Capítulo 47

Quando foi à noite, no horário e local combinado, nós nos encontramos com Gilberto e Lucas.

- Quer dizer que vocês estão ficando mesmo? Quando o Gil me contou fiquei surpreso, porque até outro dia ele disse que você estava ficando com a sua vizinha, e agora, está com outra já. Sua fila não anda, ela voa, né?

Lucas me zoou, sorrindo enquanto aguardávamos Gil e Juliette virem do banheiro. O espetáculo começaria às 19:30, e ainda faltavam vinte minutos para isso acontecer. E aproveitando isso, meu amigo e a minha hóspede resolveram ir ao banheiro antes do show começar.

- Também não é assim, cara.

- É como então?

- Sinceramente nem eu sei explicar isso. Mas só sei que aconteceu de eu deixar de gostar da Kerline e me apaixonar pela Juliette de maneira inesperada e rápida.

- Relaxa, Sarah! - ele tocou meu ombro e abriu um enorme sorriso. - Não tem que me explicar nada. Só estava curtindo um pouco com você.

Outro! O povo adora curtir com a minha cara.

- Mas diz aí, você está muito amarrada nela?

Lucas é um sujeito com quem tinha certa proximidade e em quem eu sabia que podia confidenciar coisas, já que ele é um cara centrado. Então, por isso mesmo, eu abri o jogo com ele.

- Demais, Lucas!... Ela é incrível. Uma coisa de louco. Justamente ela, me pegou de um jeito que eu nem imaginava e que me deixou no chão.

- Eita! Você não tá só amarrada... tá é apaixonada e com os quatro pneus arriados por essa garota, Sarah.

- Pois é. - esbocei um leve sorriso, mas logo em seguida fiquei séria. - Só que eu tô bolada e preocupada, porque no meio disso tem a Pocah. Ela é minha amiga e também tá muito amarrada na Juliette.

- Sarah, eu não queria tá na tua pele. Mas ó... conversa com ela.

- Você sabe que conversar nessas horas não é o forte da cowgirl.

- Não mesmo. Ela é bem pavio curto, mas brigar também não vai adiantar nada, não concorda comigo?

- Com certeza! Mas isso tem que dizer pra ela, não pra mim. Eu não quero briga, mas posso apostar que a Pocah vai querer.

- Então vai logo se preparando.

Avistamos Gil e Juliette vindo e demos o assunto por encerrado antes mesmo deles chegarem em nós. E logo, nós quatro já seguíamos em direção ao teatro.

Na entrada recebemos cada um, um folden que trazia uma pequena descrição do espetáculo que veríamos em alguns minutos. Entramos e lá dentro do enorme teatro encontramos bastante gente já acomodadas nas poltronas. Nos acomodamos nas poltronas da fileira central e enquanto o show não começava, cada um de nós se pôs a ler o papel que recebemos sobre o espetáculo, o qual dizia:

“O” é uma produção aquática do Cirque du Soleil, que explora um mundo além da imaginação. O nome do espetáculo é uma brincadeira com a palavra francesa “eau” , que significa água. Aqui você verá encenações sub aquáticas, tais como nado sincronizado, bem como outras
performances aéreas e no solo.

Inspirado no conceito de infinito da beleza e a forma mais pura de água, "O" presta homenagem à arte de jogar com a água, ao surrealismo e ao romance aquático - um lugar onde os sentidos são trazidos no jogo, um mundo onde todas as coisas são possíveis e onde o drama da vida se desenrola diante dos olhos do público.

O espetáculo possuí em seu elenco 85 artistas (inclui-se nisso: acrobatas, nadadores sincronizados e mergulhadores) que se apresentam em (e acima de) uma piscina de mais de 5 milhões de litros. Fora que ainda conta com 150 assistentes de palco.

Dispondo de 11 atos no total e com duração aproximada de 90 minutos, "O" é livre para todas as idades.

- Nossa parece ser muito bom o que veremos, não acha?

Juliette parecia empolgada com o espetáculo antes mesmo dele começar. Confesso que eu também estava assim. Não é sempre que você tem a oportunidade de ver um espetáculo do Cirque du Soleil sem desembolsar nada.

- Sim. - afirmei, passando o braço sobre o encosto da poltrona de Juliette, que se encontrava acomodada ao meu lado, para trazê-la para bem perto de mim e assim lhe dar um beijo, que fora prontamente retribuído pela mesma.

- Ei, vocês duas, sem agarramento!

