fluente em hebraico e árabe. Este alguém que o senhor precisa. — Estendia a mão.
Não acreditei. Uma moleca que não devia ter nem dezoito anos, vestida com uma calça jeans surrada, rasgada e tênis. Cabelos compridos ondulados num rabo de cavalo mais solto que preso, exatamente como os esquisitos da T.I., só que de batom.
— Sério, isso? — perguntei, olhando na direção de Maika. — Diga que é uma brincadeira.
Não podia acreditar que apresentaria uma descabelada para meu cliente.
— Senhor Danilo, por favor...
Eu não estava envergonhado por minha confusão. Encontrava-me indignado com o que me arranjaram!
— Você quer que eu apresente uma pirralha numa reunião importante? São executivos de alto nível, internacional, pelo amor de Deus!
— Tudo bem! Se não sou qualificada, procure outra pessoa. — A tal Heloisa abaixou a mão que não apertei.
— Até mais, senhorita Maika. — Olhou para mim e disse:
— Na'im me'od. Ahd altahadiyat alkubraa lilbashariat hu taelam fin altawasul. altawasul yaetamid fi kthyr min al'ahyan ealaa alsaeadat 'aw alkhizy walsalam 'aw alharb.
Fiquei olhando-a se afastar. A pirralha tinha com um sorriso no rosto. Provavelmente se divertia com a minha cara de idiota.
— Ei! Volte aqui! — chamei-a, mas ela nem se deu ao trabalho de se virar na minha direção. — Maika, onde você arrumou essa... Isso?
— Senhor Danilo, desculpe-me dizer, mas acabou de perder seu contrato. Essa garota era a sua última oportunidade. Ela é amiga de infância da Adele e fala fluentemente a língua.
Quando vi o elevador abrir as portas e a "minha última oportunidade" dar alguns passos para dentro dele, não tive opção senão puxá-la pela mochila e arrastá-la de volta para fora.
— Ei, o que pensa que está fazendo? — ela protestou.
— Vamos à minha sala. — ordenei. — Preciso falar com você.
— Não vou! O senhor acabou de dizer que não sou qualificada. Por que o escutaria agora?
— Porque... Porque houve um mal-entendido. Venha! — falei e esperei que ela me seguisse.
Ao perceber que atravessei a porta e não tinha ninguém ao meu lado, nem atrás de mim, voltei meu olhar. Aquela moleca estava à frente do elevador de novo e apertava o botão. Dirigi-me até ela outra vez.
— O que está fazendo? — gritei e minha voz ecoou no recinto.
— Voltando ao meu trabalho.
— O quê? — perguntei irritado. Ela só podia estar querendo me tirar do sério. Respirei fundo, passei a mão nos cabelos e no rosto. — Por favor, me acompanhe até minha sala, eu preciso conversar com você. Se for preciso, eu peço desculpas.
Ela simplesmente cruzou os braços no peito e ficou parada no mesmo lugar. O que significava isso agora?
— O que foi?
— Estou esperando.
— O quê?
— O pedido de desculpas.
Era só o que me faltava! Pensei no contrato, nos árabes e nos milhões que estavam em jogo.
— Desculpe-me.
Ela sorriu e passou por mim, entrando na sala de recepção. Maika e as outras funcionárias estavam paradas, todas olhavam para nós, tentavam segurar o riso e disfarçar a diversão. Com certeza era o fim da minha autoridade.
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¹Um restaurante chique e caro.
Tradução das frase e palavras em árabe
²Prazer em conhecê-lo.
³Um dos grandes desafios da humanidade é aprender a arte de comunicar-se. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra. (Frase de um conto Árabe)
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Oi gente, tudo bem?
Quero que vocês conheçam um pouquinho do meu novo livro que vem por aí. A história de Danilo e Heloísa vai ser uma delícia de contar. E desejo do fundo do meu coração que vocês gostem, como eu estou adorando escrever.
Lena Rossi
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