Capítulo 28
Acho que o silêncio naquela casa nunca foi tão desagradável e sufocante para mim como estava sendo há quatro dias, o período exato que já fazia de Juliette lá para a casa da tia dela, onde foi ficar com as primas. E devo reconhecer que sentia mais do quê devia a falta daquela insuportável por ali.
Ainda não conseguia esquecer a cara da minha mãe quando Juliette lhe disse na manhã do dia seguinte a briga entre a gente, que iria passar uns dias na casa de Adélia.
Minha mãe ficou surpresa e ao mesmo tempo triste, pois já havia se acostumado com a presença de Juliette ali. Mas, ela acatou sem fazer qualquer objeção ou questionamento à decisão de Juliette. Talvez, porque ela desconfiasse a razão daquilo.
Juro que achei que mamãe fosse tentar dissuadir Juliette daquela decisão que obviamente, a minha hóspede estava tomando em virtude do que houve - Juliette podia negar o quanto fosse, mas eu sabia que era pelo nosso desentendimento que ela estava indo para a casa da tia dela. Decerto, queria ficar longe de mim depois das coisas que eu lhe disse. Eu a entendia. - porém, minha mãe não fez isso. Deixou que nossa hóspede fosse. E eu não pude evitar de ficar chateada com isso. Acredito que se minha mãe pedisse, Juliette não iria. Mas ela foi.
E há quatro dias que não sei absolutamente nada a seu respeito, porque Juliette não me ligou ou me mandou qualquer mensagem. Nem as minhas mensagens e ligações ela sequer respondeu ou retornou. Com certeza, ainda está bem chateada com o meu comportamento.
Suspirei e olhei a minha volta.
Aquela casa parecia tão grande e vazia agora.
Eu me sentia a própria estranha ali. Sem nada de interessante para fazer. Sem ninguém além de mim para fazer barulho naquele lugar enquanto a minha mãe está trabalhando. Ninguém com quem dividir uma refeição. Ninguém com quem falar. E ninguém para me perturbar!
Em outros tempos, eu estaria adorando aquela 'solidão' toda para poder curtir em uma boa a leitura dos meus livros, ouvir música, ver TV sossegada e poder fazer o que eu quisesse ali. Mas, os tempos mudaram!
"Você não é de falar muito, né?"
(...)
"Já você, eu não posso dizer o mesmo!"
Meus lábios se espicharam em um sorriso pela lembrança da primeira conversa que Juliette e eu trocamos naquele sofá o qual eu me encontrava acamodada naquele exato momento.
Nossa como aquela garota insuportável falava e fala muito!
Reclamei disso inúmeras vezes ao longo dessas duas semanas em que ela estivera aqui, e agora, tudo o que eu queria era aquela falação dela de volta, espantando aquele silêncio horrível na casa. Até mesmo suas provocações me irritando, eu queria de volta. E, queria mais, a sua presença para não me sentir sozinha como me sentia.
Eu estava sentindo de verdade a falta dela.
Aquele lance que dizem sobre: " a gente só dar o devido valor às coisas, quando não as têm mais ou as perde", é de fato real.
Agora, eu estava me dando conta do quanto Juliette valia para mim. Precisou que ela saísse dali e me ignorasse por exatos quatro torturantes dias, para quê eu me desse conta, do quanto ela e a sua presença havia se tornado importantes para mim, à ponto de eu sentir saudade de tê-la por aqui.
Sem contar, que me fez abrir os olhos para algo que, eu até então, não queria enxergar e admitir: eu gostava de Juliette mais do que imaginava!
Olhei para o celular ao meu lado no sofá e pensei: ligo ou não ligo? Optei por mandar outra mensagem de texto. Esta mais direta e comprida que as outras anteriores que já havia mandado nesses dias que ela havia ido embora dali.
"Oi!... Está tudo bem com você?... Aposto que nem vai me responder como não respondeu nas outras mensagens que já te enviei, mas tudo bem. Com certeza ainda deve estar com raiva de mim e não quer falar comigo, né?!... Por isso está me ignorando desde que foi pra casa da sua tia. Ok! Mereço esse gelo pela forma que me comportei. Mas achei que você tivesse me desculpado. Só que pelo visto me enganei. Espero que esteja bem e se divertindo por aí com as suas primas!"