Ouvi Gilberto nos dizer cutucando meu ombro. Ele e Lucas haviam se acomodado na fileira atrás da que Juliette e eu estávamos.

Interrompi o beijo com Juliette e virei-me para o Gil.

- Não ferra, Gilberto. - mandei para ele que riu, sendo acompanhado por Lucas. Depois, voltei minha atenção a Juliette e nós ficamos apenas conversando sobre o espetáculo.

Esperamos apenas em torno de mais alguns minutos para ver as luzes do teatro se apagarem, a cortina se abrir e o espetáculo começar.

Mas este ainda não foi o show principal. Foram apenas palhaços que apareceram para um "esquenta" antes do grande show começar. Usando o elemento água em seu número, eles nos divertiram por um par de minutos, enquanto carregam um salva-vidas gigante, molhando-se em um guarda-chuva cheio de buracos e esguichando água em pessoas distraídas do público.

Tão logo esse número dos palhaços acabou, é que começou o show principal, o aguardado por todos ali no teatro.

E quer saber?

Ele é incrível!

É um espetáculo que te prende do começo ao fim. Nele a gente viaja através das incríveis performances dos artistas. São cenas envolvendo humor, acrobacias, nados sincronizados, mergulhos, trapézios, saltos, malabarismos, pirotecnias, equilíbrios, contorcionismos e outros mais, tudo em torno de um palco que hora é firme e seco e hora é uma piscina.

Ainda que as cenas aquáticas sejam o maior destaque do show, não há como deixar de se surpreender com as performances aéreas e as que exibem o dualismo fogo/água, onde malabaristas demonstram uma habilidade ímpar ao mesmo tempo em que um homem nos surpreende ao manter-se calmo mesmo com o corpo coberto em chamas.

Havia também dois palhaços que garantiam as risadas através de atos espontâneos e um humor de qualidade exemplar. Contorcionistas que nos surpreendiam e encantavam ao colocar seus corpos em posições inimagináveis. Mergulhadores que saltavam de grandes alturas desafiando o perigo.

Era uma coisa de louco!

Olhei em determinado momento para Juliette e ela estava vidrada no espetáculo, assim como a grande maioria ali porque era de vidrar mesmo o que se passava no palco.

- Gostando do quê vê? - sussurrei em seu ouvido.

- Muito! - Juliette respondeu me olhando e dando um rápido beijo em mim.

Do show todo, sem dúvida alguma, um dos números mais surpreendentes foi quando três mergulhadores talentosos saltam com perfeição de uma altura de 18 metros do palco em uma pequena seção triangular de 5 metros da piscina.

Foi genial!

E quando o espetáculo terminou, uma hora e meia depois de ter iniciado, ficou na gente a sensação de querer assistir de novo e de novo.

Sensacional e mágico!

***

- Cara foi demais o show todo.

Lucas estava em êxtase com o que viu e não conseguia esconder.

- E aquela parte dos mergulhadores?

Juliette era outra que estava que nem o Lucas. Os dois por sinal eram os mais empolgados de nós quatro, após o fim do espetáculo, tanto que a empolgação deles fazia Gilberto e eu rirmos.

- Ah, essa pra mim foi a melhor, Ju! - confessou Lucas.

- Pra mim já foi o lance dos dois dançarinos do fogo havaiano, que giravam aquelas facas de fogo com uma habilidade e velocidade incríveis. - Juliette relatou, tentando imitar os dançarinos com as facas.

- Vocês gostaram mesmo do espetáculo, né?

- Sim!

Os dois responderam juntos e nós quatro acabamos rindo disso.

Como ainda faltava meia hora para a mãe do Gil vir nos buscar - ela deixaria Juliette e eu em casa - nós quatro resolvemos ir comer algo em uma famosa rede de fast-food que havia na área de lazer do Bellagio.

E assim que terminamos de comer, a tia Jacira ligou para o filho avisando que estava na frente do hotel cassino à nossa espera. Seguimos para lá e um tempo depois, Juliette e eu nos despedíamos de Gil, Lucas e tia Jacira.

Entramos em casa ao mesmo tempo em que vimos minha mãe vindo da cozinha com um copo de suco em uma das mãos.

- Ei! E aí, como foi lá no teatro?

- Foi sensacional, tia.

- Acho que "sensacional" é a palavra que descreve melhor mesmo o que a gente viu, mãe.

- A senhora precisava ver cada coisa que a gente viu, não foi, Sah?

