Capítulo 30
Quando entrei em casa minha mãe já estava lá. Encontrava-se na sala falando ao telefone com Phil. Tão logo me viu, ela se despediu e encerrou a chamada.
- Não precisava desligar só porque eu cheguei.
- Não fiz isso porque você chegou. Antes mesmo de aparecer, eu já ia me despedir do Phil. Estávamos falando há um tempo razoável.
- Hum...
Resmunguei com displicência e sentando no sofá bem ao lado da minha mãe.
- Que cara triste é essa? Aconteceu alguma coisa no passeio?
- Aconteceu que eu magoei uma garota bem legal, que não merecia ser magoada.
- Kerline?
Assenti.
- O que fez a ela, Sarah?
Pude sentir o tom levemente preocupado da minha mãe ao me questionar.
- Eu chamei a Kerline pelo nome de outra garota!
Contei, apoiando os cotovelos nas coxas, e escondendo o rosto entre as mãos.
- Céus, querida! Como assim?
Então comecei a lhe contar detalhe por detalhe, o ocorrido de momentos atrás e todas as coisas que Kerline me disse.
Minha mãe ia me ouvindo calada e quando finalizei contando-lhe o "conselho" em tom de promessa, que Kerline me disse, pude ver a surpresa estampar a face de minha mãe.
- Uau! Você sabe que nenhuma garota teria a atitude que a Kerline teve com você, não sabe?
Assenti. Outra no lugar dela teria de cara me dado uma bela tapa na cara assim que troquei seu nome e depois, me diria 'cobras e lagartos' por isso, para logo em seguida me abandonar sozinha no shopping.
Eu tive a sorte de Kerline ser diferente da maioria das garotas. E ela o azar de eu ser como sou, uma tremenda idiota.
- Será que ela foi mais feliz que eu e te convenceu de vez dos sentimentos que tem aí dentro pela Ju?
Antes mesmo que Kerline me dissesse tudo o que disse, eu já tinha consciência dos meus sentimentos pela insuportável da Juliette. A ficha já tinha caído! Mas, obviamente, que as palavras dela vieram sacramentar de vez isso para mim, o que eu já sabia.
Vamos dizer que a Kerline tirou a pequena venda que eu queria deixar nos olhos.
- Sim!
- Fico feliz então. Tem que conversar com a Ju.
- É, eu sei!
Ia ser a conversa mais complicada para mim. Se me declarar para a Kerline já foi difícil, imagina para a Juliette? Ainda mais, ela sendo como é!
- E por falar na Ju... ela foi hoje a galeria me visitar de manhã. Inclusive, perguntou por você.
Eu sorri pela primeira vez ali. Era bom saber que Juliette perguntou por mim.
- Ela me ligou quando eu estava com a Ker. - contei. - Mas assim que ouviu a voz da Kerline, se despediu rapidamente e desligou na minha cara.
- Ciúmes, filha.
- Acha que realmente ela gosta de mim, mãe?
Encarei minha mãe e esperei com ansiedade por sua resposta. Tudo bem, que ela e Ker achavam que Juliette gostava de mim, mas daí a ser de fato verdade isso, era outra coisa. Eu tinha lá minhas dúvidas, de verdade quanto a este fato.
- Sim! Você não acha o mesmo?
- Tenho sérias dúvidas disso.
- Por quê?
- Ah, sei lá, mãe!... - deitei a cabeça no encosto do sofá e encarei o teto. - Ela é tão estranha comigo. Em um momento, ela é uma garota legal e divertida. Em outro momento é irritante, implicante, que chega a me tirar do sério. É um jeito instável de ser esse dela, que me deixa confusa e estressada.
Mamãe sorriu de leve e tocou meu ombro, atraindo minha atenção para ela.
- Mas é o jeito dela, filha. Ou talvez, ela tenha ficado assim por conta da morte do irmão. Já parou pra pensar nisso?
Fazia um pouco de sentido essa última observação feita por minha mãe.
- Pode ser. Mas mesmo gostando dela, eu não sei se vou aguentar esse jeito dela por muito tempo.
- Opa! Você disse: "gostando dela"? Foi isso mesmo que eu ouvi? Está admitindo que gosta da Ju?
Ela abriu um sorriso enorme para mim.
- Mãe!! - falei sem jeito e em um tom levemente de censura à ela.
- O que foi?? Só estou questionando? Gosta dela?