Terminei de digitar e hesitei por um momento em apertar em "enviar", mas depois desci o dedo no botão e a mensagem foi enviada. Torci para que dessa vez, Juliette me respondesse. Fiquei com o celular em mãos, no aguardo de sua resposta.
Os minutos foram passando e nada. Eu continuei aguardando, mas depois de quinze minutos de espera, eu desisti. Ela não ia responder, assim como não respondeu as outras mensagens que lhe enviei.
- Que droga!
Esbravejei com raiva dela por me ignorar desse jeito. E, também, com raiva de mim por ter bancado a estúpida com ela naquele dia. Se não tivesse agido daquela forma, nada disso estaria acontecendo.
Arremessei o celular no outro sofá e desencanei de ficar esperando por qualquer resposta da Juliette.
Dane-se!
- Também não vou mandar mais nada!
Resmunguei decidida.
Se ela não queria falar comigo também não ia mais implorar por isso. Entendo que ela tem seus motivos para me dá esse "gelo", mas eu também não vou ficar insistindo mais. Quer falar? Ótimo! Não quer? Vá para o raio que a parta.
Liguei a TV e fiquei mudando de canal à procura de algo interessante para assistir. De repente, poucos minutos depois, escuto o bipe do celular, indicando que recebi uma mensagem.
Será que era ela me respondendo?
Imediatamente, larguei o controle da TV e fui até o outro sofá, e apanhei o celular. Passei o dedo na tela do aparelho para destravá-lo e rapidamente entrei no aplicativo de mensagens. Mas para a minha frustração a mensagem não era de Juliette. Era da Ker.
"Nossa saída de mais tarde ainda está de pé, amor?"
Fiz uma leve careta ao ler aquilo. A gente tinha combinado de ir ao shopping dar uma volta, passear. Mas, eu havia esquecido disso completamente. Se ela não me mandasse essa mensagem, eu a deixaria plantada a minha espera.
"Tá, sim!"
Enviei de volta. A bem da verdade é que eu não estava nada a fim de sair, mas não achei legal desmarcar o nosso encontro. Estar na companhia da Kerline seria uma ótima forma de me distrair e tentar esquecer aquela insuportável da Juliette.
"Ok! Às cinco te espero no portão de casa."
Ela me mandou logo depois. Em resposta lhe enviei que nesse horário em ponto estaria lá.
Como ainda faltava algumas horinhas até lá, resolvi dar um cochilo. Então fui para o meu quarto e poucos minutos depois de ter me deitado, eu já dormia.
***
Por mais que eu tentasse, não conseguia tirar a peste da Juliette da cabeça enquanto estava na companhia da Kerline. Achei que conseguiria não pensar nela e que ia me distrair durante a saída com a Ker, mas me enganei feio.
A todo instante, Juliette me vinha a cabeça. E o fato dela me ignorar também.
A mensagem que mandei, ficou mesmo sem resposta. Ela não fez questão alguma de me responder. Também não queria mais que ela respondesse.
- Sarah!!
- Oi!! - respondi em um sobressaltado com o chamado mais alto de Kerline.
- Está tudo bem com você? Está tão dispersa.
Eu mal conseguia me focar em Kerline ou no quê ela me dizia. Aquela insuportável da Juliette mesmo longe estava tirando minha atenção e paciência.
- Está tudo bem, sim, Ker! Desculpa. O que você dizia?
Ela ficou me encarando bem que achei que não tivesse acreditado no que eu disse e fosse insistir em querer saber qual era o meu problema. Mas felizmente, ela não fez isso apenas me informou que ia ao toalete e que se eu quisesse já ir pedindo a conta para nós irmos embora, podia pedir.
- Ok! Vou pedir então.
- Não me demoro.
Assenti enquanto ela se levantava. Kerline seguiu para o toalete e eu fiz sinal para a garçonete da lanchonete onde estávamos, sinalizando com as mãos o pedido da conta.