Assenti e deixei por conta de Juliette falar como foi tudo, já que ela era a empolgação em pessoa e nem me deixava dizer nada mesmo. Sorrindo, eu apenas a observava narrar toda sorridente as coisas que vimos no espetáculo. Era bom vê-la assim tão diferente da noite de ontem.

- Depois de ouvir tudo isso, eu fiquei até com vontade de assistir esse espetáculo.

Minha mãe comentou após Juliette terminar de contar tudo.

- A senhora tem que ir é muito legal mesmo, tia.

- Assino embaixo nisso que a Juliette disse.

***

Empurrando um carrinho enquanto seguia com Juliette ao meu lado por um dos corredores do supermercado, exatamente pela seção dos enlatados, a gente fazia umas comprinhas que minha mãe pediu para fazermos antes dela ir trabalhar aquela manhã. A dispensa de casa estava já ficando meio vazia.

Com uma pequena lista que minha mãe deixou devidamente feita, e a qual estava na mão de Juliette, a gente ia se aventurando pelas seções do supermercado.

Em determinado momento, eu sorri discretamente e sem Juliette ver, pois lembrei da primeira vez que nós viemos aquele lugar. Foi simplesmente uma experiência aterrorizante, porque Juliette implicou comigo e me irritou durante o tempo inteiro, coisa totalmente diferente de agora.

- Nós temos que ir agora à parte dos legumes e verduras. Comprar tomate, cebola, essas coisas...

- Vamos lá então.

Pegamos tomates, cebolas, batatas, cenouras e mais outras coisas, além de algumas frutas também. Depois fomos para a fila esperar nossa vez de pesar cada coisa daquelas que pegamos.

- Depois daqui o que mais falta a gente pegar?

- Mais nada!

- Ótimo!

Poucos instantes depois, nós já saímos dali da fila e seguimos para enfrentar outra fila, a do caixa.

Paradas e abraçadas na fila aguardando a nossa vez chegar, eu em determinado momento não resisti a proximidade e roubei um beijo de Juliette, depois outro e mais outro, e nisso quem pára ao nosso lado na outra fila?

Kerline.

Eu não pude deixar de ficar sem jeito ao notar a presença dela ali, ainda mais, porque, provavelmente, ela viu Juliette e eu trocando aqueles beijos.

Sinceramente, eu não sabia o que fazer ou dizer. Para a minha sorte e desencargo das minhas dúvidas, foi Ker quem tomou a iniciativa de falar algo e cumprimentar a mim e também Juliette.

Ambas falamos com ela e foi inevitável não ficar um clima estranho ali. Eu podia ver o incômodo dela ao me ver abraçada à Juliette, e também podia sentir o incômodo e a tensão da própria Juliette com a presença de Kerline.

- Como vai você, Ker? - tomei a liberdade de perguntar. Essa estava sendo a primeira vez que a gente se encontrava depois do nosso término.

- Bem!

Eu fiquei com a sensação de quê ela estava mentindo.

- E você, fez o que eu disse. Que bom! Fico feliz por você, de verdade, Sah.

Me limitei a apenas assentir. Torço para ela encontrar uma garota que goste dela verdadeiramente, assim como eu já gosto da Juliette. Kerline merece ter alguém assim.

- Juliette, você tem sorte de ter a Sah com você. Ela é uma moça diferente de muitas por aí.

- É, eu sei bem disso. A quatro olhos aqui é alguém... especial!

Eu juro que não esperava ouvir aquilo da Juliette. De "nerd estranha", eu subi para o patamar de "alguém especial". Nunca imaginei uma coisa dessas.

- Especial! Essa é bem a palavra mesmo pra defini-la. - Ker concordou com Juliette.

A caixa da fila em que Kerline estava chamou pelo próximo cliente.

- Bom, minha vez chegou. Vou indo. Tchau pra vocês.

- Tchau!

- Ela ainda gosta de você. Tá na cara dela.

Juliette falou bem baixo tão logo a Kerline se afastou da gente. Olhei para minha hóspede e ela me encarava. Realmente, ficou evidente os sentimentos que Kerline ainda tinha por mim. E era compreensível que eles ainda estivessem nela, já que fazia pouco tempo que eu e ela havíamos terminado mesmo.

- Me sinto culpada por isso.

- Por isso o quê?

- A tristeza nos olhos dela. Não notou?

- Nem reparei. Só vi que ela ainda gosta mesmo de você.

- Mas eu agora gosto de você!... E a propósito, o que foi aquela declaração de que eu sou "especial"?

- Foi uma declaração. E não vem ficar se gabando por isso, não, viu?

- Imagina!

Isso fez nós duas rirmos.

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