Ela queria me ouvir dizer aquilo com todas as letras. Então, resolvi satisfazer sua vontade.
- Sim! Eu gosto dela. Pronto! Satisfeita?
Vi dona Abadia bater palmas e assentir, estampando um sorriso enorme em comemoração a minha confissão.
- Mais que satisfeita, porque eu fazia muito gosto disso acontecer, sabia? Vocês têm tudo a ver, mesmo não parecendo.
Nós duas rimos disso.
Eu lembro que há quatros quando contei toda cheia de receio à minha mãe que eu gostava de meninas, achei que ela fosse, sei lá, ficar decepcionada, que nem aconteceu com uma colega minha que eu tinha em meu antigo colégio. A mãe dela surtou e falou um monte para a coitada. Só que a reação da minha mãe foi totalmente ao contrário. Graças a Deus! Ela disse para mim que o fato de eu gostar de meninas não mudava nada para ela. Que me amava igual ou mais ainda e só queria a minha felicidade, e se esta era com uma garota, então que eu buscasse uma que fosse merecedora de mim.
- Vai procurá-la amanhã?
- Não sei!
Uma coisa era saber que eu tinha que falar com Juliette. Outra bem diferente, era eu ir de fato falar com ela.
- Como não sabe, Sarah?
- Ah... é complicado, mãe.
- Acho que você é quem está complicando, filha. Então vou te ajudar nessa.
Eu já ia lhe indagar a respeito de como ela pretendia me ajudar naquilo, quando vi minha mãe pegar algo de dentro de sua bolsa. Era um pequeno envelope que ela me estendeu.
- O que é isso? - encarei com desconfiança o objeto em sua mão.
- Pega, Carolline.
No tom autoritário com o qual ela falou, eu fiz de pronto o que ela 'pediu' e abri o envelope, para descobri que dentro dele havia duas entradas para o "Rock and Roll Hall of Fame and Museum", ou uma parte dele que tinha chego há quatro dias de Cleveland e permaneceria somente uma semana em Las Vegas para visitação do público.
No telejornal de ontem à noite tinha passado sobre a abertura para visitação desse museu que estava circulando por diversas cidades dos Estados Unidos para as pessoas conhecerem um pouco da história do Rock e seus artistas que marcaram esse estilo musical.
Minha mãe disse que Phillip tinha comprado aquelas entradas para a neta ir com uma amiga, já que ambas amam rock. Só que infelizmente houve um imprevisto e nem a neta dele e a outra garota poderiam ir amanhã. E como o ticket era válido somente para amanhã, Phil resolveu dá-los a minha mãe para que ela desse à mim e à Juliette irmos aproveitar aquele passeio no museu onde se é possível encontrar diversos objetos ligados ao estilo musical, desde guitarras, roupas e teclados usados por artistas famosos, até a completa discografia de várias bandas e cantores. Sem contar, que mais do que uma galeria de objetos musicais, é uma verdadeira aula sobre a história da música nos Estados Unidos e no mundo.
- Acho que a Juliette vai adorar ir nesse lugar. Não é ela que gosta desse tipo de música?
- É, sim!
- Então leve-a à esse lugar e aproveite a ocasião pra abrir esse seu coração à ela. - sugeriu minha mãe. Ela fala isso de "abrir meu coração para a Juliette" com o se fosse a coisa mais fácil de se fazer. Não seria mesmo!
- Eu acho que não vou conseguir fazer isso.
- Por que não?
- Você sabe como eu sou, mãe. Além do mais e se a Juliette debochar de mim quando eu contar o que sinto por ela?
Do jeito que ela era não seria difícil disso ocorrer.
- Não creio que ela faça isso.
- Juliette é imprevisível, mãe.
- E eu não sei?! Mas, olha... se não conseguir falar com ela, ao menos terão saído juntas. Pensa nisso.
Ela piscou para mim e se levantou do sofá, dizendo que ia preparar algo para o jantar. Perguntou se eu queria, mas eu disse que não. Já havia comido no shopping e estava sem fome agora.
Minha mãe sumiu para a cozinha e eu fiquei na sala encarando aqueles dois tickets na minha mão. Juliette ia pirar com aquilo. Ela adora rock!
Quem sabe, minha mãe estivesse certa e realmente, aquela fosse a oportunidade perfeita para falar com aquela minha hóspede insuportável
- Se a coragem não me abandonar na hora H, vai ser bom!
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