Enquanto aguardava a funcionária trazer o que pedi e a Ker retornar do toalete, senti o celular vibrar no bolso traseiro da calça jeans. Puxei o aparelho e quando vi na tela a foto de Juliette me dando língua, um sorriso involuntariamente escapou de meus lábios. Ela estava me ligando. E eu fiquei feliz com isso. Atendi no mesmo instante a chamada.
- Que mensagem mais dramática foi essa que mandou pra mim, hein quatro olhos?
Ela foi logo disparando tais palavras sem me dar a menor chance de lhe dizer qualquer coisa ao atender a chamada.
- Oi pra você também, garota insuportável. Sabia que a gente cumprimenta primeiro as pessoas antes de tudo? - provoquei.
- Não diga?!... Então vamos começar de novo!... Oi! Como vai, quatro olhos?
Eu ri do tom debochado com que sua voz pronunciou tais palavras. Sentia falta desse seu tom irônico e esse seu humor ácido.
- Eu vou bem. E você?
- Ótima! Agora responde o que te perguntei quando atendeu a chamada.
- Sempre mandona e com esse seu jeito educado de ser comigo, não é mesmo?
Ela riu do outro lado da linha e eu gostei do som. Era bom está ouvindo sua voz e também seu sorriso de novo.
- O que eu posso fazer se eu sou assim?... E não me enrola, a mensagem, Carolline!
Era a primeira vez que eu escutava Juliette me chamar pelo segundo nome e quer saber? Gostei!
- Não foi dramática. - falei brincando com o porta papel que havia na mesa. - Foi um desabafo. Você não me respondia, então...
- Sei!... Só pra você saber, eu não estava te ignorando. Quer dizer, no primeiro dia sim. Mas depois não, porque, simplesmente fiquei sem celular. Essa porcaria caiu no chão e quebrou. Tive que levar numa assistência. Só hoje que ficou pronto e isso porque o técnico era amigo da Leslie, senão ia demorar bem mais pra ficar pronto.
- Bem conveniente essa quebra, né?
- Por acaso está insinuando que estou mentindo, quatro olhos?
- Não. Mas se estava sem celular, então por que não ligou de qualquer outro telefone pra cá, Juliette?
- É impressão minha ou alguém aí está com saudades de ouvir minha voz, ou mais, está com saudades da insuportável e irritante aqui, hein?
- Com quem você está falando, Sah?
Olhei assustada para Kerline que havia aparecido ali ao meu lado do nada e sem que eu me desse conta.
- Essa voz é da sua namorada?
- Sim!
- Ah! Foi mal atrapalhar vocês. Nem devia ter ligado. Até mais, quatro olhos!
Ela desligou na minha cara sem que eu tivesse a oportunidade de lhe dizer mais qualquer coisa.
- Sarah?
- Foi engano.
Resolvi mentir, porque sabia que Kerline tinha ciúmes de Juliette. E eu não estava muito afim de uma cena caso contasse que era com Juliette que falava.
A garçonete apareceu logo em seguida com a conta. Paguei e Kerline e eu saímos dali. Fomos a área de lazer do shopping onde havia uma diversidade de máquinas para jogar.
Se já estava difícil tirar Juliette da cabeça antes, depois daquela ligação, ficou mais ainda. Eu tentei me concentrar em Kerline e nas máquinas que íamos jogar, mas estava bem complicado conseguir isso se minha mente estava longe dali e certa hóspede insuportável chamada Juliette.
As últimas palavras que aquela garota me dirigiu antes de finalizar a chamada se repetiam na minha mente feito um disco arranhado.
Era impressão minha ou ela não havia gostado nada de saber que eu estava com a Kerline?
Podia apostar que não, só pelo tom irritado em sua voz ao falar comigo antes de desligar na minha cara.
Será que aquilo era ciúmes?
Será que a minha mãe estava certa e a Juliette sente mesmo ciúmes de mim?
Se esse for o caso, então... ela gosta de mim?!
Será?
- Um milhão de beijos pra saber no quê você está pensando que está te fazendo sorrir a toa.
- Não é nada de mais, Juliette!
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